
        A SAGA DO REI DRAGO

A diablica ameaa que pende sobre o reino de Mensadore a
perigosa demanda empreendida por Quentin, um dos jovens
aclitos do templo do deus Ariel.

        A ESPADA E A CHAMA

Quentin reina agora como Rei Drago, e  confrontado com
a investida mais violenta de todas: o insidioso ataque do mal
que cresce dentro de si mesmo. Como um jovem aclito do deus
Ariel, ele empreendera alegremente uma viagem que o afastaria
dos velhos deuses, levando-o ao encontro do Altssimo. Desta
vez j no  apenas a sua vida, ou a sobrevivncia do reinoque
se encontram em jogo. Nimrood tem em seu poder, como refm, o
prprio filho de Quentin. O Rei Drago perdeu a sua espada e
perdeu o seu rumo. Ir tambm trair o seu voto solene com o
Altssimo?

        *****

Stephen R. Lawhead est hoje justamente
instalado
entre os melhores escritores contemporneos cultores do
romace fantstico. Para esta sua posio, contribuiu
poderosamente o fabuloso Ciclo Pendragon, que a Bertrand
recentemente publicou. Se alguma vez houve um romance
com potencial para ser um best-seller, tem de ser este
(Publishers Weekly); Altamente recomendado (Library
Journal); Lawhead traz  vida as personagens Arturianas,
sem sacrificar nada do obsessivo prazer das lendas
(Omaha World Herald) ... Eis apenas algumas observaes
da crtica mais respeitada, significativas do talento do
autor. Mas j antes de o Ciclo Pedragon, Stephen Lawhead
revelara a sua mestria na tcnica do romance fantstico
em obras premiadas como The Song of Albion e a trilogia
A Saga do Rei Drago, cujo terceiro e ltimo volume agora
se apresenta.
Natural dos Estados Unidos, as suas investigaes
sobre as lendas e a sabedoria clticas levaram-no at
Oxford, a velha cidade universitria inglesa, onde vive
presentemente com a mulher, a escritora Alice Slaikeu
Lawhead, e os dois filhos, Ross e Drake.

        *****


        A ESPADA E A CHAMA
        - A SAGA DO REI DRAGO -

        3. Volume

        Stephen Lawhead

        Traduo de
        Maria Nvoa

        BERTRAND EDITORA

        Venda Nova 1996

        *****

Para os primos
   Tiffany, Robbie,
   Erin, Annie, Jeffrey,
     Com muito amor


        CAPTULO 1


     A figura curvada subia penosamente a trilha sinuosa, 
apoiando-se pesadamente no seu cajado. Parava muitas vezes 
para descansar e olhava para baixo, para as calmas plancies, 
desviando a vista para oeste, na direco de Askelon. Era um 
ancio de idade incalculvel e envergava as vestes e o capuz 
de um sacerdote. Tinha as feies envoltas em densas sombras 
e, embora o dia estivesse quente e o sol brilhasse, seguia o 
seu caminho coberto dos ps  cabea. Visto  distncia, 
parecia um escaravelho preto a subir um montculo de terra, 
carregando consigo a pesada carapaa.
     Quando chegou ao cimo do planalto, sentou-se numa pedra,
por baixo de uma velha rvore gasta pelo vento, que lanava os
seus poucos ramos rugosos no caminho. j muitos peregrinos se
tinham sentado naquela pedra, elevando aos deuses as suas 
preces, na esperana de que estes lhes enviassem algum 
orculo. Mas este viandante no era peregrino nem ia ali 
rezar,
     Em vez disso, deixou-se ficar sentado, contemplando a 
regio de olhos franzidos, Os trinados dos pssaros enchiam o 
ar, que tremeluzia com as ondas de calor que se elevavam da 
terra. Apesar da neblina azul em que a distncia a envolvia, a 
sua apurada viso de guia conseguia distinguir os contornos 
verde-escuros da floresta de Pelgrin, que se estendia para 
oeste como um vasto mar verde. L em baixo, no vale, os 
camponeses trabalhavam nos campos, por entre as searas novas. 
Os gritos que lanavam aos bois preguiosos subiam a encosta 
do monte como splicas a um deus que no as
ouvia,
     O ancio desviou o rosto da paisagem calma, que, por 
baixo do cu azul, lmpido e imperturbvel, lanava reflexos 
verdes e dourados. Olhou para o templo branco e silencioso 
como um tmulo, que se elevava l em cima. Depois, voltou a 
pr-se pesadamente em p, pegou no cajado e continuou a andar.
     Quando chegou ao trio do templo, parou e encostou-se 
durante muito tempo ao cajado, como se esperasse um sinal ou 
como se, apesar de ter ido at ali, no conseguisse decidir se 
havia de acabar o que tinha comeado. Passado algum tempo, 
virou o rosto para leste, na direco das montanhas, que 
pareciam gigantescos ombros encimados por poderosas cabeas, 
Acima dos cumes longnquos, viu nuvens escuras formando-se e 
sendo empurradas pelo vento para oeste.

     O velho monge fez que sim com a cabea e atravessou o 
trio de pedra at s escadas do templo. Subiu os degraus, 
ergueu a argola de ferro da grande porta de madeira e bateu 
vrias vezes. Passados uns momentos, a porta abriu-se e a 
cabea de um homem de capa vermelha espreitou para fora:
     - O templo no est aberto a esta hora. - O homem olhava 
para o velho monge com ar de poucos amigos. - Se queres preces 
ou algum pressgio, volta aqui na stima hora.
     - No vs que sou sacerdote? - perguntou o ancio. - Vim
falar com o sumo sacerdote de Ariel.
     - Ele no fala com ningum - replicou o guardio do 
templo. - Est em retiro.
     - Est mesmo? Mas este  um assunto da maior urgncia. 
Tem de falar comigo.
     O guardio olhou para o velho e encarquilhado sacerdote 
com um ar zangado. No seu rosto estava estampado que aquele 
velhote e o seu cajado eram um grande aborrecimento.
     Mas antes de poder responder, o velho sacerdote falou 
novamente:
     - No te cabe a ti decidir. Chama algum com autoridade. 
Seno o sumo sacerdote, ento o segundo sumo sacerdote ou o 
sacerdote de dia.
     O guardio do templo rogou uma praga silenciosa ao ancio
e fechou a porta. O velho sacerdote ficou uns momentos  
espera, de cabea baixa. Mesmo quando ia erguer outra vez a 
argola, ouviu passos do outro lado da porta. Um sacerdote 
jovem de capa cinzenta e cara picada das bexigas espreitou 
pela abertura. Atrs dele, o guardio esperava, de sobrolho 
franzido.
     - O que queres? - perguntou o jovem sacerdote.
     - Quero falar com o sumo sacerdote. Suponho que  
permitido. O assunto que aqui me traz  importante.
     - Ele no fala com ningum que no tenha sido anunciado -
retorquiu rapidamente o sacerdote.
     - Ento quero ser imediatamente anunciado - disse o 
ancio suavemente. Os seus olhos desmaiados endureceram at 
parecerem duas pedras.
     - O sumo sacerdote Pluell est em retiro. No pode ser 
incomodado. Sou o sacerdote de dia. Posso ajudar-te.
     O ancio sorriu manhosamente.
     - Duvido muito. No entanto, vais ajudar-me. Anuncia-me. 
V-se bem que s um homem suficientemente esperto para 
arranjares maneira de o fazer.
     O jovem contorceu o rosto num esgar temvel e inspirou, 
para melhor poder gritar ao ancio que se fosse embora. Mas 
antes de ele falar, o sacerdote mais velho levantou a mo e 
disse:
     - Faz o que te digo. - Falou com simplicidade, mas as 
suas palavras no podiam ser mais autoritrias. O sacerdote 
mais novo sentiu-as como uma bofetada e fechou a boca 
instantaneamente.
     - Espera ali - murmurou o sacerdote de dia, apontando 
para um banco de pedra que ficava debaixo de uma rvore, 
encostado ao muro, do outro lado do trio do templo.
     - Eu espero - disse o ancio, virando-se e comeando a 
descer lentamente os degraus do templo.
     - Que nome lhe digo? - perguntou-lhe o jovem sacerdote,
elevando a voz.
     O ancio parou, encostou-se ao cajado e pareceu ponderar
cuidadosamente na questo que lhe fora posta.
     - Ento? - inquiriu o sacerdote de dia.
     - Diz-lhe - comeou por fim o ancio - que chegou um

amigo das bandas do sol-nascente. - Uma mo encarquilhada 
desapareceu por entre as pregas das suas vestes. - E d-lhe 
isto. - Retirou a mo e estendeu-lhe um objecto escuro e 
brilhante.
     O jovem saiu de dentro do templo e pegou no talism, que 
ps na palma da mo e examinou com curiosidade.
     O objecto era uma medalha redonda e achatada, feita de 
pedra preta, fria, e tinha inscritos estranhos smbolos, que 
ele no reconheceu. Enquanto segurava o talism, percorreu-o 
uma sensao estranha e agoirenta: parecia que a condenao se 
juntava  sua volta, como as altas nuvens escuras que se 
formavam no cu, Sem mais palavras, virou-se e voltou a entrar 
no templo. O ancio continuou a descer as escadas e avanou 
lentamente para o banco que ficava debaixo da rvore. 
Acomodando-se  sombra, ficou  espera.

     O dia foi progredindo preguiosamente. Ao meio-dia, uns 
poucos peregrinos solitrios chegaram ao templo. O sacerdote 
de dia foi ao seu encontro e aceitou as suas oferendas. Os 
peregrinos ficaram  espera e, depois, foram admitidos no 
templo, onde iam ouvir o seu orculo. Saram passado algum 
tempo e afastaram-se, cavaqueando alegremente, felizes com as 
boas novas que os sacerdotes lhes tinham anunciado. Nenhum 
deles reparou no ancio quieto como um dolo, sentado debaixo 
da rvore que ficava ao lado do muro.
     O crepsculo chegou, e com ele uma brisa fria, soprando 
de oriente, perfumada com o doce cheiro almiscarado da chuva. 
Quando o Sol carmesim e muito brilhante se ps para l dos 
campos dourados do vale que ficava abaixo do templo, apareceu 
um sacerdote empunhando um tio, com o qual acendeu a tocha 
do pilone de pedra que se erguia no meio do trio do templo.
     O sacerdote, de costas para o ancio, ergueu o tio, 
acendeu a tocha e, sentindo-se observado, virou-se lentamente, 
perscrutando as sombras na direco do ancio, ainda sentado 
no banco.  luz da tocha, dois olhos brilhantes cintilaram na 
escurido. O sacerdote deu um salto para trs e quase deixou 
cair a tocha. Depois, virou-se e entrou a correr no templo. A 
grande porta de madeira fechou-se atrs dele com estrondo, e o 
som do barulho que fez ecoou pelo trio vazio.
     O ancio no se mexeu; limitou-se a fechar outra vez os 
olhos e continuou  espera.
     As nuvens altas, voando rapidamente ao vento como velas 
esfarrapadas, escondiam a Lua que nascia por cima do vale. A 
brisa comeava a soprar em rajadas e, muito ao longe, ouvia-se 
o estrondo abafado dos troves. Umas poucas folhas secas 
esvoaavam s cambalhotas pelas lajes de pedra do trio, 
assemelhando-se a ratos a correr. O vento brincava com a tocha 
do pilone fazendo-a crepitar.
     Sentado, de cabea baixa, o ancio aconchegou-se mais nas 
suas vestes e continuou  espera.
      meia-noite, o trio estava escuro e silencioso. As 
nuvens cobriam o cu e o distante resmonear do trovo parecia 
cada vez mais perto. O vento frio soprava ininterruptamente de 
oriente inclinando a chama da tocha e fazendo as sombras 
saltarem e danarem em volta do pilone.

     Ento, no outro lado do templo, apareceu o brilho fraco 
de outra luz bruxuleante, que se aproximou balouando na mo 
que a segurava, acompanhada do rudo abafado de sandlias 
batendo nas pedras. O ancio levantou a cabea e sorriu na 
escurido. O recm-chegado parou diante da figura sentada. 
Erguendo a lanterna, abriu uma portinhola, para deixar sair 
mais luz. Ao brilho amarelo da lanterna, o sacerdote examinou 
o visitante.
     - Quem s tu? - perguntou.
     - Por fim, vieste, Plucli.
     - Como sabes quem sou?
     - s o sumo sacerdote, no s? O sumo sacerdote no tem 
um nome?
     - Tenho e tu sabe-lo. Gostaria de saber o teu.
     - Creio que o sabes, senhor.
     O sumo sacerdote olhou para o velho rosto e aproximou a 
lanterna.
     - Nunca te vi... nunca. - Depois, acrescentou lentamente: 
- Ou vi?
     O ancio abanou a cabea.
     - No, talvez no. H muito que no passo por estes 
lados.
     - Embora andes com esse hbito, no s sacerdote - 
afirmou Pluell. - Se no passas por aqui h muito tempo, como 
queres que saiba o teu nome?
     - No recebeste o meu talism?
     - Recebi. - Estendendo a mo, mostrou a pedra preta. O 
ancio pegou nela e segurou-a ao alto. -  uma pea muito 
curiosa.
     - Muito curiosa mesmo. - O ancio f-la desaparecer 
dentro do hbito.
     Nessa altura, o cu foi despedaado por um relmpago, que 
iluminou as duas figuras com uma luz pura e irreal.
     - A trovoada est mesmo em cima de ns - disse o ancio.
     - Quem s tu? - perguntou o sumo sacerdote.
     - j te disse que sabes.
     - Ora! No vou perder mais tempo contigo. Tiraste-me da
cama. - Lanou ao ancio um olhar zangado. - No devia ter
vindo.
     - E, no entanto, vieste. Porqu?
     O sumo sacerdote abriu a boca para falar, pensou melhor e 
tornou a fech-la,
     - Eu digo-te porqu - entoou suavemente o ancio. - 
Vieste porque tinhas de vir. No podias deixar de vir para 
veres com os teus prprios olhos se era mesmo verdade.
     O sumo sacerdote no disse nada. O vento soprava em 
rajadas e a tocha bruxuleava. Os ramos da rvore estalavam e 
gemiam ao vento.
     - Vieste porque eu te convoquei.
     - Velho mentiroso! - retorquiu Pluell. - Quem pensas que 
s?
     - Vieste porque sabes que se aproximam tempos atribulados 
e que eu posso ajudar.
     - s louco. A nossa conversa acabou aqui. Vai-te embora! 
- gritou.
     - Muito bem - replicou calmamente o ancio, levantando-se

devagar, como se fosse partir imediatamente. Ao pr-se em p, 
o capuz caiu-lhe da cabea, pondo  mostra finos caracis 
compridos de cabelo branco, que emolduravam um rosto to 
sulcado e enrugado como um campo lavrado. Os seus olhos pretos 
e cortantes brilhavam-lhe no rosto devastado. - Eu vou, mas 
houve tempos em que o nome Nimrood infundia respeito.
     Ao ouvir este nome, o sumo sacerdote recuou 
involuntariamente.
     - Nimrood! - ofegou. - No pode ser!
     - Vs? Afinal conheces-me.
     - Mas... tu morreste! H anos... ainda eu era rapaz... 
ouvi dizer... que tinhas sido morto na batalha com o Rei 
Drago...
     - Como vs, no fui - replicou o ancio.
     - Nimrood! Nem acredito no que vejo!
     - Acredita, senhor! Sou mesmo o Nimrood.
     Os relmpagos atravessavam o cu, libertando troves que 
ressoavam por todo o vale. Comearam a cair pesadas gotas de 
chuva, que ressaltavam ao baterem nas pedras do trio do 
templo.
     - Esses tempos atribulados de que falaste... o que so? 
Como podes ajudar?
     Nimrood ergueu o rosto para o cu.
     - A tempestade veio com toda a fora. No preferes ir 
para os teus aposentos privados? Parece-me que talvez tenhamos 
muito que discutir.
     O sumo sacerdote Pluell ficou momentaneamente indeciso. 
Pensando no assunto, lanou a Nimrood um olhar penetrante. A 
chuva salpicava-lhe o rosto. A tocha do pilone crepitava na 
escurido, sibilando como uma serpente.
     - Como queiras. Segue-me - disse Pluell, dirigindo-se 
para a entrada lateral, pouco usada, e deixando o trio do 
templo entregue  chuva e  noite.


        CAPITULO 11


     Bria deixou-se ficar ouvindo o gotejar da chuva no 
torreo que ficava do lado de fora dos seus aposentos. As 
portas estavam escancaradas, deixando entrar a suave brisa de 
Vero, que transportava com ela o cheiro limpo e fresco do ar 
lavado pela chuva. Passarinhos azuis chilreavam na 
balaustrada, enchendo a manh com o seu alegre canto.
     A rainha virou-se e estendeu o brao para o lado, 
descrevendo um crculo. A sua mo tacteou os lenis vazios 
onde o seu marido devia estar, mas j no estava. Abrindo 
ento os olhos preguiosamente, murmurou:
     - Mas tu nunca descansas, Quentin?
     Bria levantou-se e enfiou um roupo. Imediatamente entrou 
uma serva a correr, envergando um vestido fresco de Vero, de 
samito azul-celeste, com um cinto de ouro finamente 
trabalhado.
     - Dormistes bem, senhora? - perguntou a jovem.
     - Dormi, obrigado, Glenna. No est um dia lindo?
     - Est, senhora. Lindo. - Ao sorrir, os seus olhos 
brilharam. - Quase to lindo como vs.
     - As tuas lisonjas so trinados de pssaros. - Bria 
soltou uma gargalhada e o quarto ficou mais claro. - Viste o 
rei?
     - No, senhora. Quereis que chame o mordomo-mor?
     A rainha encolheu os ombros:
     - No  preciso. Sei muito bem onde  que ele foi.

     A serva ajudou a sua rainha a vestir-se e, depois, 
comeou a arrumar o quarto. Bria saiu dos aposentos reais e 
dirigiu-se s cozinhas.
     Percorrendo O corredor com ligeireza, desceu O lance de 
escadas que dava para o salo dos banquetes. Logo que ps os 
ps no salo, ouviu gritos c sentiu uma sbita agitao  sua 
volta,
     - Me! Ouviste? Oh, j sabes a novidade? - Duas meninas 
salttaram para ela, agarraram-lhe as mos e puxaram-na at  
mesa do desjejum.
     - E que novidade ouvistes, minhas queridas? - perguntou 
ela, sorrindo e afagando-lhes as cabeleiras louras.
     A mais nova das duas meninas, a princesa Elena, que tinha 
o cabelo comprido dividido em dois e entranado com fio 
dourado, o que fazia brilhar e cintilar de cada vez que ela 
danava com os seus pezinhos metidos em chinelas, sorriu 
alegremente para a me, com os olhos verdes luzindo de 
satisfao por ter um segredo. A irm, a princesa Brianna, 
delicada como um rebento de Primavera e vestida de azul-vvo 
como a me, apertou a mo da rainha e disse:
     - Anda sentar-te aqui connosco, me! Temos tanto para te 
contar!
     A princesa Elena abanou a cabea vigorosamente.
     - Temos, temos tanto para te contar!
     - Muito bem - respondeu Bria, instalando-se no banco que 
estava junto da mesa. - Quais so as vossas novas? Dizei, 
quero saber j!
     A menina mais velha olhou para a irm e ambas desataram a 
rir.
     As suas gargalhadas eram de pura alegria. Enfeitiados 
pela felicidade das princesinhas, vrios ajudantes de cozinha 
pararam a olhar e a sorrir.
     - Ento, no dizeis nada  vossa pobre me? J no 
aguento mais! - Bra pegou-lhes nas mos e apertou-as.
     As palavras saram-lhes ainda no meio de risos:
     - A Esme est quase a chegar! A Esme! No  maravilhoso? 
- gritaram. - A Esme chega hoje  noite!
     - Que novas to boas! - retorquiu Bria, abraando as 
filhas.
     - Oh, mas no digas nada ao nosso pai - pediu Brianna.
     - Queremos ser ns a dizer-lhe, est bem@
     - Est. Ser uma surpresa vossa.
     - Vamos PrOcuf-lo! - gritou Elena.
     As duas meninas teriam logo largado numa correria se a 
rainha no as tivesse chamado:
     - O rei no est c, meus amores, Foi de manhzinha para 
o templo.
     - Tambm podemos ir? Deixa, me - suplicaram 
ansiosamente.
     - Primeiro, vinde comer o desjejum. Depois, veremos. - 
Bria lanou um olhar rpido pela diviso. - Onde est o vosso 
irmo?
     - Ainda na cama? O Sol j vai alto!
     - Oh, no! Pegou num po de sementes e saiu h muito 
tempo. Foi s cavalarias encontrar-se com o Toli. Vo os dois 
passear a cavalo.
     - A cavalo! Sempre a cavalo! No me admirava nada que lhe
crescessem cascos e uma crina!

     As raparigas soltaram risinhos abafados. A rainha 
suspirou. No lhe agradava a ideia de um rapazinho to pequeno 
montar cavalos to grandes. No entanto, enquanto estiver com 
o Toli, no lhe acontecer nada de mal, pensou.
     - Bem, comei o desjejum. Temos muito que fazer para nos 
prepararmos para a visita da Esme!
     Sentaram-se para comer, mas, com a excitao, as 
raparigas s conseguiram depenicar a comida, Por fim, a me 
dexou-as ir e elas saram do salo a correr e a rir. 
Vendo-lhes as tranas a balanar, Bria sorriu.
     Ento, a Esme vem c. Que bom!, pensou ela. Como  que
as minhas filhas teriam sabido? Bem, no interessa. J no 
vinha a Askelon h tanto tempo! H tempo de mais! Tenho 
saudades dela.

     Quentin encontrava-se de p junto da mesa grosseiramente
talhada, colocada no meio de um grande rectngulo de pedra. 
Com a cabea inclinadas examinava um enorme rolo de 
pergaminho, preso nas pontas com uma pedra.
     - V aqui - disse, apontando para o plano. - Se 
levantarmos esta parede numa semana, poderemos comear a pr 
as traves. O que dizes a isto, Bertram?
     O velho mestre mao, de cabelo grisalho, olhou de travs 
para o dedo apontado do rei, levantou a cabea e coou o 
queixo hirsuto, acenando com a cabea para a parede que tinha 
 frente.
     -  possvel, Majestade - replicou diplomaticamente. - 
Mas primeiro tm de se ajustar as bases de apoio, que ainda 
no esto prontas. E as armaes tambm no.
     - Hum - disse o rei, franzindo o sobrolho.
     - Mas, daqui a pouco, j estar levantada, Majestade. A 
srio. Podeis contar com isso. Daqui a pouco - reafirmou, 
acenando com a cabea e chamando um dos seus pedreiros. - Com 
licena, Majestade. Tenho de...
     - Claro, vai l. Eu voltarei j para o castelo.
     - Bom dia, Vossa Majestade. - Bertram fez uma vnia e 
foi-se embora.
     Quentin ainda ficou de mos na cintura, a observar os 
trabalhos que decorriam  sua volta. A manh estava clara e 
lmpida, e a erva comprida ainda molhada da chuvada da noite. 
Os pedreiros e os seus ajudantes labutavam com vigor. Os 
cabouqueiros despejavam os seus carrinhos cheios de pedra nos 
montes que se erguiam de ambos os lados do rectngulo, de onde 
outros trabalhadores a escolhiam, transportando-a, depois, 
para as paredes. os homens que faziam a argamassa e os seus 
ajudantes mexiam os montes de lama e punham argamassa fresca 
em placas que levavam aos pedreiros, que estavam sempre a 
reclamar mais. No meio desta confuso organizada, as paredes
do novo templo, o templo do Altssimo, iam-se erguendo devagar 
e quase imperceptivelmente. A obra j ia no seu sexto ano e, 
s vezes, parecia a Quentin que nunca mais terminaria.
     O rei esperava ansiosamente que o templo estivesse 
acabado, pois o fim dos trabalhos inauguraria a nova era. E 
seria naquele templo que ele presidiria  adorao do novo 
deus de Mensandor. O templo simbolizaria o amanhecer da nova 
era.

     Ento, Quentin proclamaria a morte dos velhos deuses e 
exortaria os seus sbditos  adorao do novo deus, do 
Altssimo, que tudo criara e tudo governava.
     Logo que a construo comeara, a novidade espalhara-se 
rapidamente por toda a terra. No havia uma nica casa em todo 
o reino onde no se soubesse do Templo do Rei, como lhe 
chamavam. Mas j tinham passado seis anos e ainda seriam 
precisos, pelo menos, mais quatro. At l... bem, at l havia 
muito trabalho pela frente.
     Quentin ouviu um tilintar de campainhas atrs de si e, 
virando-se, viu Blazer abanando impacientemente a cabea. O 
grande cavalo j pastara toda a erva a que chegava e estava 
pronto para partir. Por isso, abanava a cabea 
desassossegadamente, fazendo tilintar as pequenas campainhas 
que tinha entranadas na crina e na brida de prata, como se 
dissesse: Vamos embora! O Sol j vai alto e o dia est 
bonito. Vamos cavalgar!
     Quentin sorriu e, encaminhando-se para o animal, 
pousou-lhe a mo no focinho largo.
     - Ests impaciente... e eu tambm, velho amigo. Muito bem 
- disse o rei, pondo o p no estribo -, vamos embora. J 
incomodei suficientemente estes bons homens.
     Com estas palavras, ergueu-se facilmente para a sela e 
abanou as rdeas, Blazer levantou do cho as patas dianteiras 
e deu meia volta. Quentin levantou a mo para Bertram, que lhe 
retribuiu o aceno, e Blazer saltou para a frente. 
Esquivando-se dos carros de bois com comida e provises para 
os trabalhadores, cavalgaram pela estrada que descia a larga 
encosta da colina. Depois, sentindo o sol a bater-lhe no rosto 
e com a beleza do dia enchendo-lhe o corao, o rei guiou
Blazer para fora da estrada e deixou-o descer a ladeira  
vontade e cavalgar livremente pela plancie que se estendia 
abaixo de Askelon.
     o castelo erguia-se na sua rocha e brilhava como uma jia 
 luz da manh. As suas mil espiras tinham pendurados pendes 
azuis e vermelhos, que esvoaavam e se retorciam ao vento. 
Torrees e barbacs encimavam as ameias altas, fortes e 
seguras. Quentin gostava de sentir a fora do animal que tinha 
debaixo de si e o corao parecia saltar-lhe do peito ao 
galopar pela terra ainda hmida, que as patas de Blazer 
levantavam e lanavam para o ar.
     Por fim, chegaram a um grande cenotfio de pedra que se 
erguia solitrio no meio da plancie. Ao aproximarem-se, 
Quentin ps Blazer a trote. Depbis, pararam  frente do 
cenotfio e Quentin desmontou. Caminhou at ao monumento e 
ajoelhou-se.
     As palavras que Quentin sabia de cor estavam escritas em 
pedra dos dois lados da lpide. No entanto, leu-as mais uma 
vez. Diziam o seguinte:

     Aqui, neste campo, os guerreiros de Mensandor combateram 
 e derrotaram a hoste de brbaros de Nin, chamado o 
Destruidor.
Aqui caiu Eskevar, Rei Drago, Senhor do Reino, e muitos dos 
seus bravos, para nunca mais se levantarem. Conquistaram a paz 
com o seu sangue, e a liberdade com as suas espadas.

     Depois de ler as palavras que j lera tantas vezes, 
Quentin levantou-se, tornou a montar e voltou para Askelon.



        CAPTULO 111


     Toli e o prncipe Gerin cavalgavam juntos num prado 
orlado por carvalhos antigos, escondido de olhos curiosos, 
situado a leste da cidade.
     - Tenta outra vez, prncipe - disse Toli, virando Rv, 
que seguia a galope, para um carreiro de terra muito batida, 
onde se encontrava cado um grande tronco de rvore.
     O prncipe, um robusto rapaz de nove anos, com uma 
cabeleira despenteada castanho-escura, estudou atentamente o 
obstculo que tinha  frente, semicerrando os olhos verdes e 
vivos e apertando os lbios. Com as faces vermelhas de 
excitao, Gerin avanou o queixo com toda a seriedade. O seu 
gesto foi uma pardia to exacta ao rei que Toli, para no 
desatar s gargalhadas, abafou o riso com a mo.
     Ento, abanando as rdeas e apertando os calcanhares nos 
flancos do seu pnei, o prncipe precipitou-se para a frente, 
descendo de novo o carreiro que ia dar ao tronco cado.
     No ltimo instante, o prncipe atirou as rdeas para a 
frente e inclinou-se contra o pescoo do cavalo. O pnei 
levantou as patas, saltou facilmente por cima do obstculo e 
aterrou do outro lado com uma pancada surda. O jovem cavaleiro 
balanou para a frente e oscilou para o lado, mas conseguiu 
manter-se sentado na sela.
     - Muito bem! - gritou Toli. - Excelente!  isso mesmo! 
Agora anda c descansar um bocadinho. - Sorrindo para o 
prncipe, baixava a cabea em sinal de aprovao.
     - S mais uma vez, Toli. Por favor! No quero esquecer-me
desta sensao. - Virando novamente o cavalo, comeou a 
cavalgar em direco ao tronco.
     Toli puxou as rdeas a Rv, desmontou e ps-se a observar 
o prncipe cuidadosamente. Desta vez, ao aproximar-se do 
obstculo, o animal hesitou, sem saber bem o que o seu 
cavaleiro queria. Por isso, saltou tarde de mais e 
desajeitadamente, atirando-se para cima do obstculo. O 
prncipe Gerin deslizou para o lado, agarrou-se  sela
e tentou desesperadamente parar o cavalo; mas no conseguiu: a 
mo falhou-lhe e caiu ao cho com um baque. O pnei castanho 
continuou a galopar sem cavaleiro.
     - Uf! - O prncipe deu uma cambalhota na terra macia.
     Toli correu para ele.
     - Magoaste-te? - perguntou, levantando o rapaz e 
sacudindo-o. O prncipe tinha lama no queixo e nos cotovelos.
     - Estou bem. No  a primeira vez que caio. Disso, pelo 
menos, j tenho bem o gosto.
     - Tenho muita pena, mas tambm no ser a ltima vez - ri
Toli. - Mas, se no voltas a casa inteiro, o teu pai d-me 
cabo da cabea!
     O prncipe ergueu o olhar para o seu instrutor e carregou 
o cenho, enrugando consternadamente a testa lisa:
     - Achas que vou conseguir?
     - Claro que sim, com o tempo...
     - Mas faltam menos de quinze dias para a caada!

     - No te preocupes. Ests a fazer progressos. Prometo-te 
que irs a cavalo na caada. E o teu pai vai ter uma surpresa. 
Tudo a seu tempo. Mas primeiro tens de aprender a no hesitar 
quando te aproximas de um obstculo. Isso confunde o cavalo, 
que salta mal.
     - Posso tentar outra vez?
     - Temos de nos ir embora. Tenho muito que fazer.
     - V l, Toli. S mais uma vez... para no acabar a lio 
do dia com uma queda.
     - Est bem. Mais um salto e vamos embora bem depressa.
     O prncipe foi a correr para a sua montada, Tarky, que 
parara a pastar no fim do carreiro, Toli voltou para junto de 
Riv e tornou a montar.
     - Pensa no que ests a fazer! - gritou Toli. - 
Concentra-te!
     O rapaz subiu para a sela com uma expresso de extrema 
determinao estampada no rosto, fitou o obstculo, calculando 
a distncia, sacudiu as rdeas e esporeou o cavalo.
     Cavalo e cavaleiro partiram pelo carreiro e, num abrir e 
fechar de olhos, estavam lanados em direco ao tronco. O 
prncipe Gerin inclinou-se muito na sela, levantou as mos e o 
cavalo voou por cima do tronco com a graciosidade e a leveza 
de um veado. Depois, puxou as rdeas e, com um viva de 
triunfo, fez o pnei dar meia volta e galopou para as rvores 
que ficavam do outro lado do prado.
     - Muito bem, prncipe Gerin! - gritou Toli. - Muito bem! 
- Depois, esporeando tambm a sua montada, passou as rvores e
entrou na estrada que levava a Askelon.
     Chegaram os dois  estrada lado a lado e foram a rir e a 
fazer corridas at ao castelo. O Sol ia alto no cu lmpido e 
azul e ambos sentiam a alegria da vida correndo-lhes nas 
veias.

     A mesa de trabalho de Durwin estava atafulhada de rolos 
poeirentos e de livros encadernados a pele. o eremita, 
debruado sobre a mesa, sentado num banco alto, com o queixo 
apoiado na mo, ia murmurando para si prprio  medida que 
lia. j tinha o cabelo comprido quase completamente branco, 
mas os seus olhos continuavam vivos e os seus braos e pernas 
bem firmes. Parecia ter metade da idade que tinha.
     De repente, levantou a cabea e farejou o ar.
     - Ah! - gritou, pondo-se em p de um salto e correndo 
imediatamente para um pequeno fogareiro de carvo, onde fervia 
um pote preto de ferro que, ao transbordar, fizera erguer 
colunas de fumo negro para as vigas do tecto. Durwin pegou 
numa comprida colher de pau e estava a mexer o pote quando uma 
voz disse,  entrada da porta:
     - Fiu! Bom eremita, que fedor prodigioso  esse? Cheira 
mesmo mal!
     Durwin ergueu o olhar e viu a rainha-me de p  entrada 
da porta larga, observando-o e retorcendo o nariz, numa 
exibio de pura repulsa.
     - Alinca! O qu? No vos agradam as minhas cataplasmas? 
So um remdio poderosssimo contra as dores das articulaes.
     - Pois a mim parece-m e que as dores talvez sejam mais 
agradveis.
     - Garanto-vos que os meus doentes no se importam com as
suas propriedades aromticas.
     - Os teus doentes?
     - Chamo-lhes doentes, senhora.  Isto  para o Toli.
     - De certeza que o Toli no precisa disso.

     - Precisam os cavalos dele, senhora. Estou a fazer isto 
para os cavalos, mas, em qualquer caso, tambm no faria mal 
ao cavaleiro, se houvesse necessidade.
     - E se o nariz aguentasse! - replicou ela, rindo. - Mas o 
meu no aguenta. Deixa um bocadinho o teu trabalho, eremita. 
Apetece-me passear com algum no jardim.
     Durwin sorriu e fez uma vnia:
     - Com todo o prazer, Era mesmo do que precisava. Se no
estivesse demasiadamente embrenhado nestes vapores, teria eu 
prprio pensado nisso.
     Saindo juntos, atravessaram o castelo, passaram pelo 
grande salo do Rei Drago e dirigiram-se para os degraus do 
jardim.
     - V como o sol brilha! - exclamou Alinca. - V como as 
flores esto bonitas!
     Depois, desceram os degraus e entraram no jardim, no meio
da fragrante ddiva das rosas de todas as espcies. J no 
havia flores da Primavera, mas os botes do Vero estavam a 
desabrochar, e os olhos enchiam-se de cor para onde quer que 
se olhasse.
     - Ah! Estar aqui  a prpria paz - suspirou Durwin, 
virando-se para observar a sua companheira, O passar dos anos 
no a marcara muito. Tinha o cabelo comprido entranado e 
preso. j havia muitos fios prateados nas tranas 
castanho-aloiradas e tinham-se formado rugas em volta dos seus 
lindos lbios e dos olhos, que continuavam verdes como lagos 
da floresta. A sua voz tinha o timbre da gua a cantar.
     Sim, pensou Durwin, o passar dos anos no foi duro 
para nenhum de ns. No os trocaria por outros. O Deus 
Altssimo  bom e abenoou a nossa terra. Temos muitas graas 
a dar-lhe.
     - Em que pensas, meu amigo? - perguntou Alinea baixinho.
     - Que estes anos tm sido felizes e plenos, minha rainha. 
Sinto-me satisfeito. - Depois de uma pausa, a sua voz adquiriu 
um tom melanclico: - Mesmo que morresse amanh, no teria 
nada a lamentar. Absolutamente nada.
     - Eu poderia dizer a mesma coisa - replicou Alnea. - Mas
no falemos mais da morte, que sabe olhar bem por si,
     - Pois , pois  - volveu Durwin, baixando lentamente a 
cabea. Depois animando-se perguntou: - Dizei-me, que novas 
tendes? Ouvi dizer que chegou um mensageiro hooje de manh. 
Trouxe boas notcias? 
     - Trouxe. Ia mesmo agora dizer-te. Veio de Hinsenby...
     - De Hinsenby? Do Theido?
     - De Hinsenby? Do Theido?                                
       - Da Esme, que vem a caminho e deve chegar hoje  
tardinha. O dia est bom para viajar.
     - Ah, a Esme! Parece-me que no a vejo h muitos anos.
     - Todos temos saudades dela. E o facto  que ningum 
sentiu tanto a sua ausncia como ela prpria.
     - Uma coisa terrvel. Muito triste. Faz-nos recordar que 
as vidas de alguns de entre ns no so to isentas de dor 
como as nossas. De certeza que se ela tivesse sabido teria 
feito outra escolha.
     Alinea ficou silenciosa durante algum tempo. Entretanto, 
passeavam pelos carneiros do jardim, cada um sentindo o calor 
do dia e da amizade que tinham um pelo outro.
     - No sei se algum de ns faria as escolhas que fez se 
adivinhasse o futuro.

     - Talvez no. Mesmo assim,  uma bno. Os fardos do 
presente j so suficientemente pesados; no aguentaramos 
carregar tambm com os do futuro.
     - Tens razo. Como s sensato, eremita! Sim, vai ser bom 
voltar a ver a Esme. Talvez possamos ajud-la a sarar velhas 
feridas.
     Nessa altura, ouvindo os trinados felizes de vozes 
infantis, ergueram a cabea e viram a princesa Brianna e a 
princesa Elena correndo na sua direco o mais depressa que as 
suas perninhas magras podiam. Atrs delas, seguia Bria, num 
passo mais vagaroso.
     - Av! Av! - gritaram as rapariguinhas. - Temos um 
segredo! Um segredo muito grande!
     - Um segredo? O que ser?
     - Tens de adivinhar, av! - berrou Brianna.
     - Sim, adivinha! Adivinha! - gritou Elena.
     Alinea juntou as mos e encostou-as aos lbios.
     - Deixa ver - disse ela, com os olhos a brilhar  vista 
das suas lindas netas. - Ides viajar?
     As duas cabecinhas abanaram de um lado para o outro, 
fazendo as tranas voarem.
     - No? - continuou a av. - Ento, aprendestes um jogo 
novo e vieste mostrar-nos como !
     - No! - gritaram elas, rebentando em risinhos abafados.
- A Esme vem a! Chega hoje  noite! - As duas raparigas 
comearam a dar saltinhos.
     - Que boas novas! - disse Alinea.
     - Ouviste, Durwin? - gritaram. - Ela chega hoje  noite.
- Depois, ao ocorrer-lhes uma ideia nova e ainda melhor, 
entreolharam-se. - Talvez ela nos traga prendas! - exclamou 
Brianna.
     - Claro, prendas!
     Batendo palmas, fugiram para a fonte por entre as 
roseiras.
     - Parecem colibris - murmurou Durwin.
     - Pronto, me - disse Bria, aproximando-se. - j vi que 
vos contaram o segredo.
     - Pois contaram, querida. Deves estar muito contente.
     - Estou quase to animada como elas... se  que isso  
possvel! - replicou ela a rir, seguindo com os olhos as 
raparigas que corriam. - Bom dia, Durwin. Ainda bem que a me 
te arrastou do teu antro malcheiroso. Comeava a pensar que 
nunca mais saas c para fora.
     - Tudo a seu tempo. Quando esta velha cabea tem uma 
ideia, no desiste dela assim muito facilmente. - Fez um 
sorriso aberto. -  por isso que vos tenho s duas para 
cuidardes de mim. Sei que no me deixareis ficar muito tempo 
sozinho e agradeo-vos por isso.
     - H outra pessoa que gostaria de persuadir assim to 
faclmente - comentou Bria.
     - O Quentin?
     Bria sorriu um tanto tristemente e assentiu com a cabea:
     - Oh, bem sei que ele anda muito ocupado. Est preocupado
com o templo. Mas sai de manh  noite quase todos os dias, 
para se fechar com os operrios e os arquitectos. Nunca pra. 
Quase nem o Vejo.
     Alinea olhou ansiosamente para a filha:
     - Com um rei,  sempre assim. No te esqueas, meu amor,

de que ele no pertence a si mesmo nem  sua famlia. Pertence 
ao reino, ao povo. Este templo  um fardo muito pesado para o 
Quentin. Os costumes antigos custam a morrer, e ele est a 
procurar seguir  risca o mandamento do deus.
     Bria deixou cair a cabea:
     - Eu sei que devia ser mais paciente, mas ele tornou-se 
um estranho na sua prpria casa.
     - O Quentin foi escolhido para grandes feitos. Muitos 
prodgios sero realizados atravs dele.
     - Pois  - concordou Durwin. - Mas a minha senhora Bria
tem razo. Ele tambm tem de olhar pela sua casa.  a primeira 
responsabldade de um homem, quer seja rei quer no. Os 
pequenos feitos satisfazem tanto o Altssimo como os grandes. 
Penso muitas vezes que ele deve preocupar-se menos com templos 
do que com a fora de uma famlia. - Fez uma pausa e olhou 
para Bra: - Se quise-res, falarei com ele.
     - No, obrigado. Eu espero. Sei que o templo  
importante. Talvez voltemos a ter tempo para ns prprios 
quando estiver acabado. At l, ficarei  espera. - Sorrindo 
docemente, lanou um olhar  sua me: - As mulheres da nossa 
famlia esto habituadas a esperar. Sabemos faz-lo muito bem.


        CAPTULO IV


     Ao contrrio dos sacerdotes que dirigia, o sumo sacerdote 
Pluell vivia no esplendor, rodeado de todos os luxos. Enquanto 
as celas dos sacerdotes menos importantes eram humildes e 
despidas de adornos e ornamentos, contendo apenas os objectos 
necessrios a um mnimo de conforto (uma cama com colcho de 
palha, um banco, uma mesa grosseira, uma escudela e uma vela 
de sebo), os aposentos do sumo sacerdote tinham tapearias 
penduradas nas paredes, cadeiras esculpidas e uma grande mesa 
sempre posta com toalhas caras e pratas finas. Nos castiais 
dourados ardiam velas feitas com cera de abelhas perfumada. O 
seu leito de dossel era alto, e o colcho de penas.
     Tudo isto, como ele dizia a si prprio, no era mais do 
que o devido, constituindo apenas os proventos da sua posio, 
as recompensas da sua alta estirpe.
     O sumo sacerdote Pluell e o seu visitante j estavam a 
conferenciar havia muito tempo, O sumo sacerdote fitava o 
vazio, com os olhos vermelhos por causa da falta de sono. 
Tinha a testa muito enrugada, o que lanava uma sombra sobre 
as suas feies arrogantes,
     De onde estava sentado, o velho Nimrood estudava-o 
atentamente, com as mos nodosas juntas por baixo do queixo 
pronunciado. A sua imagem era a de um mercador astuto que 
acaba de descobrir um negcio extremamente proveitoso. O 
esboo de um sorriso encurvava-lhe os lbios finos e exangues.
     - Ento est combinado? - perguntou Nimrood por fim, 
quebrando o silncio.
     Pluell levantou lentamente a cabea; tinha a boca 
retorcida num sorriso escarninho:
     - Tenho outro remdio? Claro que est combinado! Farei 
como dizes.

     - Se fizeres, tudo correr bem. Salvars o templo e, alm 
disso, ters nas tuas mos poder sobre esta terra. O reino 
ser teu, e o rei teu servo. Pensa nisso!
     -  arriscado e eu no gosto de correr riscos.
     - Quem no arrisca no petisca, meu amigo. E, como tu 
prprio disseste, no tens outro remdio. j te disse que este 
rei arrogante quer acabar com o Grande Templo e expulsar os 
sacerdotes. O Templo do Rei cresce a cada dia que passa; 
quando ficar acabado, o teu ser destruido.
     - No sei se ele se atreveria a tanto. O povo 
levantar-se-ia contra ele... eu encarregar-me-ia disso.
     - Ele atreve-se a tudo em nome do seu deus. Temos de o 
travar imediatamente. j te escondeste tempo de mais debaixo 
do teu hbito. Se continuares  espera, depois ser tarde.
     - Sim, sim.  verdade. - Pluell fitou o seu convidadfo 
com um olhar penetrante. - No gosto nada deste rei nem tenho 
medo dele. A santidade e a autoridade do Grande Templo tm de 
ser preservadas. Quando e onde comeamos?
     Nimrood exibiu um sorriso aberto:
     - Eu escolherei a altura e o lugar. Deixa tudo por minha 
conta. Vou precisar de seis guardas do teu templo... seis 
guardas que saibam obedecer e ficar calados.
     - T-los-s. E que mais?
     - Por agora, mais nada. - Nirmood levantou-se devagar. - 
S um stio para descansar e qualquer coisa para comer. 
Depois, ir-me-ei embora.
     - Muito bem. Diz o que queres ao sacerdote que est l 
fora. Ele tratar de tudo. Eu vou escolher os homens que te 
acompanharo.
     Nimrood baixou a cabea e saiu. O sumo sacerdote ainda se 
deixou ficar sentado na cadeira, fitando as sombras com um 
olhar vazio. Depois, ao ser percorrido por um arrepio, pois o 
aposento arrefecera muito, aconchegou-se melhor nas suas 
vestes.

     O Sol da tarde, com um brilho dourado e enevoado, 
punha-se por trs das colinas verdes e arborizadas. A estrada 
descia para vales baixos, mergulhados numa sombra fria. O 
pequeno grupo de viandantes parou no cimo de um outeiro.
     - Askelon fica ali, senhora, e  uma linda vista - disse 
Wilkins, um dos companheiros de viagem de Esme.
     Esme encheu os olhos azul-claros com o cintilante cenrio 
que tinha  frente. O castelo de Askelon, cujas torres e 
torrees eram alvejados pelos raios dourados do sol-poente, 
cintilava como uma jia. As grandes muralhas, fortes e 
impenetrveis, pareciam vermelhas  luz desvanecente.         
       Com um arrepio, recordou o tempo em que estivera 
montada
num cavalo exactamente naquele lugar, contemplando o castelo 
luz de outro pr do Sol, havia muito tempo. Nada mudou, 
pensou. Oh, que loucura! Claro que tudo mudou... sobretudo 
eu.
     - Sim - disse por fim, mas to baixinho que os que 
estavam com ela no perceberam as suas palavras. -  uma linda 
vista. Estive longe tempo de mais. Mas, agora, regressei.

     Sem dizer mais nada, Esme pegou nas rdeas e comeou a 
descer a colina em direco ao vale. Pressentindo a 
proximidade de comida, gua e uma baia quente, o seu cavalo 
seguiu pela estrada, primeiro a trote e, depois, a galope. Os 
outros juntaram-se-lhe na corrida, e dali a pouco estavam 
todos a voar para Askelon, enchendo os valezinhos arborizados 
com as suas vozes rejubilantes.
     Quase sem abrandarem, chegaram  aldeia situada abaixo 
das muralhas e os cascos dos cavalos matraquearam nas suas 
ruas. Depois, passaram a ponte levadia, atravessaram a casa 
da guarda e pararam no ptio, onde os escudeiros se 
precipitaram para tomar conta dos cavalos e os conduzir at s 
cavalarias.
     - Esme! Chegaste! - ouvindo aquele grito atrs de si, 
Esme virou-se e viu Bria saindo de uma porta situada do outro 
lado do ptio, Dois rostos pequeninos, com os olhos a brilhar, 
espreitaram de ambos os lados das saias dela.
     Esme ajoelhou-se e abriu os braos.
     - Vinde c, minhas queridas! - disse, instantaneamente 
abafada por risadinhas e beijos. - Estais to grandes! - 
exclamou, espantada. - Tive tantas saudades vossas! - Cingiu a 
si as duas rapariguinhas e beijou-as. Depois, levantou-se e 
abraou a me delas. - Bria! Que bom ver-te outra vez!
     As duas mulheres ficaram abraados durante muito tempo e, 
depois, recuaram para se observarem mutuamente.
     - Esme, ests lindssima! A srio! ... - No canto de um 
olho de Bria surgiu uma lgrima. - Tive tantas saudades!
     - Eu tambm. No sabes como  bom estar finalmente aqui.
Quis vir muitas vezes, mas...
     Bria pegou-lhe nas mos e puxou-a, dizendo:
     - Anda! Temos muito que falar. Deixa a as tuas coisas, 
que eu mando lev-las para os teus aposentos. - Virando-se, 
dirigiu-se aos outros membros da comitiva de Esme: - Sois 
muito bem-vindos. Descansai  vontade da vossa longa jornada. 
Se quiserdes, podereis jantar connosco esta noite, no salo 
dos banquetes. Ou, se preferirdes, mandar-vos-ei comida aos 
vossos aposentos,
     Wilkins fez uma vnia profunda:
     - Vossa Alteza, a minha senhora falou-nos tanto sobre vs 
e sobre este lugar que estamos ansiosos por ver tudo. 
Juntar-nos-emos a vs logo que nos tenhamos lavado e tirado o 
p da estrada. Eu, pelo menos, quero conhecer o Rei Drago. O 
seu nome  conhecido em toda a terra. - Os outros concordaram, 
baixando a cabea.
     - Tenho a certeza de que o meu marido vai ficar muito 
agradado com as novas que trazeis. Vou mandar o mordomo-mor 
conduzir-vos aos vossos aposentos.
     - Chloe, podes ficar comigo - disse Esme. Uma jovem 
morena e esbelta, com traje de montar, como o de Esme, avanou 
timidamente, fez uma vnia  rainha e estendeu dois pacotes  
sua ama.
     -  verdade, ia-me esquecendo! - exclamou Esme, pegando
neles. - Trouxe uma coisa para as minhas amiguinhas.
     As princesas guincharam de prazer.
     - Prendas! - gritaram. Esme deu a cada uma um pacote 
atado com uma fita de seda brilhante. - Oh, obrigada! 
Obrigada! - As meninas beijaram-na e foram a correr abrir os 
presentes.
     - So uns tesouros, Bria. Uns tesouros.
     - L isso so. Mas anda, deves estar exausta. Os teus 
aposentos esto prontos e  tua espera. - Afastando-se com 
Esme, sorriu para Chloe, que as seguiu silenciosamente. - 
Podeis descansar as duas antes o jantar.

     A rainha conduziu-as do ptio para o corredor da cortina 
interior, e da para dentro do prprio castelo. Durante o 
caminho, falaram da jornada e de tudo o que os viajantes 
tinham visto. Quando, por fim, chegaram aos aposentos da 
rainha, Bria anunciou:
     - Tu ficas aqui, Esme. Quero-te perto de mim. Agora, 
descansai e refrescai-vos. j tendes gua l dentro. Voltarei 
daqui a pouco para vos levar a jantar.
     - s muito amvel, Bria. Obrigada. Mas, agora que 
cheguei, parece que o cansao desapareceu. S quero sentar-me 
e conversar contigo.
     - E conversaremos, Esme. Temos muitas conversas a pr em 
dia at eu me dar por satisfeita. - Depois de uma pausa 
acrescentou, num tom de voz mais sombrio: - Tenho pensado 
muito em ti.
     - Obrigada. E eu em ti. Pois , temos muito que 
conversar.

     Quentin e Toli estavam junto de Wilkins, mesmo ao p das 
largas portas abertas do salo dos banquetes. As outras 
pessoas, um pouco afastadas e acanhadas pela presena do 
prprio rei, cavaqueavam entre si. Entusiasmado, Wilkins 
narrava a viagem at Askelon e relatava as novas que ouvira 
durante o caminho.
     Quentin, que estava contente por ter convidados, pois 
havia algum tempo que no se via gente de fora no castelo, no 
largava o amvel homem, que se apressava a dar-lhe todas as 
informaes que o rei lhe pedia.
     - Quando regressais? - perguntou Quentin. - Claro que 
ficareis para a caada, no ?
     - J ouvi falar da Caada do Rei! - exclamou Wilkins. -
Na verdade, esperava ser convidado. Falaram-nos da caada em 
muitas das aldeias por onde passmos quando vnhamos para 
aqui. A maior parte das pessoas descreveu-a como um 
acontecimento excepcional.
     -  mais um festival do que uma caada - explicou Toli. -
Haver jogos de habilidade, menestris e um circo. 
Dedicamos-lhe trs dias de celebraes. As pessoas vm de todo 
o Mensandor, tanto para participarem como s para assistirem.
     - A que se deve o festival? - indagou Wilkins.
     - No sei. - O rei soltou uma gargalhada. - A razo jaz 
enterrada no passado. Segundo a tradio, a caada comeou no 
tempo de Celbercor, que a usou como um meio de recrutar 
cavaleiros para o seu servio. Diz a lenda que, se um homem 
conseguisse matar trs javalis num dia sem desmontar nem mudar 
de cavalo, era feito cavaleiro antes do pr do Sol!
     - A caada no se fez nos anos em que o rei Eskevar 
esteve na guerra. Mas ns recupermos a tradio - acrescentou 
Toli,
     -  verdade, foi tudo obra do Toli! - continuou Quentin. 
- O que ele queria era exibir os seus cavalos e, para isso, 
nada melhor do que uma caada!
     Wilkins assentiu com um ar conhecedor:
     - Os cavalos... tambm ouvi falar deles. At no distante 
Elsendor se tm os cavalos do rei em muita considerao.
     Nessa altura, houve um movimento  porta. Quando Quentin 
levantou a cabea, viu a rainha Bria e a dama Esme entrando no 
salo. Ambas envergavam vestidos de cendal leves, de Vero: o 
de Bria era cor-de-rosa e o de Esme castanho-avermelhado.

     O rei fez um sorriso aberto e aproximou-se delas:
     - Boa noite, meu amor - disse, beijando a esposa. - Esme,
estou muito contente por teres vindo.  bom ver-te de novo. - 
Pegando-lhe nas mos, deu-lhe um beijo na face, - S 
bem-vinda. Espero que fiques muito tempo connosco.
     - Obrigado, Quentin. Ests em forma, como sempre. A Bria 
disse-me que os trabalhos do templo esto a andar bem. - Os 
olhos dela desviaram-se momentaneamente dos dele.
     -  verdade - replicou Quentin. - Os trabalhos vo 
andando. Mas podemos falar disso mais tarde. Suponho que 
gostarias de cumprimentar... - Virando-se, lanou para trs um 
olhar rpido, - Para onde  que ele foi assim to de repente? 
Estava aqui mesmo agora.
     - Quem?
     - O Toli. Estava... - Com um aceno, indicou o lugar onde 
Toli e Wilkins tinham estado. Mas ambos haviam desaparecido.
     - Bem, ele continua to tmido como o veado com o qual 
cresceu. Tenho a certeza de que, mais tarde, querer saudar-te 
em privado.
     Pelo outro lado do salo entraram ajudantes de cozinha 
com enormes bandejas de comida: carne de veado e de porco, 
assados de aves e de caa, legumes acabados de apanhar e pes 
redondos e castanhos, ainda quentes do forno.
     - Sentemo-nos - disse Bria. Os bancos de ambos os lados 
da mesa comprida e baixa j estavam a ser ocupados. A comitiva 
de Esme encontrara amigos entre os cortesos do rei. Um bardo 
errante, que fora convidado a assistir  refeio, andava 
entre os convivas cantando rimas sem sentido e recolhendo 
pedidos de histrias para contar depois do jantar, Os risos 
perseguiam-no para onde quer que se virasse.
     No grande salo, reinava a animao e o bom humor.
     - Ests a ver o que a tua chegada fez? - gritou Quentin, 
guiando-as para a mesa mais alta. - No vejo tanta alegria 
h... bem, h muito tempo. s muito amvel, Quentin, mas  bem 
sabido que a alegria corre sempre ligeira na graciosa mesa do 
Rei Drago. - Esme olhou em volta e no seu rosto desenhou-se 
uma expresso mais leve. - Est tudo como eu recordo... como 
esperava que estivesse.
     Bria apertou-lhe a mo e arrastou-a para uma cadeira. 
Durwin entrou e aproximou-se, pedindo muitas desculpas pelo 
atraso, e saudou Esme com um abrao caloroso. Enquanto 
conversavam, Quentin procurou Toli, que costumava sentar-se ao 
seu lado, em frente da rainha.
     Encontrou o jber sentado na ponta da mesa alta, de frente 
para Wilkins. Achavam-se os dois embrenhados na conversa, 
esquecidos do que se passava  sua volta. Quentin olhou para a 
mesa mais baixa; todos os olhos estavam postos nele,  espera 
de que comeasse. Estendendo a mo, pegou num bocado de po, 
partiu-o, pousou-o no seu trincho de prata e baixou a cabea 
para os seus convivas, que comearam a comer imediatamente. 
Passaram-se bandejas, encheram-se taas e a conversa comeou a 
correr alegremente. Enquanto comiam, o bardo aproximou-se da 
mesa alta, fez uma vnia ao rei e disse:
     - Vossa Majestade, quereis ouvir alguma balada? Dizei... 
o Cano da Cotovia est s vossas ordens.

     - Qualquer coisa apropriada para a boa disposio que 
reina nesta noite de Vero - declarou Quentin. - Deixa a 
bravura dos cavaleiros e os seus feitos ousados para outra 
ocasio, Esta noite quero ouvir uma balada mais leve, que 
alegre o corao.
     - Se quereis animao, Majestade, j sei o que posso 
cantar-vos! - Fazendo outra vnia, rematou: - Com licena. 
Tenho de me retirar para ir compor a letra,
     Ser rei  uma honra to grande!, pensou Quentin, Na 
verdade  uma honra muito grande. Fui mesmo abenoado.
     Depois, baixou o olhar para os seus convidados e 
participou no seu divertimento e bom humor. A vida era boa em 
Mensanddr; tudo ia bem no reino. Invadiu-o tanta alegria que 
sentiu o corao encher-se de felicidade e quase estourar 
dentro do seu peito.


        CAPITULO V


     A Lua plida erguera-se no cu, lanando para baixo os 
seus raios prateados. Toli estava sozinho no torreo do salo 
dos banquetes sobranceiro a uma parte do jardim. Os risos 
saam do salo pelas portas abertas e as luzes bruxuleantes 
das tochas batiam nas pedras, transformando-as em ouro.
     O bardo Cano da Cotovia cantava as suas baladas, para 
gudio de todos os que se encontravam l dentro. Toli ouvia a 
sua voz forte, mas no conseguia perceber as palavras, 
constantemente abafadas por gargalhadas. No fim de cada cano 
ou histria, ouvia-se uma onda de aplausos e gritos de bis.
     Mas Toli no estava muito interessado no que se passava 
l dentro. Como comeara a sentir-se pouco  vontade, 
esquivara-se silenciosamente. Queria estar sozinho e pensava 
que ningum o vira sair. Naquele momento, aspirava o doce ar 
da noite e pensava no que faria quando estivesse com ela.
     No teve de pensar muito tempo. Ouvindo um suave roagar,
virou-se e viu-a de p no umbral da porta, com a luz 
desenhando-lhe os contornos e brilhando  sua volta. Sentiu-se 
trespassado por uma dor aguda e virou-se de costas. Mas ela 
ps-se ao seu lado e ele cheirou o seu perfume delicado, 
quente e agradvel. A sua proximidade queimava-o como brasas.
     - Ah - suspirou ela -, aqui est tudo to calmo e fresco! 
O salo, com todas as luzes e risos, ficou abafado. - Falava 
suavemente. Ele no respondeu. Ento, ela tocou-lhe no brao e 
ele sentiu-se atravessado por uma chama viva. - Ol, Toli - 
sussurrou ela. - Vi-te sair do salo.
     Ele virou-se ara ela.
     - Esme... - No lhe ocorria nada para dizer. Esme, com o 
luar, nos olhos e brilhando-lhe nas tranas Compridas e 
escuras, estava ainda mais bonita do que ele se recordava. E 
ela voltara. Esme pousou-lhe as pontas dos dedos nos lbios. 
Tinha as mos frescas.
     - Chiu! No precisas de falar. Eu tambm me sinto pouco 
vontade.
     Toli fitou a mulher que amara. Porqu? Apetecia-lhe 
gritar: Porque me deixaste? O que te fez partir? Porque 
voltaste ao fim de tantos anos?
     Mas no disse nada e voltou-lhe novamente as costas. Esm 
sentiu a distncia entre eles como uma presena fsica: uma 
muralha de emoes  flor da pele, na qual no conseguia abrir 
nenhuma brecha. De repente, tudo o que encerrara no corao 

durante tanto, tempo surgiu em ondas avassaladoras. Sentiu um 
n na garganta. As mos tremeram-lhe. Inclinou a cabea e as 
lgrimas cornearam a cair.
     Houve um movimento ao seu lado.
     - Toli, eu... - comeou, levantando o rosto. Ele fora-se 
embora.

     Dentro do salo, o Cano da Cotovia tinha os seus 
ouvintes enfeitiados. Em excelente forma, inclinava-se 
perante as ovaes, com o rosto largo e bem-disposto sorrindo 
debaixo do chapu grande e baixo, com uma comprida pena verde. 
Mais uma vez, esperou que as palmas troassem pelo salo e, 
quando comearam a desvanecer-se, levantou as mos a pedir 
silncio e comeou a cantar:

               No lindo Mensandor,
               Numa noite de Vero,
               Com todas as colinas vestidas de verde,
               Ouvi, senhoras e senhores,
               A bistria que vou contar...
               Do destemido Quentin e da sua rainha!

     Foi saudado com risos e muitos vivas, pois agora o rei ia 
ser cantado para diverso dos que se achavam ali reunidos. O 
Cano da Cotovia fez uma profunda vnia e comeou a contar a 
histria com a sua voz cristalina. Era uma cano sobre um rei 
que queria casar com a mulher mais bonita do reino, a qual, no 
fim, veio a descobrir ser a filha do seu inimigo.
     Claro que a cano era muito antiga e todos a conheciam, 
mas o Cano da Cotovia cantou-a bem e inventou versos novos, 
nos quais incluiu os nomes de Quentin e de Bria e os 
conhecidos acontecimentos das suas vidas. Cativados, os 
ouvintes escutaram-no em xtase do princpio ao fim.
     Quando, finalmente, o Quentin da histria conseguiu a mo 
da sua noiva e fez as pazes com o seu inimigo, o salo foi 
atravessado por aplausos estrondosos.
     - muito bem! - gritaram os convivas. - Mais! Mais! Canta
outra vez! - Embora j se fosse fazendo tarde, toda a gente 
gritava e pedia mais. Mas o Cano da Cotovia tirou o chapu 
e, inclinando-se, agradeceu aos que estavam ali reunidos.
     - Obrigado! Obrigado! Muito obrigado! - Fez uma vnia ao 
rei. - Por hoje, as minhas canes acabaram. Posso voltar 
outra vez?
     - volta! Volta amanh! - gritaram todos.
     O Cano da Cotovia fitou o rei com uma interrogao no 
olhar. Quentin fez um gesto de cabea em sinal de assentimento 
e todos os seus convivas se lhe juntaram. Depois, 
relutantemente, pois fora um sero maravilhoso, as pessoas 
comearam a sair. Quentin levantou-se:
     - At me di o corpo de tanto me rir! Que noite! Que 
noite! - Olhou em volta. - Para onde foi o Toli? Quero falar 
com ele.
     - Creio que est ocupado - replicou Bria. - Anda. Falars
com ele amanh.
     - E a Esme?
     - Quem mais querias que fosse? Anda. - Bria pegou-lhe no

brao e afastou-se com ele. Quando saram, os servos comearam 
a apagar as tochas, entregando o grande salo aos cuidados da 
noite.
     Mal chegaram aos seus aposentos, ouviram bater  porta.
     - Quem ser? - admirou-se Quentin, indo abrir e dando com 
a companheira de Esme, Chloe, retorcendo as mos e o avental.
     - Vossa Majestade, eu... - Fitou Bria, que estava atrs 
dele. - No sei o que hei-de fazer, senhora.
     Bria avanou uns passos:
     - O que , Chloe? O que se passa?
     - Senhora... - disse, fazendo uma vnia. - Eu... podeis 
vir comigo?
     - O que foi? - inquiriu Quentin.
     - Meu marido, vai ver as crianas - interrompeu Bria. - 
Diz-lhes boa noite por mim. Eu irei v-las mais tarde. Agora, 
vai. Eu tratarei disto. - Passando por Quentin, fechou a porta 
atrs de si.
     - Onde  que ela est?
     - Nos seus aposentos. Desde que voltou, h algum tempo, 
que est a chorar, Eu no posso fazer nada por ela. Oh, 
senhora! Nunca a vi assim, nem quando o meu senhor Rathnor 
estava zangado com ela. Tenho medo...
     - Acalma-te, minha querida. Vai ficar tudo bem, 
garanto-te.
     Quando entraram na antecmara de Esme, Bria ouviu algum
a soluar no aposento seguinte.
     - Fica aqui, Chloe. Eu vou l dentro - disse suavemente,
dirigindo-se  porta,  qual bateu baixinho. Como no houve 
resposta, abriu-a e entrou.
     Esme encontrava-se deitada na cama de rosto para baixo, 
com os ombros tremendo, devido aos soluos, que saam do mais 
profundo do seu ser. Bria sentou-se no grande leito, ao seu 
lado, Sentindo instintivamente a profundidade do sofrimento da 
amiga, pousou-lhe a mo no ombro.
     - Esme, estou aqui. Estou aqui contigo. Diz-me o que 
aconteceu.
     Ainda demorou algum tempo at Esme conseguir falar. Mas,
por fim, Bria conseguiu que ela se levantasse, enxugasse os 
olhos e lhe contasse o que acontecera.
     - Oh, Bria! - fungou ela, com os olhos ainda molhados,
torcendo nas mos um lencinho hmido. - Ele odeia-me! 
Despreza-me! E no o culpo. No devia ter vindo com esperanas 
de que... Oh, nunca devia ter vindo!
     - V, v. O Toli no te odeia. - Adivinhando o que 
acontecera, Bria pronunciou o nome dele. - Tenho a certeza de 
que no. No sabes como ele ?
     - Ele fugiu de mim. Eu fui ter com ele, e ele deixou-me 
sem uma palavra! - Tinha os lbios a tremer e parecia  beira 
de outra torrente de lgrimas, mas inspirou profundamente e 
conteve-se. - Oh, Bria, devo t-lo ferido tanto! Pensava... 
pensava... Oh, no sei o que pensava. Fiz mal em vir. No 
nasci para ser feliz.
     - Que disparate! No fales assim! - ralhou Bria. - s 
muito bem-vinda; no pode ser um erro vires para um stio onde 
s amada. Quanto ao Toli, talvez no devesses ter-te 
aproximado dele to abertarnente.  bvio que teremos de 
planear cuidadosamente a maneira de ele se reaproximar de ti. 
Mas, a no ser que me engane muito, ele no te odeia, Nunca 
digas isso! Se pudssemos olhar para dentro do corao dele, 
veramos que o seu amor por ti nunca diminuiu.

     Esme fungou tristemente. Bria rodeou-a com os braos e 
cingiu-a a si.
     - Sofreste muito, Esme. E, no entanto, apesar da tua dor, 
nunca te queixaste. - Vendo o olhar de interrogao de Esme, 
acrescentou: - A Chloe contou-me. Mas porqu? Preferia ouvi-lo 
da tua boca.
     Esme fitou as mos, que tinha juntas sobre os joelhos.
     - Estraguei tanto a minha vida, Bria! Como podes 
continuar a chamar-me amiga? - Pousou as mos nas de Bria. - 
Mas sempre foste muito melhor do que eu...
     - Que disparate!
     - No,  verdade.
     Bria cingiu Esme mais a si, e ambas as mulheres ficaram 
caladas. Quando, por fim, se virou novamente para a sua amiga, 
viu que Esme estava a dormir profundamente. A rainha estendeu 
uma manta por cima dela e saiu do aposento sem fazer barulho, 
Chegada  porta, parou e olhou para trs.
     -  preciso tempo para sarar as feridas, Esme. Fica 
corinosco.

     De sobrolho carregado, Quentin, sentado a uma mesa 
grande, estudava os esboos do seu templo. Em cima da mesa 
encontravam-se duas dezenas de desenhos, dzias de planos, 
inmeras listas de inventrios e materiais de construo, 
vrios modelos de barro e de pedra da estrutura acabada, um 
grande fio de prumo, trs nveis de pedreiro, uma caixa de 
couro com pergaminhos e uma pedra do estaleiro, que servia de 
pesa-papis.
     - Ests cansado - disse Bria, surgindo por trs dele, 
pousando-lhe as mos nos ombros e esfregando-lhe levemente o 
pescoo. - Olhas para esse desenho como se no o visses.
     O rei levantou a cabea da folha que tinha  frente e 
esfregou os olhos com os punhos fechados.
     - Tens razo, meu amor. Estou cansado. H muito que 
fazer...
     - Mas nada que no possa esperar at amanh. Anda para a 
  cama.
     Quentin pousou as mos abertas na cama e, ao levantar-se, 
afastou os desenhos. Depois, olhou para a esposa, sorriu 
docemente e perguntou:
     - A nossa hspede est bem?
     - Como era de esperar, as viagens cansaram-na muito. Mas
creio que ela ainda sofre com a recordao de um casamento sem
amor e que carrega essa dor consigo.
     - Mas ele j morreu h dois anos.
     Bria assentiu:
     - Mas as feridas profundas demoram a sarar. E ns no 
sabemos a crueldade com que ela foi tratada.
     - Ela no fala disso contigo?
     - Nem comigo nem com ningum. Mas  muito claro que as
coisas no esto bem. H muita gente que no conhece uma 
felicidade como a nossa, e a Esme  uma daquelas pessoas que 
percorreu um caminho muito difcil.
     - Creio que, a seu tempo, ela nos contar tudo... quando 
estiver em condies de o fazer. - Quentin bocejou e 
espreguiou-se, e o rei e a rainha seguiram juntos at ao 
leito real.

     Quentin ainda ficou a fitar a escurido do aposento, 
pensando nos acontecimentos do dia que passara e do que estava 
para vir. Adormeceu com os olhos cheios de uma viso do templo 
acabado e sonhou com o dia da sua consagrao, durante o qual 
conduziria os seus sbditos na adorao do Altssimo.


        CAPITULO VI


     O dia da Caada do Rei amanheceu com uma relutncia 
melanclica; nuvens baixas e lgubres cobriam a plancie de 
Askelon e um nevoeiro cinzento encobria as copas das rvores. 
Os que estavam acampados e os que se hospedavam na cidade e no 
castelo ainda recearam que a chuva estragasse o dia. Mas, 
quando o Sol amarelo e deslavado subiu na abboda celeste, 
pareceu reunir foras, ficou mais brilhante e os seus raios 
queimaram as nuvens e aqueceram o ar. Os viandantes e os 
habitantes da cidade saram para as ruas e iniciaram o 
percurso at ao campo. Os que ainda estavam deitados no
castelo de Askelon acordaram e foram a correr preparar-se para 
as festividades do dia. os senhores e as suas damas (vindos de 
lugares to distantes como Endonny, Woodsend e tudo o que 
ficava pelo meio) envergavam os seus melhores atavios. Os 
cavaleiros vestiam roupas de montar de couro e vigiavam o 
tratamento dos seus cavalos, que tinham as caudas e as crinas 
entranadas com fitas douradas e prateadas e sininhos ou 
envergavam caparaes de cores vivas: vermelho e azul, dourado 
e verde, cor de violeta e amarelo.
     Por todo o lado, dos aposentos do rei s tendas montadas 
na plancie de Askelon, o entusiasmo fervilhava, rebentando em 
gargalhadas, canes e jogos improvisados. Carroas e 
carrinhos de mo saam das torres do castelo carregados de 
comida e provises, que transportavam at s cozinhas montadas 
no campo, debaixo de toldos de um amarelo vivo.
     Os coloridos pavilhes vermelhos e prateados, com a 
insgnia real (o serpenteante drago vermelho), comearam a 
encher-se por todo o campo. O fumo das fogueiras onde se 
cozinhava subia preguiosamente para o cu sem vento, na forma 
de fios de seda. Um observaddor colocado nas ameias do castelo 
de Askelon teria a impresso de que acampara ali um exrcito 
ousado e colorido, cujas fileiras iam engrossando  medida que 
cada vez mais gente chegava ao campo.
     - Pai! Pai! Anda c depressa! Olha! - gritaram as 
crianas, correndo, agarrando nas mos de Quentin e puxando-o 
para o torreo que ficava do lado de fora dos seus aposentos. 
- Olha! A caada est quase pronta! V as pessoas! Nunca vimos 
tanta gente junta!
     - Podemos entrar nos jogos, pai? - perguntou a princesa
Brianna.
     - Claro que sim - respondeu Quentin. - Haver jogos para
vs - rematou ele, estendendo a mo e afagando-lhe a cabea.
     - E podemos ver o circo? - acrescentou a princesa Elena.
     - Sim, sim! - riu Quentin.
     O jovem prncipe Gerin no pediu nada, pois considerava-
se muito crescido para prazeres to infantis. Por isso, 
limitou-se a olhar para a cena que se desenrolava l em baixo 
com um sorriso aberto e o rosto corado de excitao.
     - E tu, meu filho? O que vais fazer hoje?

     O prncipe Gerin virou-se e sorriu misteriosamente:
     - Depois vers.  segredo! Surpresa!
     - Est bem - retorquiu Quentin. - Se tenho de 
esperarar... Mas no demores muito a dizer-me, pois no 
consigo aguentar tanta curiosidade durante muito tempo! - 
Rindo-se outra vez, puxou o rapazinho para si e esfregou-lhe 
os ombros afectuosamente.
     - Ah, estais a! - disse Bria, saindo para o torreo. - 
Quanto mais cedo tomarmos o desjejum mais cedo nos juntaremos 
aos outros para o festival comear!
     As princesas carregaram o cenho, em sinal de 
desaprovao. O prncipe Gerin girou nos calcanhares e correu 
para a porta.
     - No posso comer agora! - gritou. - Tenho de ir  
procura do Toli! - E antes de a me poder protestar j tinha 
desaparecido.
     - Hoje, o desjejum  indesejvel - disse Quentin - Alm
disso, vai haver muito que comer e muito tempo para o fazer.
Se hoje algum ficar com fome, ser por sua culpa e de mais
ningum.
     Bria suspirou, fez as raparigas seguirem  sua frente e 
desceram todos para comerem uma refeio apressada antes de 
partirem para a caada.
     Havia vrios dias que os habitantes do castelo andavam 
numa grande azfama. Tinham de organizar as comidas e as 
bebidas, de montar os pavilhes que estavam dobrados e 
guardados e de preparar o campo. Os menestris e os 
saltimbancos, alguns com ces e ursos treinados, haviam 
comeado a chegar  cidade. Os mercadores preparavam os 
produtos que iam oferecer s multides e os vendedores
de comida faziam os seus acepipes especiais. Toli e o prncipe 
Gerin tinham preparado a sua surpresa, treinando vezes sem 
conta os saltos mais difceis. Ao cabo de muitos dolorosos 
trambolhes, o prncipe aprendera, por fim, a guiar o seu 
cavalo com mos de mestre e a saltar com habilidade.
     - Muito bem! Excelente! - gritara Toli no ltimo dia. - 
Ests pronto para a caada. J te ensinei tudo o que sei!
     - Achas que sim, To12
     Toli assentira solenemente:
     -  difcil encontrar no reino melhor cavaleiro do que 
tu. Ests pronto. Se no te esqueceres de tudo o que 
treinmos, estars entre os melhores.
     - A srio?
     - A serio.
     - O pai vai ficar surpreendido! - gritara o prncipe. - 
No vais dizer-lhe...
     - Nunca! Tambm quero ver a surpresa dele.
     Aqueles ltimos dias tinham sido difceis para o 
prncipe, o qual tentava desesperadamente guardar um segredo 
que o queimava por dentro e que ameaava sair-lhe de cada vez 
que abria a boca. Mas o facto era que conseguira aguentar-se: 
o segredo estava seguro.

     Naquele momento, precipitando-se para as cavalarias  
procura de Toli e do seu cavalo, corria com a velocidade do 
seu corao desenfreado. Encontrou Toli ajaezando a sua 
montada e examinando minuciosamente cada pea que ia pondo no 
cavalo, Ao aproximar-se, o principe abrandou. Tarky relinchou 
baixinho quando o rapaz estendeu a mo e lhe afagou o focinho 
lustroso.
     - Vens montado ao meu lado, no vens, Toli?
     - Claro que sim. Irei sempre ao teu lado. De que outra 
forma poderia acompanhar-te?
     - Achas que vamos encontrar algum trofu?
     - Temos tantas hipteses como os outros. Nalguns casos, a
mais. Talvez encontremos um trofu.
     Os caadores podiam caar animais mas, para maior 
recompensa do seu esforo, tambm havia prmios escondidos na 
floresta: trofus de ouro e prata, clices, taas e outros 
objectos de valor, que animavam a competio e tornavam a 
caada mais apetecvel. Muitos dos caadores nem sequer 
levavam armas, pois preferiam concentrar-se apenas na procura 
dos valiosos objectos. Era tambm esta a idem do principe 
Gerin, que queria encontrar um trofu para completar a
surpresa que faria ao pai. Quando o cavalo ficou pronto, o 
prncipe iou-se para a sela, com o corao batendo-lhe 
desenfreadamente dentro do peito. Depois, Toli e Gerin 
cavalgaram at s portas do castelo, onde se juntaram aos 
outros.

     - Muito bem - disse Nimrood, envolto em sombras. - Sabeis
o que haveis de fazer. J o vistes bem. No pode haver 
enganos. 
     Os seis homens reunidos  sua volta assentiram 
silenciosamente. Embora nenhum deles tivesse muito estmago 
para o que ia acontecer, no haveria enganos, pois todos eles 
receavam muito Nimrood e no queriam arriscar-se a 
desapont-lo.
     - Ento, dispersai-vos com cuidado. Eu esperarei aqui. 
No vos esqueais do sinal e estai atentos. Sim, meus rapazes, 
estai bem atentos! No  preciso recordar-vos que este nosso 
jogo  muito perigoso. Muito perigoso! - sibilou, fitando 
penetrantemente cada um dos homens. - Agora, ide. E estai a 
postos!
     Com o vesturio escuro desaparecendo por entre as folhas 
verdes e as sombras densas da floresta de Pelgrin, os seis 
homens, escolhidos de entre os melhores dos guardas do templo, 
afastaram-se silenciosamente.
     As feies cruis de Nimrood enrugaram-se num riso 
maldomo.
     - A minha vingana - sussurrou guturalmente para si 
prprio. - Por fim, terei a minha vingana.


                         CAPITULO VII


     Quando o rei reuniu a famlia e os amigos, o ptio 
interior encontrava-se numa grande azfama. Bria e as 
princesas iriam para o campo numa carruagem alegremente 
engalanada. Quentin e o filho conduziriam os cavaleiros, 
seguidos de Durwin, Toli e tantos nobres visitantes 
quantos os que ainda no tinham partido para o campo. No 
entanto, Esme no estaria entre eles.

     Quando tudo estava pronto, o armeiro surgiu a correr com 
um escudeiro de cada lado. Um dos rapazes transportava o 
escudo do rei, polido como um espelho, e o outro uma comprida 
almofada de cetim com a espada do rei, a Zhaligkeer, a 
Brilhante. O armeiro ajoelhou-se e estendeu as armas ao rei. 
Quentin assentiu e os escudeiros ajudaram o seu amo a ajustar 
a grande espada e, depois, entregaram-lhe o escudo, que 
Quentin pendurou ao ombro.
     Havia muito que a fama da brilhante espada se espalhara 
por toda a terra. No existia um nico campons que no 
soubesse como fora forjada nas minas perdidas dos Ariga, 
localizadas na montanha, com o lendrio minrio cintilante, o 
lantbanl. As histrias da Brilhante e do poderoso Rei 
Sacerdote, que chegara ao trono por meio de um feitio 
estranho e maravilhoso, contavam-se muito para l das 
fronteiras de Mensandor. Os que, naquele momento, o viram
com uma aparncia to forte e intrpida acreditaram nessas 
histrias mais fervorosamente do que nunca.
     Montando Blazer, o corcel de um branco leitoso que 
danava de lado, ansioso por partir, Quentin levantou a mo 
enluvada, as portas do ptio interior abriram-se de par em 
par, e o cortejo ps-se em movimento para o ptio exterior, 
atravessou a casa da guarda, passou sobre a enorme ponte 
levadia e desceu a rampa que ia dar  cidade. Embora muitos 
dos seus habitantes j tivessem partido para o local do 
festival, tinham ficado outros tantos a ladear as ruas e a 
acenar, saudar e dar vivas ao seu rei. As pessoas, muito 
contentes, iam ocupando os seus lugares atrs do cortejo que 
passava em direco ao campo.
     Sentindo-se orgulhoso e importante, o prncipe Gerin, com 
o corao esvoaando dentro do peito como um pssaro cativo, 
olhava boquiaberto para tudo o que o rodeava. Naquele dia, a 
caada parecia diferente; nada se assemelhava quilo de que se 
lembrava. Tudo mudara e se tornara mais colorido, excitante e 
arrepiante do que nunca, pois ele ia participar na caada!
     O rapaz virou-se na sela e lanou um olhar conspirador a 
Toli, que seguia atrs de si. Toli estava a falar com Durwin, 
mas reparou no olhar do prncipe e piscou-lhe o olho.
     Gerin virou-se para o que o rodeava. Os malabaristas 
atiravam facas e arcos ao ar e apanhavam-nos habilmente; um 
homem com um urso treinado por uma corrente exibia o animal a 
fazer o pino; os acrobatas revoluteavam e rodavam no ar, 
lanados uns pelos outros; uns rapazinhos, que tinham feito um 
par de andas com os ramos das rvores, tentavam aguentar-se em 
cima delas; os vendedores gritavam acima dos berros e dos 
risos, apregoando as suas mercadorias: fitas, jias e 
caixinhas facadas.
     O mundo estava cheio de som e cor. Aqui e ali, nos locais 
onde os menestris reuniam pblico para ouvir as suas canes 
mais recentes, a msica fazia-se ouvir mais alto; os cavalos 
galopavam e relinchavam, abanando as cabeas e fazendo tocar 
os guizos; as crianas corriam e riam, saltitando pela erva 
com os ps descalos.

     O cortejo entrou no campo e Gerin voltou a sua ateno 
para a competio, Em volta do comprido rectngulo do campo 
alinhavam-se tendas e pequenos pavilhes, em cujas entradas se 
viam estandartes com as bandeiras dos senhores ou dos 
cavaleiros que os ocupavam. Alguns cavaleiros encontravam-se 
c fora, tratando dos ltimos preparativos relativos s suas 
montadas ou s armas. Alguns ces de caa estavam deitados na 
erva, esperando que a perseguio coaeasse, e outros, 
pressentindo a aproximao do momento em que seriam 
libertados, ladravam ansiosamente, esticando as correntes que 
os prendiam.
     Gerin observava os pavilhes, lendo as divisas e 
procurando aquelas que conhecia: o carvalho verde dentro dos 
limites de um campo azul-celeste e dourado pertencia ao senhor 
de Grenfell, o javali e a lana num fundo vermelho ao senhor 
de Bossit e a lana e o escudo prateados sobre quadrados 
brancos e pretos era o braso de Hedric de Bellavee. Via-se 
tambm a guia prateada e azul de Benniot, o touro vermelho 
num fundo preto de Rudd e a luva fechada sobre relmpagos 
brancos de Fincher.
     Havia mais que ele no conhecia... veados e ces, punhos 
com cota de malha e morries, punhais e aves de rapina... mas 
no viu por lado nenhum os estandartes que mais queria ver: o 
falco preto em fundo vermelho e a luva cinzenta fechada sobre 
o mao e o malho cruzados.
     - Onde est o Theido, pai? E o Ronsard? No os vejo - 
disse o prncipe, olhando em volta do permetro do campo.
     - Chegaro antes de a caada acabar. O Theido mandou uma
mensagem a dizer que chegar amanh, e o Ronsard tambm. Eles
no faltaro  caada. No te preocupes; os teus amigos ho-de 
vir.
     Quando chegaram ao pavilho do rei, desmontaram. As filas
de bancadas j estavam cheias a transbordar, mas havia sempre
mais gente a chegar. Na fila da frente, por trs de um 
balastre, encontravam-se as cadeiras destinadas  famlia 
real e ao seu squito. Sorrindo e acenando a todos quantos a 
saudavam, a rainha ocupou o seu lugar, e as princesas 
sentaram-se ao seu lado. O rei, imediatamente rodeado de 
pessoas que lhe queriam bem, avanou devagar para junto da sua 
cadeira, onde permaneceu de p para fazer um sinal ao arauto.
     O toque longo e lmpido da trombeta convocou os 
cavaleiros, que entraram no campo, dispondo-se em filas  
frente do pavilho do rei. Quando todos estavam a postos, o 
rei fez um sinal de cabea para um homem com um cinturo largo 
de couro, do qual pendia uma trombeta de caa.
     Tratava-se do chefe da caada, que conduziu o seu cavalo 
baio para a frente das fileiras e comeou a recitar em voz 
alta as regras de conduta. Quando acabou, Quentin olhou para a 
multido e gritou:
     - Jurais submeter-vos s leis da Caada do Rei?
     - Juramos! - gritaram os cavaleiros em coro.
     - Muito bem! - berrou Quentin. - Que a caada comece!
     Os caadores soltaram um grande viva e todos os 
espectadores se reuniram em volta do campo. O chefe da caada 
levou a trombeta aos lbios e j ia a soprar quando algum 
ergueu a voz:
     - O nosso rei podia conduzir-nos!
     - O rei! - gritou mais algum.
     - Sim! O rei! - ecoaram os restantes cavaleiros. - 
Queremos o rei Quentin a conduzir a caada!
     Quentin sorriu e lanou um olhar  sua rainha.
     Oh, tens de ir, pai! Tens de ir! - gritaram as princesas
Brianna e Elena.
     -  verdade - concordou Bria. - Vai com eles, meu marido.

     - Est bem. Eu vou! - disse Quentin, preparando-se para 
abandonar o pavilho e montar Blazer. A multido soltou outro 
viva.
     - O rei vir connosco! - gritaram todos. De facto, 
Quentiin ia com eles todos os anos, mas era sempre costume os 
participantes pedirem-lhe que os conduzisse. Normalmente, 
seguia com eles apenas durante um bocado, regressando depois 
para presidir aos outros jogos.
     - Tambm vens, Durwin? - perguntou Quentin, descendo do 
pavilho.
     - Estou a ficar velho de mais para partir o pescoo. 
Deixo isso para os mais novos. Esperarei aqui o teu regresso.
     - Durwin! - gritou a multido. - Que o Durwin venha 
connosco!
     - Durwin! Durwin! - entoaram os cavaleiros.
     - Vs? Querem-te, Durwin. Vais desapont-los?
     - Est bem, eu vou - concordou, descendo para o campo
atrs de Quentin.
     Enquanto montavam e se preparavam para partir, Quentin
olhou para o lado e viu o filho sorrindo-lhe, com o rosto 
brilhando de ansiedade.
     - O que  isto?
     - Eu tambm vou, pai.  esta a tua surpresa!
     Antes que Quentin dissesse alguma coisa, Toli, que se 
achava ao lado do prncipe, explicou:
     - H semanas que andamos a treinar. O teu filho tornou-se
um excelente cavaleiro.
     - A srio? - indagou, fitando o filho.
     O rapaz rompeu em gargalhadas:
     - Se visses as ndoas negras que fiz, saberias que 
falamos a srio!
     Sem saber o que havia de dizer, Quentin lanou um olhar a
Bria, que, com uma expresso preocupada, assistia  cena do 
seu lugar, Quentin coou o queixo e pareceu prestes a condenar 
a situao. Fitando Toli, perguntou:
     - Achas que no h perigo? - O principe Gerin mordeu o 
lbio.
     - Eu nunca o permitiria se achasse que ele corre algum
perigo. No te preocupes, que ele sabe tomar conta de si e da 
sua montada. Alis, eu estarei sempre ao lado dele e no o 
deixarei afastar-se nem por um instante.
     Quentin assentiu, com os olhos postos no rapaz. A intensa
esperana que o jovem tinha dentro dele queimava-o como fogo.
Seria possvel recusar-lhe uma satisfao to grande?
     - Ento, como queiras - disse Quentin, abrindo o rosto 
num grande sorriso quando viu o que a sua aprovao 
significava para o filho, - Podes vir. E espero que encontres 
o maior trofu!
     - Para ti, pai. Quero encontrar um trofu para ti!
     - Toli, toma conta dele. E tu, senhor, v se obedeces ao 
Toli!
     Todos juntos, avanaram por entre os outros cavaleiros 
at  ponta do campo. O rei seguia  frente, com Durwin de um 
lado e o prncipe Gerin e Toli do outro. Quando ocuparam as 
suas posies, o rei levantou a mo e o chefe da caada tocou 
a trombeta.
     - Para a caada! - gritaram todos, fazendo os cavalos 
darem imediatamente um salto em frente e atravessarem a 
plancie a galopar, na direco da floresta de Pelgrin.

     O tropel dos cascos dos cavalos na plancie parecia o 
rufar de um tambor. Ao passarem velozes como o vento, as 
pessoas soltavam vivas aos caadores. Uma vez chegados aos 
limites exteriores do bosque, Quentin abrandou o passo e 
deixou os outros passarem-lhe  frente. Os que perseguiam a 
caa avanaram primeiro, com as lanas em riste, procurando 
pegadas entre os ramos escuros. Atrs deles seguiram os que 
buscavam trofus, e que se espalharam para continuarem 
sozinhos at aos locais secretos onde esperavam encontrar o 
seu prmio,

     - De que ests  espera? - gritou Quentin para o filho, 
que hesitou quando chegou aos limites do bosque. - Continua!
     O jovem abanou as rdeas e Tarky desatou a galopar. Toli
seguiu mesmo atrs dele.
     - Ele est a crescer - disse Durwin junto ao ombro de 
Quentin. 
     - s vezes penso que depressa de mais. - Sorriu no rasto
do filho. - Olha para ele!
     - Faz-me lembrar um outro jovem que conheci... foi assim
h tanto tempo? Se no me engano, tinha uma gua castanha.
     - Mas, se no me engano, no montava assim to bem.
     - Pois ! Mas tinha muita fora de vontade e um corao
determinado.
     - Quer dizer, teimoso - riu Quentin. - Como mudmos,
velho amigo!
     - Sim, um bocadinho... mas ainda s muito como eras 
dantes. - O eremita sacudiu as rdeas. - Anda. Vamos ver como
se sai. Se conseguires, acompanha-me! - Com estas palavras, 
lanou-se a galope.
     - Isso  maneira de falares com o teu rei, velho eremita? 
- gritou-lhe Quentin, esporeando Blazer e precipitando-se para 
dentro do bosque verde e frio.


        CAPITULO VIII


     - O dia est to bonito, senhora! No quereis ir ter com 
os outros para assistir ao festival? - perguntou Chloe, 
aproximando-se silenciosamente de Esme, que olhava sem ver 
para a plancie, onde tinham florido dezenas de tendas 
coloridas. - A caada j comeou.
     Ficaram as duas a contemplar a fila de cavalos e 
cavaleiros, que galopavam pela plancie de Askelon numa linha 
sinuosa e comprida. Passado um instante, Esme respondeu 
distraidamente:
     - Se quiseres, podes ir, Chloe. Eu ficarei...
     -    Oh, vinde, senhora. Ides gostar. A srio, sei que 
sim.
     - Ah - suspirou Esme. - Eu vou, se isso te d prazer.
     Como o dia estava bom, decidiram ir a p pelas ruas 
vazias at ao campo do festival. Falando deste ou daquele 
pormenor que notara na casa do Rei Drago, e comparando-o com 
o que conhecia de outras casas reais, Chloe no se calou nem 
um bocadinho durante todo o caminho.

     Esme ouvia distraidamente a sua serva e deixava-a 
chilrear como um pardal, sentindo-se satisfeita por no ter de 
pensar. A melancolia da noite anterior voltara com a manh. E, 
por mais que tentasse dominar-se, no conseguia libertar-se 
daquele estado de esprito. Por isso, sem esperanas de 
afastar o desespero que sentia e sem foras para o combater, 
entregava-se-lhe, deixando-se ir ao sabor da corrente.
     O que hei-de fazer?, pensava. O que hei-de fazer?
     Com a morte do marido, herdara vastas extenses de terra. 
Tinha sob a sua proteco vrias aldeias pequenas, assim como 
um castelo e uma residncia de Vero, com criados, feitores e 
servos. O seu tesouro era um dos maiores de Elsendor. Mas 
daria tudo de bom grado se isso lhe garantisse nem que fosse 
um vislumbre de esperana de ser feliz.
     - No ponhais essa expresso to carregada, senhora - 
pediu Chloe.
     - O qu? - Esme arrancou-se aos seus pensamentos 
sombrios.
     - Prometei-me que ides tentar ter um dia agradvel.
     Esme sorriu:
     - Vou tentar. Sei que no  prprio de uma dama carregar 
o cenho como um falco. - Suspirou de novo. - Oh, Chloe, o que
hei-de fazer?
     Uma vez chegadas ao local do festival, abriram caminho 
entre os pavilhes s riscas amarelas e brancas, naquela 
aaltura devassados pela curiosidade da populaa. Enquanto 
seguiam para o pavilho do rei, paravam, de vez em quando, a 
ver os acrobatas e os malabaristas ou a provar os doces dos 
vendedores.
     - Esme! Esme! - chamou uma voz. Quando se virou, viu as
duas princesinhas correndo na sua direco. - Estamos to 
contentes por teres vindo! Oh! - exclamou Brianna, quase sem 
flego. - H tanto para ver!
     - Tanto para ver! - repetiu Elena. - Anda connosco!
     - Queres ver-nos num jogo? - perguntou Briarina.
     - Por favor, tens de ver! - pediu Elena.
     - Gostaria muito - disse Esme.
     Rpidas como gafanhotos, as raparigas precipitaram-se 
para uma enorme roda de gente, reunida em volta de um jogo da 
laranjinha.
     - Ainda bem que mudaste de ideias, Esme. - Bria foi 
pr-se ao seu lado.
     Esme baixou os olhos para o cho:
     - Foi ideia de Chloe... - disse ela lentamente. Bria 
apercebeu-se do tom de desespero que tinha na voz. - Ontem  
noite, devo ter tagarelado como uma peixeira.
     - O que so umas tagarelices entre amigas? Ainda bem que
confias em mim. Comigo podes falar  vontade.
     Esme voltou a no falar durante algum tempo. As duas 
mulheres continuaram a caminhar lado a lado, em silncio.
     -  estranha, no ? - disse, por fim, Esme.
     - O qu?
     - A vida. - Esme lanou um olhar  amiga e, depois, 
desviou rapidamente a vista. - Ainda ontem tnhamos tanto  
nossa frente... tantas esperanas para o futuro, tantos 
sonhos, tanta alegria... Bons tempos!
     - Voltaro a ser bons tempos.
     - Para os outros talvez, mas no para mim. Parece que 
tenho o destino traado. Nunca fui...
     - Todos nascemos para ser felizes, Esme, s que tu viste

niuita dor e sofrimento, e essas feridas demoram tempo a 
sarar. No esperes que desapaream num dia.
     - Pensei que as coisas seriam diferentes ao vir para 
aqui, mas afinal, trouxe o sofrimento comigo.
- Ento, faremos o que for possivel para te libertar dele... 
mas tambm tens de ajudar.
     - Tentarei, Bria. Tentarei... por ti.
     - Por mim no, boa amiga. Por ti.

     Os caadores movimentavam-se pelos caminhos cheios de 
mato da floresta de Pelgrin, que vibrava com as suas vozes ou 
com o som das trombetas sempre que algum animal era apanhado 
ou algum trofu encontrado. Ao atravessarem uma clareira, pela 
qual passava um cintilante regato, Quentin e Durwin pararam 
para os cavalos beberem.
     - J ests cansado? - perguntou Durwin. Outros cavaleiros
entraram no prado, pararam ao p da gua e seguiram caminho.
     - Tenho de voltar ao festival para arbitrar os jogos. - 
Escutando o barulho que cavalos e cavaleiros faziam ao pisarem 
o matagal e sentindo o sol quente no rosto, acrescentou: - A 
caada est muito boa, no est?
     - Pois ! No me lembro de nenhuma melhor do que esta.
Mas vai-te embora. Eu ainda fico mais um bocadinho. Quero ver 
o prncipe a montar.  uma alegria olhar para ele, Vou tentar 
encontr-los.
     Quentin fez rodar Blazer, comeou a atravessar novamente 
o prado, acenou para Durwin e afastou-se a galopar.
     Durwin dirigiu-se para o outro lado da clareira, onde 
havia um carreiro que entrava no bosque. Conhecia bem a 
floresta e desconfiava que sabia onde poderia encontrar Toli e 
Gerin, pois vira-os seguindo para sul mesmo antes de entrar no 
prado com o rei.
     H quanto tempo no vivo na floresta?, pensou. Ah! H
tempo de mais! At me esqueo desta paz, deste cheirinho, 
desta beleza... Talvez eu devesse deixar o castelo e voltar 
para a minha antiga casa. Talvez. Mas fico contente por estar 
onde o rei quer que eu esteja. Sim, fico contente.
     Estes e outros pensamentos ocupavam-lhe o esprito 
enquanto percorria os carneiros cheios de folhas da floresta. 
As sombras verdes eram frias; a luz amarela do Sol penetrava 
por entre as abertas do dossel de folhas, salpicando o 
carreiro de luz em movimento. Durwin saboreava a solido do 
bosque e sentia o corao erguendo-se nos cus como um falco.
     De repente, o ar estremeceu com um grito de espanto, um 
berro sbito e agudo, que se prolongou por algum tempo e que, 
depois, foi silenciado. Como a floresta abafou o som, Durwin 
no conseguiu distinguir a sua origem, mas pareceu-lhe que 
viera de muito prximo.
     Sem querer saber dos ramos que lhe embaraavam o caminho, 
esporeou a sua montada. Ouviu-se outro grito, desta vez mais
prximo.
     Durwin atirou as rdeas para o lado e o cavalo seguiu 
pelo matagal. As urtigas picavam-lhe as pernas. Baixando-se 
para evitar os ramos, incitava o cavalo a andar mais depressa. 
Mesmo  sua frente, viu um movimento por entre as rvores e, 
por um breve instante, descortinou um cavalo a recuar e formas 
escuras, como sombras, fugindo pelo bosque.

     Passando as arvores, cavalgou at uma parte mais larga do 
carreiro, e viu Toli e o prncipe Gerin montados a cavalo, 
rodeados por trs homens com roupas escuras e espadas curtas, 
tentando encurral-los. S os faiscantes cascos de Riv 
mantinham os assaltantes  distncia.
     Sem pensar, Durwin soltou um grito e lanou-se para a 
frente. Ouvindo o seu berro, os homens viraram-se para a nova 
ameaa que caa sobre eles. O crculo desfez-se quando um dos 
inimigos foi ao encontro do eremita.
     Mas antes de o homem poder levantar a espada, Toli fez 
girar Riv, e o ombro do cavalo de guerra atirou-o ao cho. Ao 
cair, o homem gritou e os seus dois viraram-se e fugiram a 
correr, voltando a fundir-se com a floresta.
     O homem que estava no cho olhou para cima. o medo 
retorcia-lhe o rosto enfarruscado. Tinha um golpe no lbio. 
Cuspindo uma vez, ps-se de p e lanou-se por entre os 
cavalos em direco aos limites do carreiro. Depois, 
embrenhou-se no matagal e desapareceu.
     - Quem eram? - perguntou Durwin, sentindo o corao 
batendo-lhe depressa no peito.
     - No sei - respondeu Toli, - Parmos aqui para 
decidirmos por onde havamos de seguir... e eles atacaram-nos 
num abrir e fechar de olhos.
     - Ests bem, jovem prncipe? - indagou o ermita.
     O principe Gerin assentiu lentamente, com os olhos muito 
abertos.
     - o que achas que queriam?
     Toli semicerrou os olhos na direco dos assaltantes em 
fuga.
     - Isso  o que eu tenciono saber. - Lanou um olhar 
rpido do prncipe para Durwin. - Fica aqui com o Durwin. Ele 
tomar conta de ti. Volto j.
     O prncipe fez meno de protestar, mas fechou a boca e
obedeceu.
     - Tem cuidado; Toli. No tens nenhumas armas.
     - Voltai j para o campo - ordenou Toli. - Eu irei l ter 
convosco. - Com estas palavras, embrenhou-se com Riv no 
matagal, atrs dos homens misteriosos.


        CAPITULO IX


     - H maldade no ar - observou Durwin em voz baixa. - 
Sinto-a. o mal ronda aqui por perto.
     O prncipe Gerin fitou intensamente o eremita. Depois, 
cerrou os dentes e olhou para a frente com uma expresso 
sombria. Este gesto fez lembrar a Durwin um outro jovem que 
sempre enfrentara o perigo com a mesma determinao 
silenciosa. Como o jovem prncipe era parecido com o pai!
     Iam eles pelo carreiro que Toli e o prncipe tinham 
percorrido em sentido contrrio, quando Durwin levantou a mo 
e parou.
     - Escuta! - sussurrou. Puseram os dois a cabea de lado e
ouviram um roagar nos arbustos que ficavam atrs deles, ao 
lado do carreiro.
     - Talvez seja o Toli - sugeriu o prncipe.

     Durwin sentiu-se ainda mais rodeado pela escurido, cuja 
presena e fora desesperada eram quase palpveis. Nessa 
altura, ocorreu-lhe que, havia muito tempo, j dera com uma 
fora assim to maligna... exactamente da mesma maneira.
     - Temos de fugir! - murmurou asperamente. Gerin reagiu
depressa e sem perguntas. Com um agitar de rdeas, os dois 
cavalos deram um salto em frente e comearam a percorrer o 
serpenteante carreiro da floresta, em direco  segurana da 
plancie. Mas ainda no tinham ido muito longe quando viram no 
carreiro dois homens com as mesmas roupas escuras dos que 
haviam encontrado antes. Os homens agitaram as suas espadas em 
frente dos cavalos e gritaram com ferocidade. Os animais 
pararam e viraram-se. Durwin fez girar a sua montada e Gerin 
imitou-o, mas, quando iam a retirar, apareceram mais dois 
bandidos no carreiro, atrs deles.
     - Para ali! - gritou Durwin, apontando o ma tagal. O 
ereita hesitou, deixou que o prncipe passasse por ele como um 
relmpago e lanou-se atrs dele.
     Mas o pnei ficou emaranhado nas silvas e tropeou, O 
prncipe Gerin gritou ao deslizar pelo pescoo do cavalo. Com 
um grunhido, aterrou no cho.
     - Depressa! - berrou Durwin. - Monta outra vez! Depressa!
     O rapaz ps-se em p de um salto e agarrou as rdeas 
penduradas no pescoo do cavalo, que tentava levantar-se. 
Ainda antes de o animal o conseguir, j o prncipe estava de 
novo sentado na sela.
     - Foge! - gritou Durwin. - Foge!
     O eremita baixou o olhar, viu vrias mos tentando 
chegar-lhe, fez das rdeas chicote e ouviu algum praguejar. 
Ainda esporeou a montada para seguir atrs do prncipe, mas 
sentiu que lhe agarravam o brao. O cavalo cambaleou para a 
frente e Durwin foi atirado da sela, debatendo-se enquanto 
caa.
     Aterrou de costas nos limites do carreiro. Ao ver um 
claro na sombra e ouvir o ar assobiando por cima da sua 
cabea, lutou para se pr de joelhos e sentiu um golpe agudo 
de lado. Quando se virou e se atirou de costas para o 
carreiro, ouviu o sopro do ar por entre dentes cerrados e viu 
um arco de luz baixando sobre si. O golpe atingiu-o nas 
costas. Os seus joelhos dobraram-se e ele caiu no carreiro.
     Durwin ps a mo de lado e sentiu um calor molhado 
impregnando-lhe o vesturio. Quando a retirou, a 
semiobscuridade da floresta no o impediu de ver as gotas 
vermelhas que dela pingavam. O ferimento queimava-o; as chamas 
percorriam-no, vindas da dor palpitante que sentia mesmo 
abaixo das costelas. Tentou Levantar-se, mas caiu outra vez: 
tinha as pernas entorpecidos e insensveis. Houve um movimento 
rpido ao lado dele, um grito na floresta, um pouco para a 
frente, e o estalar de ramos. Depois, outro grito mais 
afastado e o silncio.
     O tempo enrolou-se, abrandou e pairou imvel. A mente de
Durwin parecia um furaco. Fora atingido por uma espada 
invisvel. Em vez de acabarem com ele, os atacantes haviam ido 
atrs do prncipe Gerin. Tinha de avisar Toli. Mas como? 
Tentou gritar, mas o esforo que fez custOu-lhe uma dor 
abrasadora. Tossiu e cuspiu. Tinha a saliva raiada de sangue. 
       A ferida  grave, pensou, mas no interessa. 
Encostou-se para trs, ofegante. Tinha de chamar Toli. O santo 
eremita da floresta de Pelgrin fechou os olhos e comeou a 
rezar:

     - Deus Altssimo, ouvi o vosso servo nesta hora de 
necessidade. Trazei o Toli at ns para nos salvar. Trazei-o 
depressa, antes que seja tarde. Salvai o prncipe. Que no lhe 
acontea nada de mal...
     Foi envolvido por uma nvoa negra, que se apoderou dele. 
Lentarnente, os seus lbios deixaram de se mexer. jazia de 
costas na erva musgosa e macia do carreiro da floresta, e por 
baixo dele ia-se espalhando uma feia mancha vermelha.
                    
     Quentin j passara os limites de Pelgrin e comeara a 
atravessar a plancie, quando hesitou. Aquilo que ouvira era 
um grito? Parou e ficou imvel como uma pedra.
     O ar estava calmo e quente; uma brisa muito leve soprava 
preguiosamente, levantando as folhas e a erva que o rodeavam. 
Ali perto, uma cotovia chilreava a sua cano para o Sol.
     Apesar de tudo, pareceu a Quentin que o brilho dos cus 
diminura de intensidade, que uma nuvem passara em frente do 
Sol, tapando o seu rosto por um breve instante. Depois, tudo 
ficou como dantes, mas o rei sentiu um formigueiro que lhe 
alertou os sentidos para um perigo desconhecido.
     Por isso, virou imediatamente Blazer para a floresta e, 
deixando-se guiar pelos seus instintos, foi avanando por um 
carreiro que dava para sul, pois sentia que era dessa direco 
que viera o grito que imaginara ouvir. Os troncos das rvores, 
bandas de luz e sombra, iam-se esborratando  medida que 
Quentin avanava por este obscuro corredor de Pelgrin. Com o 
corao batendo-lhe fortemente no peito, incitava Blazer a 
andar cada vez mais depressa na direco que apenas os 
instintos lhe ditavam.
     Ao atingir uma pequena clareira, parou.  sua frente, no 
carreiro, viu uma trouxa. Era um corpo?
     Quentin deslizou da sela, correu at l, ajoelhou-se e 
fez rolar o corpo nos braos.
     - Durwin!
     O  rosto do eremita estava da cor da cinza. Com um 
estremecimento das plpebras, focou o amigo com os seus olhos 
enevoados:
     - Ah, Quentin...
     - O que aconteceu? Quem te fez isto?
     - O prncipe... o teu filho. Levaram-no...
     - Quem? Deixa-me ajudar-te...
     - No, no. Deixa-me. Vai procurar o teu filho. Eles 
foram por ali. - Debilmente, fez um gesto de cabea.
     - Quantos?
     - Trs ou quatro. No os vi muito bem. Talvez sejam mais.
O Toli... ah! - A dor contorceu-lhe as feies; os seus braos 
e pernas estremeceram e, depois, descontraram.
     - Cuidado. Havemos de encontr-los. Agora, descansa - 
disse Quentin, esforando-se por permanecer calmo.
     - Sim, vou descansar. - A voz do eremita era fraca, mas 
os seus olhos fitavam intensamente os de Quentin. - 
Percorremos juntos um longo caminho, h? - Tossiu e fechou os 
olhos com fora
     -  verdade, e ainda temos outro tanto para percorrer. - 
Quentin apertou-o com mais firmeza.
     - Acho que o percorrers sozinho. Mas estou satisfeito... 
no tenho medo de morrer.

     - Tu no ests a morrer! - gritou Quentin 
desesperadamente, com um n formando-se-lhe na garganta. - 
Vais sobreviver. J vem a quem te ajude.
     - Temo que venha tarde de mais. - Tornou a fitar Quentin.
     - No censures o Toli. A culpa no  dele.
     - No compreendo - retorquiu Quentin.
     - S forte, Quentin. Lembra-te de que s o rei. Tens de 
governar o teu reino. Esta vai ser a tua prova mais amarga, o 
teu dia mais sinistro.
     - No! - Quentin via a vida a fugir do amigo. - Tu nunca
morrers!
     - Pois ! O esprito nunca morre... nunca. Voltaremos a 
encontrar-nos, bom amigo. Esperarei por ti. Nem dor nem 
medo...
     - No me deixes! - gritou Quentin.
     O corpo do eremita foi atravessado por um leve 
estremecimento e imobilizou-se. A sua respirao soltou-se num 
suspiro. Durwin morrera.


        CAPTULO X


     - Loucos! Imbecis! - praguejou Nimrood. - O que fizestes? 
- Rodava em volta do crculo, apontando o dedo nodoso para os 
rostos srios que tinha  frente. - Pag-lo-eis com as vossas 
vidas!
     - S fizemos o que nos ordenastes - disse o chefe dos 
guardas do templo. - Como havamos de saber que ele ia deixar 
o principe? Eles estavam juntos,
     - Silncio! Deixai-me pensar! - Parou para fitar 
furiosamente o prncipe Gerin, que, por sua vez, o observou 
com uma expresso de desafio. - Mandei-vos apanhar um homem e 
trazeis-me um rapazinho!
     - j disse que ele . o prncipe! - teimou o homem.
     - Isso  verdade? - perguntou Nimrood, pousando os olhos
no rapaz, - Como te chamas?
     - Gerin - respondeu ele firmemente, - Quem s tu?
     - Descarado! - O velho estendeu a mo e esbofeteou-o, 
deixando-lhe uma marca vermelha na face.
     - O meu pai diz-te - ameaou o prncipe. - Solta-me.
     - No - retorquiu lentamente Nimrood, com uma ideia 
formando-se-lhe no esprito. - Aqui est uma coisa que posso 
usar em meu favor. - Sorriu astutamente, - Claro, claro. - Deu 
uma risadinha para si prprio e ordenou: - Trazei-o!
     Comearam a caminhar, embrenhando-se mais profundamente
na floresta. Dois homens muito grandes empurravam o prncipe 
para a frente. Quando Gerin caa de gatas, eles levantavam-no 
pela gola e tornavam a empurr-lo. Um outro guarda conduzia 
Tarky pelas rdeas.
     - Vs os dois - disse Nimrood, apontando para os dois
homens que seguiam na retaguarda -, ficai para trs. Se vier
algum na nossa peugada, acabai com ele. Ouvistes?
     Os dois homens entreolharam-se com um ar preocupado, mas
assentiram e deixaram-se ficar para trs. Dali a pouco, 
Nimrood, o prncipe e os outros estavam perdidos no meio da 
densa vegetao da floresta. Os dois guardas ficaram a ver os 
seus camaradas a desaparecer.
     - Isto no me agrada nada - murmurou um deles para o

outro. - Nem um bocadinho, por Ariel! Ns somos guardas do 
templo, e ele transformou-nos em raptores e assaltantes de 
estrada!
     - No te ouvi queixares-te - replicou o outro num tom de
voz desagradvel. - Agora que estamos metidos nisto, no temos
outro remdio seno continuar.
     - Pois sim, mas onde ir isto tudo dar? Isso  que eu 
gostava de saber. Cheira-me a morte. A morte, ouves? Isto 
ainda vai ser a desgraa do templo.
     - Est calado! j temos preocupaes que cheguem. Para 
sairmos disto vivos, temos de nos manter alerta e de deixar de 
miar como gatos doentes.
     - Ele levou o prncipe! Por Ariel...
     - Cala-te! Estamos to metidos nisto como ele. No vale a
pena continuarmos a choramingar. Anda, vamos embora.
     Tomando a direco seguida pelos outros, afastaram-se os 
dois, escutando nervosamente os sons da floresta e esperando, 
contra todas as esperanas, que ningum fosse atrs deles.

     Toli entrou no carreiro, avanou para a clareira e, ainda 
antes de ver as formas que estavam no cho, percebeu que se 
passava qualquer coisa. A terrvel apreenso que se apoderou 
dele fez o seu corao dar um salto e bater-lhe fortemente 
dentro do peito. Desmontando rapidamente, correu para o stio 
onde Quentin se encontrava segurando o corpo de Durwin nos 
braos.
     - Senhor! Oh! - Percebendo o que acontecera, estacou e
ajoelhou-se.
     Quentin levantou lentamente a cabea. Tinha o rosto 
molhado de lgrimas.
     - O Durwin morreu - disse baixinho. - Morreu. Toli, eu... 
- A voz treineu-lhe e ele tornou a cingir o corpo, com os 
ombros sacudidos pelos soluos que o assolavam.
     Toli sentiu-se como se lhe tivessem cortado o corao ao 
meio. Sentando-se nos calcanhares, ergueu o rosto para o cu, 
cuja tonalidade azul-clara se via por entre as rvores. Dali a 
pouco, ouviu-se na clareira verde e calma o delicado som da 
voz de Toli, entoando o antigo cntico jher para os mortos:

          Whinoek brea faro lleani,
          Falle sensi nessina wea.

     As palavras eram simples, e Quentin percebia-as. Toli 
cantava: Pai da Vida, recebei o nosso irmo. Dai-lhe a paz na 
vossa morada.
     Para o delicado povo jber, que no tinha nenhuma 
habitao permanente e que vagueava pelas florestas do norte, 
a morada de Whinock significava alegria, segurana, paz e 
conforto eterno, o que representava a satisfao do seu maior 
desejo.
     Passado algum tempo, a cano acabou e desvaneceu-se 
docemente no ar. Quentin pousou cuidadosamente o corpo do 
eremita no cho e, com a ajuda de Toli, arranjou-lhe os braos 
e as pernas, afastou uma madeixa de cabelo do rosto largo do 
homem que amara e beijou-lhe delicadamente a testa alta. 
Depois, levantou-se devagar.
     - Ho-de amaldioar o dia em que nasceram - murmurou. -
Vou atrs deles.
     - No, deixa-me ir a mim. Eu...

     - Eu vou. Vai ao castelo buscar um atade e, depois, 
leva-o para l. Irei ter contigo quando encontrar o meu filho.
     - Mas... - objectou Toli, levantando-se e aproximando-se 
do rei.
     -  tudo - cortou Quentin friamente. - Faz o que te digo.
Quando acabares, e se eu ainda no tiver voltado, vai atrs de 
mim com alguns cavaleiros.
     - O que vais fazer? - Toli estava assustado com a 
expresso do seu amo.
     - Vou buscar o prncipe. - Com estas palavras, virou-se e
encaminhou-se para o local onde Blazer esperava pacientemente.
     Pegando nas rdeas, saltou para a sela e olhou novamente 
para o corpo do eremita, estendido no cho. - Adeus, velho 
amigo - disse simplesmente, erguendo a mo devagar, numa 
saudao final. Depois, afastou-se.

     - Porque se demoraro tanto? - interrogou-se Bria em voz
alta. - j deviam ter regressado.
     Esme, sentada ao lado da rainha no pavilho real, esticou 
o pescoo e olhou para a floresta:
     - No vejo vir ningum. Mas sabes como so os homens e
as suas caadas. No me admirava nada que se tivessem 
entusiasmado e esquecido do resto.
     - Tens razo. De certeza que foi isso que aconteceu - 
Apesar destas palavras, Bria, no seu ntimo, estava pouco 
convencida. Mas virou outra vez o olhar para os usuais 
pantomineiros que actuavam  sua frente e cujos fatos 
brilhantes cintilavam ao sol.
     As duas princesinhas soltavam risadas e batiam palmas de 
alegria. Bria tentou mostrar interesse pela actuao, mas, de 
vez em quando, ao ver que Quentin, Durwin e os outros no 
regressavam, os seus olhos desviavam-se para a floresta. Mas, 
como nunca descortinava ningum, acabou por se obrigar a 
concentrar-se no espectculo.
     - Olha! - sussurrou Esme. - Um cavaleiro!
     A rainha levantou os olhos e fitou o ponto indicado por 
Esme, conseguindo distinguir apenas a forma de um cavaleiro 
atravessando a plancie.
     - Oh! S um! - Uma seta de temor trespassou-lhe o 
corao. - Aconteceu alguma coisa!
     - No sabemos - retorquiu Esme, dando pouca importncia
ao assunto. - Vamos esperar at ouvirmos o que ele tem para 
nos dizer. Talvez seja s um mensageiro a informar-nos de que 
o rei se atrasou... coisa que j sabemos. - Riu-se, mas sem 
qualquer alegria na voz.
     - Quem ? Consegues ver? - Bria levantou-se.
     - No, ainda no.
     Esperaram. A tenso esticou-se como a corda de um arco.
     Enquanto o cavaleiro se aproximava, a rainha Bria 
retorcia nas mos a parte da frente do vestido.
     -  o Toli! - gritou Esme.
     - Pois , estou a v-lo! - Bria afastou-se da sua 
cadeira, - Anda! No aguento mais tempo aqui. Ficai com a 
Chloe - disse s filhas. - volto j.
     - Eu olharei por elas, senhora - respondeu Chloe.
     As duas mulheres precipitaram-se para o campo, espalhando
actores, que se afastaram para as deixar passar e que, depois, 
continuaram a sua actuao.

     Encontraram-se com Toli nos limites do recinto das 
festividades.
     - O que foi? - perguntou a rainha, cuja intuio j lhe 
dava a pior resposta possvel.
     Toli fitou-a com gravidade. No olhou para Esme, Bria 
sentiu uma fina lmina de terror deslizando-lhe por entre as 
costelas.
     - O rei... - murmurou. - O rei no...
     Toli pegou na mo da rainha.
     - Senhora, o rei est bem - disse suavemente, 
perscrutando-lhe o olhar em busca de fora para continuar.
     - Sim, diz. - Bria fitou-o com firmeza.
     - O Durwin morreu.
     - Como? - arquejou Bria,
     - Uns raptores assaltaram-nos na floresta. Ele morreu a 
proteger o prncipe.
     - E o prncipe? Est so e salvo? - indagou Esme.
     - Desapareceu, Levaram o prncipe...
     - No! - murmurou Bria. O som das vozes e o tinido dos 
guizos que os rodeavam desvaneceu-se, dando  rainha, que 
cambaleou sob a fora de um golpe mortal, a sensao de que o 
mundo se esborratava perante os seus olhos.
     - Onde est o rei? - perguntou Esme, esforando-se por 
manter a voz firme.
     - Estava com o Durwin quando o encontrei. Foi atrs do 
prncipe, - Lanou um olhar breve a Esme, como se reparasse 
nela pela primeira vez. - Venho buscar um atade para trazer o 
Durwin pam o castelo e depois regressarei com alguns 
cavaleiros para junto do rei.
     - Ns trataremos do atade. Tu tens de ir imediatamente 
reunir os cavaleiros, como o rei ordenou. Vai depressa.
     Toli hesitou, pois no tinham sido aquelas as instrues 
do rei. Bria voltou a si:
     - Concordo. No desperdices nem um momento. Vai. - Bria
pousou-lhe a mo no brao. - Vai depressa, por favor.
     Toli continuou hesitante:
     - Eu devia ter l estado - disse. - Nunca devia t-los 
deixado sozinhos.
     - No - retorquiu Esme. - No h tempo. O que est ferito
est feito.
     - Vai. Ele precisar de ti com ele - acrescentou Bria.
     - Muito bem. O Durwin est numa clareira do carreiro que
vai para sul. Mandarei algum para vos guiar. - Toli inclinou 
a cabea, voltou a montar e partiu outra vez para a floresta, 
onde poderia encontrar os cavaleiros de que precisava, pois 
estavam quase todos na caada.
     Bria virou-se para a amiga e tentou falar, mas da sua 
boca no lhe saiu qualquer palavra.
     Esme passou-lhe um brao  volta dos ombros.
     - Anda. H muito que fazer. Temos muito com que nos
cupar enquanto esperamos. E rezemos para que a espera no seja 
muito longa.
     -  verdade, temos de rezar pelo Quentin e pelo Gerin, 
que bem precisaro das nossas oraes.


        CAPTULO X1


     Uma vez em Pelgrin, Toli meteu pelo primeiro carreiro que 
ia dar ao corao da floresta. Os caadores tinham-se 
embrenhado no bosque e haviam-se dispersado muito. Para 
encontrar pistas ao longo do carreiro e ouvir os sons 
produzidos pelos caadores, Toli teria de manter os olhos e os 
ouvidos alerta. Quando chegou a um local onde um regatozinho 
cantava por entre os grandes troncos de carvalhos antigos, 
viu, nas suas margens, vrias pegadas de cascos, as quais 
indicavam que numerosos cavalos haviam ali parado para
beber, antes de prosseguirem caminho. Sem pensar duas vezes, 
saltou o regato e embrenhou-se na floresta atrs deles.
     Dali a pouco, foi recompensado com o som de uma trombeta.
A nota longa e lmpida chegou de longe, mas, como permaneceu 
uns instantes no ar, deu a Toli as indicaes de que ele 
precisava. Alerta a todos os sinais indicativos da passagem 
dos caadores, Toli seguiu-os sem hesitar, atravs do matagal 
denso e emaranhado, Riv avanava de cabea baixa e orelhas 
puxadas para trs. O cavalo, que respondia sempre at  mais 
subtil das ordens do seu dono, passava como um jogo de luz e 
sombra por entre as rvores e os ramos estendidos no
caminho.
     De sbito, Toli ouviu vozes um pouco  frente e deu uma 
palmada na garupa de Riv, que saltou um tronco cado e foi 
aterrar no meio de um carreiro muito usado.
     - Eh! - gritou um dos homens ao ver Toli. - O Toli! 
Olhai! - Os que estavam com ele levantaram a cabea. Eram 
quatro: Galen, Bossit, Hedric e Dareth. Estavam a esquartejar 
um javali que tinham acabado de matar. Toli deu graas ao 
Altssimo por encontrar estes homens valentes e corajosos em 
primeiro lugar.
     - Meu senhor Galen... meus senhores... - saudou Toli, 
puxando as rdeas de Riv, que relinchou alto. Quando os outros 
viram os flancos do animal cobertos de espuma, perceberam que 
Toli tinha alguma misso urgente.
     - O que se passa, senhor? - perguntou Bossit. Uma 
expresso de preocupao toldava-lhe as feies.
     - O ministro do rei foi abatido e o prncipe raptado - 
disse Toli, quase sem flego, devido  cavalgada que fizera.
     - Pelos deuses! - explodiu Hedric, pondo-se em p de um
salto.
     - Como?
     - Quando?
     Toli inspirou profundamente:
     - Fomos atacados pelos assassinos no bosque, no muito 
longe daqui... mesmo h bocadinho. Eu fui atrs deles, mas 
eles recuaram e caram sobre o prncipe. O Durwin tombou ao 
querer proteg-lo.
     - O eremita morto? o herdeiro desaparecido? - 
Entreolharam-se sombriamente.
     - Montai imediatamente e vinde comigo - continuou Toli. -
Vamos ter com o rei, que segue no seu encalo.
     - Por Zoar, esses patifes pagaro caro este ultraje! - 
jurou Galen. - Estamos s tuas ordens, senhor!

     Com estas palavras, os cavaleiros abandonaram a sua 
presa, montaram os seus cavalos e fizeram fila atrs de Toli, 
que avanou at ao stio onde enfrentara os assaltantes. 
Seguindo o mais depressa que podiam, chegaram, por fim,  
clareira, onde reinava a tranquilidade e a frescura. 
Borboletas amarelas esvoaavam por entre as folhas,
entrando e saindo de raios de luz que caam obliquamente 
atravs das rvores. Um tordo cantava nas copas altas, 
lanando para o ar um
som lmpido, lquido e cristalino, impregnado de pureza e 
doura.
     A clareira parecia encantada, e ningum se atrevia a 
quebrar o feitio daquele lugar.
     Durwin ainda jazia onde o tinham deixado. Achava-se to 
imvel e tranquilo que parecia estar apenas adormecido. A 
estranheza da cena fez com que, ao princpio, ningum falasse.
     O eremita jazia morto, mas parecia to em paz que os que 
o olhavam s conseguiam fit-lo com temor. A sua presena 
fazia-se sentir fortemente; cada um deles teve a sensao de 
ser tocado por Durwin-
     - Devia ficar algum com ele - disse Bossit. - Eu fico.
     - No - replicou Toli em voz baixa. - Ele est em 
segurana aqui na floresta. Agora, j nada lhe pode fazer mal. 
Vai ao castelo e indica o caminho aos outros. A rainha traz um 
atade. Trata de tudo.
     - Como queiras, senhor. - E partiu imediatamente.
     - O rei foi para sul - indicou Toli, virando Riv e 
tomando o carreiro que ia nessa direco. Os outros cavaleiros 
seguiram-no sem uma palavra.

     Quentin passou a pente fino uma vasta extenso da 
floresta, primeiro avanando por um caminho durante meia lgua 
ou mais e, depois, virando para outro, Mas, apesar do seu 
cuidado e vigilncia, no conseguiu descobrir nenhum sinal dos 
assassinos em fuga.
     No entanto, continuava a avanar sempre para sul, pois, 
embora soubesse muito bem que os raptores podiam ter tomado 
outra direc-o, tinha o pressentimento de que fora aquela a 
que eles haviam escolhido. A floresta era imensa; para a 
cobrir toda, seriam necessrias dezenas de homens e muitos 
meses de buscas diligentes, Enquanto cavalgava, Quentin 
tentava dominar a crescente sensao de futilidade e desespero 
que o invadia e crescia dentro dele como um caldo
preto e nojento fervendo ao lume.
     Parava periodicamente para se pr  escuta, mas s 
detectava os sons normais e preguiosos do bosque. Depois, 
continuava.
     De repente, sem qualquer aviso, Blazer desceu uma encosta
curta e inclinada, e Quentin encontrou-se na estrada que ia 
para sul, na direco de Hinsenby, e que, depois, curvava para 
sudoeste ao longo da costa. Por um momento, deixou-se ficar 
imvel na sela, perscrutando ambos os lados da estrada. Como 
no viu nada de extraordinrio, virou-se mais uma vez para sul 
e prosseguiu a sua jornada.
     Um Pouco mais  frente, chegou a um valezinho arborizado,
onde a estrada mergulhava de encontro s margens rochosas de
um ribeiro. Foi aqui que encontrou a sua primeira pista: na 
poeira da estrada, junto s margens do ribeiro, descobriu 
vrias pegadas feitas por homens e pelos cascos de um cavalo.

     As pegadas pertenciam a algum que sara da floresta 
naquele ponto, depois de ter seguido o ribeiro at este se 
encontrar com a estrada. Havia mais pegadas do outro lado do 
regato. Blazer chapinhou na gua e Quentin inclinou-se na sela 
para as examinar. Era difcil saber qualquer coisa a partir 
daquelas pegadas, pois havia mais ao longo da estrada.
     A caada!, pensou Quentin. Como sou tolo! Todas estas
pegadas pertencem s pessoas que foram ao festival. De 
repente, a sua esperana, que renascera to depressa, morreu
Mas no inteiramente. De todas as marcas impressas na poeira, 
s umas poucas se dirigiam para sul. As outras apontavam para 
norte, na direco de Askelon.
     Agarrando-se a uma prova to tnue, Quentin voltou a 
incitar o robusto Blazer a prosseguir. Enquanto o cavalo voava 
pela estrada larga, o rei procurava quaisquer sinais da 
passagem do seu filho.

     - Escuta! - disse um guarda d@ templo para o outro. - Vem
a algum.                                                    
       Pararam os dois a examinar a parte da estrada que 
tinham deixado para trs e ouviram o tilintar de pequenos 
guizos... dos que os cavalos usavam nos arreios.
     - Sai da estrada. Se pararem, puxa da espada e est a 
postos - ordenou o primeiro guarda.
     - Mas... - protestou o outro. As mos tremiam-lhe ao 
tocar na arma que tinha escondida de lado, por baixo da capa.
     - Depressa! Eu ficarei aqui e tentarei desviar-lhes a 
ateno.
     - Porque fomos escolhidos para esta amaldioada tarefa? - 
resmungou o outro.
     - Faz o que te digo! Depressa! Eles esto quase aqui!
     O assustado guarda lanou um olhar sombrio ao camarada e
desapareceu no matagal que crescia ao lado da estrada. Dali a
pouco, o primeiro guarda viu cavaleiro e cavalo aproximando-se
rapidamente.
     - Tu a! - gritou Quentin. O nervoso cmplice virou-se e
pestanejou, fingindo no saber bem se era a ele que se 
dirigiam, e deu com os olhos no alfinete de ouro trabalhado 
que prendia a capa do cavaleiro: um terrvel drago 
serpenteante, o braso real.
     Ao reconhecer Quentin, o homem foi percorrido por um 
arrepio e a cor esvaiu-se-lhe do rosto.
     - Com que ento, conheces o teu rei, no ?
     O homem humedeceu os lbios e retorquiu:
     - Estou s vossas ordens, Majestade. - Os seus olhos 
esquivavam-se constantemente.
     - H quanto tempo ests nesta estrada? - inquiriu 
Quentin.
     - Bem, ns... eu... h pouco... quer dizer...
     - Para onde vais?
     - Para Hinsenby, Majestade.
     - Vais sozinho? - Quentin bem via que o homem estava 
aflito com as suas perguntas.
     - Vou, Majestade. - Os olhos do homem voltaram a 
esquivar-se.
     - Viste algum no caminho?
     Depois de pensar por um momento, o homem replicou:
     - Vi. Ainda h pouco. Ali atrs, ao p do ribeiro. Um 
grupo de viandantes. Suponho que eram mercadores.
     - Quantos eram?
     - Cinco ou seis. Pareceu-me que iam para Askelon.

     Quentin virou-se na sela e olhou para trs. No, as 
pegadas apontavam para o outro lado. Nessa altura, viu as 
marcas que se afastavam da estrada. Voltou-se novamente para o 
homem, mesmo a tempo de o ver olhar rapidamente para o lado.
     - Mercadores?
     - Suponho que sim, Majestade.
     - E tu tambm s mercador? - perguntou o rei com um
ar desconfiado,
     - Eu sou... - o homem hesitou - peregrino, Majestade.
     - Dizes que iam para Askelon? Ia algum rapaz com eles? Um
rapaz a cavalo?
     O falso peregrino abriu a boca, mas as palavras 
colaram-se-lhe  lngua.
     - Responde depressa, amigo! Tens uns modos muito 
estranhos.
     O viandante corou:
     - No, no ia nenhum rapaz com eles. Eu, pelo menos, no
vi nada.
     - Mentiroso! - gritou Quentin, carregando furiosamente o
cenho. - Perto da gua, vi pegadas de cavalo que continuam
nesta direco.
     O guarda do templo olhou muito srio para o rei e no 
disse nada.
     - Mentir ao rei  uma ofensa grave - continuou Quentin,
em voz tensa mas controlada. - Vou dar-te mais uma 
oportunidade. Para onde  que eles foram?
     - No sei, Majestade. Por favor... no ...
     - Ests conluiado com eles? - berrou Quentin. - Responde!
     Nesse momento, ouviu-se um roagar entre os arbustos que 
cresciam  beira da estrada. Quentin voltou-se na altura em 
que outro homem, vestido como o primeiro, com uma tnica 
escura e uma capa comprida, apesar do calor que fazia, saltou 
do seu esconderijo, de espada na mo. Este segundo homem, com 
os olhos abertos de terror, precipitou-se desajeitadamente 
para a frente, gritando:
     - Ataca!
     Quentin virou-se e viu uma lmina na mo do primeiro 
peregrino.
     A Zhaligkeer cantou ao ser desembainhada. A sua lmina 
comprida luziu com o brilho frio que lhe vinha do intenso fogo 
interior, Quentin fez girar a temvel espada por cima da 
cabea.
     - Vs matastes o Durwin! - berrou.
     Os dois homens viram a terrvel espada e recuaram 
assustados.
     - Assassinos! - gritou Quentin. - Cobardes!
     - Piedade! - implorou o primeiro assaltante. - Piedade...
suplico-vos!
     A clera atravessou o esprito de Quentin como metal 
derretido; a sua fria selvagem invadiu-o com uma fora cega.
     - Piedade? - gritou. - Serei to piedoso convosco como
vs fostes com o Durwin!
     Antes de o homem ter tempo para se virar e fugir, a 
Brilhante silvou no ar e descreveu para baixo um cintilante 
arco mortal. O assassino em potncia levantou rapidamente a 
espa acima da cabea, na tentativa de aparar o golpe, mas a 
lmina estilhaou-se na sua mo e os pedaos caram ao cho. 
Com o som de uma morte certa assobiando atrs de si, o homem 
guinchou e caiu de joelhos.

     - Piedade! - gritou. - Perdoai-me! - A brilhante 
Zhaligkeer encheu-lhe os olhos horrorizados com a sua luz 
etrea e ele ps as mos  frente do rosto. O golpe atingiu-o 
na nuca, interrompendo-lhe o ltimo grito de remorsos. O homem 
caiu para a frente. J estava morto ao tocar no cho da 
estrada.
     Um fino fio vermelho escorria pela lmina da Zhaligkeer.
Quentin rodou na sela para encarar o segundo vilo, que atirou
a arma para o cho e mergulhou de cabea nos arbustos, 
desaparecendo na floresta.
     A raiva que queimara tanto as veias de Quentin 
desapareceu to depressa como se incendiara. O rei contemplou 
o desgraado morto na poeira, depois a espada que tinha na 
mo, e o corao gelou-lhe dentro do peito. A temvel lmina 
da Zhaligkeer, que mostrava um brilho bao  luz desvanecente 
do fim da tarde, parecia agora feita de um qualquer metal 
vulgar.
     A viva chama branca da Brilhante desaparecera.


        CAPITULO XII


     Em silncio, as mulheres entraram na clareira, que pouco 
mais era do que um stio onde o carreiro se alargava. Esme e 
Bria saltaram dos seus cavalos. Bossit mandou parar a pequena 
carroa de duas rodas que transportava o atade. Ao 
imobilizarem-se, as rodas de madeira chiaram, produzindo o 
nico som que se ouvia naquele lugar.
     - Oh! - arquejou Bria ao ver o amado eremita. Avanando
devagar mas com firmeza, a rainha ajoelhou ao lado do corpo. 
As lgrimas comearam a correr-lhe silenciosamente.
     Esme aproximou-se e passou o brao  volta dos seus 
ombros.
     - Adeus, doce amigo - murmurou Bria, estendendo os dedos
para tocar nas mos cruzadas e j frias de Durwin. Depois, 
virou-se para Bossit, respeitosamente de p ali perto. - A 
minha me est  espera, Vamos lev-lo.
     Bossit fez um sinal de cabea ao condutor da carroa, e 
os dois homens iaram o corpo para o atade.
     Quando soubera da tragdia, Alinea no dissera nada, mas 
ficara com as mos a tremer. Depois, quando falara, fizera-o 
em voz baixa mas firme: j dominara a dor ou, pelo menos, 
pusera-a de lado.
     - Sim - dissera. - Tendes de ir busc-lo imediatamente.
Levai-o para os seus aposentos. Prepararemos l o corpo. 
Esperarei o vosso regresso e, enquanto espero, rezarei... pelo 
prncipe Gerin, claro, mas tambm pelo Quentin e por todos 
ns. Agora, ide, e que Altssirno vos acompanhe.
     Esme ficara maravilhada com a fora e a serenidade da 
rainha-me, que acalmara os que a rodeavam, consolando-os da 
dor daquela noticia to amarga, e recordara um outro dia 
sombrio: o dia em que Eskevar tombara na batalha. Uns dias 
depois do funeral do rei, Esme perguntara  rainha como 
conseguira manter-se to forte, consolando os que a rodeavam, 
sem parecer precisar ela prpria de ser consolada.

     - No, eu no sou forte - dissera-lhe Alinea. 
Encontravam-se sentadas no jardim, entre as primaveras. Tambm 
estava l Durwin, que fora a companhia constante da rainha 
durante aqueles dias atribufados. - Embora seja verdade que o 
sofrimento no me  estranho, ningum faz amizade com a dor. 
Mas aqui o Durwin mostrou-me o caminho da esperana. Esta 
esperana que trago dentro de mim torna-me o fardo mais leve e 
ajuda-me a consolar os que no a tm.
     - Ento, dizei-me, senhora, que quero saber: como poderei
obter essa vossa esperana? Onde posso encontr-la? - 
perguntara Esme, que ainda se lembrava das palavras de Alnea.
     Mas tambm se lembrava das de Durwin:
     - A esperana que procuras nasce da f no Altssimo, no 
Deus nico e Verdadeiro - afirmara ele. - Procura-o e 
encontr-lo-s. Ele est sempre de mo estendida para os que 
desejam conhec-lo verdadeiramente.
     - O que tenho de fazer? Onde  o seu templo?
     Durwin rira-se:
     - Ele no  como os outros deuses. No tem nenhum templo 
e no aceita oferendas de prata ou de ouro nem sacrifcios de 
criaturas indefesas.
     - No? - Esme ficou muito admirada.
     - No. - Durwin rira-se outra vez. - Ele quer-te a ti 
toda, de alma e corao. Quer o teu amor, a tua adorao, 
tudo... no se contentar com menos.
     - Serves um deus muito exigente, eremita.
     -  como dizes: ele  exigente. Mas as bnos que 
concede aos que dele se aproximam no tm preo. O que ele d 
 nada menos do que a vida.
     Nessa altura, Esme reflectira muito naquelas palavras, 
que lhe tinham parecido estranhas e completamente diferentes 
das que alguma vez ouvira da boca de um sacerdote, Lembrava-se 
bem de conto o corao lhe batera dentro do peito ao ouvir o 
eremita falar. Ah! pensou, mas eu era mais nova. To nova! 
No entanto, queria acreditar na verdade das palavras do 
Durwin. Querer acreditar ser o mesmo que acreditar? Apesar de 
tudo, o tempo passou e, at hoje, nunca mais pensei nisso. 
Porqu agora? Ser tarde de mais?
     Esine despertou do seu devaneio e deu com os olhos de 
Bria, que a observava.
     - Ests perdida nos teus pensamentos - disse Bria. Tinham
chegado aos limites da floresta e estavam a comear a 
atravessar a plancie. Askelon cintilava  luz do sol-poente, 
lanando uma grande sonibra na sua direco.
     - Estava a pensar noutra altura tambm muito triste - 
replicou Esme. - Na morte do rei Eskevar.
     - Tenho pensado muitas vezes nesse dia horrvel. Quando o 
Gerin nasceu, como desejei que ele pudesse ver o neto! Sei que 
teria ficado muito orgulhoso. Tanto como se visse as netas. - 
Fez um esgar de angstia. - Oh, Esme! Tiraram-me o meu filho! 
O que hei-de fazer?
     - O rei anda  procura dele e o Toli vai ajud-lo. Eles 
encon-tr-lo-o e tr-lo-o so e salvo.
     -  to pequeno! Tenho medo que lhe... - No conseguiu
completar a frase.
     - No penses nisso! Ningum se atreveria a fazer mal ao 
prncipe. Ningum. Ele est bem. - Esme afivelou um sorriso 
forado. - Claro que no serias uma me a srio se no te 
preocupasses com o teu filho, mas o Quentin vai encontr-lo.
     Bria assentiu com a cabea. Passado algum tempo, disse:

     - Ainda bem que ests aqui, Esme. Vou precisar de uma boa
amiga durante os dias que se avizinham.
     - Serei sempre tua amiga.
     Percorreram em silncio o resto do caminho at ao 
castelo, cada uma perdida nos seus prprios pensamentos, mas 
sempre sentindo o calor da presena da outra.

     Espantado, Quentin pestanejou para a espada que tinha na
mo. Bastara um golpe impiedoso para o fogo da lmina de 
lantbanil branco se extinguir. O terrvel significado do que 
acontecera atingiu-o como um relmpago. E, mais uma vez, ouviu 
as palavras proferidas na altura da uno da espada:

    Nunca por maldade, nunca por dio, nunca em prol do mal  
 ser esta lmina erguida, mas na rectido e na justia 
brilhar para sempre.

     Era a promessa da Brilhante e ele, num claro de fria e 
dio, quebrara esse voto. E, ao quebr-lo, o Altssimo 
retirara dele a sua mo. Sentia-se esmagado pelas dimenses do 
seu crime.
     - No! - gritou. A sua prpria voz, que o condenava, 
soou-lhe a falso.
     A fora escapou-lhe do brao e largou a espada. A lmina 
girou e caiu na poeira da estrada, a menos de um passo do 
corpo do miservel que matara.
     Assassino!, gritou-lhe a voz do morto. Assassino! Depois, 
vozes acusadoras ecoaram na floresta. O rei  um assassino! 
Faltou  sua palavra! Assassino! Onde est agora o teu 
Altssimo? Assassino!
     Para no ouvir as vozes, Quentin tapou os ouvidos com as
mos, mas elas tinham-lhe entrado dentro da cabea. No 
conseguia cal-las. Horrorizado, contemplou a Brilhante, cada 
na poeira, e o corpo enrolado que jazia ao seu lado. A repulsa 
deu-lhe volta ao estmago; um espasmo f-lo balanar para trs 
na sela.
     - No! - gritou novamente, no mais completo desespero. - 
No!
     Depois, fez Blazer virar-se, enterrou profundamente as 
esporas nos flancos do cavalo e afastou-se a galopar.

     - O que  aquilo ali  frente? - perguntou Galen.
     Toli levantou rapidamente os olhos. Tinham parado no 
regato, para os cavalos beberem um pouco de gua antes de 
prosseguirem. De modo a ver melhor o stio para onde o 
cavaleiro apontava, semicerrou os olhos.
     Com a sua viso de guia, reconheceu uma forma vagamente
humana.
     -  um corpo - disse, subindo para a sela.
     Quando os outros l chegaram, Toli j se achava debruado
sobre o cadver. Ao vir-lo, a cabea tombou obscenamente: 
fora quase decepada ao nvel dos ombros. Os pedaos da espada 
do homem encontravam-se por baixo dele.
     - Quem lhe deu um golpe assim queria v-lo mesmo morto -
comentou Galen.
     - Quem teria sido? - indagou Dareth. - Nesta floresta no 
h ladres.
     Nem os salteadores lhe teriam feito nada. No vedes como

est vestido? - replicou Hedric. - Se calhar, houve alguma 
rixa entre ladres.
     - Ou raptores - disse Toli lentamente. - Se no me 
engano, ainda hoje encontrei este homem na floresta. Ou um 
outro muito parecido com ele.
     - Mas mat-lo na estrada... porqu? - Dareth abanou a 
cabea. - No faz sentido. Deviam saber que havamos de 
encontr-lo.
     Toli fez uma busca rpida na zona mais prxima, 
vasculhando as marcas confusas impressas na poeira, em busca 
de uma pista que lhe dissesse o que acontecera. Mas no ganhou 
muito com os seus esforos. Havia muitas pegadas, o que 
tornava impossvel dizer quantos homens tinham passado ali e 
quem ia a cavalo ou a p. No entanto, contou as pegadas de, 
pelo menos, dois cavalos. Aparentemente, um dos cavaleiros 
tomara parte na luta que acabara com a vida do raptor.
     - Parece-me que o rei passou por aqui - observou Toli,
olhando para sul.
     - Achais que este infeliz atacou o rei? - perguntou Galen 
com incredulidade. - Devia ter alguma razo para isso, mas foi 
um mau passo que deu.
     Toli assentiu pensativamente e lanou um olhar para o 
cu. O Sol Projectava sombras compridas atravs da estrada:
     - Temos de o enterrar depressa, J estamos a ficar sem 
luz e quero avanar o mais possvel.
     A um sinal de Toli, os cavaleiros comearam a abrir um 
buraco pouco profundo nos arbustos que ladeavam a estrada, 
servindo-se, para isso, das suas espadas, Toli e Galen 
examinaram as roupas da vtima, em busca de alguma pista que 
lhes dissesse quem era ou de onde viera.
     Depois de enterrarem o cadver, partiram novamente os 
quatro. O Sol ia muito baixo e as primeiras estrelas j 
piscavam no cu. Quando escureceu, o ar arrefeceu muito. No 
entanto, sem ligarem ao cansao nem  fome que comeava a roer 
atrs das fivelas dos seus cintos, os cavaleiros seguiram em 
frente.
     De certeza que o Quentin esteve l atrs, ia pensando 
Toli enquanto cavalgava. Senti-o. Mas tambm senti outra 
coisa. Uma coisa muito poderosa... mais poderosa do que a 
morte daquele infeliz. Mas o qu? O que seria?


        CAPITULO XIII


     - Olha, Tip - disse o homenzinho redondo -, um stio bom
para descansares os ossos, vs? Ou andamos ainda mais um 
bocadinho?
     A cadela olhou para o dono e abanou a cauda.
     - Pronto, est bem. Hoje j andmos muito. No vale a 
pena afastarmo-nos muito da estrada. Tens razo. - Com um 
tinido e um bater de latas, Pym, o amolador, comeou a 
desembaraar-se dos seus fardos, largando os pacotes, sacos, 
potes, panelas e ferramentas vrias que carregava as costas.
     Mas pousou um dos pacotes cuidadosamente no cho e 
encostou-o direito a uma pedra. Depois, com os olhos vivos 
cintilando de alegria e esfregando as mos de satisfao, 
disse:

     - Agora, Tipper, vamos arranjar lenha! - Bateu palmas. -
 disso que precisamos, no? Daqui a pouco escurece. Vamos 
buscar lenha para fazer uma fogueira.
     Dali a pouco, o pequeno amolador e a cadela estavam 
enroscados  frente de um lume acolhedor, comendo a sua sopa e 
observando as estrelas que surgiam no cu  medida que a noite 
se instalava pacificarnente sobre a terra. De vez em quando, o 
homem olhava furtivamente para o pacote esguio, embrulhado em 
trapos, que encostara  pedra.
     - Vs aquilo, Tip?  a nossa fortuna - dizia, soltando 
uma risadinha para si prprio.
     Quando acabaram de comer o caldo, rapando o ltimo 
restinho com pedaos de po seco, o amolador pegou no pacote e 
pousou-o sobre os joelhos.
     - Olha, Tip. O velho Pym encontrou a nossa fortuna.  
verdade. Eu bem te disse que havia de encontrar. Olha, olha!
     Com os dedos a tremer, afastou cuidadosamente os trapos. 
A luz bruxuleante da fogueira revelou uma grande espada, 
comprida e fina, cuja superfcie macia e imaculada se 
afunilava at formar uma ponta mortal. O punho brilhava como 
se tivesse sido talhado de uma pedra preciosa.
      uma beleza - disse em voz baixa e respeitosa. - No
 uma espada vulgar, ai isso  que no. Aqui o Pym bem v
que no. Sabes, sei um bocadinho de espadas, e aposto que esta
 de rei. Ai , . - Os seus dedos contornaram a fina lmina, 
mal ousando tocar-lhe.  vista da arma, os seus olhos 
encheram-se de admirao.
     A grande cadela preta observava o dono com a cabea 
pousada nas patas, escutando o som da sua voz.                
       - Esta espada  mesmo uma beleza - continuou ele. - No 
foi feita para mos vulgares. H-de haver algum que d bom 
ouro por ela... uma fortuna, sabes. O que eu pedir. Olha, Tip, 
vamos ter que chegue para comprarmos uma carroa. Ah!, e outra 
pedra de amolar... redonda e com pedal. Assim, posso amolar 
facas, tesouras, arados e... e tudo o que precisar de ser 
amolado. Posso, posso, Tip. Era a
nossa fortuna!
     O amolador contemplou a espada com satisfao, ainda sem
acreditar bem na sorte que tivera. Depois, ao lembrar-se de 
como encontrara a espada, foi percorrido por um arrepio.
     - Tive pena do corpo, Tip. Muita pena. Mas no tive nada
a ver com isso. J o encontrei assim... na estrada. Pareceu-me 
que no estava morto h muito tempo. Tu viste-o primeiro, no 
foi, Tip? Pois foi. Quando rosnaste, percebi logo que se 
passava alguma coisa. Tu no rosnas sem razo, e aquilo era 
mesmo razo que chegasse. Um homem morto na estrada. Terrvel! 
Com a cabea quase cortada e esta... esta espada no cho ao 
seu lado.
     Pegando na espada com a mo, avaliou-lhe a fora. O seu 
rosto luziu de admirao.
     - O velho Pym sabe o que  um trabalho de mestre. H-de
haver algum a dar bom ouro por isto... o que eu pedir. O 
suficiente para uma carroa e uma pedra de amolar.
     De repente, ocorreu-lhe um pensamento. E se o homem morto 
na estrada fosse o proprietrio da espada? Nesse caso, quem 
lhe daria o ouro?
     Carregando o sobrolho, virou a espada  luz da fogueira e 
abanou a cabea.

     - No, aquele nunca teve nenhuma espada assim - concluiu 
por fim. - No. Nem ele nem ningum... talvez s um rei.
     Ao ser assaltado por um outro pensamento, os seus olhos 
abrirain-se de niedo. E se pensassem que a roubara? E se 
pensassem que fora o velho Pym que matara o homem e lhe ficara 
com a espada?
     - No! Eu nunca mataria um homem nem lhe roubaria a 
espada. O velho Pym  um homem pacfico. Toda a gente sabe 
disso. Encontrei a espada na estrada. Como l foi parar,  que 
no sei. Mas, agora, tenho de ter cuidado. Muito cuidado. H 
muita gente que no se importaria de roubar isto a um amolador 
pobre e velho. E ento o pobre Pym perdia a sua fortuna. - 
Olhou tristemente para o seu trofu. Depois, o seu rosto 
voltou a iluminar-se. - Temos de a esconder, Tip!  isso que 
vamos fazer: escond-la. Vamos embrulh-la num pano e 
escond-la onde ningum a possa encontrar. Depois, vamos
andar alerta para ver se sabemos alguma coisa desta espada. 
Temos de a esconder bem, Tip. E vamos esconder!

     Nas profundezas da floresta, a noite tornara-se uma 
cortina preta que s deixava ver o brilho ocasional de uma ou 
outra estrela atravs dos ramos entrelaados. Como a Lua ainda 
no se erguera no cu, era difcil seguir os atalhos. O 
prncipe Gerin, que se arrastava de cabea baixa, exausto por 
aquela prova to dura, s ansiava por se estender a descansar 
debaixo de uma rvore, deixando que o sono lhe apagasse a 
lembrana daquele dia to terrvel.
     - Vamos parar aqui durante umas horas - disse Nimrood aos
outros, - Por esta altura, j devem estar desorientados, No 
nos encontraro, mas precisamos de ter cuidado para no sermos 
vistos.
     Os homens estavam cansados de mais para falar. Muito 
fatigados, encOntravam-se de p olhando em volta e pensando 
vagamente como seria que o ancio que os chefiava encontrava 
foras para continuar.
     -  o dio que no o deixa parar - sussurrou um guarda 
para o outro. - Olha para ele: to velho, e fresco que nem uma 
alface! Por ele, caminhvamos toda a noite!
     - Por ele, talvez, mas por mim, no - respondeu o homem
que estava ao lado.
     - Vs a! - invectivou Nimrood. - Deixai-vos de 
segredinhos e tratai do prisioneiro. Revezai-vos para o 
guardar. No vos esqueais de que perderas a cabea se o 
deixardes fugir.
     O principe Gerin s ouviu parte do que foi dito. No 
momento a seguir, estava a ser meio arrastado, meio atirado 
para uma rvore prxima,  qual foi atado com uma corda. Nem 
tentou resistir; estava com muito sono.
     - Pronto - disse o seu guarda. - Porta-te bem e no nos
ds trabalho, menino. No queremos fazer-te mal, mas no 
tentes fugir... isso  que pode ser muito doloroso.
     Gerin limitou-se a olhar sonolentamente para o homem, 
bocejou e encostou-se  rvore. Dali a pouco, estava a dormir 
profundamente.
     - Olha para ele - comentou um guarda. - No h neste 
mundo nada que o preocupe.
     -  o prncipe, por Ariell Ningum se atreveria a 
levantar a mo contra ele - respondeu-lhe o companheiro.

     - Fala baixo! - avisou o outro. - Que o Barba Comprida 
no te oua!
     - Ah, o Barba Compridal  frio como o gelo. Uma fonte de 
sarilhos... eu bem disse. Olha o que aconteceu: um morto e o 
prncipe raptado.  o suficiente para destruir o templo!
     - Chiu! Ele est a olhar para ns' No te esqueas de que 
estamos a tentar salvar o templo.
     - Isto no  bom... nada bom... - resmoneou O guarda, 
bocejando e preparando-se para dormir.
     O outro, que estava de vigia, sentou-se numa pedra, 
apoiou o queixo na mo e passeou o olhar pelos que j dormiam, 
e cujo ressonar zumbia suavemente no ar da noite. Bocejou, 
espreguiou-se e sentiu-se invadido pelo torpor.
     O Ervis tem razo, pensou. Isto no  nada bom.  bem 
possvel que acabe por destruir o templo. Mas eu no tenho 
culpa. S estou a cumprir as ordens do sumo sacerdote. No 
tenho outra sada.
     Voltou a bocejar e cruzou os braos por cima do peito, 
cabeceou e, dali a pouco, estava a dormir como os outros.

     Quentin sentia os olhos a arder e doam-lhe as costas; 
andara todo o dia na sela e no estava habituado a isso. 
Sentia os msculos doridos ficando mais rgidos  medida que o 
frio da noite se lhe ia entranhando nos ossos. Mas, fazendo 
orelhas de mouco ao corpo, que lhe gritava para parar e 
descansar, agasalhou-se melhor na capa curta e continuou a 
avanar penosamente.
     Havia horas que a escurido cara sobre o carreiro, no o 
deixando ver nada. Mesmo assim, Quentin continuava em frente, 
esperando que um milagre o fizesse atravessar no caminho dos 
raptores. S a ideia de que o filho estava algures na 
escurido, assustado, feito prisioneiro, o fazia continuar a 
andar.
     Com o corao despedaado, entorpecido pela tristeza e 
pelo desespero, s apetecia a Quentin atirar-se ao cho e 
chorar a sua desgraa. Apenas algumas horas atrs, a luz 
estava do seu lado, o reino seguro e o futuro era uma promessa 
brilhante. Agora, s havia escurido. No espao de meio dia, 
perdera o filho, o melhor amigo e, o que era pior, a graa do 
Altssimo. A cabea andava-lhe  roda com a enormidade da sua 
desgraa, o corao doa-lhe de pesar e o corpo palpitava-lhe 
de sofrimento e exausto. Como era possvel? Como pudera tudo 
acontecer to rapidamente? Porque no tivera nenhum aviso, 
nenhum sinal do que ia suceder? S conseguia abanar
a cabea e cismar.
     Por um instante, imaginou que s precisaria de pr Blazer 
novamente a caminho de casa e que tudo voltaria a ser como 
dantes, que uma vez de regresso a Askelon encontraria Durwin 
vivo e o prncipe na cama, so e salvo, e a espada nos seus 
aposentos, pousada nos suportes, abaixo da divisa real, com a 
chama intacta e o deus ainda com ele.
     Mas tudo no passava de um sonho e a lgubre realidade 
permanecia inalterada. Combatendo o desespero, Quentin decidiu 
que, no sabia como, havia de endireitar tudo novamente. Podia 
faz-lo: era O Rei Drago. Havia de endireitar tudo. Assim 
determinado, esporeou Blazer. O cavalo, de cabea baixa, 
seguiu em frente, sem grandes pressas,


        CAPTULO XIV


     - Esto aqui, senhora. Chegaram. - A serva aproximou-se
sem fazer barulho, para no perturbar a viglia da sua rainha.
     - O qu? O Quentin voltou? Voltou? - Ps-se em p de um
salto, com uma luz fugaz iluminando-lhe os olhos verdes. 
Depois, ao ver o olhar da serva, a luz apagou-se, - Oh!
     - No, o rei ainda no voltou - respondeu, abanando a
cabea e acrescentando: - Mas os meus senhores Theido e 
Ronsard esto aqui. Vs pedistes-me para vos chamar logo que 
chegassem. Esto  espera no salo.
     A rainha Bria desceu imediatamente ao encontro dos seus 
velhos amigos.
     - Senhora! - disse Ronsard, quando a viu aproximando-se 
do outro lado do salo. Excepto alguns servos que preparavam 
as mesas para o desejem, que seria servido dali a pouco, eram 
as nicas pessoas que l se encontravam. - Ests lindssima! - 
observou o cavaleiro, sorrindo afectuosamente.
     - Mesmo como a tua me - acrescentou Theido. - Como est 
a rainha-nie?
     - Theido, Ronsard, ainda bem que estais finalmente aqui.
Perdoai-me por vos tirar to cedo das vossas camas quentes. A 
minha me est bem. Estou certa de que querer receber-vos, 
mas, primeiro, quero falar convosco.
     Reparando nas sombras que lhe escureciam o sorriso, 
Theido percebeu que- a rainha os convocara por qualquer razo 
muito urgente.
     - Talvez este no seja o lugar mais apropriado para 
discutirmos assuntos importantes - disse ele. -  melhor irmos 
para um stio mais privado.
     - Tens razo - concordou Bria. - Segui-me. - Saindo do
salo, a rainha atravessou um corredor largo e entrou numa 
diviso pequena, uma sala de conselho que continha uma mesa 
pesada com bancos dos dois lados e vrias cadeiras de costas 
altas dispostas num canto mais afastado. Depois de terem 
entrado os trs,fecharam a porta sem fazer barulho e sentaram-
se de frente uns para os outros.
     - Bem - comeou Theido docemente -, o que aconteceu?
     Bria olhou de um cavaleiro para o outro. Eram homens que 
toda a vida conhecera. Leais amigos dos seus pais, vrias 
vezes haviam servido o trono do Rei Drago, e estavam sempre a 
postos para voltarem a servi-lo. A firme devoo deles e a sua 
prpria aflio foram mais fortes do que ela, que, deixando-se 
ir abaixo, desatou a chorar.
     - Nem sei por onde hei-de comear - disse, com as 
1grimas correndo-lhe dos olhos.
     Sentindo a profundidade da sua dor, os dois cavaleiros
entreolharam-se, sem saberem o que fazer.
     - As palavras saem-me com dificuldade, bons amigos. - 
Fungando, a rainha esforou-se por conter as lgrimas. Os 
cavaleiros esperaram que ela continuasse. - O Durwin morreu - 
disse por fim.
     - Pelos deuses! No! - exclamou Ronsard. - No digas 
isso!
     Theido levantou a mo. Bria continuou:
     - E o meu filho foi raptado.

     - Quando  que isso aconteceu? - perguntou Theido. - E 
como aconteceu?
     A sua voz grave ajudou Bria a acalmar-se e a comear a 
falar com mais facilidade:
     - Foi ontem, durante a caada. O prncipe iaacompanhar a
caada... estava to orgulhoso! Era a primeira vez... o Toli 
ia com ele. O Quentin e o Durwin tambm iam, mas depois 
regressariam para se juntarem s festividades. - Fungou outra 
vez, mas manteve a voz firme. - O rei demorou tanto tempo a 
voltar que pensmos que decidira juntar-se  caada. Ento... 
ento o Toli apareceu e... contou-nos o que tinha 
acontecido... Oh... - Fez uma pausa para reunir foras e 
continuou: - Foram atacados e afugentaram os assaltantes. o 
Toli seguiu-Os, mas perdeu-lhes o rasto. Quando voltou
a juntar-se ao Durwin e ao Gerin, eles... o Durwin estava 
morto e o ptIncipe tinha desaparecido. O Quentin mandou o Toli 
buscar ajuda. isto passou-se ontem. Nunca mais os vi.
     Theido no disse nada, mas os seus olhos escuros e o seu 
rosto carregado mostravam bem o que estava a pensar.
     Ronsard bateu com o punho cerrado no brao da cadeira:
     - Quem ser que se atreveu a fazer uma coisa destas?  um
ultraje!
     - No entanto, temos de organizar imediatamente uma 
busca... para ser franco, julgo que j passou tempo de mais. 
Se os raptores estavam a cavalo, podem ter ido at bem longe.
     - Mas se o que querem  um resgate, talvez no tenham ido
nada longe - contraps Ronsard. - Alis, at podem estar muito
perto.
     Theido baixou vivamente a cabea, em sinal de 
assentimento:
     - Sim, pode ser que tenhas razo. De qualquer modo, temos
de nos apressar. Senhora, na ausncia do rei, permites-nos 
comandar um destacamento de cavaleiros?
     - Tudo o que quiserdes.
     - Excelente! - disse Ronsard. - Conheo bem aqueles que
serviram sob as minhas ordens. Podemos comear por eles.
     - Vai - interveio Theido. - Rene-os e certifica-te de 
que levam os trajes apropriados. Eu j irei ter convosco.
     Ronsard levantou-se e fez uma pequena vnia  rainha. 
Depois, afivelando um sorriso constrangido, disse:
     - Coragem, senhora. Havemos de encontrar o prncipe. - 
Com grandes passadas, saiu da sala.
     - H mais alguma coisa que possas dizer-nos? - perguntou
Theido a Bria.
     - Sei to pouco... no... j contei tudo o que sei. O 
Toli podia contar mais, mas no est c. Talvez o Bossit saiba 
alguma coisa. - Estendendo a mo, pegou na de Theido. - 
Encontra-o, bom antigo. Salva o meu filho, tal como uma vez 
salvaste o meu pai.
     Theido apertou-lhe a mo, fazendo-a sentir a confiana 
dele fluindo para ela.
     - Sei que, de uma forma ou de outra, havemos de 
encontr-lo. No sei o tempo que vai demorar, mas havemos de o 
trazer so e salvo. Podes acreditar que sim... tens de 
acreditar que sim.
     - E acredito. Quero acreditar. Rezo para que assim seja - 
replicou ela.
     - Isso, reza. A tua me ensinou-me o poder das preces das
mulheres. Creio que o deus escuta melhor o corao da mulher.

     - Ento, escutou o meu durante esta noite. - Inclinando a
cabea, continuou: - Oh, Theido, se lhe acontecer alguma 
coisa, no sei...
     - Havemos de o trazer so e salvo - acalmou-a ele. - 
Vers. - Levantou-se devagar. - Agora, tenho de ir procurar o 
Bossit. Quanto mais cedo partirmos, melhor.
     - Pois, vai. Theido... obrigado por teres vindo. Nem 
sabes o que isso significa para mim.
     - S queria que a ocasio fosse mais alegre, senhora. Mas 
estes dias ho-de passar depressa e tudo voltar a ser como 
dantes. -  O cavaleiro alto e magro baixou-lhe a cabea e 
saiu.

     Nas ltimas horas da noite, quando toda a terra esperava 
silenciosamente o novo dia, Quentin parara ao lado da estrada 
para descansar e adormecera debaixo de um laricio, com a capa 
estendida por cima de si. O sono no lhe proporcionou nenhum 
alvio ou conforto; o seu descanso, irregular e irrequieto, 
foi perturbado por sonhos de perseguies inteis e de 
recontros violentos com um inimigo invisvel. Embora dormisse, 
abateu-se sobre ele uma sensao desesperda,de medo e perda, 
que lhe trespassou o corao com a crueldade de um punhal
envenenado, fazendo-o gemer de dor, Acordou pior do que quando 
se deitara e levantou-se fatigadamente, Tinha os msculos 
doridos da cama dura entre as raizes da rvore.  luz vermelha 
e crua da madrugada, Quentin esfregou os olhos pisados e 
preparou-se para voltar a pr a sela em Blazer.
     - Quentin! - O rei virou os olhos na direco do grito e 
perscrutou a semiobscuridade do carreiro da floresta. O Sol 
ainda no nascera completamente e a estrada ainda estava 
envolta em sombras, mas Quentin conseguiu descortinar as 
formas dos cavaleiros que se aproximavam. Passado algum tempo, 
reconheceu Toli, que saa da escurido cavalgando na sua 
direco.
     Por fim, encontrmos-te! - As feies do jher estavam 
marcadas por uma noite de insnia, mas os seus olhos 
mostravam-se to apurados e vivos como sempre.
     - Viste alguma coisa? - perguntou Quentin,
     - No. Isto , nada a no ser o corpo de um desgraado 
cado na estrada - Os olhos de Toli examinaram cuidadosamente 
o rei.
     - Sim - retorquiu Quentin inexpressivamente, virando-se, 
pondo o p no estribo e voltando a montar, - Tambm o vi.
     De momento era melhor no tocar mais no assunto. Por 
isso, Toli no insistiu, os outros juntaram-se-lhes, ansiosos 
por poderem desmontar e esticar os msculos doridos. Ningum 
falou directamente ao rei, cuja, aflio lhes paralisava a 
lngua.
     S Toli teve a temeridade de o puxar para o lado e de lhe
falar abertamente:
     - O que queres que faamos, Kenta? - perguntou, usando o
afectuoso nome de outrora,
     - Encontrai o meu filho! - retorquiu Quentin asperamente, 
com a disposio to crua como a nova manh.
     Sensatamente, Toli ignorou o seu comentrio:
     - Devamos ir buscar mais hgmens ao castelo; assim, 
poderamos organizar melhor as buscas. Precisamos de cavalos 
frescos e de mantimentos.

     - Faz o que quiseres - replicou o rei, firmando bem o
queixo. - Continuarei a busca sozinho.
     - Para onde vais?
     - Para sul.
     - Porqu sul? Eles podem ter sado do carreiro em 
qualquer ponto.  noite, seria fcil no lhes vermos as 
pegadas.
     - O que queres que faa mais? - gritou Quentin. Os outros

olharam para ele, obrigando-o a baixar a voz. - No tenho 
outro caminho melhor.
     - Volta connosco para Askelon, onde poderemos descansar e
preparar-nos para uma busca a srio. Podemos mandar 
mensageiros a todas as cidades e vilas, alertando-as para os 
patifes. Podemos...
     - O meu filho foi raptado, Toli! - Quentin fez um gesto 
largo na direco da grande floresta. - No voltarei sem o 
encontrar. No posso regressar at ele estar a salvo.
     Toli perscrutou o rosto daquele que conhecia to bem e 
que, no entanto, naquele momento, parecia um completo 
desconhecido
     Alguma coisa mudou o meu Kenta, pensou. Isto no  
nada dele. A morte do Durwin e o rapto do filho 
atormentaram-no, afligiram-no. Sim, mas havia mais qualquer 
coisa. De repente, viu a bainha vazia pendendo da cintura de 
Quentin, e compreendeu tudo.
     - volta cormosco, Kenta - disse docemente. - Ontem, ainda
tnhamos hipteses de os encontrar rapidamente, mas agora... 
agora j tiveram tempo para apagar as pistas, para voltarem 
atrs... quem sabe onde estaro? Para os encontrar, precisamos 
de ajuda e de quem nos comande. Tu s o rei. Quem nos 
comandar seno tu?
     - Qualquer um! - retorquiu Quentin asperamente. - 
Qualquer um melhor do que eu. Comanda tu a busca, Toli! - Os 
olhos do rei brilharam selvaticamente e a sua boca 
contorceu-se num esgar de dio. - O sangue do Durwin pesa 
sobre ti... assim com o do meu filho, se lhe acontecer alguma 
coisa, Eles estariam agora connosco se no os tivesses deixado 
sozinhos. s tu o responsvel... a culpa  tua!
     Sem conseguir falar, Toli fitou o seu amo e amigo. 
Quentin nunca lhe levantara a voz, nunca se zangara com ele. 
Mas pensou, o rei tem razo. A culpa  minha. Sou eu o 
responsvel por esta situao. Nunca devia t-los deixado 
sozinhos e expostos ao perigo. A culpa  minha.
     - Perdoa-me - comeou Toli. - Perdoa-me...
     - Encontra o meu filho! - gritou Quentin numa voz quase
esganiada. - Ou o encontras ou que eu nunca mais volte a 
ver-te! - Com estas palavras, o Rei Drago bateu com as rdeas 
no pescoo  do cavalo e f-lo dar meia volta. Blazer sacudiu a 
elegante cabea branca e Quentin olhou colericamente para 
Toli:
     - Encontra-o - disse baixinho, num tom de voz ameaador. 
- S quero que o encontres.
     Toli ficou de p na estrada a ver o seu rei afastando-se.
S quando uma curva do caminho o fez desaparecer de vista  
que se voltou para montar Rv e avanar na direco de 
Askelon. Ningum falou. No havia nada para dizer.


        CAPTULO XV


     Nimrood cismava, sentado numa rocha, curvado como uma 
velha raiz arqueada, torcido pela idade e deformado pelas 
foras ocultas que tinha dentro de si. Esperava que a noite 
casse para iniciar a ltima parte da jornada, pois tinham 
chegado aos limites orientais da floresta e o resto do caminho 
at ao templo teria de ser feito a descoberto. Como no queria 
arriscar-se a viajar de dia, fizera uma paragem. Por isso, 
naquele momento, todos esperavam com impacincia o fim do dia.
     O prncipe Gerin, atento a todos os que o rodeavam, 
estava seguro de que no lhe fariam mal; e, uma vez que no 
corria nenhum perigo imediato, podia esperar pelo momento mais 
adequado para fugir... se no o salvassem primeiro. Tambm via 
muito claramente que os seus raptores no mostravam grande 
entusiasmo pela misso que lhes fora confiada. Mas precisava 
de ter cuidado com o mais velho, o do cabelo branco e 
desgrenhado e do rosto to enrugado e sulcado como couro 
velho.
     Quem seria? O que quereria e para onde o levariam? Estas 
perguntas ocupavam o jovem cativo, sentado no cho, debaixo de 
uma rvore, constantemente vigiado por dois guardas.
     Mexeu-se, tentando afrouxar as cordas que lhe prendiam os
braos. Um dos guardas olhou-o com desconfiana e fez um ar 
zangado, nas no disse nada.
     Quando o meu pai vier buscar-me, pensou Gerin, 
arrepender--vos-eis muito do que fizestes. Espero que venha 
depressa; de contrriO, perderei o resto da caada.
     No esprito do jovem prncipe no havia dvidas de que o 
rei iria busc-lo C salv-lo. S precisava de esperar.
     Ouviu-se um SOM vindo do bosque: aproximava-se algum 
rapidamente, a p, fazendo muito barulho ao roar nos ramos e 
ao pisar os galhos que estavam no cho. Pondo-se em p de um 
salto, Nimrood sussurrou asperamente:
     - Encontraram-nos! Empunhai as armas!
     Os homens saltaram e puxaram as espadas, mas, antes de 
terem tempo para se porem em posio de ataque, o intruso 
apareceu aos tropees.
     - O qu? - exclamou, surpreendido, - No, esperai! - 
Caindo para trs, deu com o rabo no cho.
     - Tu! - disse Nimrood. Era um dos homens que tinham
ficado para trs a cobrir-lhes a fuga.
     Pondo-se em p de um salto, o guarda olhou rapidamente em
volta com uma expresso aterrorizada.
     - No fui seguido! - gritou. - Guardai as espadas!
     -  melhor que no tenhas sido; de contrrio, fao-te em 
bocadinhos e dou-te a comer aos pssaros. Onde est o teu 
amigo? - inquiriu Nimrood, afastando os outros.
     - Morto... - O homem lanou um olhar aterrorizado para 
trs, como se esperasse que a qualquer momento a sua prpria 
mcrte sasse dos bosques e carregasse sobre ele.
     - Como? - De mos nas ancas, Nimrood fitava 
penetrantemente o desgraado que tinha  frente.
     - Ele encontrou-nos na estrada e adivinhou tudo.
     - Quem?
     - O rei! Sabia de tudo!
     - Tretas! - A atitude de Nimrood tornou-se ameaadora. O

guarda tremeu de medo. - Vs  que falastes de mais!
     - Juro por todos os deuses que no! No lhe dissemos 
nada. Ele  que sabia... como, no sei. Nem nos deu hipteses.
     - Quantos estavam com ele?
     - Sua Majestade... o rei... estava sozinho. Eu escondi-me 
nos arbustos para o caso de termos de o atacar.               
       - E? - Nimrood aproximou-se mais. Fazendo um esgar, o 
guarda apressou-se a continuar a histria.

     - O Carlin fingiu ser um peregrino, mas o rei no 
acreditou. Ainda tentmos enfrent-lo, mas...
     - reis dois contra um. O que aconteceu?
     OS olhos do homem encheram-se de terror:
     - Ele tinha a espada dele... a Brilhante! No h homem ou 
exrcito que consiga venc-la! Haveis de t-la visto faiscar! 
Os clares cegavam-nos e tapei os olhos com as mos. Quando 
olhei outra vez, o Carlin estava morto. A espada...           
       Mudando abruptamente de comportamento, Nimrood comeou 
a falar num tom apaziguador:
     - Sim, estou a ver. Fizeste bem em vir aqui dar-me essa 
notcia. - Pousando a mo plida no ombro do homem: - Mas 
conta-me mais coisas dessa tal espada, da espada do rei... 
como lhe chamaste?
     - A Brilhante... toda a gente sabe que  uma espada 
encantada.
     - ? Como? - Nimrood fez um sorriso fino, astuto e 
viperino- - Creio que no me lembro de nada relativo a uma 
espada encantada. Mas tambm estive muito tempo longe de 
Mensandor. Conta-me o que sabes.
     Ansiosamente, os homens falaram a Nimrood da Zhaligkeer,
a maravilhosa espada do rei, do seu brilho ardente, das minas 
mgicas onde fora forjada, dos seus poderes estranhos e 
terrveis e do modo como Quentin, ainda jovem, sara das 
montanhas com a espada e, sozinho, esmagara a invaso do 
horrvel Nin, transformando a derrota certa numa vitria 
estrondosa no momento em que a Brilhante apagara o fego da 
Estrela do Lobo.
     As lendas relativas  espada encantada e ao rei que a 
empunhava j se tinham espalhado por toda a terra, tornando-se 
mais famosas a cada ano que passava. Dizia-se que a espada 
tinha um poder sagrado. Que fora encantada por um deus a que 
chamavam Altssimo. Que a sua chama era o smbolo da presena 
do deus no rei. E por a fora.
     Nimrood escutava atentamente as vrias histrias sobre a 
espada, deixando os guardas do templo contarem-lhe o que 
sabiam. Entretanto, o velho feiticeiro pensava de si para 
consigo: Isso, do que eu preciso  mesmo da espada 
encantada.
     - O que dizeis  muito interessante - observou, por fim. 
- Muiito interessante. - Virando-se para o homem que acabara 
de se lhes juntar, disse: - Tens mais alguma coisa para me 
dizer?
     Ansioso por agradar ao perverso Nimrood, o sacerdote 
ps-se a pensar.
     - Oh! - O seu rosto iluminou-se. - Tenho. O rei disse que
o Durwin... aquele a quem chamam o eremita... tinha sido 
morto.
     - Ah sim? - O corao de Nimrood esvoaou-lhe dentro do

peito. - Como?
     - No sei. Ele s disse: Vs matastes o Durwin!
     - A nossa inteno no era mat-lo, senhor - explicou um
guarda do templo que l estivera, - Foi um acidente. Ele 
meteu-se entre ns e o prncipe.
     Isto est a ir melhor do que eu esperava!, pensou 
Nimrood com uma alegria malvola. 0 Durwin morto! O maldito 
do eremita j no me estorva mais. A minha vingana ser 
total. Com um ar de aprovao, fez que sim com a cabea para 
os que o rodeavam:
     - Pacincia, os acidentes acontecem. Mas, de futuro, 
deveis contar-me tudo. Eu tenho de saber tudo: nunca me 
escondais nada.
     - Pensvamos que ficareis zangado - murmurou un guarda
junto dele.
     - Zangado? Porque havia de ficar zangado? Sou assim to
pouco razovel? - Nimrood tornou a sorrir e os lbios finos
dividiram-lhe o rosto enrugado em dois. - No, vereis que 
muito fcil trabalhar comigo, desde que me digais logo tudo. 
Sei ser muito razovel. - Batendo as palmas, ordenou: - Agora,
descansei. Temos muito que andar hoje  noite. Quero chegar
ao Grande Templo amanh logo de manhzinha.
     Todos se instalaram para descansar, preparando-se para a 
viagem nocturna. O prncipe Gerin tambm se enroscou todo, 
embora no tivesse sono. Mas f-lo para esconder as lgrimas 
dos que o rodeavam, pois no queria que os seus captores o 
vissem chorar pelo seu amigo Durwin.

     Ao meio-dia, Toli e os cavaleiros que estavam com ele 
chegaram a Askelon. Quando entraram no ptio interior, viram 
ali reunidas cerca de duas dezenas de cavaleiros, cavalos e 
escudeiros, que corriam de um lado para o outro com provises 
e equipamentos.
     - O que  isto? - perguntou Toli, deslizando da sela e 
correndo para um grupo de homens que se encontrava no centro 
de toda esta actividade. Quando o jher se aproximou, a roda 
abriu-se.
     - Theido! Ronsard! - gritou ao v-los.
     Os dois homens fizeram um sorriso aberto e bateram-lhe 
nas costas.
     - Tnhamos esperanas de te encontrar antes de partirmos. 
E o rei... - Theido fez uma pausa e semicerrou os olhos. - 
Viste-o?
     - vi - replicou Toli abruptamente, - No regressar to 
cedo.
     - Percebo - Theido franziu o sobrolho. - De qualquer 
forma, tenros de nos reunir em conselho e de traar um plano. 
No podemos estar com muitas demoras. 
     - A rainha deu-nos permisso para partirmos imediatamente 
- acrescentou Ronsard.
     - Pois, tendes de partir muito em breve. Juntar-me-eI a 
vs depois de me lavar e de comer.
     - Mandarei levar comida  cmara do conselho - sugeriu
Ronsard, afastando-se para tratar disso. Os que tinham 
cavalgado com Toli durante toda a noite tambm se retiraram.

     Theido e Toli afastaram-se uns passos, para poderem falar 
mais  vontade. No ptio,  sua volta, a azfama continuava. 
Theido encostou-se  grande muralha e cruzou os braos. Havia 
muitos fios prateados no seu cabelo preto e nas suas 
sobrancelhas, mas os anos no lhe tinham suavizado as feies; 
pelo contrrio, a idade dera-lhe uma aparncia ainda mais 
autoritria.
     - H qualquer desentendimento entre vs, h? - indagou
Theido calmamente.
     Olhando para a actividade que ia pelo ptio sem ver nada, 
Toli assentiu com a cabea.
     - O que'aconteceu?
     - Ele... o meu amo culpa-me da morte de Durwin e da perda
do filho - respondeu Toli com toda a simplicidade.
     - Estou a perceber. - Tentando consolar Toli, Theido 
continuou suavemente: - Com certeza que sabes que essas so as
acusaes de um homem enlouquecido e assustado.
     - No - contraps Toli, abanando a cabea -,  verdade.
A culpa  minha. Deixei-o sozinho. Depois do primeiro ataque,
fui atrs dos assaltantes. No devia ter ido. Nunca devia ter 
deixado o prncipe.
     - Fizeste o que achaste melhor. O que mais se pode pedir?
O Durwin sabia tomar conta de si prprio. O perigo no lhe era
estranho. Tenho a certeza de que fizeste o que era melhor.
     Toli virou os seus olhos assombrados para o alto 
cavaleiro:
     - O Durwin era um velho e o Gerin uma criana indefesa.
Digo e repito: fracassei.
     - No! Pensa no que ests a dizer. O que aconteceu, 
aconteceu, e nada o pode mudar. A morte do Durwin no  culpa 
tua. Ningum podia adivinhar. Se tivesses ficado, talvez 
houvesses sido tu a apanhar o golpe e a morrer.
     - Antes eu do que ele!
    - Nunca digas isso! - Theido pousou a mo no ombro de 
Toli.
    - No te cabe a ti decidir isso, meu amigo. Estamos todos
nas mos do deus, que  quem dirige os nossos passos. O Durwin
sabia-o to bem... no, melhor do que qualquer um de ns.
    Toli esfregou o rosto com as mos. Sentia a fadiga 
abater-se sobre ele e cobri-lo como uma capa bem pesada.
    - Estou cansado.
     - Vai-te lavar e comer. Descansars depois do nosso 
conselho. Quanto a ns, partiremos para dar incio s buscas.
     - No, irei convosco. Devo ir.
     - Precisas de descansar. Ou me engano muito ou ainda 
teremos buscas que cheguem para todos. Descansa enquanto 
podes. Alm do mais, gostaria que fosses com a rainha e com a 
Esme.
     Toli levantou rapidamente o olhar:
     - A rainha? A Esme? Para onde vo?
     - O Durwin vai ser enterrado amanh na floresta. Eu iria, 
mas, j que ests aqui, o melhor  eu e o Ronsard conduzirmos 
as buscas.
     - Tinha-me esquecido do funeral - retorquiu Toli 
pesarosamente. - Tens razo. Deve ir algum com elas. Muito 
bem, seguirei a tua sugesto.
     Virou-se para partir, hesitou e voltou-se para trs.
     - H outra coisa. - Theido ficou  espera. o jber baixou 
a voz e disse: - Quando encontrei o rei, ele tinha a bainha 
vazia. A Brilhante no estava l.


        CAPITULO XVI


     Seguido pela cadela de focinho cinzento, Pym caminhava 
ruidosamente pela estrada que conduzia a Askelon. Enquanto 
andava, s pensava numa coisa: na magnfica espada que 
escondera nessa mesma manh. Embrulhara a Zhaligkeer nuns 
farrapos e metera-a dentro de uma grande aveleira velha e oca, 
cujo corao havia muito fora destruido pelos relmpagos. A 
rvore era oca, mas ainda estava viva. Depois, assinalara o 
local com um pequeno monte de pedras e pusera-se a olh-lo 
longamente de todas as direces, de modo a lembrar-se dele 
quando ali voltasse. Reunira ento os instrunientos, 
atravessara a floresta a tilintar e entrara na estrada, 
pondo-se novamente a caminho de Askelon. Mas sentia-se 
inquieto. Vacilava a cada passo que dava.
     - Se calhar, no devia t-la deixado ficar - murmurava 
para Tip. - Se calhar, devia ir busc-la. Podem encontr-la e 
roub-la ao velho Pym.  Nesse caso, no haveria ouro, nem 
carroa, nem pedra de amolar. Oh, o que hei-de fazer? O que 
hei-de fazer?
     Ao Meio-dia, parou num recanto ensombrado de ramos de
tlia, para comer alguma coisa. Tinha com ele uma cdea de 
queijo duro, que cortou com uma faca, dando metade a Tip. 
Depois, beberam um pouco de gua e comeram uma ma que Pym 
levava num saco.
     J estavam a preparar-se para voltarem  estrada, quando 
ouviram algum aproximando-se.
     - Escuta, Tipper. Vem a algum, ouves? Quem ser? O 
melhor  sentarmo-nos quietinhos e ver quem .
     Passado algum tempo, o som transformou-se em vozes: 
muitas vozes, que murmuravam como uma corrente de gua. 
Pertenciam a uma verdadeira multido, que se afastava de 
Askelon, deslocando-se para sul.
     As primeiras pessoas passaram, olharam para o amolador e
continuaram a andar. Atrs delas seguiam cerca de vinte 
viandantes. Eram fanillias inteiras: homens, mulheres e 
crianas. Enquanto caminhavam todos juntos, tagarelavam uns 
com os outros ou interpelavam-se em voz alta.
     Pym avanou para a estrada:
     - Mas que coisa, Tip! Para onde ir esta gente toda?
     Chamando o viandante mais prximo:
     - Eh! Tu a! - O homem parou e olhou para ele. Pym 
aproximou-se. - Para onde ides? Porque  esta confuso toda?
     - No sabes? Onde tens estado, homem? A dormir? O mundo
est de pernas para o ar! - Outras pessoas tambm pararam, 
metendo a sua colherada.
     - Terrvel! - exclamou uma.
     - Os deuses esto zangados! - acrescentou outra.
     - H dois dias que andamos nesta estrada - explicou Pym. 
- No encontrei ningum que me pudesse contar nada.
     - Foi o prncipe! O principe Gerin. - replicou o primeiro 
homem.
     - O nosso jovem senhor foi assaltado e levado  fora! - 
gritou algum l atrs.
     - No me digas! - gritou Pym. - Quando  que isso 
aconteceu?
     - Ontem de manh, durante a caada. Os ladres levaram-no

e mataram o conselheiro do rei!
     - Oh! Ohl - Pym abanou a cabea consternadamente.
     - Eram cinquenta homens! - disse um homem baixo com
uma verruga.
     - Eu ouvi dizer que eram cem! - gritou outro. Todos 
fizeram que sim com a cabea.
     - Viste algum? - perguntou o primeiro com um ar 
desconfiado. O velho Pym empalideceu.
     - Eu? No. No senhor. Nem ouvi nada. Se fossem cem
homens, havamos de os ver. Mas, at agora, no vimos nada.
Mataram o ministro do rei?
     - Est morto e bem morto. Oh, os deuses esto furiosos 
com o rei, por ele ter arranjado este novo deus, este 
Altssimo. Esto zangados, e mostram a sua ira! Ele h-de ver!
     Pym murmurou taciturnamente:
     - Este  um dia sombrio. Muito sombrio.
     - Pois  - concordaram todos, apressando-se a prosseguir
viagem.
     Pym tambm recomeou a andar. De caminho, foi encontrando
vrios grupos, que lhe contaram a mesma coisa. Era uma 
histria triste, que andava na boca de toda a gente e que, ao 
perturbar tanto o festival, seria, com certeza, tema de 
conversas durante algum tempo
     - Que coisa horrvel, Tip - disse Pym, prosseguindo 
viagem na direco de Askelon, Todas as pessoas que 
encontravam seguiam no outro sentido, deslocando-se para sul, 
de volta s suas aldeias e vilas, onde espalhariam aquela 
notcia. Dali a uma semana, no haveria em Mensandor uma nica 
alma que no soubesse o que acontecera. - Sim, horrvel!

     Quentin seguia inexoravelmente em frente. Ainda cedo, 
deixara a estrada e comeara a passar a pente fino os caminhos 
laterais, seguindo primeiro por um lado e, depois, por outro, 
na esperana de dar com alguma pista dos assassinos. Mas no 
encontrava nada e, a cada lgua que percorria, mergulhava mais 
fundo num tormento e numa angstia como nunca conhecera. s 
vezes, parecia-lhe que o seu esprito se rasgava em dois, que 
o mais profundo de si prprio estava a ser destrudo e 
torturado.
     Porqu?, pensava continuamente. Porque  que isto me 
aconteceu? Acudi ao vosso servo, Altssimo. Ajudai-me. Porque 
no me respondeis? Porque me sinto s? O deus abandonou-me, 
no quer nada comigo.
     Este pensamento, que, por si s, j chegaria para o 
esmagar, mais o medo pelo filho e a dor que sentia por Durwin, 
chegaram a faz-lo pensar que o corao lhe rebentaria dentro 
do peito.
     No entanto, forava-se a continuar, a ir em frente, e s 
parava de vez em quando, para Blazer poder descansar e para 
beber. Depois, prosseguia para sul. Pela tardinha, ao sentir 
na brisa o cheiro da gua salgada do mar, percebeu que devia 
estar a aproximar-se da costa.
     Quando a noite comeou a cair, saiu da floresta e subiu 
uma falsia arenosa sobranceira ao mar. Escuro, da cor do 
vinho, Gerfallon espraiava-se ao pr do Sol. No cu, um banco 
de nuvens escarlates deslizava para a costa, empurrado pelo 
vento que soprava na direco da terra. Por trs, juntavam-se 
nuvens mais escuras; no dia seguinte ia chover.

     Quentin desmontou e deixou Blazer pastar a erva verde e 
comprida que crescia na falsia. Hinsenby ficava a ocidente, 
mas no se via; a oriente, o caudal escuro do Sipleth 
deslizava para o mar, com as suas guas frias devido ao degelo 
dos altos Fiskills. Em frente, saa do meio da gua a grande e 
escura ilha a que chamavam ilha Sagrada. Misteriosa e pouco 
convidativa, havia geraes e geraes que dava origem a 
muitas histrias e especulaes. A ilha, verde devido  
vegetao e escura por causa das suas florestas antigas,
era desabitada. Em tempos mais recuados, houvera quem tentasse
edificar ali o seu lar, erguendo construes que, no entanto, 
numca duravam muito: no mximo, uns anos. Depois, 
desapareciam. Havia quem dissesse que a ilha era habitada por 
alguns deuses locais, que no queriam partilh-la com os 
mortais.
     Os boatos locais afirmavam que a fantasmagrica ilha 
fora, em tempos, local de culto dos primeiros habitantes de 
Mensandor, os Shoth, amantes da guerra e sanguinolentos, que 
praticavam a sua religio brutal, feita de torturas e 
sacrifcios humanos, dentro das suas florestas abrigados, onde 
bebiam o sangue das suas vtimas e comiam a sua carne. E havia 
muito quem acreditasse que ainda existiam seguidores da 
religio dos Shoth e que, de vez em quando, ainda se 
realizavam secretamente rituais estranhos. De noite, ouviam-se
vozes vindas das costas da ilha e, s vezes, via-se a luz 
vermelha de sangue de fogueiras acesas  meia-noite.
     A ilha Sagrada tambm passava por ser um lugar onde 
existia muito poder, que ficara do tempo em que os deuses 
andavam entre os homens, na altura em que o inexplicvel, os 
sonhos, os desaparecimentos, as aparies e os milagres no 
passavam de lugares-comuns.
      luz do crepsculo que se adensava, a ilha parecia fazer 
sinal a Queritin. A sua forma curva erguia-se do mar plano 
como a cabea e os Ombros de alguma majestosa criatura 
marinha, que contemplava a terra com uma pacincia infinita. 
Anda, dizia. Anda ver o que h aqui. Sentes o meu poder? 
Tens medo? No te atreves a vir?
     Quentin mexeu-se e comeou a descer a encosta da falsia
virada para o mar, sem tirar os olhos da ilha, que ficava a 
menos de meia lgua de distncia. Encontrando na duna um 
carreiro que levava  praia, seguiu-o sem pensar em mais nada: 
o cansao guiava-lhe os passos. As foras abandonavam-no  
medida que ia avanando aos tropees; no comera durante todo 
o dia e descansara pouco. Sentia-se estonteado e fraco, como 
se fosse uma casca oca, quebradia e leve, pronta a ser levada 
ao sabor do vento.
     No entanto, embora esgotado de corpo e de esprito, 
deixou que os ps o levassem pelo sinuoso caminho que descia 
at ao mar. Na praia rochosa, as ondas marulhavam docemente. 
As aves riscavam os cus em busca de um poleiro para passarem 
a noite e pousavam em ninhos e buracos abertos na face da 
falsia, soltando gritos agudos que retiniam no ar parado. O 
vento que soprava do mar arrefeceu e as nuvens escureceram 
gradualmente, at adquirirem um tom violeta. Qual mortalha a 
desencorajar olhares curiosos, a nvoa nocturna cobriu as 
partes mais altas da ilha. No alto da duna, Blazer relinchou 
baixinho, mas Quentin, que parecia hipnotizado pela ilha, no 
despregou os olhos dela.

     Sem saber bem o que fazia nem para onde ia, seguiu pela 
praia fora. S tinha um pensamento na cabea: ir para onde 
quer que os seus ps o levassem.
     s tantas, viu uma forma regular e arredondada que, 
quela luz fraca, s se distinguia por ser um objecto escuro 
recortado num pano de fundo ligeiramente menos escuro. 
Enquanto avanava aos tropees, formou-se-lhe no esprito a 
imagem do desgraado que abatera na estrada. Tremendo com a 
ideia de dar novamente com esse cadver, aproximou-se 
lentamente. Quando l chegou, parou e estendeu a mo. Plo!
     Encolheu-se todo. Seria algum animal morto que o mar 
atirara para a costa?
     Mas, por baixo do plo, sentira uma coisa dura nada 
parecida com carne, nem mesmo carne morta. E nenhum animal que 
conhecesse tinha aquela forma. Estendendo novamente a mo, 
esfregou-a na superfcie dura e hirsuta. Depois, empurrou o 
objecto, que bateu nas rochas com um som oco. Nessa altura, 
percebeu o que se tratava.
     Quentin inclinou-se, agarrou-lhe na borda e deu-lhe uma 
volta. O barco de pele de boi, construido segundo as normas em 
vigor havia bem mil anos, baloiou na quilha; o remo, amarrado 
por uma tira de couro ao assento grosseiro que ficava no meio 
da embarcao, fez um som parecido com o rufar de um tambor. 
Quentin agarrou na proa do barco, empurrou-o para o mar por 
cima das pedras e, com a gua a bater-lhe nas botas, trepou l 
para dentro. Depois, pegou no remo e comeou a remar em 
direco  ilha.
     O mar estava calmo. O nico som que se ouvia era o do 
remo mergulhando e rodopiando na gua. Uma profumda tristeza 
brotou de dentro de Quentin. Sempre estivera l, mas, naquele 
momento, o cansao no o deixou abaf-la por mais tempo e ela 
surgiu  superfcie como uma fonte. Quentin olhou para a gua 
azul e profunda, to silenciosa, to calma... Como seria 
repousante deslizar pela borda do barquinho e deixar-se ir 
para baixo, sempre para baixo... para alm do pensamento, da 
dor, da lembrana...
     Mas o rei continuou a remar e,  medida que deixava a 
terra para trs, ainda contornada pelo azul de ferro do cu, a 
noite foi-o tapando com as suas vestes de veludo. Dali a 
pouco, sentiu um arranho no fundo do barco. Depois, uma 
sacudidela f-lo saber que chegara  costa da ilha Sagrada.
     Quentin iou-se para fora do barco, puxou-o bem para cima
avanou para a floresta, que chegava mesmo at  beira da 
gua, seguindo um carreiro antigo, que passava por entre as 
rvores e os arbustos.
     No sabia nem lhe interessava saber o tempo que andou.
As suas pernas mexiam-se por vontade prpria, fazendo-o 
deslocar-se ritmada e lentamente. No havia pressa; no ia 
para lado nenhum. O seu esprito, entorpecido pela fadiga, 
derrapava preguiosamente e funcionava cada vez mais devagar, 
sem lhe dar nenhuma ideia, nenhum pensamento mais consiste.
     Tinha os olhos postos em frente, mas no via nada. Estava
muito escuro para se ver mais do que os ramos das rvores mais
prximas. S ouvia a sua respirao e o bater do seu corao, 
pois a ilha estava silenciosa como um tmulo e como um tmulo 
cheia de presenas invisveis.

     Quentin comeou a sentir que tambm ele no passava de 
uma coisa feita de vapores sem substncia, de um espectro sem 
existncia corprea, condenado a vaguear de noite e a 
desaparecer  luz da manh, de uma presena vaga e arrastada, 
confinada a um mundo de sombras onde s sombras caminhavam, 
envoltas em tormentos privados, ss e abandonadas por toda a 
eternidade. Qual olho brilhante e pouco amigvel, a Lua 
elevou-se acima das rvores. A sua luz era fraca. O cansao 
envolveu os ombros de Quentin como uma pea de vesturio de 
chumbo, despertando nele uma dor surda que o trespassava a 
cada passo que dava.
     Tenho de descansar, pensou. Tenho de parar e 
descansar. Estou cansado. To cansado! Mas continuou a andar, 
sem saber para onde.
     Passado algum tempo, chegou a um stio onde deixava de
haver rvores;  sua frente, estendia-se um relvado que 
brilhava com a luz prateada da Lua e que descia suavemente 
para um lago. NO ponto em que o relvado se encontrava com a 
gua, formava-se um crescente: uma lua cintilante que 
espalhava a do cu.
     Quentin desceu at  beira do lago e parou a observar a 
superfcie lisa como vidro. Aqui e ali, a gua cintilava com a 
luz reflectida de uma ou outra estrela. Baixando os olhos para 
a gua, Quentin viu o seu olhar devolvido por um rosto 
desamparado e desfeito.
     Junto da gua crescia um salgueiro, cujos ramos compridos
pendiam, roando ao de leve a superfcie do lag. As folhas 
dos ramos formavam lgrimas que caam no lago em interminveis 
cascatas, que o alimentavam como uma fonte de sofrimento.
     Quentin foi at ao velho salgueiro e deixou-se cair por 
baixo dos seus ramos pendentes. Era um local seco e escuro. 
Encostando a cabea ao tronco spero e cheio de ns, 
enrolou-se melhor na capa. Ento, o sono chamou-o. No sentiu 
os olhos a fecharem-se-lh, nem deu por ter entrado nos escuros 
domnios do sono. Para Quentin, era tudo igual.


        CAPTULO XVII


     Embora houvesse muito que s se ouviam vozes abafadas no
castelo e o cortejo fnebre fosse sair de manh bem cedo para 
a fioresta de Pelgrin, Toli continuava acordado. Deitado na 
cama, com as mos atrs da cabea, fitava o tecto, onde se 
projectava a sombra bruxuleante do mastro do seu leito. Em 
esprito, regressava vezes sem conta ao doloroso encontro que 
tivera nessa manh com Quentin e voltava a ouvir as suas 
terrveis palavras: A culpa  tua... s tu o responsvel! As 
palavras torturavam-no como um chicote penetrando na carne, e 
no conseguia escapar ao seu feroz julgamento. No meio da sua 
angstia, ouviu distintamente baterem levemente  porta.
     Levantou-se, foi silenciosamente at  porta e abriu-a.
     - Pronto, pronto. Quem... Esme! - Disfarando a sua 
surpresa abriu mais a porta para a deixar entrar.
     - Toli, eu... - comeou ela, com os olhos suplicantes. - 
 a Bria.
     Recuando, puxou Toli para o corredor.
     - O que aconteceu? O que se passa?

     - Ela est l fora, no torreo, e no quer vir para 
dentro. S olha em frente, como se estivesse hipnotizada. No 
sei o que hei-de fazer nem como posso tir-la de l.
     Com as sombras esvoaando ao seu lado na parede 
grosseira, apressaram-se a percorrer sem barulho o largo 
corredor que ia dar aos aposentos reais.
     - H quanto tempo  que l est? - perguntou ele.
     - j l estava quando lhe levei o jantar, que me disse 
para deixar ficar. Quando voltei h bocadinho, para ver se 
estava a dormir, vi que ainda tinha a cama feita e que no 
tocara na comida.
     Toli assentiu com a cabea, mas no disse nada at 
chegarem aos aposentos reais. Esme abriu a porta e entrou sem 
fazer barulho. Toli seguiu atrs dela. Depois de atravessarem 
vrios aposentos, saram para o varandim, onde Bria, imvel 
como uma pedra esculpida, contemplava a noite iluminada pelo 
luar.
     Observando-a longamente, Toli virou-se para Esme:
     - Vai procurar a rainha Alinea - disse baixinho. - Talvez
ela possa ajudar.
     Esme fez que sim com a cabea e saiu. Toli voltou-se e 
saiu para o torreo. A noite estava fresca e calma; os grilos 
cantavam por entre as trepadeiras que cresciam ao longo dos 
muros.
     - Senhora, j  tarde e temos muito que fazer arnanh - 
disse docemente.
     A rainha no se mexeu nem deu qualquer sinal de ter 
ouvido as palavras de Toli ou de haver sequer reparado na sua 
presena. Era como se tivesse sido enfeitiado e no pudesse 
ser tocada por nada do mundo que a rodeava.
     Toli estendeu a mo e pegou-lhe no brao, que estava 
frio. Embora Bria no resistisse, tambm no se mexeu.
     - Senhora - insistiu Toli -, tens que descansar.
     Nesse momento, ouviu-se um roagar nas pedras do 
varandim, e Alinea aproximou-se com um xaile debaixo do brao.
     - Bria, querida, ouve a tua me. - Pegando no xaile e 
passando-o por cima dos ombros da filha, continuou numa voz 
reconfortante: - Anda, minha querida.
     Alinea lanou um olhar a Toli e a Esme. Toli afastou-se, 
fez sinal a Esme para o seguir e foram os dois para outro 
aposento. Quando ficaram a ss, Alinea passou os braos  
volta da filha e apertou-a contra si.
     - Querida Bria - suspirou -, imagino o que deves sentir.
     O corpo da mulher mais nova foi atravessado por um 
arrepio. Alinea continuou a consol-la. Por fim, Bria soltou 
um suspiro e virou para a me uns olhos vtreos devido quela 
longa viglia.
     - Ele est ali, me - disse, numa voz onde se notava o 
sofrimento. - O meu pequenino, o meu filho, o meu menino. 
Foi-se. Nunca mais voltarei a v-lo. Sei que no. Nunca... 
mais... Oh, me!
     As lgrimas brotaram-lhe imediatamente dos olhos e 
comearam a deslizar-lhe pelo rosto claro. Bria tapou o rosto 
com as mos. Alinea cingiu-a muito a si e acariciou-lhe as 
tranas castanho-aloiradas.            
     No aposento seguinte, ouvindo os longos soluos 
agonizantes, Toli e Esme afastaram-se, embaraados, e, sem 
fazerem barulho, foram esperar para o corredor.

     O silncio existente entre eles estava a tornar-se 
incmodo; embora ambos soubessem que algum tinha de falar, 
nenhum dos dois conseguia dizer nada. Esme fitou Toli, que lhe 
devolveu o olhar. Depois, ela baixou os olhos e ele desviou o 
rosto.
     Por fim, o silncio tornou-se insuportvel. Toli abriu a 
boca e aguejou:
     - Esme, eu... eu...
     A porta que tinham ao lado abriu-se e Alinea apareceu. Os 
seus olhos, de um verde profundo, reflectiam bem o seu pesar, 
mas a sua voz era calma e reconfortante:
     - Creio que agora dormir - disse com simplicidade, 
depois de ter conseguido o que s uma me consegue. - Vs os 
dois tambm tendes de descansar. Os dias que se aproximam no 
sero fceis para ningum.
     - Obrigado, senhora - agradeceu Esme. - Desculpai...
     - Chiu! No digas mais nada. Ainda virei aqui antes do 
nascer do dia, mas tenho a certeza de que ela dormir como uma 
pedra.
     - Boa noite - despediu-se Toli, afastando-se 
imediatamente. As duas mulheres ficaram a v-lo ir-se embora.
     - Aquele carrega nos ombros o peso da aflio - comentou
Alinea. - Gostava que o Quentin estivesse aqui, pois o rei 
sabe lidar com ele. Mais ningum pode aconselh-lo.
     Sem falar, Esme lanou um olhar pesaroso  rainha-me.
     - H tanta dor neste mundo! - continuou Alinca. - A nossa
felicidade  to frgil! Quando no a temos, parece que nunca 
a tivemos nem nunca mais a teremos. Mas tudo o que h na Terra
obedece  vontade do Altssimo. No acontece nada que ele no 
veja.
     - Que consolo h nisso? - perguntou Esme numa voz 
consternada. - Oh, nunca entenderei o vosso Altssimo.
     Alnea fitou bondosamente a mulher que tinha ao lado. 
Depois. rodeando-a com o brao, como fizera a Bria apenas uns 
momentos atrs, conduziu-a pelo corredor, de volta aos seus 
aposentos.
     - Ah, Esme, eu tambm pensei que nunca o entenderia, mas
 Durwin dizia-me assim:  o entendimento que emana da f e 
no o contrrio. Lembro-me de passar horas a cismar nestas 
palavras.
     - O que significam?
     - Que existem muitas coisas sobre o Altssimo que s a f
pode ver. J aprendi que no  toda a razo nem todo o 
pensamento de todo o mundo que nos aproximam da f. A f tem 
de vir do corao.
     Esme abanou lentamente a cabea. Tendo chegadob  porta
dos seus aposentos, virou-se para Alnea e pegou-lhe nas mos:
     - Este deus  muito diferente dos que conheo. Os outros
no exigem nem f nem entendimento. S presentes e oferendas.
 muito mais simples!
     Alinea sorriu:
     - Tens razo, os velhos deuses so mais simples, mas no 
lhes interessa o que acontece aos homens. Fazem o que lhe 
apetece. Mas, ao Altssimo, isso interessa-o muito... muito 
mais do que pensas.
     - Pelo menos, vale a pena acreditar nisso. - virando-se 
para entrar, rematou: - Boa noite, senhora. Obrigado pelas 
vossas palavras. Boa noite.

     Os viandantes deslocavam-se rapidamente, a coberto do vu

escuro da noite. Seguindo para leste, avanavam o mais 
possvel pela estrada, mas davam grandes voltas para evitarem 
as aldeias que iam encontrando pelo caminho, de modo a no 
serem detectados.
     Embora permanecesse alerta para qualquer possibilidade de
fuga, o prncipe Gerin caminhava pesadamente, de cabea baixa.
Ouvira um dos guardas dizer que chegariam de manh ao seu
destino. Por isso, pensara que, se ia fugir, seria melhor 
tent-lo mais cedo do que mais tarde.
     Reflectira em pouco mais o dia todo, pois cansara-se de 
esperar que algum fosse salv-lo. Porque no vm?, 
perguntava-se. Porque se demoraro? Devem andar  minha 
procura. De certeza que sabem para onde vou. Se calhar, no me 
encontram,  isso! Oh, este velho Barba Comprida  manhoso! 
Baralhou tanto a nossa psta que ningum consegue 
encontrar-me. Portanto, tenho de fugir hoje  noite.
     Estava decidido. Os guardas seguiam um de cada lado do 
prncipe; um terceiro conduzia o seu pnei. Fugiria mal eles 
se distrassem ou afrouxassem a vigilncia. No o apanhariam. 
Montado a ovalo, correria mais do que eles. Era este o seu 
plano. S lhe restava esperar pelo momento oportuno.
     Este deu-se quando chegaram a uma bifurcao. Uma das 
estradas virava para norte, em direco s aldeiazinhas 
espalhadas ao longo do Arvin; a outra continuava em frente e 
elevava-se gradualmente  medida que avanava para oriente, 
direita aos montes Fiskills. A cidade de Narramoor ficava 
mesmo em frente; ligeiramemente a nordeste, erguia-se o Grande 
Templo, que, do cimo do seu planalto, contemplava o vale e 
toda aquela regio do reino.
     Pararam.
     - Iremos para sul, rodearemos a cidade e, depois, 
seguiremos para o templo - disse Nimrood.
     - Mas h um caminho mais curto para norte - protestou
um guarda. os outros assentiram com a cabea.
     - Talvez seja mais curto - sibilou Ninirood -, mas 
teremos mais olhos curiosos a seguir-nos.
     - Sabemos de um caminho... - comeou o guarda.
     - Silncio! - ordenou Nimrood, dando um passo ameaador
em frente. - Faremos o que estou a dizer! - Apontando o dedo
ao rosto do homem: - Quem manda sou eu!
     O homem deu um passo atrs, tropeou numa pedra e caiu
na estada. Momentaneamente distrados, os outros guardas 
observavam-no.
     Era tudo do que o prncipe Gerin precisava. Com a rapidez
do raio, saltou para a sela, arrancou as rdeas da mo do 
espantadO guarda, fez Tarky dar meia volta e comeou a 
afastar-se.
     - Fazei-o parar! - guinchou Nimrood. - Fazei-o parar, 
imbecis!
     Os guardas do templo deixaram imediatamente de estar 
distrados. Os dois que estavam mais proximos mergulharam de 
cabea, mas o cavalo esquivou-se e eles aterraram na estrada, 
com um grunhido. Um outro tentou apanh-lo de lado e Gerin 
chicoteou-o com as rdeas. O homem soltou um grito e ps as 
mos no rosto.
     - Imbecis! - gritou Nimrood. - Ele vai fugir!

     O jovem prncipe inclinou-se muito na sela e apertou os 
calcanhares contra as costelas do cavalo, incitando-o a andar 
mais depressa. Os guardas correram para ele de ambos os lados. 
As silhuetas escuras pouco mais eram do que sombras. Vendo 
este movimento pelo canto do olho, o cavalo assustou-se e deu 
um pinote. Gerin agarrou-se com toda a fora. Na esperana de 
espantarem o animal, os guardas cercaram-nos, abanando as mos 
e gritando.
     Muito assustado, o cavalo escoiceou, empinou-se e sacudiu 
a cabea. Fazendo tudo para permanecer na sela, Gerin 
agarrou-se  crina do pnei e apertou mais as pernas. O cavalo 
relinchou de medo, recuou e tentou escoicear as formas que 
danavam  sua volta.
     s tantas, Gerin viu uma abertura. Puxando as rdeas para 
o lado com toda a fora, ps o cavalo de frente para a brecha 
aberta no crculo formado pelos guardas. O cavalo tambm viu 
aquela oportunidade e precipitou-se instantaneamente para a 
frente.
     No momento seguinte, Gerin s viu as estrelas e a Lua 
rodando loucamente  sua frente; ento, sentiu-se cair e 
deslizar pelos quadris do cavalo. Bateu no cho com tanta 
fora que at ficou sem ar.
     Sem conseguir respirar, deixou-se ficar como um saco de 
gro tombado na estrada. Mos speras pegaram nele, puseram-no 
de p e abanaram-no; o ar voltou a entrar-lhe nos pulmes. 
Muito tonto, olhou em volta e viu Tarky escapuIindo-se sozinho 
pela estrada. Dois guardas corriam atrs dele. Houvera algum 
claro? Algum barulho? Ainda tinha nos ouvidos o som do 
trovo.
     O que seria que aparecera to de repente no seu caminho?
O que seria que fizera o cavalo recuar e atir-lo ao cho? 
Lembrava-se de ter visto o velho levantar as mos... nessa 
altura, o cu e a terra haviam trocado de posio... por que 
fora ou poder, era coisa que no sabia.
     Ainda lhe balanavam  frente dos olhos ardentes bolas de 
luz violeta; Gerin abanou a cabea, mas no adiantou nada. As 
bolas s foram desaparecendo lentamente.
     - o rapazinho tem garra, que deve pr ao nosso servio -
entoou Nimrood. - Menino, se quiseres continuar vivo e 
inteiro, no penses mais em fugir. - Nimrood inclinou-se tanto 
que o seu hlito nojento bateu em cheio no rosto do prncipe, 
- De contrrio, quando vierem buscar-te, no encontraro nada 
que valha o resgate.
     Um guarda apareceu a arquejar:
     - O maldito bicho fugiu. No conseguimos apanh-lo,
     - Idiotas! Outro erro! - Semicerrando os olhos, que 
brilhavam cruelmente, o ancio lanou um olhar furioso aos 
rostos desgostosos que o rodeavam. A sua barba branca e 
comprida luzia ao luar como uma cascata gelada. - Comunicarei 
a vossa incompetncia ao sumo sacerdote, que, estou certo, vos 
castigar devidamente.
     Nimrood virou-se abruptamente e comeou a caminhar. Os 
guardas ficaram parados a olhar para ele.
     - Trazei-o. - Falou em tom monocrdico e duro. Os guardas
apressaram-se a obedecer. O prncipe Gerin foi agarrado por 
baixo dos braos e arrastado. Os seus ps mal tocavam no cho.


        CAPTULO XVIII


     A Lua plida lanava os seus raios de prata derretida 
para dentro do lago. A gua parecia dura e preta, como vidro 
deixado ao fumo de uma fogueira. As folhas em forma de 
lgrimas do salgueiro encontravam-se perladas de orvalho, No 
cu negro, estrelas diamantinas lanavam centelhas, pontos de 
luz frios e duros como gelo.
     Com um sobressalto, Quentin despertou de um sono de pedra
e olhou estonteadamente em volta. Onde estou?, pensou. Como
cheguei aqui?
     De repente, lembrou-se: remara at  ilha, palmilhara 
lguas sem fim e adormecera. Embora o seu esprito fosse uma 
confuso de pensamentos meio formados e de fragmentos de 
sonhos inacabadOs, teve a estranha certeza de que fora 
arrastado para ali e acordado pela mesma fora que o 
convocara.
     Os seus sentidos ficaram alerta. Aquele lugar parecia 
estar cheio da presena dos deuses; se escutasse com muita 
ateno, quase poderia ouvi-los murmurando uns para os outros, 
enquanto percorriam as distantes costas da noite.
     Ao sentir a proximidade destes seres, o sangue correu-lhe 
mais rpido nas veias. Os deuses tinham-se reunido junto de si 
e obser-vavam-no de cada sombra como se estivessem por trs de 
cortinas de veludo. Quentin imaginou-se tocado pelos seus 
olhos desapaixonados.
     Com os msculos rgidos, devido ao esforo que fizera, 
levantou-se, cruzou os braos e ps-se a olhar para o lago. 
Como vapor, a nevava-se da gua calma, adensava-se, 
enrolava-se e, quais dedos tacteantes, deslizava em colunas 
para o relvado em forma de crescente. Quentin avanou at  
beira da gua e ficou  espera. Aproximando-se cada vez mais, 
a fantasmagrica nvoa branca flutuava, pairava e deslocava-se 
no ar ao sabor de correntes invisveis. Quentin esperava, de 
msculos tensos, com o frio da noite penetrando-lhe na carne e 
quase no aguentando tanta ansiedade. O sangue corria-lhe 
veloz pelas veias; at o ouvia batendo-lhe ritmadamente nos 
ouvidos. A sua volta, o silncio era mortal. 
     Parado junto do lago prateado, Quentin observava as 
nuralhas de renda que os vapores iam erigindo sobre a 
superficie espelhada. De repente, a nvoa enrolou-se e 
dividiu-se, e apareceu uma forma escura, que atravessava o 
lago e deslizava lentamente na sua direco. Quentin percebeu 
que se tratava de um pequeno barco, que saa silenciosamente 
do redemoinho de vapores.
     A embarcao no era movida por nenhum remador nem
guiada por nenhum piloto. De casco largo e baixo, aproximou-se
mais e, por fim, embateu suavemente na margem coberta de erva
e parou aos ps do rei.
     Como se pensasse que o barco ia desaparecer outra vez no
nevoeiro, Quentin levantou cuidadosamente o p e meteu-se l 
dentro. Mas a misteriosa embarcao era bastante slida e ele 
foi sentar-se mesmo no meio. Ento, to silenciosamente como 
chegara, o fantasmagrico barco afastou-se da costa, levando-o 
atravs do lago pelo mesmo caminho que percorrera 
anteriormente.

     Sentado muito direito no banco de madeira, Quentin viu o 
seu barco entrar na nvoa. O mundo slido desapareceu de 
vista, e o  rei foi engolido inteiro por um outro mundo de 
nuvens e vapores sem substncia. O barco avanava com tanta 
leveza e suavidade que Quentin nem sabia se estava a flutuar 
se a voar. Nem uma ondulao marcava a sua passagem. Apesar de 
apurar os ouvidos e de perscrutar o vazio, no conseguiu ver 
nem ouvir nada.
     Passado algum tempo, a nvoa rarefez-se e dividiu-se e o 
pequeno barco deslizou para uma laguna pouco profunda, rodeada
por grandes pedras erectas.
     Havia magia naquele lugar; Quentin sentia-a formigando 
por cima dele e lambendo-lhe o rosto e o corpo com o seu fogo 
subtil. Nessa altura viu um vulto.
      sua frente,  beira da gua, estava um homem com um
manto comprido e branco, que luzia ao ser tocado pelos 
brilhantes raios da Lua, O homem fez-lhe sinal para que o 
seguisse e, mal o barco tocou na costa, Quentin saiu e 
apressou-se a ir atrs dele. Atravessaram o relvado em 
direco s gigantescas pedras, passaram por elas e entraram 
num crculo de pedras mais pequenas, muitas das quais se 
encontravam inclinadas ou cadas. Em tempos, estas pedras, tal 
como outras que Quentin j vira em Mensandor, erguiam-se ao 
lado umas das outras, formando crculos nos locais de adorao 
dos antigos. Os crculos eram erigidos em stios de poder, 
onde se dizia que os deuses tocavam a Terra.
     Quando entraram neste crculo sagrado de pedra, Quentin 
viu as chamas vivas de uma fogueira, onde assavam espetadas de
carne. O homem de vestes brancas sentou-se numa das pedras 
tombadas, que se encontrava coberta de musgo verde, salpicado 
de lquenes brancos, sorriu calorosamente e fez sinal a 
Quentin para se instalar. Embora ainda nenhum deles tivesse 
falado, o rei no sentiu medo e percebeu que era bem-vindo. 
Enquanto o homem vigiava os espetos, aproveitou para o 
examinar.
     O desconhecido era alto, bem proporcionado e estava em
forma. As suas feies largas no eram grosseiras nem pesadas.
Notava-se a sua fora no contorno do maxilar e do queixo. 
Tinha o cabelo comprido e escuro atado atrs da cabea com uma 
tira de couro,  maneira dos profetas ou dos videntes. 
Enquanto, com as suas mos fortes, ia ajeitando a carne 
assada, os seus olhos escuros pareciam ties que cintilavam  
luz da fogueira.
     O lume crepitava e estalava, projectando sombras 
grotescas nas pedras erguidas. Embora a sua cabea fervilhasse 
com mil perguntas, Quentin permaneceu silencioso. Naquele 
lugar, nenhuma palavra parecia apropriada. Por isso, deixou-se 
ficar  espera, sentado dentro do crculo quente de luz.
     Por fim, o desconhecido pegou num jarro e encheu uma taa
de madeira, que ofereceu a Quentin.
     - Tens fome?
     - Tenho! - respondeu Quentin, espantado por o homem 
falar.
     - Ainda bem! - Soltou uma gargalhada profunda e 
ressonante, produzindo um som terrestre... um som de 
florestas, colinas e regatos correndo para o mar.
    Fascinado pelo prazer daquela voz, Quentin tambm se riu.
    - Como pensei que talvez tivesses fome, arranjei-te alguma
coisa para comer - explicou o seu misterioso anfitrio. - A 
tua viagem foi longa... percorreste uma grande distncia.
    - Como sabes?
     Ele sorriu e disse:

     - Sei muita coisa sobre ti.
     Havia naquele homem qualquer coisa de familiar, de 
assombrosamente familiar; Quentin sabia que j ouvira a sua 
voz e vira aqueles gestos. Mas onde? No se lembrava.
     - H muita gente que pode dizer o mesmo - retorquiu
Quentin. - O meu nome  bastante conhecido.
     - Boa resposta - volveu o homem, com a alegria 
danando-lhe nos olhos. - Tu s o Rei Drago de Mensandor e na 
verdade, h muito quem saiba o teu nome. Mas eu sei muito 
mais.
     - Continua, por favor - pediu Quentin. Quem seria aquele
homem?
     - Sei que s um homem honrado e que tens muitos amigos.
E que perdeste recentemente um amigo, que te era muito 
querido. Tambm sei que corres o perigo de perder outra pessoa 
que te  ainda mais querida.
     -  tudo?
     - Por agora, creio que chega. Toma, a carne j est 
pronta. - Estendendo a Quentin um espeto, ficou com outro para 
si, pegou na sua taa de madeira e bebeu.
     Quentin tambm bebeu, pensando que nunca saboreara uma
gua to fresca e boa, Sempre observando o desconhecido que
tinha ao lado, arrancou um pedao de carne do espeto.
     - Como te chamas? - perguntou.
     - Chama-me amigo, pois sou teu amigo.
     - Amigo? Mais nada?
     - E que mais  preciso?
     Quentin comia pensativamente. Quem seria aquele amigo? E 
porque lhe pareceria to familiar? Depois de beber mais um 
gole indagou:
     - Onde estou? Que lugar  este?
     Em vez de responder, o homem fez uma pergunta:
     - Vs estas pedras?
     Quentin assentiu com a cabea.
     - Quando aqui foram postas, ficaram de p durante muitas 
centenas de anos. Mas, agora, jazem tombadas e abandonadas, Os 
deuses aos quais foram erguidas j no vm aqui. Porque achas 
que  assim?
     Depois de pensar por um momento, Quentin respondeu:
     - Ser porque os velhos deuses esto a morrer ou porque
nunca sequer existiram? H quem diga que entrmos numa nova
era e que um novo deus est a dar-se a conhecer.
     - E tu... o que pensas tu?
     - Eu acredito... - comeou Quentin devagar, escolhendo 
cuidadosamente as palavras - acredito que os tempos mudam e 
que umas eras se sucedem s outras, mas que s existe um deus, 
que  deus de tudo e de todos. Mas se h ou nunca houve outros 
deuses,  coisa que no sei.
     - Palavras estranhas vindas de um aclito - comentou o 
desconhecido. O seu sorriso dissimulado sugeria que guardava 
para si qualquer segredo.
     Quentin ficou estarrecido. Havia muito tempo que ningum
lhe chamava aclito. Alis, j quase se esquecera de que 
servira no templo; tinham passado tantos anos!
     - Eu era s um rapazinho - replicou.
     - Como disseste, os tempos mudam, mas os velhos costumes
custam a morrer, no ?
     Quentin no disse nada. O homem olhou em volta do crculo

de pedras cadas.
     - Porque- pensas que os homens erguem aos seus deuses
monumentos de pedra?
     - Porque a pedra dura muito - retorquiu Quentin.
     - Sim mas, como vs, no fim, at a pedra cai. O que fica
depois de a pedra se ter desfeito em p?
     Quentin reconheceu nestas palavras uma pergunta que o seu
velho professor Yeseph, ancio de Dekra, lhe fizera havia 
muito tempo, quando fora seu aluno. O velho Yeseph morrera e 
fora enterrado anos atrs.
     - Fica o esprito do homem - disse Quentin, dando a 
resposta que Yeseph o levara a dar.
     - E o amor - acrescentou o homem com toda a simplicidade. 
- No ter mais sentido oferecer ao deus amor em vez de
templos feitos de pedra?
     Uma pontada de culpa trespassou novamente o rei. Quem
seria aquele homem?
     - Quentin, no tenhas medo - disse ele docemente,
     - No tenho... - comeou Quentin. O homem levantou a mo 
e interrompeu-o.
     - E no te entregues ao desespero. Os teus inimigos 
querem humilhar-te e troar do deus que serves. Confia no 
Altssimo, que te erguer de novo.
     Levantando-se, o homem voltou a sorrir:
     - O barco levar-te- outra vez para o outro lado.
     Quentin pOs-se em p de um salto:
     - No te vs embora! Por favor...
     - Tenho de ir. O meu tempo aqui acabou. S queria ver-te
mais uma vez e despedir-me de ti.
     - No! - gritou Quentin, pondo-se de joelhos. - Fica 
comigo. Quero ouvir-te falar mais!                            
       - No pode ser. Mas havemos de voltar a estar juntos. 
Tenho a certeza. - Sorrindo docemente, pousou a mo na cabea 
de Quentin.
     O rei sentiu-se invadido por uma onda de calor e deixou 
de estar em panico.
     - Da outra vez, no pude dizer-te adeus como gostaria. -
Levantando Quentin, envolveu-o num abrao. Passado um momento,
pousando as mos nos ombros do amigo e afastando-o de si, 
rematou: - Adeus, meu amigo.                                  
       - Adeus - retorquiu Quentin, vendo o homem virar-se, 
passar entre duas grandes pedras como se por uma porta e 
caminhar para o bosque.
     Desapareceu quando a nvoa surgiu, tapando a viso de 
Quentin.


        CAPITULO XIX


     O cortejo fnebre partiu de madrugada e atravessou as 
ruas de Askelon com o corpo do amado eremita metido num atade
coberto de panos pretos, puxado por dois dos melhores cavalos
brancos de Toli, seguindo para norte, na direco do ponto de
emontro da floresta de Pelgrin com a plancie, o que 
correspondia a uma distncia de cerca de uma lgua.

     O dia estava bonito e quente. As copas das rvores tinham 
um tom cor-de-rosa dourado devido ao brilho do Sol, que subia 
na grande abbada celeste, azul e sem nuvens. No ar suave e 
parado pairava a doura das flores silvestres, que cresciam em 
cachos espalhados pela plancie: lrios cor-de-rosa e 
amarelos, rainnculos, botes azuis, folhas-de-renda brancas e 
minsculas chinelas-de-dama cor de prpura.
     Toli seguia  frente, montando Riv; atrs iam Esme e Bria 
e, depois, uma carruagem, com Alinea ladeada pela princesa 
Briarma e pela princesa Elena. O cortejo era formado por 
senhores e damas, cavaleiros, escudeiros, servos e habitantes 
da cidade. Todos eram amigos do eremita, que tanto acolhia bem 
as pessoas de posio elevada como as de nascimento inferior.
     Mas, embora a sua misso fosse bem triste, o dia estava 
to bOnitO e a vida corria com tanta intensidade que nenhum 
dos acompanhantes do cortejo poderia permanecer 
verdadeiramente pesaroso.
     - Que estranho! - comentou Bria, pensando nisto mesmo. -
S1ntO-ee como que lavada, como se os dias que passaram fossem
um pesadelo que desapareceu ao amanhecer.
     - Tambm me sinto assim - concordou Esme. - No entanto 
sei que no mudei... o mundo inteiro  que parece ter acabado 
de nascer.
     Continuaram a falar assim. Atrs delas, na carruagem, as 
princesinhas crivavam a av de perguntas. A princesa Elena 
nunca fora a nenhum funeral e a princesa Brianna s assistira 
ao ceYeseph; mas como, na altura, tinha menos de um ano de 
idade, no se lembrava de nada.
     - Av, o que vai acontecer ao Durwin?
     - Nada de mau, minha filha. Agora, o corpo dele vai 
descansar na terra - respondeu Alinea.
     - Mas ele no ter frio? - chilreou Elena.
     - No, nunca mais ter frio.
     - Eu sei o que vai acontecer - interps Brianna, dando-se
ares de importante. - Ele vai transformar-se em ossos!
     - Que horror! - gritou a pequena Elena, com os olhos 
faiscando perante o mistrio de tudo aquilo. - Eu tambm vou 
transformar-me em ossos?
     - S daqui a muito tempo, minha querida. Sabes, toda a
gente morre e se transforma em ossos e p.                    
       - Acho que no vou gostar nada disso - replicou Elena
pensativamente.
     - Eu c vou! - anunciou Brianna, decidida a tirar o 
melhor partido de qualquer situao.
     - No me parece que alguma vez saibas o que te aconteceu
nem que isso te interesse muito, pois comears uma vida nova
e maravilhosa num outro lugar.
     - Onde? Oh, conta-nos, av - pediram.
     - Est bem. Muito longe daqui, h um grande reino.... o 
reino do Altssimo. Quando morrerdes, ireis para l viver com 
ele.  um stio prodigioso e bonito como nunca vistes nenhum. 
Deixareis aqui o vosso corpo, do qual j no precisareis, 
porque tereis um novo, e vivereis felizes para sempre.
     - O Durwin foi para l?
     - Foi, foi para l. Foi ter com o Altssimo.
     - Quando l chegarmos, voltaremos a ver o Durwin. - 
indagou Elena.
     - Claro que sim. Ele estar  nossa espera.
     - E o av Eskevar tambm? - quis saber Brianna.

     - O av tambm. - Alinea sorriu. As crianas eram to 
confiantes, crdulas e inocentes! As suas netas acreditavam no 
que ela lhes dizia sem precisarem de provas nem de garantias. 
A f delas era simples e tolerante: dava lugar a muitas 
perguntas mas poucas dvidas.
     - Oh! - exclamou Brianna, muito decidida. - Ento, irei 
j. Costava muito de ver o avo.
     - Se fosses j, ficaramos muito tristes, minha querida - 
respondeu Alinea, acariciando-lhe o cabelo. -  que, nesse 
caso, nunca mais te veramos. Fica connosco mais algum tempo, 
por favor.
     - Est bem - concordou Briarma -, eu fico. - Aninhando-se 
mais: - No gostaria nada de te deixar, av.
     De todos os que seguiam no cortejo, s Toli no via a 
beleza do dia. Seguindo silenciosamente com os olhos postos em 
frente, mas sem ver nada, s pensava naquilo que lhe rasgava o 
corao e que o fazia ter vontade de gritar: Fracassei, meu 
amo. Desgracei-me e desgracei o rei. Ele tem razo: a culpa 
foi toda minha e s minha. Sim, o sangue do Durwin mancha as 
minhas mos. O responsvel sou eu... nunca devia t-los 
deixado sozinhos. Assim, o Durwin ainda estaria vivo e o 
principe so e salvo. Nunca nada disto teria acontecido. 
Faltei ao meu dever e j no sou digno de ser chamado servo. 
Tenho de desfazer o que fiz. Tenho de o desfazer,
ainda que isso me custe a vida. A vida... para que me serve 
agora?
     Quando chegaram, levaram o atade para a campa que fora
preparada no dia anterior e que j ficava dentro da floresta, 
numa margem sobranceira a um laguinho ensombrado. Tratava-se 
do lapinho onde Durwin patinhara tantas vezes,  procura das 
suas plantas medicinais.
     Alnea escolhera aquele lugar porque se lembrara de como
gostava de ir para ali apanhar plantas ou s sentar-se a 
pensar. Encontrava-o muitas vezes estendido na margem e 
sentava-se a ouvi-10 falar desta ou daquela erva ou a 
reflectir sobre o Altssinio.
     - O Quentin e o Gerin deviam estar aqui - disse Bria. - 
Gostavam tanto do Durwin! Quem me dera que estivessem aqui! - 
A rainha j ultrapassara o trauma da noite anterior; de facto, 
at nem se lembrava de que lhe acontecera a si. Achava que 
pertencia ao sonho, ao pesadelo que se desvanecera com o novo 
dia.
     - Tenho a certeza de que viro aqui muito em breve. - 
Esme examinou a amiga, em busca de algum sinal do mal que a 
atingira.
     Reparando na sua ateno, Bria sossegou-a:
     - Sinto-mee muito melhor, - Fazendo uma pausa e lanando 
um olhar  campa: -  que no me parece certo, sem o Quentin 
aqui.
     - Sabes muito bem que, se pudesse, estaria aqui. Mas o 
primeiro dever do Quentin  encontrar o prncipe e traz-lo 
so e salvo. O rei no pode descansar at o seu filho e 
herdeiro estar em segurana.
     - Tens razo. - Depois de uma pausa, acrescentou: - Mas
olha para o Toli.  uma dor de alma v-lo assim.
     Esme observou o jher silencioso e esbelto e assentiu 
tristemente. Tambm o lamentava muito. S queria poder 
chegar-se ao p dele e consol-lo; alis, se no fosse o medo 
de ser rejeitada, t-lo-ia feito.

     Pela sua parte, Toli s falara a Theido das duras 
palavras de Quentin, que achava terem sido bem merecidas. Sem 
pensar mais nisso, fez sinal a vrios senhores e cavaleiros, 
que logo se encaminharam para o atade, pegaram na tbua 
comprida sobre a qual descansava o corpo e a puseram aos 
ombros. Bria, Esme e Alinea tambm se aproximaram, pegaram nos 
ramos de flores que, nessa manh, tinham sido colocados na 
carroa funerria e seguiram o corpo at  campa.
     Os homens baixaram o corpo do eremita para dentro da cova
aberta na terra escura e rica. A luz do Sol iluminou a cova e 
caiu sobre o rosto plido. Durwin parecia satisfeito e em paz. 
Mas mudara; j no era o mesmo homem que tinham conhecido. Na 
morte, parecia-se to pouco consigo que nenhum dos 
acompanhantes do cortejo poderia olhar para ele naquele 
momento e dizer: Este  o homem que conhecemos em vida. 
Durwin, a verdadeira essncia do homem que tinham amado, 
desaparecera, deixando apenas um invlucro sem valor.
     Alinea foi at  sepultura, ajoelhou-se e pousou as suas 
flores no cho. Bria e Esme juntaram-se-lhe. De p junto da 
cova aberta, Toli observava tudo silenciosamente, com os olhos 
duros como pedra polida.
     Os outros tambm se aproximaram da sepultura, parando 
brevemente a prestar as suas ltimas homenagens. Aqui e ali 
brotava uma lgrima, mas no houve os soluos, nem as 
lamentaes, nem as exibies de dor que normalmente se vem 
em tantos funerais. Todos os que ali estavam sabiam que aquele 
enterro era diferente, pois tratava-se da sepultura de um dos 
mais fiis servos do Altssimo. E nenhum dos que contemplavam 
o corpo sentia que o hornern deixara de existir. O seu 
esprito estava presente entre eles. seria errado considerar 
que o santo eremita da floresta de Pelgrin mergulhara numa 
no-existncia sombria, no mundo subterrneo dos deuses. At 
os que nunca tinham ouvido falar do Altssimo nem do seu 
grande e maravilhoso reino acreditavam que Durwin fora para um 
lugar muito diferente e muito melhor.
     No seu ntimo, todos os que o viam na sua campa desejavam
sua prpria morte fosse assim: segura, digna e em paz. E, a 
partir daquele dia, foram muitos os que passaram a acreditar 
que Durwin tinha razo no que dizia sobre o Altssimo, pois 
tambm eles queriam ir para onde o eremita fora.
     A princesa Brianna e a princesa Elena foram as ltimas a 
pr flores na campa. Quando, por fim, todos prestaram as suas 
homenagens ao corpo, Toli e cinco cavaleiros encheram a cova 
de terra. Depois, um a um, os acompanhantes do cortejo pegaram 
em pedras, que colocaram no tmulo.
     - O Quentin teria gostado que ele fosse enterrado na Roda
dos Reis - comentou Bria, enquanto se pousavam as pedras em
cma do tmulo -, mas este stio  melhor, mais adequado.
     Pois  - concordou Alinea. - O lugar dele  aqui, entre
as rvores que amava, onde vivem os seres selvagens.
     Ento, viraram-se e partiram na direco do castelo, 
deixando a tristeza para trs. S Toli ficou depois de todos 
se terem ido embora. Sem se mexer, contemplou a sepultura 
durante muito temPo. Por fim, montou Riv e partiu. Mas no foi 
para o castelo dc Askelon com os outros.
     - Onde est o Toli? - perguntou Esme, rodando na sela 
sua procura e no o vendo entre os que seguiam atrs dela.
     - Que estranho! - disse Bria, virando-se tambm. - No o

vejo por lado nenhum. Pensei que tinha vindo com os outros.
     Esme olhou para a campa, mas no viu nada. Toli 
desaparecera.


        CAPITULO XX



      - O prncipe... aqui? Pelas barbas do deus!  um erro. 
Um erro terrvel. Tu implicaste o Grande Templo nas tuas 
intrigas. No admito! Ouviste? No admito!
     Encolerizado, o sumo sacerdote Pluell arrancava os 
cabelos e passeava para trs e para diante nos seus aposentos. 
Encapuado e sem dizer nada, Nimrood observava sentado a fria 
de Pluell. Passado um tempo, o sumo sacerdote postou-se de 
mos nas ancas em frente do ancio de barba branca.
     - Agora, o templo corre perigo por tua causa, e isso no
estava no nosso acordo. Nunca me disseste que tencionavas 
raptar o prncipe. No o admito!
     Por fim, pareceu a Nimrood que ouvira que chegasse. 
Levantando-se, lanou um olhar fulminante ao sumo sacerdote e 
caminhou para a porta em passos largos.
     - Espera! O que vais fazer? Onde vais?
     - Vou-me embora.  bvio que perdeste a coragem. No me 
serves para nada. Adeus.
     - No! - gritou Pluell. - No podes fazer isso! E o 
prncipe? O que lhe fao?
     - O que quiseres. Que me interessa? Talvez fosse um bom 
aclito, mas parece-me que o pai dele teria alguma coisa a 
dizer-te.
     - Pra! Anda c. No podes ir-te embora assim. Eu nunca 
tive nada a ver com isto!
     Com a mo j no ferrolho da porta, Nimrood parou:
     - Nunca tiveste nada a ver com isto? Ah! - Virou-se de 
repente, com os olhos a faiscar. Vendo aquela mudana, Pluell
recuou, boquiaberto. Nimrood avanou para ele, parecendo 
crescer a cada passo que dava.
     - A ideia foi minha?
     - De quem foi ento? Ests a sugerir que foi minha?,
     - Foi tua e s tua. Eu s te falei do perigo que o templo
corria se no agisses imediatamente. Foram os teus homens que
raptaram o rapaz. O erro foi deles. s o sumo sacerdote... 
portanto, o responsvel.
     - No! Tu enganaste-me! Eu disse-te para... para...
     - Exactamente! Disseste-me para fazer o que fosse 
preciso. No  estaramos agora aqui se os estpidos dos teus 
homens tivessem  feito as coisas em condies. Pela minha 
parte, nunca planeei as coisas assim.
     - Tens de me ajudar! - gemeu Pluell. O choque e a clera
que sentira pelo que Nimrood lhe fizera haviam sido 
substitudos pelo medo de ter de enfrentar sozinho o rei 
ultrajado. Se soubesse do ataque ao filho, o Rei Drago havia 
de o desfazer em pedacinhos! - Desculpa. No estava a ver as 
coisas com clareza. Fica e ajuda-me a pensar no que havemos de 
fazer.

     Nimrood cofiou a barba, parecendo estar a cismar no que 
tinham de fazer. Ah!, pensou de si para consigo. Foi muito 
fcil! Apanhei o peixe na rede. Ele no tem coragem nenhuma. 
Merece bem o seu destino. Mas ainda pode servir-me; portanto, 
vou salv-lo. Isto est a correr muito melhor do que eu 
esperava.
     - Est bem, ficarei. Mas tens de deixar de te 1amentar e 
de fazer o que eu disser. Tenho um plano. Um plano muito 
simples. E, se tudo correr bem, dentro em breve ters o rei na 
palma da tua mo gorducha.


     Partindo do stio onde o prncipe fora visto pela ltima 
vez, Theido, Ronsard e um grupo de cavaleiros passavam a 
floresta a pente fino, descrevendo crculos com o centro nesse 
ponto central e penetrando cada vez mais profundamente no 
corao de Pelgrin. Os cavaleiros vasculhavam os carneiros 
ensombrados e os atalhos mal iluminados e Theido e Ronsard 
encontravam-se com eles nos locais previamente combinados, 
onde conferenciavam e comunicavam uns aos outros as ltimas 
novas.
     Mas nunca havia grandes novidades. Ningum conseguia 
descobrir sinais dos raptores.
     - Parece que desapareceram da face da Terra - disse 
Ronsard, quando se encontraram para a ltima conferncia do 
dia.
     - Eu tambm no tenho nada a comunicar. - Theido 
contemplou o cu. As nuvens tingiam-se de cor de laranja  
medida que o Sol ia baixando por trs das rvores. - Daqui a 
pouco anoitecer e ficar muito escuro para prosseguirmos as 
nossas buscas.
     Ronsard espreitou o cu atravs dos espaos abertos entre 
as folhas das rvores.
     - Malditos sejam! Pelo deus, esperava dar hoje com a 
pista deles. - Fitou Theido, cujo olhar parecia distante. - Em 
que ests a pensar?
     - Em nada... em nada.
     Ronsard abanou a cabea:
     - No penses que me enganas, senhor. Conheo-te muito
bem. Diz l.
     Theido assentiu lentamente:
     - Estava a pensar no que o Toli disse sobre a espada do 
Quentin.
     - Tambm ainda no consegui entender. O que significar?
     - Nada de bom, podes ter a certeza. Estava mesmo agora a
pensar que pressagia uma desgraa ainda maior do que o 
desaparecimento do prncipe, que por si s j  desgraa que 
chegue.
     Ronsard olhou para o amigo com um ar entendido:
     - Tens razo, ningum se separaria da Brilhante de nimo 
leve. Sempre pensei que o Quentin lutaria at  morte antes de 
desistir dela.
     - Tiraste-me as palavras da boca. No entanto, quando o 
Toli o encontrou na estrada, ele nem falou de nada. Porqu? - 
Theido lanou novamente um olhar para o cu e acrescentou: - 
Um problema de cada vez, no te parece? Recomearemos as 
buscas mal o dia nasa.
     - Tens razo, amanh...  o ltimo dia que nos resta. As 
pistas, se  que esto por a, vo comear a desaparecer.
     Theido virou o cavalo e fez meno de se afastar:

     - Adeus, Ronsard. Encontrar-nos-emos amanh  mesma hora.
Se ainda no tivermos dado com a pista nessa altura, bem... 
reza para que a encontremos,
     Ronsard levantou a mo em despedida e ficou a ver o 
cavaleiro alto e magro afastando-se, cavalgando em sentido 
contrrio ao que antes percorrera. O Theido tem razo, 
pensou. Est a acontecer qualquer coisa que pressagia a nossa 
desgraa. O qu, aposto que descobriremos muito em breve.
     Suspirando, embrenhou-se nas sombras que se adensavam 
para ir ter com os seus homens mais uma vez, antes de se 
enrolar na capa e dormir.  sua volta, o bosque estava calmo e 
silencioso, como se contemplasse a chegada da noite. Ronsard 
sentiu que das sombras saa um frio acompanhado de um 
pressgio to sinistro como havia anos no experimentava. 
Arrepiando-se todo por dentro, prosseguiu o seu caminho.

     - Me, se no achais sensato, ou se tendes um plano 
melhor, dizei-me. - Bria olhou para a me com toda a ateno e 
quase sem respirar. De repente, tivera uma ideia, e fora 
imediatamente aos aposentos da me, discuti-la com ela.
     - No digo que seja insensato - retorquiu Alinea devagar 
e muito concentrada -, mas tenho as minhas dvidas.
     Bria franziu as sobrancelhas, mas a me continuou:
     - No entanto, lembro-me que, aqui h uns anos, o Durwin
traou o mesmo plano. Nessa altura, tambm parecia arriscado,
mas acabou por dar certo, embora nem o prprioDurwin pudesse
adivinhar o resultado. - Sorriu para a filha, e Bria viu-lhe 
os olhos verdes iluminando-se. - Parece que os destinos de 
Askelon e de Dekra esto sempre a encontrar-se. Sim, minha 
querida. Vai para Dekra. Eu tambm irei.
     - A srio, me? Ireis?
     - Porque no? Ainda posso viajar. E agora que a Estrada 
do Rei j vai at Malmarby, a jornada  quase toda ela muito 
fcil. Mas temos de partir imediatamente. - Lanou um olhar 
rpido  filha. - O que se passa?
     - Falastes de dvidas. Quais so elas?
     -  que, entretanto, pode chegar a Askelon alguma nova
sobre o prncipe. Se no estiveres aqui para a ouvir... - No 
acabou a frase.
     - Estou a perceber. O que hei-de fazer?
     - No sei. Tal como qualquer me, faz o que o corao te 
ditar.
     - Ento, irei a Dekra falar com os ancies. A sua 
sabedoria j nos foi til muitas vezes e as suas oraes podem 
ser bem eficazes. - Fitou a me nos olhos. - Mas gostava tanto 
que o Quentin estivesse aqui
     - O Quentin regressar em breve. Vamos deixar-lhe uma 
carta a contar-lhe os nossos propsitos. De qualquer modo, ele 
ia querer ficar aqui e participar nas buscas.
     - E a Brianna e a Elena? Tenho medo de as deixar...
     - Viro cormosco. Porque no? H tanto tempo que pedem 
para ir a Dekra! E vo gostar da viagem... No me parece que 
fosse sensato deix-las c. Iremos de carruagem e, para maior 
segurana, levaremos connosco um destacamento de cavaleiros.
     Sentindo-se melhor por ter falado com a me, Bria sorriu:
     -  verdade... tendes razo, claro.

     - At  melhor termos alguma coisa para fazer. Parece-me 
que no seria nada bom ficarmos s  espera. Se as novas 
tardassem... bem, iremos. Vamos pensar s no bem-estar do 
Gerin. Os ancies de Dekra ajudar-nos-o.
     Olhando para a me com um ar de admirao, Bria 
lanou-lhe os braos ao pescoo:
     - Obrigada. Eu bem sabia que me dareis a resposta mais
acertada.
     Alinea deu umas palmadinhas nas costas da filha:
     - Coitado do Quentin! Rezemos para que esta espera no o 
aflija muito. Sentir-me-ia melhor se o Toli estivesse aqui. 
Talvez ele volte em breve.
     - Quando partimos?
     - Logo que os cavalos e os mantimentos estejam prontos.
     - Ento, amanh de manh. Descansaremos melhor nas 
nossas camas hoje  noite e partiremos amanh bem cedinho.
     Alinea fez um gesto de assentimento com a cabea. Bria 
inclinou-se, beijou a me e apressou-se a sair, com a cabea 
j cheia de dezenas de pormenores de que teria de tratar antes 
de partir. Alinea ficou a v-Ia afastar-se, pensando no tempo 
em que tambm ela planeara aquela viagem. Depois, sorriu, 
assentiu com a cabea e voltou s suas oraes.


        CAPTULO XX1


     Quentin deu rdea livre a Blazer e deixou que o animal o 
conduzisse de regresso a casa. A estrada era fcil de seguir e 
o cavalo sabia o caminho para Askelon. Quentin nem sabia nem 
lhe interessava saber para onde iam e Blazer seguia direitinho 
para casa.
      medida que o caminho atravs de Pelgrin foi mergulhando 
cada vez mais nas sombras azuis e frescas projectadas pelo 
verde das folhas, Quentin, entorpecido pela falta de sono, 
sentiu-se recuando ao estranho encontro que tivera na ilha.
     No tinha dvidas de que fora especificamente convocado 
para a ilha Sagrada. Por que artes mgicas fora arrastado at 
ao lago e a ficara  espera at o barco chegar para o levar 
at ao crculo de pedras? Por feitiaria, de certeza. Mas com 
que fim?
     Quentin no sabia. E quem seria o homem, o misterioso 
desconhecido que lhe falara, que o tratara pelo nome e que 
sabia quem ele era? Inexplicavelmente, parecia-lhe que o 
conhecia havia muito tempo, embora nunca o tivesse visto.
     Ou teria?
     Era como se um amigo tivesse partido para uma longa 
viagem num pas distante e houvesse voltado muito mudado, 
passados vrios anos. Embora, no ntimo, continuasse 
basicamente a mesma pessoa, era esta mudana que lhe 
dissimulava a identidade. Chama-me teu amigo, pois  isso que 
sou, dissera o homem. Quentin pensou que bem precisava de um 
amigo. Desesperadamente.
     Sentiu apoderar-se dele uma solido que havia muito no 
sentia; no experimentava o peso esmagador daquela solido 
extrema desde que fora aclito no Grande Templo. Os seus 
pensamentos recuaram at esse tempo, e ele voltou a ser o 
rapazinho assustado agarrado  crina do temvel cavalo de 
guerra Balder, partindo numa misso que no podia ter xito, 
mas no deixando de ir por causa disso.

     Que esperanas, que cegueira!
     Quem me dera voltar a ser esse rapaz to confiante!, 
pensou Quentin, sentindo o peso dos anos, provando a saudade 
agridoce desses tempos mais simples e melhores e deixando-se 
percorrer por ondas de saudade e de solido.

     Quando despertou da sua meditao, viu que o Sol, estava 
a baixar sobre a estrada e que j se encontrava quase fora da 
floresta. Quando regressara da ilha, encontrara Blazer  sua 
espera na outra margem, puxara o barco de pele de boi para a 
praia e cavalgara todo o dia sem parar. Por isso, naquele 
momento, sentia o cansao apoderando-se dele e envolvendo-o 
com a sua mo de ferro. Tinha a cabea a palpitar.
     Saindo da floresta, desceu uma colina pouco ngreme e 
entrou num vale bastante largo, onde se encontravam as quintas 
de camponeses e pequenos proprietrios, que vendiam os seus 
produtos no mercado de Askelon. Um pouco  frente, Quentin viu 
o gradeamento de vime da casa de um lavrador. Observou-o a ele 
a recolher dos campos uma parelha de bois e  mulher a tirar 
gua do poo e decidiu parar um bocado para limpar da garganta 
o p da estrada e para o cavalo poder descansar, Mas seria s 
um bocado, pois queria estar em Askelon ao cair da noite.
     - Boa tarde! - gritou Quentin, entrando no ptio, onde 
vrias galinhas debicavam, cacarejando, - Boa tarde! - 
repetiu, sentando-se  espera que o lavrador se mostrasse.
     Numa janela escura surgiu de relance um rosto, que logo
desapareceu. Passado um momento, o lavrador apareceu do outro
lado da casa, levando na mo uma forquilha de dois dentes.
     Fitando Quentin prudentemente, mas com um certo respeito,
saudou:
     - Santas tardes, senhor. - O seu rosto tisnado examinou 
francamente o visitante. Se havia nele alguma desconfiana, 
era apenas a desconfiana normal que todas as pessoas simples 
mostravam relativamente aos desconhecidos que estavamm 
obviamente acima deles. Quentin sorriu-lhe e disse:
     - Est um dia quente para viajar, mas bom para as searas.
     o lavrador fitou o cu pelo canto do olho e pareceu 
perder-se entre as nuvens que deslizavam velozmente para o 
horizonte. Ao cabo de algum tempo, volveu novamente o olhar 
para Quentin e retorquiu:
     - Viajar faz muita sede.
     - J que falas nisso, ds-me gua? - perguntou Quentin.
     -  vontade - respondeu o lavrador, acenando com a cabea
na direco do poo.
     Quentin desmontou devagar e foi at ao poo, sentindo nos
ossos cada solavanco da estrada. Instalando-se na beira de 
pedra, pegou na cabaa, fez descer a corda entranada, encheu 
a cabaa e levou o recipiente cheio at  borda ao seu 
cavalo...

     Blazer, com o brilhante plo branco sujo de p cinzento e 
castanho, mergulhou o focinho largo na gua e bebeu 
longamente. Enquanto segurava na cabaa, Quentin reparou num 
movimento  porta da casa. A mulher do lavrador juntou-se ao 
marido, e o rei sentiu o seu olhar examinador. Depois, ouviu 
uns sussurros atrs de si. O que estaria a mulher a dizer ao 
marido? Percebeu-o quando se virou, pois viu desabrochar nas 
suas faces coradas uma expresso de temor respeitoso: a 
expresso que o acompanhava sempre que aparecia em pblico e 
que lhe lembrava que era o Rei Drago.
     Olhou para eles e ambos se curvaram com um ar desajeitado
e envergonhado,
     - Ponde-vos direitos, meus amigos - ordenou suavemente.
     - Eu... no sabia que reis vs, Majestade - tartamudeou 
o lavrador. - Sou um vosso humilde servo.
     Quentin comeou a dar palmadinhas nas roupas cheias de 
p.
     - Como havias de saber, bom homem? - Cada palmada era

acompanhada por uma nuvem de p. - Pareo mais um salteador do
que um rei.
     A mulher do lavrador, magra como um espeto, acotovelou o 
marido, que imediatamente deu um salto para a frente, pegando 
na cabaa:
     - Com licena, Vossa Majestade.
     Quentin ia protestar, mas, pensando melhor, no tirou ao
homem o prazer de passar anos a falar aos amigos e parentes do
dia em que deu de beber ao cavalo do rei.
     Sentando-se novamente na borda do poo, Quentin reparou 
no aspecto grosseiro da casa, que, embora fosse uma construo 
simples, feita do material mais barato (uma estrutura de 
madeira constituda por paus entrelaados, coberta de lama e 
com um telhado de colmo), estava limpa. No ptio, tambm tudo 
se encontrava em ordem. Era uma habitao igual a tantas 
outras que podiam ver-se de uma ponta  outra de Mensandor, 
desde Wilderby a Woodsend.
     Como viu pelo canto do olho uma sombra fugaz a fugir e a 
desaparecer na esquina da casa, ficou a olhar para l durante 
algum tempo. Dali a pouco, um par de grandes olhos escuros e 
uma testa clara voltaram a espreitar.
     Quentin sorriu e levantou a mo, fazendo sinal ao dono 
dos olhos para se mostrar e se aproximar. Um rapazinho sujo 
apareceu hesitantemente na esquina, com as costas encostadas  
casa, e avanou devagarinho para o desconhecido, com a timidez 
de uma criatura selvagem da floresta. O menino de olhos 
escuros envergava uma tnica comprida, sem dvida herdada e 
adaptada de uma do pai. As pontas estavam pudas e esfiapadas, 
e os fios esvoaavam ao sabor da brisa como borlas. O 
rapazinho fitava o recm-chegado com uma curiosidade e uma 
admirao que no procurava disfarar, espreitando tanto o 
cavaleiro como o grande cavalo de guerra que bebia da cabaa 
que o pai segurava.
     - Anda c, rapaz.
     A me do mido correu para ele e limpou-lhe o rosto com o
avental sujo, esfregando-lhe saliva nas faces e no queixo. 
Quando o rapaz ficou apresentvel, ela empurrou-o para a 
frente. Envergonhado perante o rei, o mido resistiu.
     Quentin acenou com a cabea e sorriu. O rapaz era um 
pouco mais velho do que o prncipe Gerin e, embora fosse mais 
franzino, tinha o mesmo cabelo castanho escuro e desgrenhado.
     - Este senhor  o rei! - sussurrou-lhe a me asperamente
ao ouvido. - V se tens maneiras!
     No se percebeu se o moo escutou ou no o nome de quem
estava  sua espera. Aos seus olhos, qualquer um que montasse
um cavalo como o que estava no ptio pertencia de certeza 
realeza.

     A me empurrou-o para a frente de Quentin, onde ficou a 
olhar para os ps descalos, fazendo riscos na poeira com o 
dedo grande. Quentin pousou-lhe as mos nos ombros magros:
     - Como te chamas, rapaz?
     A resposta demorou a chegar:
     - Rermy, Vossa Majestade. - A sua voz mal se Ouviu.
     - Renny, tenho um filho como tu - disse Quentin, sentindo
uma faca espetar-se-lhe no corao quelas palavras, pois elas 
fizeram-no lembrar-se de que o seu filho desaparecera. - 
Chama-se Gerin - continuou, obrigando-se a sorrir -, e tem 
mais ou menos a tua idade.
     - Tem algum cavalo? - perguntou Renny.
     - No - respondeu Quentin. Era verdade, pois, embora
Gerin pudesse escolher qualquer cavalo do estbulo do rei para
montar, no possua nenhum s para si. - Mas gosta de montar.
E tu?
     O rosto do rapaz entristeceu de repente:
     - Eu... nunca montei, Vossa Majestade. - Quando a 
terrvel verdade lhe saiu da boca, o rapaz sentiu-se melhor, 
pois o seu rosto iluminou-se instantaneamente quando anunciou: 
- Mas quando for grande hei-de ter um cavalo e hei-de ser 
cavaleiro!
     A segurana daquela voz quase infantil fez Quentin dar 
uma risadinha:
     - De certeza que sim! - concordou ele. - Gostarias de 
montar o cavalo de um rei?
     Os olhos escuros abriram-se muito e procuraram a 
aprovao do progenitor mais prximo.
     -  o que ele sempre quis - afirmou o lavrador. - S fala
nisso.
     - Ento, hoje O teu desejo ser realizado, senhor! - 
rematou Quentin, dando-lhe a mo e levando-o at Blazer, que 
esperava calmamente. O cavalo pareceu crescer  medida que se 
aproximavam, e Quentin sentiu a mo de Renny apertando muito a 
sua. - Este cavalo est muito bem treinado. No faz mal nenhum 
ao seu cavaleiro.
     Com estas palavras, Quentin levantou o rapaz e p-lo na 
sela. A expresso estonteado do mido mostrava bem a sua 
incapacidade de abarcar toda a sorte que tivera ou de se 
aperceber das vrias sensaes que o assaltavam naquele 
instante miraculoso.
     O rei estendeu-lhe as rdeas e pousou-as nas suas mos.
Depois de Renny se ter ambientado, Quentin pegou na brida de
Blazer e comeou a andar com ele  volta do ptio. De p,
agarrados um ao outro, o lavrador e a mulher sorriam muito 
contentes ao verem o filho montar o cavalo do rei.
     Ao sentir a sua alegria, Quentin riu alto. Era bom rir. 
Comeara a pensar que nunca mais se riria.
     Pela sua parte, Renny comemorava o acontecimento com toda
a pompa e solenidade que o seu corpo de rapaz conseguia 
reunir. Rigidamente sentado na sela, com as costas direitas 
como uma lana, os olhos postos em frente e os ombros para 
trs, era a verdadeira imagem de um cavaleiro partindo para a 
batalha, cheio de coragem, seguro da vitria perante o 
inimigo. Depois, Quentin ensinou-lhe a puxar as rdeas para um 
lado ou para o outro, para o cavalo virar, e a faz-lo parar e 
andar. Reiany assimilou estas informaes com um ar grave e 
judicioso.
     - Consegues lembrar-te de tudo?

     - Claro - assentiu o rapaz.
     - Ento, condu-lo  vontade. Monta sozinho, jovem senhor. 
- Quentin recuou uns passos e Renny, lanando aos pais um 
olhar simultaneamente preocupado e exultante, apertou os 
flancos de Blazer com os calcanhares, levantou as rdeas e 
conduziu o cavalo  volta do ptio.
     Blazer, campeo na batalha, corajoso e veloz como o vento
na plancie, comportou-se to docilmente como qualquer cavalo
dos campos. Dando passos ligeiros em volta do ptio, rodeava 
os trs espectadores, abanando a cabea e relinchando de vez 
em quando, para gudio geral.
     Quando, por fim, o passeio acabou, Blazer parou em frente 
do seu dono. Antes de Quentin ter tempo para levantar a mo, 
Renny passou a perna por cima da sela e deslizou para o cho 
com a percia de um cavaleiro experiente. A sua expresso era 
de triunfo e deslumbramento, e parecia dizer: Montei o cavalo 
do rei! Vou ser cavaleiro!
     - Muito bem, senhor! - gritou Quentin, dando uma 
palmadinha nas costas do rapaz. - Muito bem!
     Os pais de Renny correram a abra-lo, to contentes com 
a sua sorte como se esta tivesse sido a realizao do seu 
sonho. Quentin sentiu-se comovido com a demonstrao do amor 
existente entre os membros daquela famlia to simples e 
entregou-lhes o seu corao.
     - Obrigado, Vossa Majestade - disse a mulher do lavrador, 
pegando-lhe na mo e beijando-a.
     - Orgulho-me muito deste dia - exultou o lavrador, com
lgrimas de alegria cintilando-lhe nos cantos dos olhos. - O 
meu filho encarrapitado no cavalo do rei... - No havia 
palavras que descrevessem o orgulho que sentia.
     - No foi nada de mais - replicou Quentin. - E tambm eu 
gostei.
     - Tendes de ficar para a ceia, meu senhor - afirmou a
mulher, pestanejando imediatamente de espanto ao perceber o 
que dissera. Acabara de convidar o rei para cear! Na sua 
cozinha!
     Quentin comeou a desculpar-se, mas interrompeu-se e 
virou-se para a estrada. As sombras da tardinha j se 
estendiam pela terra. O Sol transformara-se numa grande bola 
de fogo com chamas vermelhas, que tocava o outro lado do 
horizonte. Estava cansado e, naquele mornento, no lhe 
apetecia nada voltar a montar e ir at Askelon.
     - Madame - comeou Quentin, dirigindo-se-lhe do modo
como o faria  esposa de qualquer nobre -,  uma honra 
partilhar convosco a refeio da noite.
     A mulher esbugalhou os olhos e abriu a boca; virando-se, 
fitou O mairido que se limitou a devolver-lhe o olhar com a 
mesma expresso de absoluto espanto. Depois, pegando nas 
saias, correu para casa a preparar a refeio. Ao v-Ia ir, 
Quentin sorriu.
     - Senhor, permiti-me cuidar do vosso cavalo - disse o 
lavrador quando ela desapareceu de vista. - Depois de terdes 
viajado tanto, deveis ter fome.
     - Obrigado, s muito amvel.

     O lavrador conduziu Blazer para o pequeno estbulo 
construdo ao longo da parte de trs da casa. Pressentindo que 
ia comer, o cavalo quase voou. O pequeno Renny ficou a v-lo 
ir, com os olhos ainda cintilando como estrelas. J revivera 
cem vezes em pensamento o seu portentoso passeio.
     Quentin voltou a sentar-se na borda do poo e cruzou os 
braos por cima do peito. Se calhar, no devia ter aceite o 
convite, para no se demorar ainda mais. Mas, naquela altura, 
j no podia voltar com a palavra atrs. Alm disso, se 
partisse no dia seguinte ainda antes da madrugada, chegaria 
cedo a Askelon. Ali, comeria, dormiria e talvez conseguisse 
esquecer os seus problemas durante algum tempo.
     - Porque estais triste? - trinou uma vozinha ao seu lado.
     Quentin mexeu-se, ergueu o olhar e deu com Renny 
estudando-o atentamente.
     - Estava a pensar, mido.
     - A pensar no vosso filho?  o prncipe! - informou 
Renny.
     - Julgo que sim. Pois,  o prncipe...
     - E vs andais  procura dele - interrompeu-o Renny, 
completando os seus pensamentos. - Uns homens maus levaram-no,
e ns temos de estar muito atentos para ver se sabemos alguma
coisa dele.
     Quentin sorriu tristemente. As ms novas tm asas, 
pensou. Sim, todos sabem o que aconteceu. Por aquela altura, 
j devia saber-se em toda a Mensandor. A sua dor no era to 
privada como supunha. Nada do que lhe dissesse respeito era 
privado. Para o povo, a vida do Rei Drago era motivo de 
conversas, lendas e canes.
     O que pensariam quando soubessem que ele perdera a espada
chamejante, a Zhaligkeer, a Brilhante, smbolo da sua 
autoridade e investidora divina? O que diriam ento dele?
     - No vos preocupeis, Vossa Majestade - disse o rapaz. - 
Haveis de encontrar o prncipe! No sois o Rei Drago? Vs 
podeis fazer o que quiserdes!
     -  verdade - retorquiu Quentin com um ar ausente, 
passando a mo pelo cabelo escuro do rapazinho -, havemos de 
encontr-lo. Oxal o encontremos!
     Acabando de tratar de Blazer, o lavrador regressou e 
postou-se  frente do rei, sem se atrever a falar para no lhe 
interromper os pensamentos. Por isso, ficou calado,  espera. 
Ouviu-se chamar de dentro de casa. Como Quentin no se mexeu, 
o lavrador anunciou:
     - Vossa Majestade, o jantar est na mesa.
     O cu da tardinha luzia com o pr do Sol; as nuvens 
brancas e macias estavam tingidas de cor-de-rosa e de cor de 
laranja. Os grilos cantavam na erva que crescia junto  
estrada e as andorinhas esvoaavam e riscavam o ar azul.
     O mundo parecia pousado num fino fio de seda, 
perfeitamente equilibrado entre o dia e a noite. Quentin 
suspirou e levantou-se. O fio partiu-se e o mundo rolou para a 
noite.
     Em silncio, encaminharam-se para dentro de casa,  
mergulharam as mos numa bacia pousada num banco arrumado 
perto da porta e entraram para jantar.


        CAPTULO XX11



     Bem no corao verde de Pelgrin, Toli parou ao lado de 
uma nascente de gua, que caa em fio de um montculo de pedra 
branca para um laginho cristalino. Depois de deslizar da sela, 
deu de beber a Riv, ajoelhou-se e ps as mos em concha para 
levar a gua aos lbios. No seu caminho para ocidente, o Sol 
tingia o cu com as cores da tardinha, dourado poeirento e 
violeta claro, pegava fogo  vegetao do bosque e dava um 
brilho de bronze aos troncos dos gigantescos castanheiras e 
dos espinheiros.
     Dali a pou o, a noite cobriria a floresta com as suas 
asas escuras, e ele teria de procurar um buraco abrigado ou um 
matagal seco para passar a noite. Mas havia alguma coisa que o 
arrastava, que o empurrava docemente, incitando-o a avanar s 
mais um bocado.
     No pares, sussurravam-lhe os galhos de folhas de um 
verde dourado, agitadas pela brisa da tardinha. Continua em 
frente. Por isso, depois de beber mais uma vez a gua do 
laguinho, Toli iou-se para a sela e avanou, com os sentidos 
alerta, em busca de uma pista... um som, um claro de cor, um 
cheiro no ar... de qualquer coisa que lhe revelasse o que lhe 
espicaara o instinto e o empurrava para a frente.
     H Muito tempo que no ando assim, pensou. As minhas 
aptides esto embotadas. E quando mais preciso delas... Como 
vou encontrar o prncipe?
     Sempre avanando, ia curvando aqui e ali, penetrando mais 
nas sombras que se adensavam. De repente, parou e conteve a
respiraO... o que fora aquilo?
     Nada. Levantou as mos para mandar Riv avanar, mas 
hesitou.
     L estava outra vez: era um chilrear suave, fraco como 
asas de insecto esvoaando ao sabor da brisa. Toli ficou  
espera de o ouvir outra vez. Quando isso aconteceu, no teve 
dvidas do que se tratava.
     H quanto tempo no ouo este som?, pensou. Ento, 
pondo a mo no canto da boca, respondeu ao chamado com um som 
no to suave e hbil, mas notavelmente semelhante ao que se 
ouvira. Depois de repetir o chamado duas vezes, desceu da sela 
e ficou  espera, com o corao batendo-lhe nas costelas.
     Ento, eles surgiram de um ajuntamento de faias novas e 
esguias, avanando sem barulho por entre os ramos baixos: eram 
trs jher, vestidos de peles e com bolsas de pele de veado  
cintura. Hesitaram quando viram Toli, mas, como este no se 
mexeu, os habitantes da floresta avanaram.
     - Calitba teo bealla rinoab - disse Toli, quando se 
aproximaram dele. Na sua lngua nativa, a frase significava: 
Viestes muito para sul nesta estao.
     - Os veados... - respondeu o jher que ficara mais  
frente, na lngua cadenciada do seu povo. - A floresta do 
norte tem estado muito seca. - Fazendo uma pausa, fitou Toli 
sagazmente. - Chamo-me Yona.
     - E eu Toli.
     Os trs jher entreolharam-se, com o entusiasmo estampado 
nos olhos lquidos, de um castanho profundo.
     - Sim - retorquiu o chefe. - Ns sabemos. Temos estado a 
observar-te e reconhecemos-te. Toda a gente sabe quem  o 
Toli.
     - Quantos sois? - perguntou Toli.
     - Quarenta homens, mais as mulheres e as crianas - 
replicou Yona. - No norte, est tudo muito seco.

     - Aqui no sul - acrescentou um dos outros -, os veados 
so gordos e correm pouco. Temos trs tribos connosco.
     - H lugar para mais um na vossa fugueira?
     Os trs jher entreolharam-se, mostraram os dentes num 
enorme sorriso e assobiaram, espantados com tanta sorte. 
Depois, quase se atropelaram uns aos outros para serem os 
primeiros a conduzir Toli ao acampamento jher.  
     As fogueiras estavam acesas e, por cima das chamas, nos 
espetos, assava-se carne de veado, que largava um aroma 
picante que pairava por entre as rvores e as habitaes em 
forma de cpula, feitas de pele de veado, casca e galhos. 
Toli, que havia muitos anos no se cruzava com ningum da sua 
raa, entrou no acampamento jher como se percorresse o caminho 
de volta ao passado. Nada mudara. A vida daquele povo nmada 
da floresta permanecia exactamente a mesma. O vesturio de 
pele de veado, as refeies preparadas nas fogueiras, os 
cintilantes olhos escuros que espreitavam por todo o lado, as 
crianas tmidas agarradas s pernas das mes, os velhos 
agachados junto das chamas, ensinando aos rapazinhos a cincia 
dos bosques... estava tudo precisamente como se lembrava, como 
sempre fora. Os seus guias conduziram-no at ao centro do 
acampamento. Vrios jher j se haviam reunido para verem o 
desconhecido. Aquele prncipe jher, vestido com as roupas 
finas dos homens de pele clara, dava lugar a murmrios, 
exclamaes, dedos apontados timidamente e discusses. Alguns, 
que sabiam de quem se tratava, disseram aos outros, e todos 
puderam ver que ali estava um jher, mas to mudado que quase 
no se reconhecia. Nunca nenhum deles vira uma tal 
transformao.
     Dali a pouco, houve uma agitao nos limites exteriores 
da roda de curiosos, que se abriu para dar passagem a um 
ancio muito encarquilhado, que tinha na mo um bordo feito 
de um freixo muito novo, na ponta do qual estavam os chifres 
de um gamo. Apoiando-se pesadamente no bordo, o ancio 
avanou com passo inseguro e parou  frente do visitante. Com 
o seu aparecimento, todos os outros jher se calaram,  espera 
de verem o que o seu chefe ia fazer.
     Pela sua parte, Toli ficou  espera de ser recebido pelo 
venerando chefe, com as mos cadas ao longo do corpo e os 
olhos baixados em sinal de respeito.
     O ancio aproximou-se, fez um esforo para se endireitar 
e fitou-o com uns olhos rpidos e perspicazes.
     - Toli, meu filho - disse por fim, servindo-se da frmula
usada para um velho se dirigir a um homem mais novo -, eu 
sabia que havias de voltar para ns.
     TOli esbugalhou os olhos ao perceber quem estava  sua 
frente:
     - Hoet? - Quando se recomps, acrescentou: -  bom ver-te
de novo, meu pai.
     O ancio deixou cair o bordo, rodeou Toli com os braos 
e apertou-o ao peito. Nesse momento, os outros jher, que 
observavam tudo em silncio, avanaram e comearam a abraar 
Toli, agarrando-lhe as mos e os braos e dando-lhe 
palmadinhas na cabea e nas costas, numa grande demonstrao 
de afecto. Toli, o heri de muitos dos seus contos mais 
conhecidos e apreciados, regressara. Naquela noite ia haver 
festa.

     Fez-se uma grande fogueira no centro da aldeia, 
desenrolaram-se e dispuseram-se em volta tapetes de pele de 
veado e de palha entranada e pousou-se em cada tapete uma 
taa de madeira cheia de fruta. Toli e Hoet foram conduzidos 
ao lugar de honra,onde se agacharam nos seus tapetes, enquanto 
lhes passavam os melhores bocados de carne assada. Os outros 
jher ocuparam os seus lugares em volta da fogueira. As 
crianas corriam pela aldeia, gritando e imitando o canto das 
aves para impressionarem o visitante real.
     Hoet, acocorado ao lado do seu hspede, fitava-o 
pensativamente e, de quando em quando, dava-lhe uma palmadinha 
no brao ou no joelho, como se quisesse certificar-se de que 
era mesmo verdade, de que Toli regressara.
     Quando a fome foi apaziguado, todos os olhos se viraram 
para Toli e Hoet. Ento, comeou a ouvir-se um cntico, 
primeiro devagar e baixinho, mas que rapidamente encheu o ar 
de vozes jher.
     - Thia secia! - gritavam. - Queremos uma histria! 
Conta-nos uma histria!
     Na qualidade de hspede de honra, alimentado e acarinhado 
com uma ateno cerimoniosa, era a vez de Toli lhes retribuir 
os favores, contando-lhes uma histria. Por isso, seguindo a 
tradio dos melhores contadores de histrias, levantou-se e 
ergueu as mos a pedir silncio.
     Mas antes de poder comear, Hoet tambm se ps em p e,
pousando a mo no ombro de Toli, disse:
     - Quero ser eu a contar a primeira histria em honra do
nosso irmo.
     Os jher reunidos em volta da brilhante fogueira 
assentiram e soltaram gritos de concordncia. Toli sentou-se e 
Hoet levantou as mos e comeou a falar:
     - Um dia, h muito tempo, na estao das neves, quando 
toda a floresta dorme envolta em mantas brancas e o frio torna 
a pele do veado felpuda e quente, chegaram  floresta homens 
de raa branca, montados nos seus cavalos. Corriam  desfilada 
por entre as rvores e faziam muito barulho, pois os veados 
fugiam  sua passagem e ns ouvamo-los de muito longe... no 
tinham ps para andarem na floresta.
     Embora sem o saberem, aproximaram-se do stio onde 
passvamos o Inverno. Ns observvamo-los de longe e, uma 
noite, rode-mo-los quando eles estavam sentados ao calor da 
sua fogueira imperfeita. - Aqui, todos os ouvintes soltaram 
exclamaes bem-humoradas perante o descuido dos viajantes 
brancos. - Quando o fogo de Whinoek voltou a encher a terra de 
luz, aproximmo-nos dos brancos, e um deles tentou falar a 
nossa lngua. - Hoet deu uma gargalhada e os outros tambm se 
riram. Embora j todos tivessem ouvido esta histria vezes sem 
conta, escutavam cada palavra como se ela fosse pronunciada 
pela primeira vez.
     O tal Rosto de Arbusto falou-nos de um grande perigo na 
fioresta. Os maldosos Shoth perseguiam-nos com facas e aves de 
caa com veneno nos espiges. Pediu ajuda. Nisto, o Rosto de 
Arbusto mostrou ser sensato, pois de certeza que os brancos 
teriam cado no seu sono de morte antes de mais uma noite 
passar.
      meno do nome do inimigo odiado, todos os jber deram 
estalidos com a lngua e alguns bateram com as mos na terra.

     - Perguntei-me a mim prprio se devamos ajud-los. A 
resposta no era simples: dava-me voltas na cabea como um 
gamo de roda de um lago na floresta. Afinal, tratava-se de 
homens brancos, que cortam rvores, matam muitos veados e 
fazem habitaes de pedra na terra. Mas os Shoth so nossos 
inimigos, tal como so inimigos de todos os povos civilizados. 
Por isso, decidi ajud-los, pois o Rosto de Arbusto era um 
homem que tinha nele muito poder e estava com ele uma mulher, 
uma kelniki (a palavra significava esposa do chefe), cujo 
cabelo brilhava como lnguas de fogo. Eu no queria
que os malditos Shoth pendurassem nas suas lanas um cabelo
to bonito. Alm disso, estava com eles um rapazinho, em cujo 
olhar vi a expresso dos que so escolhidos para grandes 
feitos. Sabia que tinha de os ajudar. Mas como?
     Toli ouvia atentamente a sequncia dos acontecimentos que
tinham mudado a sua vida para sempre, e pareceu-lhe que 
voltava a ser o jovem jher que tantas vezes se sentara  
frente da fogueira, escutando as histrias dos seus 
antepassados e os feitos dos heris da sua raa. Lembrava-se 
bem do dia em que os brancos haviam ido ao acampamento de 
Inverno; com os seus olhos de rapaz, vira-os enregelados, 
assustados e extremamente desajeitados.
     Mas tinham cavalos. Oh, como queria montar a cavalo! 
Ainda se recordava do arrepio que sentira ao ver os animais de 
perto; eram to belos, graciosos e fortes! No seu corao de 
rapaz, jurou que havia de dar tudo para montar a cavalo. Por 
isso, quando Hoet o olhara, ele dera um salto de enho e 
oferecera-se para guiar os brancos atravs da floresta, at ao 
Muro de Pedra. Hoet deixara-o ir. O resto transformara-se em 
lenda entre o povo da floresta. Depois, viera a conhecer Rosto 
de Arbusto como Durwin, Nariz de Falco tornara-se o seu amigo 
Theido, e Cabelos de Fogo era a linda Alinea. Quanto a Kenta, 
o rapaz cheio de glria, escolhera-o para seu amo. E Quentin 
viera a ser o Rei Drago.
     Aos olhos dos da sua raa, Toli, ao servir um homem 
clebre, elevara-se  mais alta das posies. Embora Quentin 
fosse da raa branca, tambm era o chefe do seu povo, e isso, 
para os jher, conferia a Toli a maior das honrarias; no havia 
posio mais elevada a que um jher pudesse aspirar do que vir 
a ser servo de um grande chefe.
     - ...E esta noite voltou para o meio de ns - dizia Hoet 
-, para o seio do seu povo. A glria dos seus feitos lana 
sobre ns os favores de Whinoek e confere-nos dignidade. - O 
velho chefe virou-se orgulhosamente para o seu hspede.
     Se soubessem como falhei, ainda me receberiam com 
celebraes e festejos?, pensou Toli. No, sentir-se-iam 
cados em desgraa e evitar-me-iam; o meu nome deixaria de ser 
pronunciado e eu seria esquecido.
     Quando Toli se virou novamente para as pessoas que tinha 
 frente, encontrou todos os olhos postos nele. A fogueira 
crepitava e as centelhas saltavam bem alto na noite, brilhando 
em todos os olhos pretos que o observavam ansiosamente. Todos 
esperavam que Toli falasse. Hoet concedera-lhe a honra de ser 
o ltimo a falar; seria a sua histria, a dos homens da tribo 
jher, que os iria embalar, o que era uma honra normalmente 
reservada ao mais velho e sbio de todos eles, isto , ao 
prprio Hoet. Toli levantou-se lentamente incapaz de exprimir 
por palavras aquilo que sentia naquele momento. O que posso 
dizer-lhes?, pensou. O que posso dizer-lhes que eles sejam
capazes de entender?

     Os olhos escuros observavam-no; elevou-se um murmrio, 
que percorreu a roda. Ele falar? O que ir dizer? De que est 
 espera? Fala  grande!
     O murmrio transformou-se numa voz que lhe martelava os 
ouvidos: Conta-lhes!, gritava. Conta-lhes como falhaste!
     Um silncio incmodo espalhou-se pela multido que estava 
 espera. Toli sentia todos os olhos pregados nele.
     - Eu... - comeou. Mas vacilou logo a seguir. - Eu... no
posso. - Sem mais, afastou-se dos amigos e embrenhou-se na 
escurido. O nico som que se ouvia era o crepitar da 
fogueira.



        CAPITULO XXIII


     - Nem penses que fico aqui! - Os olhos de Esme brilhavam
 luz das velas. L fora, a oriente, o cu comeava a ficar 
cinzento, adquirindo um tom rosa-prola junto do horizonte, 
onde o Sol ia nascer.
     Com a luz adoando-lhe as feies, Bria sorriu.
     - Na verdade, pensei que no estavas interessada em vir 
comigo, Esme. A viagem at Dekra ainda  longa e a minha 
misso bem incerta. Mas  uma coisa que sinto que devo fazer.
     - E tens de a fazer sozinha?
     - No, a minha me vai comigo.
     - E eu tambm. A Chloe j preparou as minhas coisas e, 
como vs - acrescentou, indicando a roupa de montar que tinha 
vestida - estou pronta para partir.
     Bria riu-se e abraou a amiga:
     - Ento, claro que virs. Devia ter-te convidado. Mas 
pensei que... Bem, iremos juntas. A tua companhia ser muito 
bem-vinda.
     Esme tambm sorriu:
     - Assim, sentirei que posso servir para alguma coisa. 
Alm disso, tenho de confessar que sempre senti uma certa 
curiosidade em conhecer Dekra, essa cidade to misteriosa, 
sobre a qual se contam tantas histrias estranhas... a cidade 
 mesmo encantada?
     - , nas no como pensas. O feitio provm do amor dos 
seus habitantes. Como vais ver,  um stio notvel.
     - J l estiveste muitas vezes? - Esme entregou-se  
tarefa de ajudar Bria a preparar-se para a jornada.
     - Muitas no. Algumas. Antes de nascerem os nossos 
filhos, eu e o Quentin amos l de vez em quando. A ltima vez 
que l fomos, aqui h uns anos, foi para o funeral do Yeseph. 
O Quentin falava muitas vezes em irmos viver para l mas nunca 
mais tocou no assunto desde que o Yeseph morreu. Afinal, ele  
o rei, e o rei deve ficar no seu trono, em Askelon. - Encolheu 
os ombros, e Esme acabou de lhe apertar os alamares das 
mangas. - Bem, vamos acordar as minhas filhas.
     Quando as duas mulheres entraram no quarto das 
princesinhas, estas j se encontravam acordadas, palrando como 
esquilos. Chloe estava l e, juntamente com a ama das 
crianas, metia as suas roupas nas arcas esculpidas usadas em 
viagem. Ao verem a me, as meninas deram um salto e esvoaaram 
pelo cho para irem abra-la.

     - Me, me,  verdade? Podemos mesmo ir convosco? - 
perguntaram. - Seremos boazinhas e portar-nos-emos bem. 
Prometemos.
     Bria sorriu, beijou-as e ajoelhou-se para lhes falar.
     -  verdade, minhas queridas. Vireis comigo. Mas no vos
esqueais de que a viagem  longa e de que ficareis muito 
cansadas. Tereis de fazer o que eu disser, pois vamos viajar 
depressa
     - Tambm vamos montadas a cavalo? - indagou Briana.
     - Pois, cavalos? - repetiu Elena.
     - Ireis numa carruagem com a av, que precisar de algum
que lhe faa companhia.
     - O pai tambm vai?
     - No - suspirou Bria. - O rei anda  procura do Gerin e 
no vir connosco, Agora, acabai de vos vestir depressa... no
andeis com os ps descalos neste cho de pedra! Esperaremos
por vs no ptio. A Chloe levar-vos- l quando estiverdes 
prontas. V, depressa!
     As duas raparigas correram a acabar de se vestir. As duas 
mulheres enfiaram novamente pelos corredores silenciosos do 
castelo de Askelon e desceram para o salo, onde as esperava 
um fesjejum muito simples. Alinea tambm l se encontrava. 
Ainda esbelta, envergava uma tnica bordada verde por cima das 
calas e tinha umas botas altas de montar. Na cabea de Bria  
surgiu a imagem da me exactamente assim, dizendo-lhe adeus. 
Por um momento imaginou que tudo aquilo j acontecera antes.
     - Bom dia, me. - Fez uma pausa. - Eu j alguma vez vos
vi com essa roupa? - perguntou, examinando-a cuidadosamente.
     - j. Parece-me que sim - riu Alinea. - Mas admira-me que
ainda te lembres.
     Nessa altura, Bria lembrou-se:
     - Como poderia esquecer-me? eis partir para salvar o 
pai... vestida assim. Tivestes de vos esgueirar sem ningum do 
castelo vos ver.
     - Apeteceu-me experiment-la e... bem, como me serve... 
Gostas?
     - Como podia no gostar? - Bria abraou a me e 
sentaram-se todas a comer antes de partirem. Falaram pouco, 
pois cada uma delas estava embrenhada nos seus prprios 
pensamentos sobre a jornada que iam empreender. Quando 
acabaram de comer, apressaram-se a dirigir-se ao ptio, onde 
j as esperavam a carruagem e os cavalos; o cocheiro estava a 
atar o ltimo saco de provises na parte de trs da carruagem.
     - Wilkins! - exclamou Bria, quando o reconheceu.
     - Senhora - respondeu ele, fazendo uma vnia -, quando a 
minha senhora Esme me falou do vosso desejo de ir a Dekra, 
achei melhor acompanhar-vos.
     - Se preferes outro... - acrescentou Esme.
     - No,  uma excelente ideia, que elogio e agradeo.
     - s vossas ordens. - Wilkins fez outra vnia e tocou no
punho da espada, obrigando Bria a lembrar-se de que a sua 
jornada no seria um passeio.
     O guarda, um homem de cabelo curto e grisalho e olhos 
cinzentos, cujos tendes pareciam feitos de cordel de chicote, 
atravessou o Ptio e aproximou-se:
     - Senhora, no concordo com esta jornada. - Falou 
francamente, sem desperdiar palavras,
     Bria sorriu:
     - Eu sei, Hagin, mas no te preocupes.

     - No me preocupo? O vosso filho foi raptado e quereis 
que no me preocupe? - O homem olhou-a com uma expresso de 
sincera desaprovao. - Se vos deixar partir, o rei manda-me 
esfolar e prega a minha pele quela ponte levadia.
     - No h perigo nenhum - insistiu Bria. - Viajaremos com
uma escolta de cavaleiros e as estradas do rei so bastante 
seguras.
     - Ento, tambm irei - anunciou ele.
     - No, prefiro que fiques aqui  espera do rei,
     O guarda resmungou, mas achou prefervel calar-se.       
       Bria e Esme foram ajudadas a subir para a sela e Alinea 
para a carruagem. Depois, os cavalos foram conduzidos atravs 
do ptio at  casa da guarda, onde esperavam dois cavaleiros, 
j montados e prontos. Quando l chegaram, pararam, e Chloe e 
as princesas foram a correr meter-se na carruagem. Alguns 
servos do castelo tinham-se reunido ali perto para desejarem 
aos viajantes uma jornada veloz e segura; as princesinhas 
acenaram e atiraram beijos a todos eles, at entrarem no tnel 
escuro da casa da guarda e deixarem de se ver.
     Hagin, o guarda, sobrinho de Trenn, ficou pregado ao cho 
at terem desaparecido, altura em que se afastou, abanando a 
cabea.

     Askelon ficava apenas a duas lguas de distncia. Se 
andasse depressa, o amolador chegaria ao meio-dia, comeria e 
comearia a dar as suas voltas. Havia certos clientes que 
visitava sempre que ia  cidade. Milcher, da Albergaria do 
Ganso Cinzento, por exemplo, precisava sempre de um pote novo 
ou que lhe arranjasse uma panela, e dava-lhe sempre de jantar. 
Sim, era um dos seus melhores clientes. Mas havia outros: a 
mulher do talhante, a irm do fabricante de sabes, o padeiro 
e tecelo.
     De facto, todos os mercadores precisavam uma vez por 
outra dos seus servios. At o pessoal das cozinhas do rei lhe 
comprava alguma coisa de vez em quando.
     -  s mais um bocadinho, velha Tip - disse Pym  cadela.
- Depois, pararemos um pouco em Askelon. Que tal? H? Um rico
ossinho para ti, Tipper, e um pastel de carne quente para 
mim... a mulher do estalajadeiro faz as melhores empadas de 
carne de Mensandor.  verdade, Tip. As melhores. s de pensar 
nelas, j fico com gua na boca.
     Tip ouviu tudo isto com uma expresso benvola e 
pensativa, abanou o rabo com o devido entusiasmo e l 
continuaras os dois estrada fora, tinindo e matraqueando. 
Quando j tinham o castelo de Askelon no horizonte, ouviram o 
som de cascos martelando a estrada atrs deles. Pym virou-se, 
desviou-se para a berma da estrada e esperou que o cavaleiro 
passasse. Dali a pouco, viu avanar o cavalo branco com o seu 
cavaleiro real.
     Pym saudou-o, erguendo a mo, e o atento cavaleiro baixou 
a cabea sem parar. O amolador seguiu o cavaleiro com o olhar 
e prosseguiu o seu caminho.
     - H-de chegar o dia em que tambm viajaremos a cavalo! 
Uma carroa e uma pedra de amolar com pedal... vais ver! -
Baixou manhosamente a cabea para a cadela. - Encontrmos a 
nossa fortuna!

     Contemplando o cavaleiro que desaparecia ao longe, 
continuou: - Sabes? Acho que aquele que passou por ns mesmo 
agora era o rei. No tenho bem a certeza, mas podia ser. C 
para mim, era o rei. No achas, Tipper? H? Bem, bem. Parecia 
um rei. Talvez fosse o rei,
     Pym lanou um olhar triste  cadela preta.
     - Que os deuses estejam com ele, coitado! Terrvel! 
Terrvel! O filho raptado sem mais nem menos! Terrvel... que 
coisa mais abjecta! Eu no disse, Tip? Uma coisa abjecta! - o 
amolador elevou a voz e gritou para o cavaleiro, que no 
passava de um ponto na distncia: - Que os deuses estejam 
convosco, Vossa Majestade!
     Depois, olhou de lado para o Sol, na tentativa de avaliar 
as horas. A manh estava limpa e clara e o cu mostrava-se 
muito alto, amplo e azul. Nos campos verdes, os lavradores 
trabalhavam as suas terras, para que os gros crescessem 
melhor do solo. De vez em quando, o amolador saudava um deles 
com um aceno de mo e ele respondia-lhe do mesmo modo.
     A cidade foi-se aproximando lentamente,  medida que o 
Sol subia no cu.
     - Tipper, temos de nos despachar para no chegarmos 
atrasados ao jantar. V, anda.
     Baixando a cabea e levantando as tiras dos sacos, Pym 
estugou o passo e l seguiram tinindo e matraqueando na 
direco de Askelon.

     - No ests a falar a srio, pois no? - perguntou o sumo
sacerdote, fitando o ancio como se fosse incapaz de 
compreender as suas palavras.
     - Claro que estou - respondeu, lanando-lhe um olhar 
colrico e frio. A sua lngua parecia uma cobra espreitando 
por entre os lbios finos.
     - Mas porqu? Para qu arriscarmo-nos a ser descobertos?
No  nada sensato.
     - Nada sensato. Atreves-te a falar de sensatez diante de 
Nimrood? - A sua voz venenosa estralejou como uma trovoada.
     O sumo sacerdote Pluell empalideceu e ps as mos  
frente do rosto.
     - No! No  isso. Nunca. - Apressou-se a explicar: -  
que pensava... isto , aqui estamos em segurana. Agora temos 
tempo para pensar bem e traar o nosso plano. Deves concordar 
que temos de ser muito cuidadosos.
     - J decidi - retorquiu Nimrood em tom monocrdico. - No 
quero mais discusses. Eu digo-te o que hs-de fazer. A partir
de agora, serei eu a tomar todas as decises.
     No ters nada a temer se cumprires a tua parte no 
acordo e fizeres com que os estpidos dos teus sacerdotes 
tambm a cumpram. Deixa o resto por minha conta. - O velho 
feiticeiro fitou o sacerdote com uma alegria maldosa. - Queres 
ou no humilhar o usurpador daquele rei? Vejo no teu rosto que 
sim. Tu queres que toda a Mensandor o veja curvado, a ele e ao 
seu Deus Altssimo. Nessa altura, ters o reconhecimento geral 
e o poder do Grande Templo aumentar muito.
     O sumo sacerdote no resistiu a sorrir perante esta 
perspectiva.
     - Bem, ento, no faas nada... ests a ouvir? Espera por 
mim. Regressarei em breve para podermos comear.

     Pluell observou o ancio. Temia-o e odiava-o, mas o 
desejo de ter poder sobre o trono esmagava qualquer 
resistncia que pudesse oferecer a Nimrood. Sim, para humilhar 
o orgulhoso rei e reafirmar o poder do templo sobre os 
assuntos do reino valia bem a pena aturar Nimrood, o maador 
ancio de barba comprida. Valia a pena correr o risco.
     - Muito bem - disse o sumo sacerdote. - Ser como dizes.
     Nimrood assentiu com a cabea, pestanejou e fez o seu 
horrvel sorriso:
     - Isso  bom. Se fizeres o que eu disser, tudo correr 
bem. Agora, vou-me embora.
     O sumo sacerdote sentou-se na sua elegante cadeira e 
ficou a ouvir o som dos passos de Nimrood afastando-se no 
templo. Quando tudo estiver terminado, expulsarei este velho 
abutre, pensou. S tenho de o aguentar mais um pouco.


        CAPTULO XX1V


     os cascos de Blazer bateram como troves nas grandes 
tbuas da ponte levadia e as suas ferraduras arrancaram 
centelhas s lajes de pedra do caminho para a casa da guarda.
     - O rei vem a! Abri os portes! O rei est aqui! - 
Voando  sua frente, estes gritos sobressaltaram os guardas, 
fazendo-os dar um salto.
     Cavalo e cavaleiro pararam bruscamente no ptio interior.
Os escudeiros precipitaram-se a ir cuidar da montada coberta 
de espuma do rei. Sem uma palavra, Quentin foi direito para 
dentro do castelo, atravessou o salo de banquetes, cheio de 
gente que ainda saboreava a refeio do meio-dia, e entrou na 
sala do trono.
     Voando pelas escadas do Trono do Drago acima, despiu a
capa suja e deixou-se cair no trono. Depois, chamou 
colericamente pelo ministro-mor. A sua voz parecia um trovo 
ecoando no silncio da sala do trono deserta. A resposta ao 
seu grito foi um agitar de passos, mas nem sinais de Toli.
     Quentin fervilhava por dentro. Levantara-se tarde, mais 
tarde do que planeara, e j o Sol ia bem alto quando iniciara 
a sua jornada para Askelon, o que o pusera de muito mau humor. 
Assim, o caminho parecera-lhe muito comprido e chegara a 
Askelon atormentado e impaciente.
     Dormira bastante bem, enrolado na sua capa, na cama do 
lavrador, cuja mulher fizera questo de que o rei dormisse na 
sua cama, e acordara sentindo-se muito melhor do que nos 
ltimos dias. Mas o atraso e a lembrana sombria do que o 
esperava em Askelon cedo tinham destrudo a frgil paz que 
conseguira.
     Por isso, naquele momento, estava furioso com a falta de 
respeito pela sua pessoa e com a pouca ateno prestada aos 
seus interesses.
     - Onde est o ministro-mor? - berrou. A sua voz ecoou do 
outro lado da sala vazia.
     No houve resposta.
     Quentin afundou-se mais na melancolia. Gritou novamente 
e, desta vez ouviu passos.
     - Ento? - Ao olhar para baixo viu Hagin, o guarda, 
aproximando-se resolutamente.
     Quando chegou ao palanque, o homem fez uma vnia e disse
simplesmente:
     - Regressastes, meu senhor.

     - Pois regressei - retorquiu Quentin com brusquido. - 
Onde est toda a gente? Fala depressa, antes que te arranque a 
lngua.
     Hagin no se deixou perturbar. Os seus olhos cinzentos e 
claros fitaram Quentin sem pestanejar. Era muito homem para as 
ms disposies de qualquer monarca.
     - Foram-se embora, Majestade - informou com toda a 
simplicidade. - Foram-se todos embora.
     - Todos? Que todos?
     - Toda a gente.
     Quentin fitou o homem com um ar muito srio.
     - O que ests para a a dizer? Manda-os chamar 
imediatamente.
     - No posso, senhor.
     - Onde est a rainha?
     - Sua Alteza, a rainha-me, as meninas e a minha senhora
Esme no esto em Askelon. Foram para Dekra.
     - O qu? - No esperava uma resposta daquelas. - Para
Dekra? Porqu? Quando partiram?
     - Mesmo antes de o Sol nascer.
     Quentin bateu com o punho no brao esculpido do trono.
Enquanto mandriava na estrada, a esposa deixara o castelo. Se 
no tivesse parado, se houvesse continuado a cavalgar para 
Askelon, teria chegado a tempo de a deter. Se ele estivesse  
l, ela no teria ido.
     - Onde est o ministro-mor? - resmungou Quentin.
     - Desapareceu, Majestade.
     Outra resposta inesperada.
     - H?
     - Foi visto pela ltima vez no funeral do eremita, 
Majestade. Depois do enterro, desapareceu. No voltou para o 
castelo. julgo que se esgueirou sem ningum dar por nada, 
quando o cortejo fnebre regressava a Askelon. Desde essa 
altura que ningum o v nem sabe nada dele.
     Toli desaparecera? Era o melhor que fazia. Se o prncipe 
no fosse encontrado, seria bom que nunca mais regressasse.
     Quem faltava?
     - o Theido e o Ronsard j chegaram?
     - J, Majestade, mas encarregaram-se logo das buscas. No 
esto c.
     Ento era isso. No tinha ali nenhum daqueles que mais 
precisava de ver. Estava sozinho.
     A solido imensa que sentira na estrada assaltou-o 
novamente. Era verdade; todos aqueles de quem gostava tinham 
partido. Sentiu uma solido maior do que a que experimentara 
no templo. Nesse tempo, no conhecia nenhum tipo de vida 
diferente, mas agora... Havia anos que no se sentia to 
abandonado. Todos os dias estava rodeado pelos seus amigos 
mais chegados e pelos entes queridos... Todos os dias. Pensava 
que esta proximidade nunca acabaria, que o amor duraria para 
sempre. Mas, infelizmente, enganara-se. Em trs dias, que, no 
entanto, j lhe pareciam uma eternidade, o seu mundo fora
estilhaado e desfeito em pedaos, espalhados por um destino 
cruel. Naquele momento, nada restava da felicidade que havia 
ainda pouco possura.
     - Majestade?                                             
       Quentin mexeu-se. O guarda observava-o com um ar 
estranho.

     - Perguntei-vos se no quereis mais nada, Majestade.
     - No, no quero mais nada, Podes retirar-te. Deixa-me 
s. - Quentin ficou a ouvir os passos de Hagin afastando-se da 
sala. Fechou-se uma porta e ecoou um estrondo, como um 
pressagio de juzo final.
     Ali, na semiobscuridade da sua sala do trono, o rei 
entregou-se ao desespero, deixando-se abater cada vez mais 
pelo peso esmagador do sofrimento.

     Toli estava sentado num tapete de palha entrana, do lado
de fora da cabana de Vero de Hoet, com uma taa redonda de
madeira presa entre os joelhos. Os jher andavam por ali nas 
suas tarefas dirias, mas Toli estava consciente dos seus 
constantes olhares de esguelha, que mostravam que o seu povo 
ainda pensava muito nele. Nunca ningum lhe perguntaria o que 
acontecera na noite anterior, quando ficara de p  frente da 
fogueira, sem conseguir falar, pois isso seria muito 
indelicado. No entanto, era natural que os amveis jher se 
interrogassem e que o observassem quando pensavam que ele no 
estava a olhar. Por isso, consciente do seu exame, Toli fazia
de conta que no reparava em nada e ia metendo lentamente a 
mo na taa, levando  boca as amoras que constituam o seu 
desjejum.
     Encontrava-se ele agachado  luz do Sol, escutando os 
chilreios e os trinados que anunciavam o nascer do dia na 
floresta, ouvindo o leve sussurro dos ramos agitados pela 
brisa e inalando o perfume bafiento da terra, da casca das 
rvores e das plantas a crescer, quando uma sombra caiu sobre 
si. Toli ergueu o olhar para o vulto que parara  sua frente.
     - Vais-te embora outra vez - observou Hoet.
     - Tem de ser - assentiu Toli.
     - Eu sabia que no tinhas voltado para ficar.  preciso, 
porque h problemas na terra.
     Toli fitou o velho chefe de esguelha:
     - Sabes da aflio dos brancos?
     - A aflio no  s dos brancos; quando a escurido cai,
cobre tudo. Sim, ns sabemos que a terra corre perigo. O vento 
 um mensageiro veloz e a floresta no tem segredos para os 
jher.
     - Ento sabes que o rei que eu sirvo precisa da tua 
ajuda. O seu filho foi-lhe tirado  fora.
     Hoet fez um gesto de assentimento com a cabea e 
encostou-se mais ao bordo. Por fim, replicou:
     - E diz que a culpa  tua.
     Toli desviou o olhar:
     - Como sabes?
     - Porque no ests com o teu amo quando ele precisa de 
ti. Ou ele te culpa, ou tu te culpas a ti prprio, e  por 
isso que andas sozinho.
     -  verdade- - retorquiu Toli baixinho. - O teu esprito 
 to sagaz como os teus olhos,  sbio.
     - Soube-o quando no foste capaz de falar ontem  
noite... mas adivinhei-o quando te vi chegar sozinho ao nosso 
acampamento.
     - Ento sabias porque no consegui falar.
     - Anda comigo - disse Hoet, afastando-se.

     Toli levantou-se, pousou a taa e seguiu o velho chefe  
jher, que foi atravessando a aldeia por entre as rvores. Os 
olhares dos da sua raa seguiam-no enquanto caminhava pelo 
acampamento, em direco ao local onde o seu cavalo esperava, 
j arreado, pastando num tufo de trevos.
     - O teu lugar no  aqui, Toli. Vai.
     Toli sentiu o sangue subindo-lhe ao rosto; a vergonha 
queimava-o por dentro.
     - Tens razo em me mandar embora. Desonrei o meu povo.
     - No estou a mandar-te embora or causa da desonra - 
disse Hoet docemente. Os olhos de Toli viraram-se rapidamente
para o ancio. - Que admirao  essa? Desonra seria 
abandonares o teu amo. No, estou a mandar-te embora por ti 
prprio. Vai, meu filho, vai procurar o filho do chefe branco. 
A tua vida no te pertencer at o encontrares.
     Toli sorriu e apertou o brao do ancio:
     - Obrigado, meu pai. A faca que trago cravada no corao 
j no me di tanto.
     - Vai, mas volta um dia, para nos sentarmos a partilhar a 
carne.
     Toli pegou na corda que prendia o animal, agarrou as 
rdea e iou-se para a sela com toda a facilidade. Ansioso por 
partir, Riv relinchou.
     - Irei mais depressa se me abenoares.
     - No posso abenoar-te mais do que Whinoek j te 
abenoou. - Fazendo uma pausa, Hoet contemplou o homem esbelto 
que tinha  frente. - Diz-se que o rei est a construir um 
templo ao Altssimo.
     -  verdade - respondeu Toli. - O Pai da Vida no  muito 
conhecido entre os brancos. o meu amo tenta que o nome do Deus 
Altssimo seja conhecido por todos os homens que vivem sob os 
grandes cus, para eles poderem adorar o deus nico e 
verdadeiro.
     - Ainda bem. - retorquiu Hoet. - Mas a este velho parece
que onde h um templo no pode haver outro. No tenho razo?
     Toli fitou o velho chefe por um momento. De repente, 
percebeu o que Hoet quisera dar a entender.
     - Sim, tens razo,  sbio. Gostaria de ouvir o que mais 
tens a dizer.
     Hoet encolheu os ombros e ergueu o basto com os chifres:
     - Fui informado de que houve muitas marchas nocturnas na
floresta, feitas por homens vindos de oriente, que, depois, 
regressaram pelo mesmo caminho. Como no os vi, no sei, mas o
grande templo de Ariel fica a oriente, no ?
     - Sabes muito bem que sim - respondeu Toli com um grande 
sorriso. - Obrigado, meu pai, por abenoares o teu filho desta
maneira. - Virou Riv para a floresta e parou antes de entrar 
no carreiro  ensombrado para erguer a mo num gesto de 
despedida.
     Hoet levantou o bordo e disse:
     - Vai em paz. - Depois de Toli desaparecer, ainda 
permaneceu muito tempo a fitar a floresta, antes de se virar e 
de voltar  aldeia jher no seu passo arrastado.


        CAPITULO XXV



     Pensando na sua sorte, Nimrood ria com uma alegria 
maldosa, enquanto percorria os corredores sombrios do Grande 
Templo. A capa preta esvoaando como asas atrs de si fazia-c 
parecer um morcego gigante. Que golpe de sorte! Os deuses 
tinham mandado aquele jher metedio at aos degraus do templo.
     O ridculo do sumo sacerdote queria mand-lo embora!,
pensou Nimrood. E t-lo-ia mandado! Mas eu estava l para o
impedir, e antes de o co ter podido escapar, ordenei que o 
prendessem, que lhe batessem e que o atirassem para a cela do 
choramingas do prncipe. Ah, ah! Ah, ah!
     Ao princpio, o feiticeiro tivera de combater o impulso 
para acabar o que fora comeado na floresta de Pelgrin, no dia 
da caada, isto , para liquidar imediatamente o jher. O velho 
dio ainda lhe aquecia o sangue ralo, mas o prmio em jogo 
obrigara-o a adiar a apetecida vingana contra aquele que lhe 
tirara o poder, a sua preciosa magia, e que por pouco no lhe 
acabara tambm com a vida.
     A imagem desse dia ainda ardia no esprito negro de  
Nimrood: Durwin, um feiticeiro muito inferior a si, ficara de 
p  sua frente, sem sequer tentar proteger-se nem levantar um 
dedo para convocar os poderes de que dispunha... embora isso 
no o tivesse salvo. No, pensou Nimrood, nada poderia 
t-lo salvo.
     Ento, quando Nimrood levantara o basto para desferir o 
golpe mortal e transformar os ossos do maldito eremita em 
p... a flecha! Sara no sabia de onde e penetrara-lhe na 
carne, fazendo-lhe voar o basto. Depois, vira o jher metendo 
outra flecha no arco. O feiticeiro suplicara-lhe que lhe 
poupasse a vida, e aquela miservel splica ainda lhe ecoava 
no crnio. No me mates!, gritara. Desde esse dia que estas 
palavras troavam dele. Humilhara-se perante o arco do jher, 
mas, afastando a piedade, o jovem guerreiro atirara outra 
flecha ao corao do seu inimigo.
     Nimrood utilizara a ltima centelha de poder para se 
transformar num corvo e voar para lugar seguro. Passara muito 
tempo at conseguir assumir outra vez a forma humana, pois nem 
sequer ficara com poder suficiente para voltar a 
transformar-se num ser mortal: por isso fora obrigado a 
esperar que o feitio se desfizesse por si.
     Fora um exlio bem amargo, durante o qual, preso naquele
corpo emplumado, vivera segundo os caprichos dos elementos, 
alimentando-se de pedaos de carne morta, em putrefaco. 
Recuperara apenas uma fraco do seu antigo poder, isto , os 
rudimentos de uma simples criana: a capacidade de fazer 
barulho e luz. Mesmo assim, voltara para se vingar, equipado 
com uma arte mais antiga e perniciosa: a traio.
     O nome de Nimrood, o necromante, podia j no estar na 
memria dos homens; no fazia mal. Tinha a certeza de que as 
suas mentiras fariam o que a feitiaria no conseguiria levar 
a cabo. Sim, por fim teria a sua vingana.
     Oh, os deuses eram instveis e velhacos! Era preciso 
muita astcia para lhes levar a melhor. Nimrood fizera-o toda 
a vida. E, naquele momento, eles tinham finalmente depositado 
a vitria nas suas mos. Sim, sim! Em breve, aquele rei 
aclito, desagradvel e arrogante, sofreria como ele, Nimrood, 
fora obrigado a sofrer durante tantos anos.
     Nimrood permitiu-se soltar um grito de alegria demente  
iminente realizao dos seus sonhos. Sim, o Rei Dragoseria 
destitudo e, juntamente com ele, o seu brbaro deus, o animal 
do Altssimo.

     O velho feiticeiro encarquilhado cerrou os punhos e 
desatou s gargalhadas, atirando a cabea para trs e deixando 
o som sair da sua garganta maldosa. Era um som que faria gelar 
o sangue, de quem quer que passasse por ali. Mas ningum o 
ouviu; estava sozinho e, com o corao negro inchado e 
exultante, saboreou ao mximo aquele momento.

     Parecido com um monte ambulante de tiras de metal, 
ferramentass, sacos, trouxas e tralhas suficientes para dois 
amoladores, Pym encontrava-se parado  frente da tabuleta do 
Ganso Cinzento, A tabuleta pintada  mo, representando um 
ganso cinzento, gordinho e de patas e pescoo compridos, 
baloiava na corrente. As janelas da albergaria estavam 
escuras, e embora a porta se achasse aberta, no se ouvia 
nenhum barulho vindo l de dentro.
     - Amolador! - gritou. - Amolador!
     Ficou  espera, piscando o olho para Tip, que pestanejou. 
Dali a pouco, ouviu os passos atravessando o soalho na sua 
direco. Depois, apareceu um rosto redondo e corado e a forma 
gorducha de Emm, a mulher do estalajadeiro, que, ao v-lo, lhe 
acenou com o avental, exclamando:
     - Pym! Bons olhos te vejam! Com que ento voltaste! D c
um abrao!
     A mulher lanou-lhe os braos ao pescoo, e ele ao dela.
Eram velhos e bons amigos.
     - Que bom ver-te, Emm! Sabes como ... tenho andado c 
com uma daquelas vontades de comer uma das tuas empadas! 
Tinhamos de vir logo que acabssemos o nosso trabalho l para 
o sul.
     - Tiveste saudades da comida da Emm, h? Bem, entra, 
entra. Vamos l pr um garfo e um trinchador na mesa.
     Tinindo a cada passo que dava, Pym seguiu a matrona l 
para dentro.
     - Milcher! - chamou ela. - Otho! Temos visitas! Vinde ver
quem !
     A cabea redonda e careca de Milcher espreitou por trs 
de uma pipa que ele estava a fazer rolar pela sala.
     - Oh, oh!  o Pym! Oh, oh! Pym, bons olhos te vejam, 
amigo! Vieste visitar-nos h? Fizeste bem! Fizeste bem! - 
Chamou por cima do ombro: - Otho! Despacha-te! Temos uma 
visita!
     Um homem alto, de rosto infantil, entrou na sala com uma
pequena barrica debaixo de cada brao. Fazendo um grande 
sorriso para o amolador, pousou as barricas e foi at  pipa 
que o pai estava a empurrar. Depois, o desmesurado Otho ps a 
pipa no lugar com toda a facilidade.
     - O Pym e a Tipper! - Sorriu com uma expresso infantil.
     Milcher limpou o rosto suado com a manga:
     Bolas! Desde manhzinha que no fao outra coisa! - 
Apertou a mo do amigo. - Anda c sentar-te ao p de mim. 
Vamos beber um copo e encher a pana.
     - No vos incomodeis por nossa causa - disse Pym. Tip 
abanou a cauda amistosamente, pois sabia que naquele lugar 
costumavam dar-lhe umas guloseimas e uns ossos saborosos. Por 
isso, ansiosa pelos seus petiscos, ladrou uma vez.
     - Est bem, Tp - riu Otho, parando para lhe dar uma 
palmadinha. - No vamos esquecer-nos de ti, cadelinha.
     Pym desembaraou-se das trouxas e das tralhas e atirou-as

para um canto. Depois, sentou-se com o estalajadeiro e Emm 
serviu-lhes po e um pouco de guisado. Otho foi buscar canecas
de barro cheias de cerveja com muita espuma e juntou-se a 
eles. Falaram de tudo o que acontecera desde a ltima vez que 
Pym l estivera e de todos os clientes que iam precisar dos 
seus servios. Dali a pouco, no entanto, a conversa centrou-se 
no assunto que ocupava o esprito de toda a gente e que andava 
na ponta de todas as lnguas, em todos os locais de reunio de 
Askelon.
     - Incrvel! - exclamou Enun, dando um estalido com a 
lngua.
     - Incrvel! No posso imaginar quem pode querer fazer mal
ao pobre prncipe Gerin, um rapaz to lindo!
     - Nem quem  suficientemente louco para enfrentar o Rei
Drago. Isso  que  um mistrio - acrescentou Milcher, 
assentindo com uma expresso de entendido. - A ele e  espada 
dele, que ainda por cima  encantada.
     Todos abanaram a cabea, desconcertados pelo que 
acontecera ao seu rei.
     - Tu andavas na estrada - continuou Milcher. - No viste
nada?
     Pym limitou-se a encolher os ombros:
     - Acho que cheguei tarde de mais. - Sentiu-se inclinado a 
 falar-lhes do homem morto que encontrara na estrada e da 
espada, mas pensou melhor e, embora estivesse entre amigos. 
achou por bem guardar segredo dessa parte da histria. - Foi 
antes de termos cheggado a Pelgrin. Na estrada, encontrmos 
muita gente que nos contou o que tinha acontecido.
     - Realmente, l falar, fala-se muito - concordou Milcher 
-, a maior parte do que se diz so s asneiras. Uns dizem que
quem raptou  o prncipe foram os Harrier. Outros que foram 
alguns daqueies porcos covardes do Nin, que tm andado 
escondidos nas montanhas estes anos todos. Tretas! Esses foram 
todinhos empurrados para o mar pela ponta das lanas.
     - Mas  estranho que ningum tenha visto sinais de quem o
raptou. Parece que a terra se abriu para os engolir. Ningum 
viu nada - disse Otho.
     - Eu vi o rei hoje de manh na estrada - afirmou Pym. - 
Pelo menos, acho que era o rei. Pareceu-me um rei.
     -  possvel,  possvel - respondeu Milcher, batendo com
a mo aberta na mesa. - O Ham, o talhante, disse que o rei 
regressou hoje de manh. H dias que anda por fora como um 
fantasma.
     - Ele tinha a espada quando o viste? - indagou Otho, 
virando-se para Pym.
     - Que pergunta! - gritou Milcher. - Claro que tinha! O 
Rei Drago nunca vai a lado nenhum sem a espada.  ela que o 
torna invencvel.
     Otho no desistiu:
     - No foi isso que me disseram. - Embora s eles 
estivessem ali, baixou a voz e inclinou-se para a frente, de 
modo a no ser ouvido por mais ningum. - A Glenna que  
criada da rainha, contou-me...
     - A Glenna  a namorada dele - interrompeu a me de Otho
com um sorriso entendido. - Trabalha na cozinha real.
     Otho lanou um olhar de aviso na sua direco e 
apressou-se a continuar:
     - ...que no castelo se diz que o rei perdeu a espada!

     - Que perdeu a espada? - arquejou Milcher, fitando o 
filho com os olhos esbugalhados. - Tretas!
     - No pode ser! - exclamou a me em voz baixa. - Que 
perdeu a Brilhante? No pode ser!
     Otho fez um gesto de assentimento com a cabea e         
  semicerrou os olhos:
     - Ele saiu com ela no dia da caada. Toda a gentede 
Mensandor a viu, pois o seu grande punho dourado cintilava na 
bainha. Todos a vimos. - Para frisar bem as suas palavras, ps 
o dedo no ar: - Mas ningum a viu quando ele regressou.
     - O que lhe aconteceu? - perguntou Pym, com o corao
batendo-lhe mais depressa dentro do peito.
     Otho humedeceu os lbios.
     - Ningum sabe. - A sua voz no passava de um murmrio. - 
Mas o que se diz  que a Zhaligkeer desapareceu, ento o reino 
est condenado.
     - Ora! - exclamou o pai com uma certa inquietao. Isso
no  verdade!
     - Pode muito bem ser - teimou Otho. - Pode muito bem ser!
     - Mas o rei continua a ser rei, no ? - Emm lanou ao 
filho um olhar apreensivo.
     - Continua, se tiver a espada. A espada  o poder dele. 
Sem ela, est desgraado.
     - Desgraado? - inquiriu Pym.
     - Sim, e tu tambm. H quem diga que ele no tem direito
a ser rei, porque no tem sangue real.
     - Pelos deuses, mas ele foi escolhido! - gritou Milcher.
     - Pois foi, mas com o apoio da espada. - Otho inclinou a 
cabea com uma expresso de conspirao. -  obra dos deuses,
que esto zangados com o novo templo e nada contentes com a 
adorao dele pelo tal Altssimo. Os velhos deuses vo 
humilh-lo, para que o reino inteiro aprenda a lio e volte  
verdadeira adorao, com oferendas e splicas.
     Com a expresso presunosa de quem est convencido de que
tem toda a razo, Otho cruzou os braos compridos e 
encostou-se para trs. Os outros entreolharam-se sem saberem o 
que fazer. Quem poderia contestar o que acabavam de ouvir?
     Se era uma questo entre os deuses, quem poderia 
interceder em favor dos mortais? Quem poderia enfrentar os 
deuses?
     Outrora, existira um jovem decidido com uma espada 
chamejante, guiado pela mo de um deus. Era forte e nvencvel. 
Mas tambm ele mostrara ser humano, sujeito s feridas e aos 
erros da carne.
     Como os deuses eram instveis! Haviam-no deixado 
prosperar e agora exigiam O seu tributo, e at o Rei Drago 
teria de se curvar perante eles. Com ou sem espada chamejante, 
tencionavam obter o que lhes era devido, e o rei no podia 
recusar-se a faz-lo.
     Afinal de contas, os deslumbrantes sonhos do Rei 
Sacerdote e da sua maravilhosa Cidade da Luz no passavam de 
fumo. Os homens eram apenas os brinquedos dos deuses.
     Sempre tinha sido assim e sempre assim seria.


        CAPTULO XXVI



     Se no fosse a urgncia da sua misso, Bria teria 
apreciado a jornada at Dekra. Os dias envergavam as vestes 
verde-douradas do Vero; a paz envolvia a terra e parecia 
florescer em cada galho. Os sinistros acontecimentos de apenas 
havia alguns dias recuavam no passado e afastavam-se a cada 
lgua percorrida. S aquela dor palpitante no corao lhe 
lembrava que as coisas no iam muito bem, que lhe tinham 
tirado o filho e que o seu mundo s voltaria a ser o mesmo 
quando ele lhe fosse devolvido.
     De dia, seguia com os outros, mantendo-se animada, 
falando, cantando ou deixando-se embalar pela beleza que a 
envolvia. De noite, rezava; as suas oraes no eram por si, 
mas pelo filho e pelo marido, para que o Altssimo os 
protegesse onde quer que estivessem. E, s vezes,  noite, 
quando ningum podia v-la, chorava.
     Wilkins e os outros dois cavaleiros iam tomando conta da 
rainha e do seu squito, que no estavam habituados aos 
rigores da estrada, proporcionando-lhes todo o conforto 
possvel. E, dado o bom estado da Estrada do Rei, avanavam 
com rapidez para o seu destino.
     - Hoje passaremos a Muralha de Celbercor - declarou 
Alinea, quando pararam para o desjejum e para deixarem as 
princesas colherem flores silvestres. Embora o Sol tivesse 
nascido havia pouco tempo, j se encontravam a vrias lguas 
do local onde tinham acampado na noite anterior.
     - J? - perguntou Esme, um tanto surpreendida. - Pensava
que a jornada ia demorar muito mais.
     - Antes da Estrada do Rei, demoraria. Ao alargar a 
estrada a esta parte do reino, o Quentin tornou as viagens 
muito mais fceis e rpidas.
     Se nos despacharmos, chegaremos a Dekra amanh  
tardinha - continuou Alinea, apontando para leste e sul, onde 
as montanhas erguiam as suas cristas para as nuvens. - A 
Muralha de Celbercor vai do mar at queles montes de rocha. 
Depois dela, Dekra fica apenas a dois dias de viagem.
     - Ento, vamos depressa! - gritou Esme. - Sempre quis ir 
a Dekra. Falastes-me tanto de Dekra que estou ansiosa por l 
chegar.
     -  uma cidade notvel - concordou Bria, contemplando a
distncia como se esperasse ver as suas torres altaneiras 
erguendo-se acima do horizonte. - Os Ariga eram um povo nobre 
e belo. Como a cidade deles no h outra.
     -  verdade, e mudou muito desde a primeira vez que a  vi 
- observou Alinea, comeando a contar-lhes os acontecimentos
da sua primeira visita: a fuga para Dekra em pleno Inverno com
Theido, Durwin, Quentin e Trenn, a cavalgada nocturna at  
muralha com os Harrier atrs deles, a ferida quase fatal de 
Quentin, feita por um falco de espiges envenenados, 
pertencente aos Harrier, a sua ansiosa viglia quando ele caiu 
num sono de morte mal chegou  antiga cidade em runas e o 
extraordinrio amor e devoo dos Curatak que o curaram.
     Quando acabou, nas adorveis feies de Esme estava 
estampada uma expresso de encantamento.
     - Nunca tinha ouvido a histria toda... s um bocado aqui 
e outro ali, Mas ouvi-la agora assim... - Lanou a Alinea um 
olhar cheio de admirao. - Fostes muito corajosa, senhora. 
Vs e os outros. A vossa histria foi lindssima. Agora, ainda 
tenho mais vontade de conhecer Dekra.

     Prosseguindo viagem, foram avanando pela estrada e 
atravessando colinas arborizadas e plancies muito agradveis, 
a que o sol avivava o verde e o perfume. Por vezes, 
encontravam lavradores com carros de bois e outros viandantes: 
mercadores a p ou em carroas e cavaleiros ocupados em 
misses apressadas a regies distantes do reino. Mas, 
normalmente, tinham a estrada para si durante longos estires.
     A Muralha de celbercor, essa singular e duradoura 
construoo, falta de fora e destreza, ia crescendo  medida 
que se aproximavam. De incio, era apenas uma linha fina, 
cinzenta na distsncia, que cruzava as colinas com a 
substncia de um banco de nuvens baixas. Mais de perto, com o 
sol batendo em cheio na sua superfcie inexpressiva e austera, 
erguia-se das cristas alta e firme, com uma fora slida.
     A estrada curvava ao longo da superfcie da muralha, na 
direco da enseada de Malmar. Os viajantes desceram a longa 
encosta arborizada at  praia rochosa da enseada, onde 
pararam para dar de beber aos cavalos. Depois, ficaram  
espera.
     - Como sabe o barqueiro que tem de nos vir buscar? - 
perguntou Esme.
     - Olha - advertiu Bria. Um dos cavaleiros avanou pela
praia para uma vara alta de pinho segura por um monte de 
pedras, atou uma bandeira vermelha a uma corda amarrada  vara 
e iou-a at cima, onde ficou a abanar ao sabor da brisa. - 
Ests a ver? So temos de esperar um bocadinho. Quando o 
barqueiro vir o sinal, vir imediatamente.
     - Que boa lembrana!
     - Foi ideia do Quentin, que, quando viajava muito entre
Askelon e Dekra, costumava ter dificuldades em encontrar barco
deste lado da enseada. Por isso, na esperana, creio, de que 
as viagens para Dekra aumentassem muito, resolveu estabelecer 
este sistema.
     Sentaram-se nas pedras quentes, escutando os gritos das 
aves marinhas que cruzavam os cus e o marulhar da gua 
lambendo as rochas que tinham aos ps. Dali a pouco, viram 
aproximar-se um barco largo e chato.
     - Bons dias, senhoras - saudou o barqueiro, depois de 
conduzir o barco para dentro do estreito canal de paredes 
rochosas que fora aberto na praia. - Est um dia bom para 
viajar, ides para Dekra? - Observou-os a todos, com uma 
curiosidade bem-humorada.
     - Vamos - respondeu Alinca.
     - Permiti-me levar-vos primeiro. Voltarei depois a buscar 
a carruagem e os cavalos.
     - Obrigado, Rol - agradeceu Bria.
     Ele virou-se e observou-a com ateno:
     - Senhora? Eu... pois ! Perdo, Vossa Alteza! No vos 
reconheci! - Corando de embarao, apressou-se a curvar-se. As 
princesas abafaram o riso.
     - j h algum tempo que no nos vemos - riu Bria - e as
minhas vestes no so propriamente de rainha.
     - Pois no, senhora. - Rol fez uma reverncia com a
cabea e atirou-se ao trabalho, sem dizer mais nada. Dali a 
pouco, os passageiros estavam sentados nos bancos largos da 
proa. Wilkins ficou  espera com os animais e a carruagem.
     Manejando o comprido remo com as suas mos grandes e

fortes, Rol conduziu lentamente o barco para o canal mais 
profundo, fazendo-o flutuar ao encontro da corrente que ia 
transport-los para o outro lado.
     Em Malmarby, a sua chegada foi saudada por um rebanho de
crianas descalas que se tinha juntado na doca para ver os 
forasteiros. Como haver viandantes ainda no era um 
acontecimento assim muito vulgar, normalmente estes 
despertavam risos de curiosidade nos jovens e olhares 
amistosos nos mais velhos.
     - Fiquei muito aflito ao saber o que aconteceu ao jovem
prncipe Gerin - disse Rol, enquanto as conduzia pelas 
pranchas de uma comprida rampa acima.
     - Se j sabes, tambm percebes porque vamos para Dekra -
retorquiu Bria.
     - Toda a gente sabe, senhora. Foram pessoas daqui  
caada. Eu estava l quando... ns sabemos o que deveis 
sentir. Mas tenho a certeza de que o Rei Drago encontrar os 
patifes que o levaram.
     - Rezamos constantemente pelo prncipe - disse Alinea.
     - Sim, senhora - volveu Rol. - Talvez as oraes sejam
de alguma ajuda em Dekra, onde h muito poder.
     - Obrigado, Rol - agradeceu Bria.
     Com licena, senhora. - Fazendo outra vnia, Rol empurrou 
novamente o barco para a enseada. Num abrir e fechar de
olhos, estava de volta com a carruagem e os cavalos.
     A rainha e o seu squito voltaram a ocupar os seus 
lugares e puseram-se em movimento.
    - Estarei aqui quando regressardes - gritou Rol, que 
levantou os braose bateu palmas, berrando e enxotando as 
crianas amontoadas  sua frente como galinhas.
     Os viandantes atravessaram Malmarby e entraram nas 
plancies pantanosas. A regio de Obrey era mais selvagem, 
livre e aberta. Ao vir-se do outro lado da enseada, notava-se 
uma mudana imediata na paisagem, que se tornava ma. hostil, 
levando o viandante a sentir que deixara para trs o mundo 
hospitaleiro e entrara numa terra indornada e imprevisvel, 
onde tudo poderia acontecer.
     - A carruagem no pode avanar mais - anunciou Wilkins.
A pouuco mais de uma lgua de Malmarby, a estrada desaparecera 
por completo, Wilkins acabava de ir ver o estado do caminho 
mais  frente. - Nem a cavalo ser fcil.
     - J me tinha esquecido de como esta terra  inspita -
comentou Bria. - O que pensas que devemos fazer?
     - Deixar a carruagem - replicou o condutor. - Um dos 
vossos guardas pode montar um dos cavalos da carruagem e eu o 
outro. A rainha Alinea ir na montada do cavaleiro e as 
princesas seguiro comigo.
     - Deixai-me levar uma, pelo menos - sugeriu Esme.
     - E eu a outra - opinou um dos cavaleiros.
     Desmontando, o outro cavaleiro ofereceu a sua sela a 
Alinea, que a aceitou:
     - Obrigado. H muito tempo que no monto sem sela e no
me parece que conseguisse faz-lo agora.
     Wilkins e o primeiro cavaleiro desatrelaram os cavalos e 
deram um novo arrumo  bagagem, distribuindo os artigos 
indispensveis pelos cavaleiros e abandonando o resto com a 
carruagem, que esconderam num caramanchel de carvalhos novos e 
de hera silvestre. Depois, todos voltaram a montar, 
continuando a sua jornada alegremente, ainda que mais devagar.

     - Majestade - disse o camareiro suavemente, batendo na
Porta ao de leve -, os meus senhores Theido e Ronsard chegaram
e pedem para ser recebidos imediatamente.
     Quentin encontrava-se sentado na sua grande cadeira, 
fitando as cinzas frias da lareira. Tinha os olhos vermelhos 
devido  falta de sono, o cabelo em desalinho e as feies 
duras e desleixadas.
     - Manda-os embora - resmungou. - No quero ver
     - Mas, Majestade, eles insistem!
     - Quantas vezes tenho de dizer que no quero ver ningum?
- gritou o rei, agarrando numa taa de prata que estava na 
mesa colocada perto de si e apontando-a  cabea do camareiro 
que logo se retirou. A taa bateu na porta salpicando a 
madeira trabalhada em relevo e o cho de manchas de vinho 
tinto, parecidas com sangue.
     Quentin ouviu vozes na antecmara, seguidas de passos 
rpidos. A porta abriu-se de par em par e Theido entrou, com 
Ronsard mesmo atrs de si.
     - Queremos falar contigo - disse Theido sobriamente.
     - No  bom enclausurares-te assim, sem receber ningum - 
acrescentou Ronsard.
     - Parece que no me dais outra hiptese - retorquiu 
Quentin, sem sequer olhar para eles, continuando a fitar as 
cinzas, como se estas fossem as cinzas da sua prpria vida.
     - Isto nem parece teu, Quentin - disse Theido, 
pronunciando deliberadamente o nome do rei.
     Estas palavras s serviram para fazer aflorar-lhe aos 
lbios um sorriso sem alegria:
     - Vedes? A verdade  que no sou rei nem nunca fui. S 
fiz de conta que era rei e os meus amigos entraram na 
brincadeira para me fazerem a vontade. - Soltou uma gargalhada 
sofrida e oca. Depois, virando o rosto para eles, perguntou: - 
Onde est o meu filho?
     Ao darem com os olhos na temvel expresso do amigo, 
ambos os homens se sobressaltaram interiormente... Quentin 
mudara tanto desde a ltima vez que o tinham visto! 
Desaparecera o jovem cheio de vigor, fora e rapidez, 
perspicaz e alerta, sempre penetrante como a ponta de uma 
lana, vivendo cada momento da vida com a destemida vitalidade 
da guia que voa acima das nuvens s pela alegria de voar,
     O homem que tinham  frente parecia haver vivido nas 
trevas durante anos, sem esperana e alquebrado pelo 
sofrimento. Bastaria uma palavra mais imprpria para ele poder 
debulhar-se em lgrimas ou entregar-se a uma clera cega.
     - Os nossos homens esto a passar a pente fino os morros
e as aldeias que ficam para l de Pelgrin. Havernos de o 
encontrar. - Theido foi o primeiro a recuperar a fala. Embora 
o afligisse ver o seu rei assim to perturbado, tentou parecer 
muito firme.
     - Ns teramos vindo mais cedo... - comeou Ronsard, mas
a voz faltou-lhe e ele virou-se,
     - Ide-vos embora - ordenou o rei.
     - Queremos falar contigo como amigos. - Theido avanou
um passo na sua direco. - Por favor, ouve-nos. Peo-te como
amigo.
     - Amigos - resmoneou Quentin. Nos seus lbios, aquela 
palavra era uma maldio. Depois de passar a mo pelos olhos, 
tornou  a perguntar: - Onde est o meu filho?

     - Havernos de encontr-lo. Podes ter a certeza de que 
havemos  de encontr-lo.
     O Rei Drago lanou um olhar colrico aos dois 
cavaleiros:
     - A certeza! Com que ento, posso ter a certeza de que o
meu filho ser encontrado! - A sua voz aumentava de volume 
medida que a clera o incendiava como uma chama. - A certeza, 
h? Em quem queres que confie? Em ti? No Altssimo? Ah! No h 
nada em que um homem possa confiar. No fim, fica abandonado. A 
juventude desaparece, o amor arrefece e o que ele fez com as 
suas mos desintegra-se... ou  deitado abaixo pelos seus
inimigos!
     O rei levantou-se da cadeira, pegou no comprido atiador 
de ferro que estava junto da lareira e comeou a andar de um 
lado para o outro.
     - Os deuses, meus amigos, os deuses! Antes confiar no 
tempo, que  menos instvel do que eles. os deuses insultam o 
homem e fazem as coisas de modo a poderem rir dele quando o 
atiram para baixo das rodas da desgraa. Grande diverso! Vede 
como se contorce e arranca a prpria carne! Vede como o seu 
corao se revolve! Vede como a dor o devora!
     Theido e Ronsard estavam especados a olhar para aquele
louco furioso.
     - O Altssimo! - continuou o rei. - No me faleis no 
Altssimo, que  mais subtil e maldoso do que os outros, 
torturando as suas vtimas com sonhos e vises de glria, 
profetizando, prometendo, entregando o inimigo nas suas mos e 
elevando-as muito acima do seu devido lugar.
     E depois, tira-lhes tudo. Tira-lhes o corao, 
despoja<-os de tudo o que lhes  querido na vida e atira-os, 
sangrando para as trevas!  este o Altssimo, deus dos deuses! 
E  louco quem confiar nele!
     Ditas estas palavras, Quentin atirou com o atiador, que 
foi cair na mesa , derrubando uma bandeja de comida fria, na 
qual no tocara. Os utenslios de prata caram ao cho, 
fazendo muito barulho.
     Quentin cambaleou e, exausto, deixou-se cair na cadeira. 
Pairou na sala um silncio perplexo e semelhante a um pano 
morturio. Ronsard tocou no brao de Theido, acenou em 
direco  porta  e saram os dois fechando-a silenciosamente 
atrs deles.


        CAPTULO XXVII


     - Nunca o vi assim. - Ronsard fez um gesto para a sala de
onde tinham acabado de sair. Falava num sussurro atnito. - 
Ele est fora de si.
e saram os dois silenciosamente, fechando-a atrs deles.
     - o peso dos seus sonhos caiu em cima dele e est a 
esmag-lo. - Theido abanou tristemente a cabea.
     - Sonhos... pode ser, mas ele parece ter endoidecido!
     - Se a sua dor  mais profunda do que a dos outros,  
porque tambm confiou no Altssimo mais do que os outros.
     - Quanto mais alto se sobe, maior  o tombo, h? Quem me

dera que o Durwin estivesse aqui! Esse  que saberia o que 
havia de fazer. - Ronsard suspirou ruidosamente. - Tenho 
saudades do velho ermita.
     - Eu tambm. Mas temos de fazer o melhor que pudermos.
Parece-me que o reino depende disso.
     - O que havemos de fazer? - Ronsard encolheu os ombros.
     - Parece-me que nada, at encontrarmos o prncipe.
     - No concordo - retorquiu Theido lentamente. - Pressinto
que a tortura dele no se deve apenas ao desaparecimento do
prncipe.
     - Nem  morte do Durwin?
     - Nem  morte do Durwin. Embora sendo duas coisas que o 
afligem muito, creio que conseguiria ultrapass-las se no 
fosse o facto de ter perdido a f no Altssimo.
     - O que podemos fazer quanto a isso?
     - Encontrar a espada. - Theido olhou bem nos olhos do 
amigo. - Encontrar a espada e devolver-lha antes que algum 
fique com ela.
     - Estou inteiramente de acordo. Diz-me o que hei-de 
fazer, que eu fao.
     - Podes ter a certeza de que to diria, se soubesse. Mas 
s sei que temos de recuperar a espada... e depressa. - 
Pousando o queixo na mo, Theido ficou muito pensativo durante 
algum tempo. Ronsard ps-se  espera a observ-lo.
     - Ronsard, tens de ir sozinho comear as buscas - disse
por fim.
     - E tu?
     - Ficarei aqui junto do rei, que talvez precise de un 
companheiro decidido ao p dele.
     - Como queiras, Theido. Por onde hei-de comear?
     - Esse  o ponto fulcral da questo... mas tenho um plano
que talvez nos seja til. Ests disposto a tentar?
     - Farei o que for preciso.
     - Ento, anda comigo. No h tempo a perder.

     Quando recuperou os sentidos, sentiu logo uma coisa fria 
escorrendo-lhe pelo pescoo abaixo. Sangue? Erguendo a mo, 
apalpou o lado da cabea de onde saa o fiozinho de sangue.
     O gesto provocou-lhe uma dor to viva na cabea que lhe
arrancou um gemido.
     - Toli? Ests vivo?
     A voz abafada chegou-lhe de perto. Com cuidado, abriu os
olhos, mas voltou a fech-los rapidamente, pois a luz a 
atravessou-lhe o crebro na forma de chamejantes bolas de 
fogo.
     - Ahhh!
     - Deixa-te estar deitado. No te mexas - sugeriu a voz,
que Toli tentou reconhecer.
     Quando, passado algum tempo, a dor de cabea acalmou um
pouco, Toli abriu os olhos, protegendo-os com a mo. A diviso
de pedra nua estava mergulhada na semiobscuridade. A luz caa
obliquamente num nico raio brilhante de uma janela estreita 
situada na parte de cima da parede e ele encontrava-se deitado 
num enxergo de palha pousado no cho, em frente da janela. 
Toli virou a cabea. Apesar de a vista se lhe enevoar, 
conseguiu reconhecer a forma que se encontrava agachada ao seu 
lado, de joelhos dobrados.
     - Prncipe Gerin! Au! O que me fizeram  cabea?
     - Atiraram-te para aqui. Tive medo de que estivesses 
morto.

     - Quando foi isso? - Toli soergueu-se lentamente, 
apoiando-se nos cotovelos. Cada gesto, por mais pequeno que 
fosse, provocava-lhe uma dor na cabea semelhante a uma 
punhalada.
     - No te lembras? - perguntou o prncipe, voltando a 
estender-1he um pano molhado, que j antes pusera na cabea de 
Toli.
     O jher aceitou-o e apertou-o contra a testa.
     - No me lembro de nada - respondeu. - No... lembro-me 
de chegar ao templo e de pedir para falar com o sumo 
sacerdote. Creio que o vi e que falei com ele. Depois... 
acordei aqui.
     - O sumo sacerdote?
     - Sim.
     - Estamos no templo?
     - Devemos estar - retorquiu Toli, olhando em volta da 
cela e para a porta, que, embora no sendo a porta das 
masmorras de um castelo, era de carvalho macio e 
suficientemente forte para no poder ser arrombada por nenhum 
prisioneiro que quisesse escapar-se. - No sabias para onde 
foste trazido?
     - No. Estava escuro. Alm disso, puseram-me uma venda.
Pareceu-me que andmos dias a fio. Depois, atiraram-me para 
aqui j h alguns dias. Foi essa venda que tens a. - Gerin 
indicou o trapo molhado.
     - Estou a ver. H quantos dias? - Toli examinou o 
principe cudadosamente, em busca de sinais que indicassem que 
fora mal-tratado.
     - Creio que trs... talvez quatro. Sim, quatro. Dois dias 
antes de chegares.
     - Estou aqui h dois dias? - Parecia-lhe impossvel.
     - Hoje  o segundo. Como te sentes?
     - VivO. - Toli estendeu a mo e deu umas palmadinhas no
ombro do jovem prncipe. - Portaste-te bem, senhor. Folgo 
muito em te ver vivo, Como te tm tratado?
     - Bastante bem. Como da comida deles e bebo gua em boas
condies. - Gerin olhava ansiosamente para o amigo. Embora se
encontrassem os dois presos, sentia-se contente por ter junto 
de si algum que conhecia. - Toli, o que aconteceu?
     - Nem eu sei bem. - Abanou a cabea devagar. Como lhe
digo? pensou.
     - Sei o que aconteceu ao Durwin, mas tenho andado 
preocupado com o pai.
     - Ele est bem. Anda  tua...  nossa procura. E o 
Ronsard e o Theido tambm.
     - Coitado do Durwin - disse Gerin, com as lgrimas nos 
olhos. - Ob, coitado do Durwin.
     - O teu pai estava com ele quando morrew Morreu em paz.
     Tentando abafar o sofrimento, Gerin fungou. Mas havia 
tanto tempo que se mostrava corajoso! Agora, com um amigo ali, 
bem podia dar largas  dor. Os soluos subiram-lhe do peito e 
as lgrimas correram-lhe pelo rosto.
     Toli passou o brao pelos ombros esguios do menino.
     - Chora  vontade. Ele era teu amigo. No  vergonha 
chorar-se de pesar.
     Quando o prncipe Gerin j no conseguia chorar maid, 
Toli cingiu-o mais a si e falou suavemente:

     - No sei porque  que isto aconteceu, mas podes ter a 
certeza de que a maldade ronda aqui. Os sacerdotes no saem do 
templo para assassinar e raptar os inocentes... pelo menos, 
nunca o fizeram. Por que razo comearam agora,  coisa que 
no sei dizer. - Olhando atentamente para Gerin, continuou: - 
Mas temos de descobrir qual  o plano deles. Ora pensa: o que 
viste?
     Depois de ficar calado durante algum tempo, o prncipe 
ergueu os olhos para Toli e respondeu:
     - Eram seis homens: cinco espadachins e mais um... o 
chefe. Ouvi-os falar dele.
     - O que disseram?
     - No gostam muito dele.  tudo. - Pensando por um 
momento, acrescentou: - E o que contou o que tinha acontecido 
ao Durwin... disse que o rei tinha matado um deles na estrada. 
- Fitou Toli com uma interrogao no olhar.
     -  verdade. A dor e a raiva levaram o teu pai a liquidar 
um dos raptores na estrada, o que tambm lhe pesa no corao. 
- Toli calou-se. Passado um momento, acrescentou: - Bem, est 
feito. Talvez venhamos a descobrir nisto alguma boa inteno. 
Esperemos que sim.
     Continuaram os dois a conversar e a reconfortar-se um ao 
outro.
     A faixa oblqua de luz foi atravessando o cho e subindo 
pela parede oposta da cela, indicando-lhes que o dia se ia 
alongando. L para o fim da tarde, apareceu um sacerdote com 
duas taas de gua e um grande trincho de comida, que num 
instante abriu a porta, empurrou os alimentos para dentro e 
voltou a pr o ferrolho.
     -  sempre ass im que trazem a comida? - perguntou Toli.
     - Todos os dias. Creio que tm medo de que eu tente 
fugir.
     - Tu j tentaste fugir?
     o prncipe fez que sim com a cabea:
     - Uma vez... na estrada. O Tarky recuou e eu ou ca ou  
fui agarrado. Depois, ele fugiu. No foi muito longe daqui.
     - Um cavalo com o sentido de orientao do Tarky encontra 
depressa o caminho de casa. Ou ento, algum h-de apanh-lo
e ir entreg-lo ao rei. Seja como for, penso que algum h-de 
pensar em procurar-nc,s por aqui; o rei vai encontrar-nos, 
vers.
     Gerin assentiu com a cabea, mas no disse nada.
     Dando-lhe umas palmadinhas no ombro, Toli acrescentou:
     - No temas, jovem senhor. No deixarei que nada de mal 
te acontea. - As palavras quase lhe ficaram entaladas na 
garganta. No tornarei a falhar, nem que isso me custe a 
vida, pensou.


        CAPITULO XXVIII


     - O que mandas, amigo? - Milcher limpou as mos 
rechonchudas ao avental encharcado e fez um sorriso aberto e 
bem-disposto ao desconhecido. - s novo em Askelon?
     O homem ruivo, envergando as roupas de um trabalhador 
normal (um justilho de couro por cima de uma tnica castanha e 
calas castanhas e largas), encostou-se ao balco:
     - Uma caneca de tinto, se faz favor - pediu. - s o dono

da albergaria?
     - Sou - respondeu Milcher, - Eu sou o guarda e a minha
mulher a patroa. - Piscou o olho. - H quem diga que o meu
tinto  o melhor que h em Mensandor. Eu c tambm o prefiro.
     O estalajadeiro afastou-se um momento para encher a 
caneca, e o homem aproveitou a ocasio para examinar o 
interior da albergaria. Naquela noite, o Ganso Cinzento estava 
cheio. Ouvia-se um zumzum normal que, no entanto, se 
sobrepunha a uma certa corrente de excitao. A atmosfera de 
expectativa era to densa como o fumo dos cachimbos dos 
fregueses, que se encurvava para o tecto de traves baixas. As 
canecas de cerveja tiniam e os homens bebiam e conversavam em 
voz tensa e nervosa.
     Logo no momento em que entrara, Ronsard sentira aquele 
formigueiro provocado pela ansiedade. Era como se toda a gente 
se tivesse reunido ali  espera de que acontecesse algo, 
sabendo que aconteceria alguma coisa e querendo que ela 
acontecesse.
     Com aquele disfarce de campons, havia poucas hipteses 
de ser descoberto; como, normalmente, no frequentava 
albergarias e j no vivia em Askelon, era pouco provvel que 
encontrasse algum conhecido. Assim, Ronsard virou-se 
novamente para Milcher, que estava a pousar a caneca de peltre 
no balco.
     - Isto est estranho, no?
     - Est... h duas noites. - Milcher assentiu 
dissimuladamente com a cabea.
     - Porqu?
     - Tens estado fora do pas, homem? O rapto! A perda da
espada do rei! - Milcher revirou os olhos e inclinou-se para a
frente. - H por aqui muita maldade, meu amigo. Temos  que
tratar de ns, percebes?
     - J ouvi falar do rapto - volveu Ronsard, levando a 
caneca  boca -, mas o que  que se passa com a espada do rei? 
No sei de nada.
     - Oh! - exclamou Milcher, inclinando-se outra vez, com o 
ar de um homem que revela um segredo que o queima por dentro. 
- A espada do rei desapareceu. Ningum sabe dela. Diz-se que o 
rei vai ser destronado. Sem a espada, no consegue manter-se 
no trono.
     - Ento a Brilhante...
     - Essa mesmo! Tal e qual! Que outra espada havia de ser? 
- Virando-se para o outro homem que trabalhava ao balco: - 
Otho! Anda c!
     O enorme Otho aproximou-se e fitou Ronsard com um olhar
examinador e benvolo:
     - Sim?
     - Otho, conta aqui a este amigo o que sabes da espada 
encantada do rei.
     Desde que ouvira a histria, Otho pouco mais fizera do 
que cont-la; mesmo assim, no estava cansado de exibir os 
seus conhecimentos e, portanto, foi com entusiasmo que desfiou 
os escassos pormenores que sabia, embelezando-os de modo a 
dar-lhes um outro colorido.
     - Sim, estou a ver. - Ronsard assentiu solenemente com a
cabea quando Otho terminou a sua narrativa. - Isso pode ser
mau. Mesmo muito mau. Ainda bem que no sou o rei!
     - Que est bem arranjado! No me parece que v continuar

a ser rei durante muito tempo. j se fala muito contra ele.
     - No ouvi nada.
     - Est a comear. Ontem  noite esteve aqui um tipo de 
barba branca, vindo do norte, de Obrey, que disse que as 
pessoas de l esto con medo do novo deus do Rei Drago... do 
tal Altssimo, e que andam a armar-se para proteger os seus 
templos.
     - Para proteger os seus templos? De qu?
     - Do rei! O Rei Drago mandou arrasar os templos. - Otho
baixou a cabea com um ar de entendido. O seu rosto redondo
luzia com o prazer de ter  frente um ouvinte to tapado e 
pouco informado.
     - Eu tambm tenho ouvido dizer isso - interps Milcher.
     - Quem  esse homem... o que anda a dizer essas coisas?
     - Esteve aqui ontem  noite e contou-nos tudo. Se 
esperares um bocadinho, talvez ele aparea. Parece-me que ele 
disse que voltaria aqui hoje  noite se ainda estivesse em 
Askelon. - Milcher passeou o olhar pelas pessoas que enchiam 
os bancos e que se encontravam debruadas nas mesas do seu 
estabelecimento.
     - Agora no estou a v-lo, mas pode ser que chegue mais 
tarde.
     Pegando na caneca, Ronsard disse:
     - Nesse caso, esperarei, Quero ouvir o que tem a dizer. 
Indica-me quem  quando chegar.

     Ao pr do Sol, chegaram  cidade em runas, com os seus
delicados pinculos e finas torres erguendo-se para os cus de 
um azul profundo. A pedra vermelha de Dekra cintilava como 
rubis  luz carmesim do entardecer. Parecia que a cidade 
aparecera por magia, que cara do cu para aquela regio 
inspita, qual criao enfeitiada.
     - Dekra... - disse Esme. - Nunca vi nada assim.  to...
to diferente.
     - Tem uma beleza estranha - acrescentou Bria. -  muito
diferente das cidades que construmos. Os Ariga tinham mtodos
de construo que desconhecemos.
     - Fez-se muito desde a ltima vez que pus os olhos nesta
cidade - comentou Alinea. - Tambm isso foi h muito tempo.
Mas O Quentin disse-me que os trabalhos avanam rapidamente. 
verdade, fez-se muito.
     Avanaram at s portas de Dekra, j fechadas por causa 
do aproximar da noite. Contudo, quando chegaram s enormes 
portas de azulejos, apareceu um rapaz, que meteu a cabea no 
postgo aberto de um dos lados do painel e que voltou a 
desaparecer, rpido como um raio. A sua voz chegou-lhes do 
outro lado:
     - Visitantes! Abri as portas! Visitantes!
     Depois de esperarem um momento, ouviram o rangido feito
pelas portas ao abrirem-se. O homem de ombros curvados que 
saiu ao seu encontro sorriu e mandou-os entrar, dizendo:
     - Desculpai ter-vos fechado c fora. No espervamos 
visitas esta noite; de contrrio, teria deixado as portas 
abertas. Entrai, entrai. Bem-vindos a Dekra!
     Os viajantes desmontaram, satisfeitos por se verem livres 
das selas. O homem voltou a fechar as portas e apressou-se a 
juntar-se-lhes:
     - Vindes de longe, boa gente?

     - De Askelon - replicou Alinea.
     - Espero que esteja tudo bem em Askelon,  uma viagem
longa. Deveis estar muito cansados. - Satisfeito por ver 
aqueles visitantes, que deviam trazer novas do resto do reino, 
examinou-os com uns olhos amveis: - Mandei o rapaz chamar um 
ancio, que, tenho a certeza, querer receber-vos 
condignamente.
     Nesse momento, ouviram-se vozes. Quando ergueram o olhar,
viram o rapazinho seguido de um homem de manto comprido,
avanando rapidamente na sua direco. Atrs deles seguiam 
vrias outras pessoas, que tinham largado o que estavam a 
fazer para irem saudar os visitantes.
     - Ah! Almea! Bria! Que bom ver-vos de novo! Que surpresa
to agradvel! Olhai - gritou para os que o rodeavam -, a 
rainha veio c! E a rainha-me tambm!
     Alinea observou o homem, tentando recordar-se dele. 
Precisamente nessa altura, Bria aproximou-se mais:
     - Me, deveis lembrar-vos do ancio Jollen...
     - Claro! Claro que me lembro muito bem! Passou muito
tempo. Admira-me que ainda te lembres de mim!
     - Tambm no foi tanto como isso... e olhai para vs: 
estais na mesma. Continuais to bonita como dantes. - O ancio 
inclinou-se graciosamente perante as senhoras. - Bria, se a 
tua me no estivesse aqui ao teu lado, juraria a ps juntos 
que eras ela. Sois to parecidas como flores do mesmo boto. E 
por falar em flores... - Piscou o olho para as princesas, que 
soltaram risinhos abafados.
     - Ests a exagerar, senhor.
     - No estou nada, minha rainha.  verdade. - os seus 
olhos viraram-se para Esme, que se encontrava ali perto. - E 
tu deves ser a adorvel Esme, de quem se diz tanto bem.
     - As tuas palavras tocam-me bem fundo, senhor, pois tenho
a certeza de que nunca nos encontrmos.
     - Pois no, mas no  difcil adivinhar a tua identidade. 
Lembro-me de a Bria me ter falado da sua amiga uma ou duas 
vezes. Logo que te vi, calculei que devias ser quem s. S 
bem-vinda. - Virando o olhar para Wilkins e para os 
cavaleiros: - Bem-vindos, bons amigos. - O ancio Jollen fez 
uma pausa, fitou atentamente os visitantes e acrescentou: - 
Que encontreis em Dekra aquilo que procurais.
     Durante um momento, fez-se silncio. Depois, o ancio 
bateu palmas e disse:
     - Bem, o Palcio do Governador est  vossa disposio.
A minha esposa disse-me que hoje jantareis connosco. Mas no
vos apresseis; retemperai-vos da viagem. Iro convosco alguns
jovens que vos ajudaro a arrumar tudo.
     - Obrigado, Jollen - agradeceu Bria. - j me sinto 
reviver s por ter chegado a Dekra. Iremos ter convosco daqui 
a pouco.
     - Excelente! Agora, ide. Com tua licena, vou convidar os 
outros ancies para se juntarem a ns depois da refeio... 
concordas?
     - Claro que sim. Ia sugerir-te isso mesmo.  o melhor.
     -  to bom estar aqui outra vez! - comentou Alinea. - J
me havia esquecido de quanto esta cidade me faz bem. Tinha 
muitas saudades e no sabia de qu.

     - Ento, ainda bem que viestes. Talvez possais ficar 
bastante tempo, senhora. - Jollen fez um sorriso aberto para 
os seus fatigados hspedes. - Sim - repetiu -, ainda bem que 
viestes.
     Os visitantes foram imediatamente levados pelos felizes 
habitantes de Dekra, que os conduziram at ao antigo palcio 
do governador, no corao da zona restaurada da cidade, 
formando um cortejo atravs das ruas estreitas e pavimentadas 
das velhas runas. Os curatak que iam encontrando ao longo do 
caminho ou paravam para os saudarem entusiasticamente ou se 
juntavam  multido que os acompanhava.
     Esme maravilhava-se com tudo o que via, e que lhe parecia 
distante, estranho. Os azulejos coloridos que revestiam as 
paredes dos edifcios, e que eram mosaicos da vida dos antigos 
Ariga, brilhavam, incendiados pelo sol-poente. Os grandes 
arcos e colunatas, formadas por graciosas colunas em espiral, 
esculpidas na mesma pedra vermelha e reluzente, davam a ideia 
de uma raa majestosa e exaltada. As linhas simples e extensas 
da sua arquitectura eram o testemunho de um povo grandioso e 
nobre.
     Era um efeito estranho. To simples e to correcto! Sim, 
a palavra era essa. H aqui rectido, totalidade..., pensou 
ela. Que totalidade? Ainda no sabia. S depois de se ver e de 
se sentir Dekra se percebia que faltava qualquer coisa de 
muito intenso no resto do mundo.
      sua volta, os curatak, contentes por os verem, por 
terem visitas, tagarelavam como crianas felizes. Esme 
sentiu-se lavada pela sua  satisfao, que, como um aguaceiro 
de Primavera, a foi fazendo reviver e aquecendo por dentro... 
e o grande cubo de gelo que havia tanto tempo se achava 
enterrado no seu corao comeou a derreter.
     Oh!, pensou, que stio maravilhoso, fantstico. Ainda 
bem que vim. Por alturas da chegada ao palcio do governador, 
estava ela a pensar: Em verdade, esta  a cidade dos deuses. 
Nunca mais quero sair daqui.


        CAPITULO XXIX


     Para Pym, o interior do castelo de Askelon era extrema e 
inexprimivelmente remoto, como um castelo dos deuses nas 
distantes montanhas. Sempre que via os altos muros que se 
erguiam na grande rocha sobre a qual assentava o castelo, 
pensava como seria o seu interior.
     Claro que j atravessara as portas uma vez por outra, por 
ocasio das suas visitas s cozinhas, onde fazia negcio com a 
criadagem do rei, mas nunca fora convidado a entrar no castelo 
propriamente dito, e aquela proximidade, mais do que diminuir, 
servia para aumentar a sua curiosidade.
     Mas, naquele momento, parecia que iam permitir-lhe 
atravessar as portas interiores, entrar nas salas e cmaras e, 
quem sabe!, penetrar no grande salo do Rei Drago. Por isso, 
despediu-se relutantemente de Tip, que foi forado a deixar no 
ptio interior, virou-se e ficou  espera do camareiro que ia 
conduzi-lo l para dentro. Resolvera ir ali  noitinha, depois 
de acabado o seu dia de trabalho, pois achava que os reis 
trabalhavam de sol a sol como os outros homens e que teria 
mais hipteses de ser recebido quando o rei terminasse os seus 
afazeres quotidianos.

     Normalmente, Oswald, filho de Oswald, o Ancio, que 
morrera alguns anos depois de Eskevar, nem sonharia em deixar 
entrar o pequeno amolador, que mandaria imediatamente para as 
cozinhas. Mas facto era que andava desesperado com o rei, que, 
cada vez mais deprimido, no saa da sua sala abafada, que 
mantinha fechada e escura como um tmulo.
     Oswald receava pelo rei. Nem Theido conseguira qualquer
mudana de comportamento em Quentin. Portanto, valia a pena
tentar fosse o que fosse... at deixar entrar um amolador, que 
chegara s portas insistindo em ver o rei e afirmando que 
tinha informaes importantes, que s o prprio Rei Drago 
podia ouvir.
     - Sou o Oswald, camareiro do rei - explicara. - O que 
queres?
     Pym, que estava sentado num banco de pedra, mesmo por 
baixo da arcada da entrada principal do castelo, levantou-se 
rapidamente e avanou uns passos:
     - Senhor, por favor, levai-me junto do rei. Temos um 
assunto urgente a comunicar a Sua Alteza.
     - O rei nunca recebe ningum que no me diga qual o
assunto que o traz aqui - retorquiu Oswald friamente, 
esperando que o homem lhe desvendasse alguma coisa.
     Pym coou o queixo:
     - No posso dizer nada, senhor. S ao rei. - 
Inclinando-se para a frente, confiou: - Mas posso dizer-vos...
     - Sim? - Oswald fitou-o com um ar colrico, mas ele 
pareceu nem notar.
     - ... que  muito, muito importante.  Mesmo muito.
     - E com que tem a ver essa informao to importante?
     - S posso dizer ao rei, senhor. A mais ningum.
     Oswald percebeu ento que o homem no arredaria p sem 
ser recebido pelo rei. Alm disso, parecia inofensivo e, quem 
sabe?, o amolador at talvez possusse alguma informao que 
pudesse ser til ao seu amo, embora isso fosse muito 
improvvel. No entanto, havia sempre uma possibilidade e, nos 
tempos que corriam, no se podia descartar nem uma 
oportunidade, por mais remota que fosse.
     - Como te chamas, senhor? - perguntou Oswald.
     - Pym, senhor. Chamo-me Pym.
     - Muito bem, Pyrn. Embora no devesse deixar-te entrar 
assim, vou faz-lo. Mas se fizeres o rei perder tempo com 
disparates sem sentido ou com os boatos que se ouvem a pelas 
aldeias, mercados e albergarias, mandar-te-ei expulsar 
imediatamente. Percebes? Nunca mais sers bem-vindo a Askelon! 
- Olhando severamente para o amolador: - Bem, ainda queres ser 
recebido por Sua Majestade?
     - Quero, senhor - respondeu Pym, engolindo em seco.
     - Continuas a afirmar que a informao que possuis s 
pode ser ouvida por ele?
     - Continuo, senhor.
     - Anda comigo.
     Com estas palavras, Oswald, o jovem, girou nos 
calcanhares e afastou-se. Pym hesitou. 
     - Ento? - perguntou Oswald. - Vens ou no?

     Pym assentiu com a cabea e apressou-se a seguir o 
camareiro ao longo de um corredor largo e muito limpo, por 
onde andavam vrios criados, cumprindo os seus afazeres. As 
paredes de pedra lisa e os tectos de traves de carvalho 
pareciam a Pym coisas de origem encantada. At o mobilirio 
mais comum pelo qual ia passando o maravilhava, pois 
tratava-se de um mobilirio real. Aquela era a casa do Rei 
Drago e aqueles os bens do Rei Drago.
     Passaram por inmeras arcadas, entraram em salas com 
grandes portas esculpidas, atravessaram galerias onde se 
encontravam pendurados gigantescos tapetes cheios de arabescos 
e subiram e desceram escadas, penetrando cada vez mais no 
corao do castelo. PyM ficava mais excitado a cada passo que 
dava. Ia ver o rei!
     Por fim, pararam num corredor curto com painis de 
carvalho: os aposentos reais. Oswald dirigiu-se para uma porta 
que tinha esculpida a figura de um drago terrvel e 
serpenteante, lacada a vermelho. O camareiro pousou a mo no 
trinco e disse:
     - Espera aqui. Vou anunciar-te.
     Pym limpou o suor das palmas das mos  parte de trs das
calas e apoiou-se primeiro num p e depois no outro. Se 
calhar fazia mal... talvez fosse melhor dizer tudo ao 
camareiro e deix-lo decidir se o rei deveria ou no ouvir a 
sua histria. Sim, sem dvida. O camareiro que decidisse.
     Mas antes de Pym ter tempo para mudar de ideias, o 
camareiro tornou a aparecer e puxou-o para dentro. Oswald 
f-lo atravessar a primeira sala, onde havia cadeiras e uma 
mesa grande e comprida cheia de rolos com planos de edifcios 
e uma luzidia armadura pendurada no seu suporte, at uma porta 
que ficava do outro lado, e que dava para os aposentos 
privados do rei.
     Oswald bateu levemente, abriu a porta e empurrou Pym para
dentro.
     - Majestade, est aqui o Pym, o amolador. - A porta 
fechou-se rpida e silenciosamente atrs de si, cortando-lhe a 
nica sada que tinha.
     Pym avanou vacilantemente, com os joelhos a tremer, os 
olhos ainda no habituados  escurido e a cabea estonteada 
com a temvel lembrana de que estava na presena do poderoso 
Rei Drago. Era quase mais do que conseguia aguentar.

     Com a aproximao da noitinha, a albergaria encheu-se de 
gente, que conversava cada vez mais animadamente. No meio do 
tinido das canecas de cerveja, Ronsard, com o seu disfarce de 
trabalhador, observava e ouvia tudo o que se passava na sala 
enevoada e sombria.
     Sentia que havia qualquer coisa no ar. Alis, todos os 
que se encontravam reunidos no Ganso Cinzento tambm o 
sentiam. Pairava no ar a impacincia, uma inquietude em 
efervescncia. A expectativa, ao princpio normal, 
intensificara-se tanto que zumbia como a corda de um arco. A 
ansiedade fazia tremer as vozes e danava em todos os olhos.
     Naquela noite, ia haver sarilhos.
     Ronsard j vira estados de esprito daqueles em muitos 
homens. No campo de batalha, podia fazer com que destacamentos 
inteiros se enfurecessem de tal modo que s descansavam quando 
punham o inimigo em fuga. Mas essa fria tambm podia virar-se 
contra si prpria e acender chamas de medo, fazendo com que 
at os veteranos mais experientes se deixassem apoderar de um 
terror mortal, abandonando as suas armas. O desenrolar da 
situao para um ou outro lado dependia sempre do comandante.

     Quem ser o comandante?, pensou. Seria o viandante de
barba branca que o estalajadeiro mencionara?
     Ronsard andava disfaradamente de mesa em mesa, escutando
o que se dizia e tentando determinar no s a causa daquele
estado de esprito mas tambm o rumo que tomaria quando 
chegasse o momento da exploso.
     - Estou-te a dizer que os deuses esto zangados - dizia
um homem.
     - A culpa  do rei. No  preciso ser-se muito esperto 
para se ver isso - comentava outro.

     - No vale a pena ir-se contra eles. No vale de nada.
     -  mas  perigoso! Perigoso!
     - Temos de fazer alguma coisa!
     - A espada perdeu-se, sabias? A Zhaligkeer perdeu-se!
     - Vai haver sarilhos. Isto tudo s nos trouxe problemas. 
 Antigarnente  que era bom!
     - Tambm acho! Pelos deuses!
     - A Brilhante desapareceu? O que querer dizer isso?
     - Que o reino no tem rei!  isso!
     As conversas continuavam neste tom. De tudo o que Ronsard
ouvia, havia uma coisa que o preocupava mais do que o resto: 
j se sabia que a espada desaparecera. E, se j no o sabiam, 
os inimigos do rei em breve o saberiam... nessa altura, 
comeariam as escaramuas.
     Quentin conseguiria aguent-las? Normalmente, sim, mas 
no naquele momento, no no estado em que se encontrava.
     Ronsard instalou-se num banco de trs e ps-se a observar 
a sala como algum olhando para um caldeiro prestes a 
levantar fervura. O forasteiro, o tal Barba Comprida, iria 
aparecer? E se no aparecesse... o que aconteceria? Ah, e o 
que aconteceria se aparecesse? Esta ltima hiptese era mais 
de temer.
     Ronsard levantou-se e j ia pr no balco a caneca de 
cerveja que havia muito tinha esvaziado quando o Barba 
Comprida entrou. Ronsard no o viu nem o ouviu, mas soube que 
ele aparecera pela tenso que cresceu subitamente na sala, 
pelo arrepio que perpassou o ar cheio de fumo e 
desagradavelmente hmido e frio.
     As vozes diminuram de intensidade.
     - Ele est c! - disse uma voz ali perto.
     - Est ali aquele de quem te falei.
     - Sim, est aqui.
     - Agora vamos saber o que havemos de fazer.
     - O Barba Comprida vai-nos dizer o que havemos de fazer!
     Os sussurros redemoinhavam em volta do velhote 
encarquilhado, como folhas secas em redor de uma rvore velha 
e curvada. O Barba Comprida comportava-se com todo o 
-vontade. Se percebia a sensao causada pelo seu sbito 
aparecimento, no dava disso quaisquer sinais exteriores.
     Ronsard observou-o a andar at ao meio da sala, abrindo 
caminho para o balco. A albergaria encontrava-se num silncio 
total. Todos os olhos estavam postos no velhote de barba e 
cabelo brancos e esvoaantes. Observando. Esperando.
     De repente, ouviu-se um grito:
     - Barba Comprida! Estiveste com ele?
     Com quem?, pensou Ronsard.

     O Barba Comprida virou-se para o stio de onde viera a 
voz e, falando normalmente, mas de modo a que todos o pudessem
ouvir, replicou:
     - Estive. Vim agora mesmo dos seus aposentos.
     Um homem que se achava de p ao seu lado, perguntou:
     - Ele muda de ideias?
     - No. - O Barba Comprida abanou a cabea lentamente,
cheio de uma enorme tristeza. - Ele no muda de ideias.
     - Ento, temos de ser ns a resolver o assunto - gritou
algum do outro lado da sala.
     - Diz-nos o que havemos de fazer - disse outra pessoa.
     O Barba Comprida levantou as mos:

     - No me cabe a mim dizer-vos o que haveis de fazer. Sou
um homem simples, como vs. No sei nada de deuses nem de 
reis.
     A compreenso daquelas palavras atingiu Ronsard como o
golpe da parte lisa de uma espada. O rei! Ele estava a falar 
do rei! O ele que o Barba Comprida mencionara era Quentin.
     Mas como era possvel? Era muito improvvel que aquele 
velho forasteiro de barba branca tivesse sido autorizado a ir 
 presena do rei. O Rei Drago fechara-se nos seus aposentos 
e no recebia ningum... nem sequer os seus melhores amigos, 
como Ronsard muito bem sabia. No entanto, o Barba Comprida 
dera claramente a entender que estivera com o rei e que este 
no mudaria de ideias. No mudaria que ideias? Que jogo seria 
o daquela velha raposa? O que quereria ele?
     Tenho de falar a ss com ele, pensou Ronsard. No sei 
como, mas tenho de o tirar daqui e de falar com ele sem ser 
ouvido por mais ningum. Aqui est gente de mais e a situao 
pode ficar fora de controlo.
     Mas antes de Ronsard poder traar o seu plano, um homem 
gritou:
     - Arrasemos o Templo do Rei!
     - Sim por todos os deuses! Arraserno-lo - volveu outro.
     Fizeram-se ouvir outras vozes, que gritaram a sua 
concordncia. Os bancos viravam-se  medida que os horfiens se 
punham em p de um salto. Num abrir e fechar de olhos, toda a 
gente estava em p e, de punho no ar, clamava pela destruio 
do Templo do Rei.
     Ento, esta  a centelha que acende a chama, pensou 
Ronsard. Mas tem de haver maneira de a apagar. Olhando em 
volta, viu uma mesa vazia ali perto e saltou l para cima.
     - Amigos! - gritou no seu tom de voz mais severo e 
autoritrio. - Amigos, ouvi-me! - O clamor que abanara a 
albergaria acalmou um pouco. - Escutai-me! - Levantando as 
mos a pedir silncio, passeou o olhar pelos rostos voltados 
para cima. Agora, j tinha a ateno de todos.
     Amigos, o que quereis fazer est errado. Alm disso,  
muito perigoso. Podeis ser feridos... muito feridos... ou at 
mortos. No  de nimo leve que se vai contra o rei. Pensais 
que ele no vai defender o seu templo? Quantos de vs quereis 
que as vossas mulheres sejam vivas hoje  noite?
     Ronsard reparou que alguns olhos se desviaram dos seus. 
Que bom, pensou. Est a dar resultado. Mas, agora, tenho de 
lhes dar alguma coisa em troca.
     - Em vez disso, vamos mandar uma petio ao rei - sugeriu 
o cavaleiro. - Vamos exigir-lhe que nos explique a construo
do templo. A petio pode ser a nossa voz.

     Ouviram-se murmrios de aprovao. As cabeas quentes 
arrefeciam face  lgica moderadora de Ronsard, que passou a 
manga pelo rosto, para limpar o suor.
     - Por favor, por vs e pelas vossas famlias - continuou,
num tom de voz mais razovel -, vamos sentar-nos todos e 
escrever a petio.
     - Quando? - indagou algum ali perto.
     - Imediatamente... aqui e j!
     - E depois? - perguntou a mesma voz.
     - Depois, lev-la-ei pessoalmente ao rei. - Sim, est a 
dar resultado, pensou Ronsard. Consegui evitar o desastre.
     Mas logo que acabou de o pensar, chegou-lhe um grito 
vindo do outro lado da sala. Quando levantou o olhar, viu o 
velho Barba Comprida em cima de uma mesa, apontando para ele.
     - Mentiras! - berrou o Barba Comprida. - Mentiras! - 
Antes de Ronsard poder falar, o ancio gritou: - Algum de vs 
conhece este homem?
     A multido resmungou que no.
     - Estais a ver? - guinchou o Barba Compricia. -  um
homem do rei. Eu vi-o quando fui ter com o rei. Ele estava l.
O rei mandou-o espiar-nos!
     - No, no  verdade! S quero ajudar-vos.
     - Homem do rei! - gritou atrs dele um campons 
corpulento.
     -  verdade, sou amigo do rei. Mas tambm sou vosso
amigo. E aviso-vos:  melhor no irdes contra ele. No 
tomeis...
     Antes de Ronsard conseguir acabar de falar, sentiu a mesa
sobre a qual estava de p erguer-se e inclinar-se.
     - Mentiras! Mentiroso! J vais ver!
     A mesa virou-se e Ronsard caiu ao cho. Ao tombar de 
lado, ficou quase sem ar. Arquejante, rodou sobre si e ps-se 
de joelhos. Uma bota atingiu-o nas costelas. Um punho 
esmurrou-o ats da orelha. Ronsard tentou pr-se em p.
     A sala comeou a rodopiar. Custava-lhe respirar aquele ar
pesado. Vozes altas zumbiam-lhe nos ouvidos, mas no conseguia
ouvir o que diziam. Ps e punhos esmagavam-no.
     Para se proteger, Ronsard enrolou-se todo e ps os braos 
em cima da cabea. Perto dele, caiu uma mesa, espalhando 
canecas de cerveja por todos os lados. Depois, a luz explodiu 
atrs das suas plpebras cerradas. Os seus braos e pernas 
estremeceram convulsivamente at ficarem imveis.


        CAPITULO XXX


     A refeio fora simples e alimentcia: po, queijo 
branco, carne estufada, legumes e fruta. Esme, fascinada com 
Dekra, achara cada prato um acepipe e saboreara cada bocado 
que comera. Durante a refeio, falara pouco, mas escutara com 
ateno tudo o que se dissera  sua volta. As vozes pareciam 
cantar e retinir no ar, produzindo uma msica fraca mas 
ntida, que lhe aquecia a alma. Depois de terem chegado aos 
seus aposentos, situados na ala dos hspedes do Palcio do 
Governador, haviam tomado banho com gua aquecida pelo sol. 
Aceitando as roupas limpas e novas que haviam posto  sua

disposio, tinham envergado vestidos brancos com leves mantos 
de Vero azuis, que apertavam na cintura com fitas azuis e 
compridas. Depois, tinham descansado em camas limpas de penas 
e acordado muito frescas quando os seus jovens guias as tinham 
ido chamar.
     Ao chegarem a casa do ancio Jollen, j as estrelas 
comeavam a iluminar o crepsculo e ouvia-se o som de msica e 
risos vindo do ptio adjacente  sua habitao. Estavam l 
muitas pessoas de Dekra, que tinham sido convidadas para darem 
as boas-vindas quelas visitas to importantes. Viam-se 
lanternas com velas no cimo dos muros e penduradas nas 
rvores. Umas pessoas encontravam-se sentadas numa mesa 
comprida que tinha sido trazida c para fora e outras 
achavam-se instaladas em almofadas ou bancos dispostos ao 
longo do muro. Depois de terem comido, havia-se cantado e os 
ancies tinham contado histrias, para gudio geral.
     O sero passara como um sonho de felicidade e luz, de 
plenitude e paz. Para Esme, era uma paz que corria como um 
rio. No se tratava apenas da ausncia de preocupaes, mas de 
uma confiana mais profunda e absorvente na rectido ltima 
das coisas. Era como um rio que corre no seu leito, seja este 
rochoso ou liso, sem deixar que as pedras lhe estanquem o 
curso, inundando tanto as profundezas como os baixios, 
cobrindo tudo e continuando a correr.
     Esme recebera tudo isto apenas olhando e escutando: 
olhando para os que a rodeavam e escutando o seu corao.
     Quando, por fim, ficaram a ss com os ancies, e as 
princesinhas, dormindo a sono solto, foram levadas para a 
cama, Bria comeou a contar a razo da sua vinda. Esme estava 
cheia de curiosidade de ver como os ancies recebiam as 
notcias e o que fariam a seguir.
     Estes ancies so homens invulgares, pensava, ao v-los 
assentirem gravemente com a cabea. A sua presena invoca uma 
aura de sabedoria e confiana. Ainda uns momentos atrs, 
tinham estado a contar histrias engraadas e a rir mais alto 
do que os outros. Sentavam-se ou andavam entre a sua gente sem 
quererem saber da elevada posio que ocupavam; alis, 
faziam-no mais como servos do que como guias. Mas, naquele 
momento, solenemente sentados em conselho, escutavam com 
empatia e compreenso os acontecimentos que Bria lhes 
descrevia. Ouviam com toda a ateno, no como juzes, mas 
como amigos, umas vezes assentindo e outras abanando 
tristemente a cabea. Por fim, a rainha acabou de falar:
     - ...E foi por isso que viemos ter convosco. No saamos
o que mais havamos de fazer - rematou Bria.
     O ancio Orfrey, que fora o escolhido para substituir 
Yeseph, respondeu docemente:
     - Fizestes bem. Ajudaremos em tudo o que pudermos.
     - Ah, as formas que o mal assume! - exclamou o ancio
Patur. - As trevas so muito inventivas no seu combate com a 
luz.
     - Mas, no fim, impotentes - acrescentou o ancio Clemore.
     - Sim, desde que o homem se recuse a entregar-se-lhes - 
interps o ancio Jollen.
     - A batalha trava-se em todas as frentes e os homens so 
arrastados para a refrega, quer queiram quer no - disse 
Patur. - Pelos vistos, a batalha chegou mais uma vez a Askelon 
e ao rei. Mas  sempre assim: assim: as trevas temem os stios 
onde a luz arde com mais brilho e, por isso, querem 

destru-los.
     - O que se pode fazer? - indagou Bria. Tambm Esme se 
perguntava o mesmo.
     - Isso  com o Altssimo - respondeu Clemore. - Vamos 
pedir-lhe que nos guie.
     - Atravs da orao?
     - Sim, atravs da orao - assentiu Patur. - Vamos fazer
uma viglia pelo Quentin, pelo jovem Gerin, pelo Toli e pelos
gutros. Quanto ao Durwin, embora choremos a sua morte, 
alegrar-nos-emos pela sua entrada no reino do Altssimo e 
rezaremos para que a sua recompensa seja grande. Vamos comear 
imediamente.
     Assim, os homens deram as mos s mulheres e todos 
comearam a rezar. Esme, que nunca rezara daquela maneira, 
sentiu-se um pouco desajeitada ao princpio, mas, depois, 
descontraiu-se e concentrou-se nas oraes dos ancies. 
Enquanto as escutava, sentiu qualquer coisa dentro de si; o 
ritmo do seu corao acelerou-se em resposta quelas palavras, 
mas tambm a mais qualquer coisa: a uma presena invisvel mas 
distinta. Era como se o Altssimo tivesse ido sentar-se entre
eles e participasse na sua orao.
     Este pensamento fez Esme arrepiar-se toda. Um deus que 
andava entre o seu povo! Que estranho! Os deuses, distantes e 
desinteressados, viviam nas suas montanhas ou nos seus 
templos, eram servidos pelos homens, mas nunca os serviam, e 
tanto prejudicavam como ajudavam, segundo os seus caprichos.
     Nesse momento, entregou-se ao Deus Altssimo, pensando:
No conheo os vossos desgnios como os outros; mas, 
Altssimo, se me receberdes, seguir-vos-ei, pois tambm eu 
quero conhecer-vos e servir-vos.
     Em resposta, teve Esme uma ligeira sensao de elevao, 
como se a sua alma estivesse a ser erguida. E soube assim que 
a sua orao fora ouvida e aceite. Apertando com mais fora as 
mos das pessoas que tinha ao lado, sentiu a vida 
gotejando-lhe novamente pelo corao, que estava seco havia 
tanto tempo.

     Pym encontrava-se de p, na escurido dos aposentos do 
rei. Ouvia-o respirar devagar, ritmadamente, como um animal na 
sua toca, Falo ou espero que ele se me dirija?, 
perguntou-se.
     O silncio prolongou-se e tornou-se incmodo, mas o rei 
permaneceu calado. Pym pigarreou hesitantemente e continuou 
espera.
     - Ento? - Da escurido saiu uma voz que arranhava como
a voz de um velho. - O que queres.
     - Vim... - comeou Pym.
     Mas, antes de poder continuar, o rei gritou-lhe:
     - No me interessa porque vieste! Vai-te embora e 
deixa-me em paz!
     De repente, o amolador viu o enorme vulto que tinha  
frente pr-se em p e cambalear na sua direco. Assustado, 
Pym recuou um passo.
     - Vossa Majestade, no foi por mal! No foi...
     - Pe-te a andar! No vs que quero estar sozinho?
     Pym fez um gesto em direco  porta.
     - No! Espera! Tens novas do meu filho? - perguntou o Rei
Drago, aproximando-se, agarrando nos ombros do amolador e 

respirando-lhe para cima da cara.
     Pym encolheu-se todo, tanto devido quele abrao como ao
hlito repulsivo do rei.
     - No! No trago novas dessas - tartamudeou Pym.
     - Ora! - gritou o rei, largando-o com um empurro que o
fez voar.
     Pym estatelou-se contra a porta e ficou petrificado. Com 
certeza que o rei no ia mat-lo, pois no?
     - O que ? - berrou o rei selvaticamente. - Ento? 
Desembucha! Perdeste a lngua?
     Antes de Pym ter tempo para responder, algum bateu 
apressadamente  porta, que se abriu de repente, atirando o 
amolador pelo ar.
     - Majestade! Vinde depressa! Vinde ver o que est a 
acontecer, Vossa Majestade! Depressa!
      luz que vinha da porta aberta, Pym viu o rei, com o 
rosto da cor da cinza, crculos negros por baixo dos olhos e 
as faces descadas e chupadas. Parecia um espectro sado do 
tmulo e no um homem de carne e osso, com sangue quente 
correndo-lhe nas veias. Aquilo era o grande Rei Drago?
     Sem querer saber de mais nada, o rei passou por ele e 
saiu pela porta. Pym ps-se em p e espreitou pela abertura. 
Ouviam-se outras vozes retinindo nos corredores, mas Pym no 
lhes prestou ateno. S queria ir imediatamente para bem 
longe, antes que o rei regressasse e voltasse a encontr-lo 
ali.
     Por isso, esgueirou-se da sala, voltou a atravessar os 
corredores agora desertos do castelo e, por fim, chegou  
entrada, saindo para a noite fria e estrelada Tip esperava-o 
deitada, com a cabea metida entre as patas.
     - Vamos para casa, Tipper - disse Pym ainda abalado pelo
que lhe acontecera. Tip abanou a cauda. - Vamos j direitinhos
para o Ganso Cinzento.
     Lanando um ltimo olhar para trs, atravessou o ptio 
interior, passou o porto, entrou no ptio exterior e 
dirigiu-se  casa da guarda. As grandes portas estavam 
fechadas, mas encontrava-se um guarda perto de uma mais 
pequena, ainda aberta dentro das maiores.
     Sem dizer nada, Pym apressou-se a continuar, atravessando 
o tnel da casa da guarda, iluminado pela luz das tochas, em 
direco  imensa ponte levadia. S abrandou o passo quando 
chegou  rampa. Sentia-se como um malfeitor escapando das 
masmorras do castelo para a liberdade. Depois, foi caminhando 
pelas ruas. AO virar para a albergaria, ouviu um ribombar 
semelhante ao som de um trovo distante, transportado pelo 
vento. Parando, ps-se  escuta.
     A uns dez homens dobraram a esquina aos gritos, 
segurando tochas gordurosas e fumarentas, passaram por ele de 
raspo e afastaram-se pela rua estreita abaixo. Ao entrever os 
seus rostos descompostos e contorcidos, Pym percebeu logo que 
no iam com intenes de fazer bem a ningum.
     Enquanto os observava, desaparecendo por uma rua lateral,
estremeceu todo. L ao longe, nas ruas vazias, ecoaram gritos. 
Consternado, Pym abanou a cabea.
     -  verdade, passa-se qualquer coisa, Tip. O camareiro 
Oswald tinha razo. Anda, menina. No est noite para andarmos 
c fora.

     Apressaram-se a voltar ao Ganso Cinzento. Na distncia, 
ainda se ouvia um ribombar intermitente. J no se tratava de 
troves, mas sim de tambores rufando antes do embate 
inevitvel.


        CAPITULO XXX1


     Quando Theido chegou ao local, com um pequeno 
destacamento de cavaleiros, a destruio era quase total. J 
tinham cado trs paredes e a quarta vacilava sob a presso 
das cordas e dos varapaus empunhados por dezenas de habitantes 
da cidade, tomados de um enorme frenesi.
     - Senhor, chegmos tarde de mais - disse o cavaleiro 
postado  direita de Theido. O seu rosto bruxuleava  luz 
brilhante das tochas. - Quereis que os dispersemos?
     Theido olhou para os homens que berravam e corriam, 
tomados da raiva da destruio. Nesse momento, a camada 
superior de pedras da ltima parede cedeu e caiu ao cho com 
tanta fora que o solo abanou e vibrou como um tambor.
     - No, ainda no, porque pode haver feridos -          
replicou Thoido. - No quero ningum morto. O mal j est 
feito.
     - Devamos fazer alguma coisa - insistiu o cavaleiro. -
O Templo do Rei... - Deixando a frase por acabar, apontou 
desesperadarnente para os escombros.
     - O que queres que faamos? - inquiriu Theido em voz
zangada. - O mal j est feito! No sero umas quantas cabeas
rachadas que salvaro seja o que for! Olha para ali... a 
cidade inteira enlouqueceu! - Theido fitou a multido. As 
cordas serpenteavam no ar e os varapaus empurravam as pedras. 
Quando caiu mais uma seco inteira de parede, os gritos 
transformaram-se num cntico ululante. Ouviu-se uma aclamao, 
semelhante ao grito de um animal.
     Theido ordenou com um ar fatigado:
     - Manda os nossos homens cercarem-nos. Depois, que os 
dispersem. No podemos admitir que esta loucura se espalhe. 
Diz-lhes que no hesitem em usar a parte lisa das espadas... 
mas no quero ferimentos desnecessrios. Entendido? - O 
cavaleiro fez que sim com a cabea. - Ento, vai tratar disso. 
Eu regressarei imediatamente ao castelo.

     Das ameias mais altas, Quentin, tomado de uma agonia 
muda, observava o assalto ao seu templo. A colina na qual 
estava a ser construdo ardia com a luz das tochas e, embora 
ainda ficasse a alguma distncia do castelo, chegavam-lhe 
distintamente aos ouvidos os gritos dos habitantes da cidade. 
O rei viu a massa agitada que rodeava as paredes e viu as 
pedras do seu grande templo carem ao cho.
     Os que estavam com ele no diziam nada, pois tinham medo
de falar e do que ele poderia fazer. A luz fria e artificial 
que lhe iluminava o rosto desfeito dava-lhe um aspecto feroz, 
quase selvagem. Com os msculos tensos, os membros rgidos, as 
veias do pescoo e da testa salientes e os olhos quase 
saltando das rbitas de horror, parecia pronto a galgar as 
ameias a qualquer momento ou a esquartejar quem quer que se 
aproximasse dele.

     Imvel como uma pedra, Quentin via o seu sonho 
desmoronar-se perante os seus olhos. Cada pedra que caa por 
terra era um pedao de si que lhe arrancavam. Mas no podia 
fazer nada. S olhar e sentir a ferida que tinha na alma 
aprofundando-se com cada seco de parede que rua.
     Quando a ltima tombou nos escombros, com um grande 
estrondo, virou-se e, sem dizer uma palavra, voltou aos seus 
aposentos, onde Theido o foi encontrar, sentado s escuras.
     Tirando uma vela do seu castial na antecmara, o robusto
cavaleiro aproximou-se do rei. Deslocando-se sem fazer 
barulho, como se temesse perturbar a meditao do seu monarca, 
acendeu as velas que estavam na mesa e as que se encontravam 
em suportes espalhados pela sala.
     Quando acabou, ps a vela que tinha na mo num castial
pousado em cima da mesa e foi postar-se  frente do rei. 
Quentin no olhou para ele; estava muito longe dali.
     - No pudemos fazer nada - disse Theido docemente. - 
Agora, sero dispersados e mandados para casa.
     O Rei Drago no falou durante muito tempo. Theido ficou
 espera, sem saber se o rei o ouvira. o silncio esticava-se 
entre eles corno urna teia.
     - Porqu? - perguntou Quentin por fim. Tinha a voz rouca
imensainente infeliz.
     Theido fitou o amigo, sabendo que ele estava a ser 
devorado por dentro. Quando a dor se tornou insuportvel, o 
cavaleiro desviou o olhar. No tinha nada para dizer que 
pudesse aliviar o sofrimento do rei.
     - Antes, houve sempre um sinal - disse Quentin, falando 
mais para si prprio do que para Theido. - Antes, o caminho 
foi-me sempre mostrado claramente... quando eu mais precisei 
que mo mostrassem. Sempre, -  luz das velas, os anos 
pareceram recuar do rosto do rei, que voltou a ser o jovem 
aclito do templo que Theido conhecera na cabana do eremita, 
havia muitos anos. At a sua voz foi perpassada pelo tom 
lamentoso de um rapazinho perdido: - Onde est ele agora? Onde 
est o sinal? Porque  que ele me abandonou? - As palavras 
pairaram no silncio, sem resposta.
     Sabes, Theido, eu vi-o. - Quentin olhou para o amigo 
como se s naquela altura tivesse dado por ele. As palavras 
seguintes saram-lhe de sopeto: - Vi-o quando a Zhaligkeer 
atingiu a estrela e a luz da nova era pegou fogo  terra, 
afastando as trevas.
     - Viste o qu? - perguntou Theido, falando como a uma
criana.
     - O templo, A Cidade da Luz que eu ia construir. O 
Altssimo mostrou-me a sua Cidade Santa. Eu senti a sua mo 
sobre mim... - Fazendo uma pausa, lanou a Theido um olhar de 
abandono. - Mas acabou-se. Ele deixou-me. Estou condenado.
     - Condenado? Quem pode condenar-te? Cumpriste sempre com
o teu dever perante o deus. Mais do que os outros, viveste
sempre de acordo com os seus desgnios. O Durwin disse que 
foste escolhido.
     - Quer dizer, marcado! Marcado para o fracasso. O Durwin
morreu e o deus abandonou-me. Se fui condenado, a culpa  
minha. Eu matei-o, Theido. Matei-o. Eu, o Rei Drago, abati-o 
como se abate um co raivoso. Matei-o, e o Altssimo 
castigou-me com o meu fracasso.
     Theido s podia pensar que Quentin estava a referir-se a
Durwin.

     - Claro que no o mataste, Como podes pensar isso?
     -  verdade! juro que  verdade! - gritou Quentin, 
levantando-se de repente. - Matei-c, e a chama apagou-se! 
Apagou-se na minha mo! A luz desapareceu, Theido. 
Desapareceu.
     Sem perceber nada, Theido deixou-se ficar a olhar para o 
rei, confundido, por esta exploso, que pensou no passar do 
delrio incoerente de um louco.
     Quentin tapou o rosto com as mos. Os seus ombros 
comearam a elevar-se e a baixar-se, mas, ao principio, no 
saiu nenhum som. Depois, Theido ouviu os soluos.
     - Trevas! - disse ele a chorar. - S trevas!


     - Ooh! - gemeu Ronsard, tentando abrir os olhos. Mas s 
um se abriu; o outro estava inchado e fechado devido ao 
pontap que levara. Tinha o corpo todo magoado e, de cada vez 
que respirava, sentia-se atravessado por pontadas de dor.
     - Calma... calma, No te levantes muito depressa - 
disse-lhe uma voz ao ouvido.
     Ronsard virou o olho bom na direco de onde viera o som
e viu o rosto de Milcher, o estalajadeiro, que, inclinado 
sobre ele, lhe segurava os ombros.
     - A minha mulher j foi buscar um pano frio para pores na
cabea. No te preocupes. Deixa-te estar a sentado.
     Ronsard olhou em volta. Os bancos encontravam-se cados e
as mesas tombadas, mas no se via nem uma das muitas pessoas
que l estavam antes.
     - onde esto eles? Para onde foram?
     - No sei nem quero saber. - Milcher pegou numa caneca
e levou-a aos lbios de Ronsard. - Bebe um pouco para limpares
as teias de aranha que tens na cabea.
     Ronsard agarrou na caneca e bebeu um gole de cerveja 
fresca, qie sentiu picar-lhe na lngua. A bebida retemperou-o 
um bocado, aclarando-lhe as ideias.
     - Quem  ele?
     - Senhor? - Milcher pestanejou.
     - Sabes... o Barba Comprida, Quem ? De onde veio? - 
Ronsard fez meno de se levantar, mas o esforo custou-lhe 
uma exploso de dor na cabea. - Ooh!
     - Cuidado. - Milcher segurou-o por baixo dos braos e 
ajudou-o a pr-se em p.
     A rechonchuda mulher de Milcher regressou, mandou o 
cavaleiro seritar-se numa cadeira e comprimiu-lhe o pano 
fresco contra a cabea magoada. Ronsard bebeu mais uns goles 
de cerveja.
     - Que confuso! - exclamou ela indignada, dando um 
estalido com a lngua.
     - O que aconteceu aqui? - perguntou outra voz. Erguendo
o olhar, Ronsard viu o amolador entrando na albergaria e 
caminhando na sua direco.
     - Houve uma desordem - explicou Milcher. - Ficaram todos
num tal frenesi! Nunca vi uma coisa assim.
     Emm carregou o cenho:
     - E mesmo na altura em que virei as costas! - Disse-o 
como se o marido tivesse culpa do que se passara na sua 
ausncia. - Este senhor - indicou Ronsard - tentou faz-los 
ver as coisas... e v o que aconteceu: partiram-lhe a cabea.

     Pym limitou-se a assentir tristemente. Tp inclinou a 
cabea e ganiu.
     - Bem, no  a primeira vez que me partem a cabea quando
estou ao servio do rei e, verdade seja dita, tambm no deve 
ser a ltima - replicou Ronsard.
     - O qu? - perguntou Milcher com um ar desconfiado.
     Lembrando-se do seu disfarce. Ronsard encolheu os ombros 
e retorquiu:
     - Sou um homem do rei. Chamo-me Ronsard.
     - O comandante-chefe! - arquejou Milcher. - Lembro-me
de vs.
     - J no sou... mas ando ao servio do rei. No quis 
prejudicar ningum com o meu disfarce. Como queria saber o que 
se diz pela cidade, vim aqui assim porque achei que as lnguas
se soltariam mais se no houvesse nenhum nobre por perto. - 
Fitando Milcher com um olhar severo: - E o Barba Comprida?
Conta-me tudo o que sabes dele.
     - No sei nada que j no tenhais ouvido, senhor. Chegou
aqui como qualquer forasteiro, bebeu pouco, falou com aslgumas
pessoas e foi-se embora, dizendo que talvez voltasse. Como vos
contei, afirmou que tinha uns assuntos a tratar em Askelon.
     - Ento, o que  que eles - com um gesto de cabea, 
indicou a multido inexistente - queriam dizer quando lhe 
perguntaram: Estiveste com ele? Ele mudou de ideias? Aposto 
que se referiam ao rei.
     - No sei, senhor. S sei o que vos contei. Os 
estalajadeiros no so responsveis por todas as conversas que 
se travam dentro das suas paredes. A minha casa tem bom nome.
     - No duvido disso - replicou Ronsard. Milcher estava a
ficar zangado e no havia razo para o irritar ainda mais; a 
tenso dos acontecimentos da noite anterior afectava-os a 
todos. - Irei saber mais do Barba Comprida noutro stio. Mas, 
se souberes mais alguma coisa, tens de me informar.
     - Assim ser - anuiu Emm sombriamente, ajudamdo Ronsard
a levantar-se. - Estai descansado. Eu tratarei disso.
     - Desculpai... - comeou Ronsard.
     - No houve estragos. Pelo menos, no houve nada que no
se possa arranjar. Ide para a cama descansar a cabea - disse
Milcher, acompanhando-o at  porta.
     O cavaleiro saiu para o ar fresco da noite. A rua estava 
vazia e muito calma. Mas pareceu-lhe que se tratava de uma 
calma pouco natural. Ronsard sabia que a violncia andava  
solta no mundo; sentia-a bem dentro de si, to intensamente 
como sentia os ferimentos que recebera. Quando comeou a 
afastar-se pela rua, lembrou-se de que deixara o cavalo no 
estbulo de Milcher, situado atrs da albergaria.


        CAPITULO XXXII


     Bria acordou muito antes de o Sol se elevar acima das 
montanhas verdes que rodeavam Dekra. Depois de se vestir sem 
fazer barulho, saiu para o varandim, onde ficou na madrugada 
lquida, j de um dourado plido a oriente.

     Outro dia, pensou. Que prodgio! Algures, o meu filho 
tambm despertar do seu sono. Altssimo, no o abandoneis. 
Reconfortai-o e dai-lhe foras. E ao meu marido tambm. 
Obrigado. Muito obrigado.
     Bria sentiu, com uma certeza inabalvel, que a sua orao 
fora ouvida e atendida. Aqui em Dekra, reflectiu,  fcil 
acreditar que ss oraes so sempre atendidas. Nunca nada de 
mau atingia Dekra, que permanecia sempre a salvo dos problemas 
do mundo.
     Tinham ficado muito tempo a rezar com os ancies. Haveria
mais splicas nesse dia e nos dias seguintes... enquanto fosse 
preciso. Sentia-se grata por isso e pelo amor que sentia da 
parte dos amveis Curatak.
     Mas parecia-lhe estranho estar ali naquela cidade, na 
cidade de Quentin, sem Quentin. Sempre tinham ali ido juntos. 
Sorriu ao lembrar-se da primeira vez que ele a levara a Dekra, 
a correr de um lado para o outro, contando-lhe o que estava a 
fazer, revelando-lhe os seus projectos e mostrando-lhe tudo o 
que via. Nessa altura, eram jovens, estavam apaixonados e iam 
casar-se em breve. Quentin fora coroado havia pouco tempo e os 
sonhos que tinha para o reino ardiam nele com tanta 
intensidade que nem por um momento conseguia ficar
quieto.
     Nos primeiros tempos, iam l muitas vezes. As viagens 
tinham acabado com o nascimento do primeiro filho. Um filho, 
depois outro e mais outro... Apesar de j ser mais fcil, 
visto as crianas estarem crescidas, havia muito tempo que no 
pensavam em ir  antiga cidade em runas.
     Mas Quentin tambm tinha o templo. A sua construo 
obcecava-o tanto que se atirara de cabea e esquecera Dekra. 
Alis, teria abandonado completamente a sua cidade se no 
fosse a morte de Yeseph. Que tempos to tristes! Sem Durwin, 
Bria no sabia o que Quentin teria feito. O funeral do ancio 
curatak fora simples e nada triste... nada parecido com o que 
 vulgar nos enterros. Tal como no funeral de Durwin, houvera 
uma certa sensao de alvio, quase de alegria. Ali estava um 
servo do Altssimo, que finalmente fora libertado para se 
apresentar perante o seu tribunal, para caminhar com o seu 
Criador e glorificar a sua presena. Que tristeza poderia 
haver nisso?
     No entanto, para Quentin tinham sido tempos muito 
confusos, principalmente porque a morte de Yeseph fora 
inesperada. Haviam-no encontrado  sua mesa de trabalho, na 
grande biblica que amava tanto, com a cabea pousada num 
manuscrito, como se estivesse apenas a descansar. No dia 
anterior, falara com todos os seus melhores amigos, como se 
soubesse que ia morrer e quisesse despedir-se de cada um deles 
em particular.
     Mas Quentin no estava l. Yeseph morrera sem voltar a 
v-lo, e fora talvez este o facto que Quentin mais lamentara.
     - Eu devia ter estado com ele - repetira Quentin vezes
sem conta. E por mais que Bria lhe houvesse dito que ele tinha
deveres e assuntos de Estado a tratar em Askelon e que no 
podia adivinhar o que ia acontecer, Quentin ficava carrancudo 
e respondia que nunca quisera Askelon.
     Bria dera um grande suspiro de alvio quando Quentin 
comeara a construo do novo templo, pois o antigo fogo 
voltara-lhe quase de um dia para o outro. Mas tambm nunca 
mais mencionara Dekra, pelo menos no como dantes.
     - Este stio  mesmo diferente? - A voz que ouviu atrs 
de si arrancou-a do seu devaneio. Esme aproximou-se e 

sentou-se ao seu lado no parapeito.                           
       - No te ouvi chegar! Estava a sonhar acordada - 
respondeu Bria com um ar ausente. Suspirando, sorriu  amiga.
     - Nada de triste, espero.
     - Triste? porqu?
     Esme encolheu os ombros.
     - A tua expresso pareceu-me triste, mas aqui nunca 
ningum deve andar triste. - Virou os olhos castanho-escuros 
para a rainha, que notou um brilho novo nas suas profundezas.
     - ,  um stio diferente - retorquiu Bria. - Diz-se que 
 um dos ltimos lugares de poder da Terra, mas julgo que tem
menos a ver com isso do que as pessoas pensam.
     - Sim? - Pousando o queixo na mo, Esme olhou 
sonhadoramente para a luzidia vertente da montanha. O orvalho 
comeava a cintilar aos primeiros raios de luz da manh. - 
Ento o que  responsvel pelo que sinto aqui? H um encanto 
que entrana a sua magia com a alma.
     -  fcil - replicou Bria. - Diz-se numa s palavra.
     - Ento, diz qual , que quero ouvi-Ia.
     - Amor.
     - Amor?
     - Sim. H aqui um amor que raramente se encontra na 
Terra. Talvez se veja nas famlias, decerto que, s vezes, se 
verifica entre marido e mulher, mas quase nunca existe no 
mundo em geral. Aqui, o amor governa tudo. Tudo. O amor e a 
presena continuamente praticada do Altssimo.
     Esme lanou  amiga um olhar de interrogao.
     - O Yeseph explicou-mo uma vez. Disse que, na verdade, o
Altssimo est sempre presente junto da sua criao, de ns. 
Mas, se no praticarmos a sua presena, esquecemo-lo muitas 
vezes... afastamo-nos dele. isto , precisamos de o ter sempre 
connosco, tanto nos nossos pensamentos como nas nossas aces.
     Pois no  o Altssimo que nos esquece; somos ns que o
esquecemos a ele. Somos feitos assim, o que , talvez, um 
defeito, que torna a f necessria. E a f  a maior ddiva do 
Altssimo. Portanto, at nisso ele nos salvou.
     - Estou a perceber: salvou-nos de ns proprios. - Esme 
contemplou a luz do dia subindo no cu e as sombras da noite 
retirando-se das plancies arborizadas como o afastar de um 
vu fino e transparente. -  o amor que d s coisas mais 
comezinnhas, como quele nascer do Sol, uma beleza assim to 
grande?  o amor que me faz sentir que, at agora, vivi na 
sombra?
     - ,  o amor e o conhecimento do Altssimo.
     - Mas eu sei muito pouco do Altssimo. Como posso 
sentir-me assim?    
     - Conhece-lo no teu corao. O Durwin costumava dizer que
todos os homens nascem com o conhecimento do Altssimo nos 
seus coraes. O que temos  de passar mais tempo a lembrar e
menos a esquecer o que j sabemos.
     - De hoje em diante, passarei o tempo a lembrar-me disso 
- afirmou Esme resolutamente.

     Quentin cavalgou at aos escombros do templo logo que
houve luz suficiente para se ver alguma coisa. O cu estava 
escuro: as nuvens cinzentas e baixas formavam uma capa dura 
sobre a terra, impedindo a entrada da luz do Sol. Caa uma 
chuva miudinha que salpicava tudo.

     Embora j soubesse o que ia encontrar quando chegasse ao
local da construo, Quentin ficou estarrecido com a dimenso 
da destruio.
     Nem uma pedra ficara em cima de outra. As paredes tinham
sido empurradas para dentro e haviam tombado umas sobre as
outras... eram seces inteiras cadas, esmigalhadas, 
quebradas pela fora da pedra batendo na pedra. Os andaimes de 
madeira e os suportes das paredes no passavam agora de 
cavacos para o lume. Aqui e ali, via-se uma trave partida 
espetada nos escombros, que parecia um galho que estalara ao 
ser pisado. Os escombros branco-acinzentados formavam uma 
grande pilha, semelhante a um tmulo... o tmulo do Altssimo. 
Ou o tmulo de um rei.
     Passando por cima das pedras cadas, Quentin caminhou 
para os escombros e subiu a pilha de cascalho. Intactas entre 
os destroos, encontravam-se espalhadas vrias ferramentas: um 
martelo de canteiro, uma p de pedreiro, um nvel... o facto 
de no estarem estragados devia querer dizer alguma coisa, mas 
no sabia o qu.
     Quando chegou ao centro da pilha, ps-se a examinar os 
estragos. S ficara de p uma nica coluna, da altura de um 
homem, que marcava um canto exterior do templo. Avanando at 
este solitrio vestgio do seu sonho, Quentin observou-o 
tristemente, ps-lhe as mos em cima e acariciou a superfcie 
fria e lisa. Como estaria ainda de p? Como escapara? O mais 
provvel era que, com a febre da destruio, ningum tivesse 
reparado nele.  Quentin encostou-se  coluna e empurrou-a com 
toda a fora, at ela ranger, dar de si e cair para o monte de 
escombros. As pedras partiram-se, rolaram com um barulho surdo 
e imobilizaram-se.
     Pronto, pensou Quentin. Agora, a destruio  total. 
Afastando-se, caminhou para o stio onde deixara o cavalo e 
subiu imediatamente para a sela, sem olhar para trs. Enquanto 
descia o outeiro a galope comeou a chover. Era uma chuva 
miudinha e triste. Parecia que os deuses queriam 
ridiculariz-lo, vertendo uma falsa  compreenso sobre os 
destroos da sua antiga e gloriosa viso.

     Quando a faixa oblqua de luz comeou a atravessar o cho
da cela, Toli levantou-se e ps-se a andar de um lado para o 
outro. O prncipe Gerin ainda dormia sossegadamente, como se 
estivesse na sua cama, no castelo do seu pai. Toli observou-o 
e sorriu ao pensar como era maravilhoso ser criana e possuir 
apenas a tolerncia limitada das crianas. Mas ser a sua 
tolerncia que  limitada ou, pelo contrrio, aguentaro mais 
do que os adultos?, pensou. Seja como for, as crianas no 
se deixam dominar pela aflio durante muito tempo. 
Desembaraam-se dela como de uma capa indesejvel num dia 
quente de Vero. Quando seria que aprendemos a usar essa capa 
sufocante?
     Depois de acordar, Toli pensara num plano. Por isso, 
naquele momento, dava voltas  cabea, examinando-o de todos 
os ngulos, at ter a certeza do que queria fazer. Quando, por 
fim, se resolveu, foi at  pesada porta de carvalho da cela e 
bateu vrias vezes com a palma da mo. Depois de uns momentos 
de espera, bateu novamente.
     Dali a pouco, ouviu algum dirigindo-se apressadamente 
para a cela.

     - O que ? Est quieto - disse uma voz do outro lado.
     - Quero falar com o sumo sacerdote!
     - No! Est quieto... tenho as minhas ordens.
     - Quero falar com o sumo sacerdote! Como seu prisioneiro,
tenho esse direito! - Toli comeou a bater outra vez.
    - No faas barulho! Vais arranjar-nos sarilhos aos dois.
Cala-te! - ordenou o homem numa voz assustada.
    - Quero falar... - comeou Toli, calando-se ao ouvir o 
ferrolho a deslizar na porta.
    A porta rangeu nos gonzos de ferro. Um guarda do templo
enfiou a cabea pela abertura. Os seus olhos inchados de sono
fitaram colericamente o prisioneiro.
     - Cala-te! Queres acordar o templo inteiro e meter-me num
sarilho?
     Com a rapidez de um gato, Toli deu um salto em frente e 
fechou a porta, entalando a cabea do guarda entre esta e a 
ombreira.
     - Au! - exclamou o guarda, quando a porta lhe apertou o 
pescoo.
     - Agora, cala-te tu e ouve! - ordenou Toli firmemente. - 
Se tens amor  cabea, faz o que te digo. Quero falar 
imediatamente com o sumo sacerdote. Vai tratar disso, ests a 
ouvir?
     - Ui... e se eu no for? - arquejou o homem.
     Toli apertou-lhe mais a porta contra o pescoo e ouviu as
moos do homem arranhando do outro lado, em busca de um apoio.
     - Nesse caso, estarei  tua espera quando c voltares com 
a comida - respondeu. - E, da prxima vez, esmagar-te-ei a 
garganta com esta porta.
     - Bolas! - resmungou o homem. - Solta-me... farei o que
queresi
     - Ainda bem.  melhor que o faas, seno... - Deixou a
ameaa pairando no ar.
     O guarda fez um esgar e Toli foi fazendo menos fora, ao 
mesmo tempo que se afastava da porta. O homem no perdeu tempo 
libertou logo a cabea, bateu com a porta e correu o ferrolho
     Ouvindo os seus ps descalos batendo na pedra enquanto 
se afastava depressa, Toli sentiu que ganhara a partida. Sim, 
o quarda era um cobarde e faria o que o jher lhe havia 
ordenado. Disso no tinha dvidas. Quanto ao sumo sacerdote, a 
histria era outra, pois no se deixaria persuadir assim to 
facilmente. Tratava-se de um homem to untuoso como a pedra 
sagrada que os sacerdotes diligentemente ungiam. Toli teria de 
o levar de uma maneira completamente diferente: no com 
ameaas, mas com promessas. E ele bem sabia o que havia de lhe 
prometer,


        CAPTULO XXXIII


     -  como temamos - disse Theido. - Vieram em fora.
     - Quantos so? - perguntou Ronsard, com a face de um 
preto arroxeado, devido a uma escoriao que tinha por baixo 
do olho esquerdo. Estava muito direito, pois doam-lhe os 
msculos todos.
     - Seis. E, ao que parece, viajaram toda a noite. - Embora
a porta que dava para a cmara do conselho estivesse fechada e

os que se encontravam l dentro no o pudessem ouvir, o alto
cavaleiro falou baixinho.
     - No perderam tempo - fungou Ronsard. - Parecem aves
de rapina, Theido... abutres que vieram alimentar-se da carne 
dos que sofrem. - Lanando um olhar colrico atravs da parede 
de pedra aos que tinham acabado de chegar e que esperavam l 
dentro: - O que havemos de fazer? O rei no pode receb-los.
No estado em que se encontra, isso est fora de questo.
     - Talvez no - replicou Theido pensativamente.
     - No deves estar a falar a srio! Queres deixar o rei 
enfrent-los?
     - Talvez lhe faa bem, Uma boa briga com estes chacais 
at pode arranc-lo do desespero em que se encontra.
     - E tambm pode acabar com a razo que lhe resta.
     Theido assentiu gravemente:
     - Talvez, mas no sei o que mais havemos de fazer. No
podemos deix-los ali eternamente  espera. Mais tarde ou mais
cedo, vero o rei. No podemos nada contra isso. Suponho que o
Quentin no tem outro remdio seno enfrent-los.
     - Pode sucumbir...
     - No por causa deles. - Theido fez um gesto de cabea na
direco da porta da cmara do conselho. - No assim. Mas eles
tm o poder de convocar um Conselho de Regentes. Se 
conseguirem mais cinco votos para a sua causa podem faz-lo.
     Ronsard fez gravemente que sim com a cabea:
     - Isso j alguma vez aconteceu?
     - Aconteceu h muito tempo... uma ou duas vezes. Dariam
o rei por interdito...
     - O que no seria difcil...
     - E teriam de unir as suas foras e apoiar um dos seus. 
P-los todos de acordo quanto a quem deveria ser o novo rei  
que era capaz de ser mais difcil. H por a muitos senhores 
orgulhosos que acham que so a nica escolha acertada.
     - Ento, temos a vaidade por aliada... graas ao 
Altssimo!
     Theido assentiu com a cabea e passou a mo pelo cabelo, 
com o ar de um homem a quem no agrada nada dar o prximo 
passo, necessrio mas, possivelmente, fatal, para atravessar 
uma cheia de armadilhas.
     - Vai l - incitou Ronsard. - Tem de ser. Eu ficarei aqui 
e t-los-ei debaixo de olho at tu regressares.
     - E reza, Ronsard. Reza para que o rei consiga 
defender-se deste ataque.

     Pym caminhava mais rapidamente do que o costume, devido 
falta da sua habitual bagagem. Mas o tinir e o martelar dos 
seus potes e ferramentas faziam-lhe falta, pois constituam o 
seu acompanhamento musical para onde quer que fosse. s 
tantas, limpou a humidade do rosto. Pelo menos, a chuva parara 
e o cu parecia estar a querer ficar mais limpo; alis, j 
estava mais azul para oriente.
     - Vs, Tip? - disse o amolador. - Daqui a pouco, j 
teremos sol. Sim senhor. j no teremos de andar  chuva, h?
     A cadela preta levantou a cabea para o dono e ladrou uma
vez, mostrando o seu contentamento por andar novamente na 
estrada.

     - Foi horrvel, Tip. Horrvel. Havias de ter visto o rei. 
Estava sombrio e desfeito... parecia mais um monstro do que um 
homem. Nunca vi ningum assim! No senhor. Ai no, no. Ali 
fechado, como um prisioneiro... E isso: um prisioneiro.
     Pym abriu muito os olhos ao recordar a audincia que 
tivera com o Rei Drago.
     - O que faz um homem ficar assim, Tip? O qu? Pois eu 
digo-te: a espada! , a sua perda enlouqueceu-o. Ai foi, foi. 
No achas, Tip? Ter perdido o filho e a espada p-lo louco 
como um co mordido por uma vespa. , . Temos de levar a 
espada ao rei, Tip. A espada que encontrmos deve ser dele... 
se no for, talvez sirva na mesma. Temos de lha levar, Tip.
     O amolador e a cadela tinham sado do Ganso Cinzento 
depois de um dos deliciosos desjejuns de Emm e posto o p na 
estrada que seguia para sul, na direco de Pelgrin e do lugar 
onde Pym escondera a espada que encontrara.
     - O rei precisa de uma espada, Tip. E ns vamos dar-lhe 
uma, no vamos? Ai vamos, vamos - dizia, enquanto caminhava.
Quando ouvira dizer na albergaria e por toda a cidade que o 
rei perdera a espada, convencera-se que a que encontrara na 
estrada pertencia ao Rei Drago. Pym percebera que se tratava 
de uma arma valiosa logo que a vira a brilhar na poeira. 
Agora, tencionava retir-la do seu esconderijo e lev-la ao 
rei; fora isto mesmo que quisera dizer a Sua Alteza. - Mas o 
rei estava num tal estado, Tip! Nem consegui falar com ele... 
estava doido varrido. Depois, o camareiro Oswald apareceu a 
dizer que havia sarilhos e eu vim-me embora. Pus-me logo a
andar dali para fora, Tip. Aquilo no  lugar para um amolador
como eu. Ai no , no. Vim-me embora todo contente. E havia 
mesmo sarilhos! Ontem  noite, deitaram abaixo o Templo do 
Rei, Tip. Atiraram as paredes ao cho.  por isso que temos
de ir buscar a espada, Tip. O rei precisa dela. Precisa mesmo 
muito.
     Na sua simplicidade, Pym atribua a responsabilidade dos 
lamentveis acontecimentos do reino  perda da espada do rei. 
Achava que, quando a devolvesse, tudo se endireitaria. Ao 
acreditar nisto, no era diferente do resto da populao de 
Mensandor, que pensava que o poder do rei estava na Brilhante 
e que era a posse da chamejante espada que lhe dava o direito 
de governar.
     Havia muito que o facto de o prprio Eskevar ter 
escolhido Quentin para seu herdeiro e sucessor deixara de ter 
qualquer significado na imaginao do povo. Era a Zhaligkeer, 
a espada encantada, que fazia de Quentin rei. Sem a espada... 
bem, quem sabia o que poderia acontecer?

     De costas voltadas para a porta da cela, Toli observou a 
mancha oblonga de luz atravessando o cho e comeando a subir 
pela parede oposta. Nessa altura, ouviu os passos do guarda, 
que regressava. O prncipe Gerin encontrava-se sentado no  
canto da cela que fazia as vezes de cama, com um ar muito 
deprimido, de queixo pousado nas mos e os ombros elevando-se 
e baixando ao ritmo da respirao.
     - Voltarei daqui a pouco... talvez com a liberdade - 
disse Toli.
     O ferrolho deslizou, os gonzos rangeram e o guarda enfiou 
o p pela abertura da porta.

     - Para trs - avisou. Toli afastou-se. - Assim  melhor. 
Ele vai receber-te. Segue-me... j sabes, se tentares alguma 
coisa, tenho ordens para te deter por qualquer meio. Ouviste? 
- O guarda do templo esfregou o pescoo dorido, que tinha uma 
mancha vermelha no stio onde a porta o apertara.
     - Ouvi - respondeu Toli. - Leva-me at ao sumo sacerdote.
     O guarda fez um gesto de cabea a Toli para que seguisse 
 frente, esperou que ele sasse para voltar a aferrolhar a 
porta e conduziu-o aos aposentos de Pluel1. juntou-se-lhes um 
outro guarda, com ordens para os acompanhar, no fosse Toli 
tentar fugir.
     Os guardas empurraram Toli pelos corredores frios. 
escuros e hmidos como masmorras, pois havia mil anos que a 
luz do sol no entrava no templo, e pararam em frente de uma 
porta larga, em arco. O guarda bateu uma s vez com a argola 
de ferro que estava presa na porta.
     - Entrai - disse uma voz l de dentro.
     O guarda abriu a porta e empurrou Toli  sua frente. 
Pluell estava  espera, sentado numa cadeira de costas altas, 
envergando uma tnica de sacerdote de veludo e com as mos 
modestamente pousadas no colo.
     - Queres falar comigo? - perguntou. Parecia que estava 
apenas a dirigir-se a um dos seus sacerdotes, que fora ter com 
ele em busca de orientao espiritual.
     - No penses que ests acima desta traio, sacerdote -
replicou Toli, falando, firmemente e com autoridade e vendo a 
pele em volta dos olhos do sumo sacerdote repuxar-se toda.
     - Deixai-nos ss - ordenou Pluell aos guardas que os 
observavam. - Esperai l fora, mas no vos afasteis. - Depois 
de eles sarem, mediu Toli com um longo olhar. - Com certeza 
no ests a pensar que eu tenho alguma coisa a ver com isto.
     - Vbora! - exclamou Toli. - O teu disfarce no me 
engana; por isso, bem podes abandon-lo. No s nenhum 
instrumento inocente do teu deus. Tens as mos to manchadas 
com o sangue do ermita como os que o assassinaram!
     Depois de um silncio taciturno, Pluell levantou-se da 
cadeira como se esta tivesse ficado muito quente de repente.
     - Tu no sabes - gritou. - Se ele soubesse que estou a
falar contigo... - Interrompendo-se abruptamente, o sumo 
sacerdote olhou em volta, como se receasse ter sido ouvido.
     - Quem est metido nisto contigo? - inquiriu Toli, dando
um passo na direco do sacerdote.
     Pluell ergueu rapidamente as mos, como se fosse 
defender-se de alguma pancada.
     - No... eu... ningum.
     - Ento, a responsabilidade  tua e s tua.
     - No! - Lanando um olhar dissimulado ao prisioneiro que 
tinha  frente, pareceu lembrar-se de quem era. - Esqueces-te 
da posio em que ests - continuou, em voz mais baixa. - Eu 
sou o sumo sacerdote e tu ests aqui sob a minha proteco.
     - Proteco! - explodiu Toli. - Atreves-te a raptar o 
prncipe e a prender o ministro-mor e chamas a isso proteco?
     - No tive nada a ver com isso - retorquiu o sumo 
sacerdote Pluell. - Foste maltratado? E o prncipe! No! 
Vs... eu protegi-vos.
     - Deixa-nos ir embora! - Uma intensa chama interior 
iluminou os olhos de Toli.
     Pluell virou-lhe as costas e encaminhou-se lentamente 
para uma das tapearias que estavam penduradas, como se 
quisesse examin-la.

     - J deves saber que a fria do rei contra os que o 
enganaram vai sendo maior a cada momento que passa.  um fogo 
que consumir tudo o que encontrar no caminho.
     Sem responder, Pluell continuou a observar a tapearia.
     - Pensa! Ainda podes desviar uma parte da fria do rei e
diminuir a severidade do seu julgamento.
     - Como? - perguntou Pluell em voz suave e dbil.
     - Solta-nos - disse Toli com toda a simplicidade. - 
Deixa-nos ir imediatamente embora.
     - Para ires dizer ao rei onde estiveste e quem te predeu?
No. No sou nenhum louco. Isto j foi longe de mais.
     - Ainda no. Deixa-nos partir. julgas que o rei no vai 
saber onde o filho est escondido? Os homens dele j andam a 
vasculhar os montes e as aldeias que ficam para l da floresta 
e acabaro por chegar ao templo, como eu. - Fez uma pausa, 
esperando que as suas palavras causassem efeito. - 
Liberta-nos. o sumo sacerdote pareceu  beira de tomar uma 
deciso, mas depois arrependeu-se.
     - No - repetiu, - No me atrevo a libertar-vos.
     - Ento, ao menos solta o prncipe. Eu ficarei no seu 
lugar. Ser um ponto a teu favor, que apaziguar muito o rei.
     Pluell considerou este pedido, mas hesitou.
     Toli insistiu:
     - Liberta o rapaz. Deixa-o ir antes que o rei saiba onde 
est e venha aqui em fora com os seus cavaleiros. Solta o 
prncipe. Eu ficarei; no me interessa o que me possa 
acontecer, desde que o rapaz esteja a salvo.
     O sumo sacerdote Pluell virou-se novamente para Toli; 
tinha tomado uma deciso. Mas, quando abriu a boca para dar o 
seu acordo ao plano de Toli, ouviu-se uma voz spera vinda da 
porta:
     - Um lindo discurso para um co jher!
     Toli e o sacerdote giraram nos calcanhares; nenhum deles
ouvira ningum entrar no aposento, mas estava ali um ancio
encarquilhado, com o rosto enrugado e sulcado como a casca de
um carvalho, de cabelo branco e com uma comprida barba branca
que lhe chegava ao peito magro.
     - Verme! - gritou o ancio para o sacerdote, atravessando 
o aposento com um ar ameaador. - Com que ento ias soltar o
principezinho, h?
     - No! Isto , eu...
     Toli viu o misterioso ancio avanar para o sacerdote, 
que se encolheu todo. Quem seria aquele homem que tinha tanto 
poder sobre o sumo sacerdote?
     Como se lesse os seus pensamentos, o desconhecido parou,
virou-se e fez um esgar de arrepiar.
     - Pelos vistos no ests a reconhecer o teu velho 
inimigo. Tambm  verdade que nunca pensaste voltar a ver-me, 
pois no? Olha para mim!      
O reconhecimento atingiu Toli como o coice de um cavalo, 
fazendo-o recuar e pondo-o tonto.
     - Nimrood!
     - Sim, sou o Nimrood! Ah, ah! O Nimrood voltou para 
ajustar contas. E tu vais pagar pelos tormentos que me 
infligiste, jher. No tenhas dvidas. Devias ter-me matado 
quando, aqui h muito tempo, tiveste oportunidade para isso. 
Pois eu tenciono matar-te... mas no antes de Mensandor 
aprender a temer o meu nome!
     - O rei no te deixar faz-lo. Vais fracassar.

     - Oh, tenho planos para o rei. Grandes planos. os seus 
sbditos ho-de v-lo de joelhos aos meus ps. o mundo inteiro 
h-de ver a sua humilhao. Sim, o teu valente rei lamber o 
p das minhas botas e reconhecer o meu poder perante o seu 
reino. - Atirando a cabea para trs, Nimrood desatou s 
gargalhadas. Depois, gritou: - Guardas!
     Dois guardas do templo irromperam no aposento, quase 
tropeando na pressa de obedecerem ao chamado.
     - Levai o prisioneiro - ordenou Nimrood. - Por agora, no
preciso mais dele, Levai-o!
     Agarrando nos braos de Toli, os guardas puxaram-no para
fora do aposento e arrastaram-no pelos corredores do templo. 
Toli ainda ouviu atrs de si as gargalhadas loucas do maldoso 
feiticeiro, ecoando nas salas vazias.
     O Nimrood!, pensou Toli, ainda atordoado. O Nimrood 
voltou!


        CAPTULO XXXIV


     Apesar da dor que o roa por dentro e do seu esinteresse
total pelos deveres oficiais, Quentin ainda tinha tino 
suficiente para exigir que os nobres fossem recebidos na sala 
do trono e no na cmara do conselho, onde j estavam 
reunidos. Assim, lembrar-lhes-ia subtilmente que ainda era o 
rei; seriam eles a ir ter com Quentin, sentado acima deles, no 
seu assento real de autoridade, e teriam de discutir de uma 
posio inferior.
     - Com que ento, vieram - comentou Quentin, quando Theido 
lhe disse. - Est bem, receb-los-ei, mas no ja. Primeiro que 
esperem.
     - Eles tm estado  espera - replicou Theido.
     - Que esperem mais! - rugiu, acrescentando num tom mais 
calmo: - Sabes porque vieram, Theido? - Estudando o cavaleiro:
- Claro que sabes... mas at tu tens medo de o dizer na minha 
cara. Vieram tirar-me a coroa. Pois que assim seja!
     - Com certeza no ests a pensar em dar-lha, pois no?
     - No lhes darei nada! - murmurou Quentin sombriamente.
     - Se querem a minha coroa, tero de ma tirar  fora.
     Isto j  mais do Quentin que conheo, pensou Theido.
     - Quais so as tuas ordens?
     - As minhas ordens? - Quentin cuspiu estas palavras e 
fitou colericamente o amigo. Depois, acrescentou: - 
Receb-los-ei, mas no em conselho. Tr-los antes para a sala 
do trono, Se tm garra suficicnte para esta luta, ento 
ficaro de p, pois eu no me sentarei com eles a ouvi-los 
denunciarem-me.
     Fazendo uma vnia, Theido saiu dos aposentos do rei, 
pensando:  bom voltar a ver nele algum fogo. Afinal de 
contas, talvez at nem v sair-se muito mal.     
     Quando, passado algum tempo os nobres foram mandados
entrar para a sala do trono, encontraram  sua espera o Rei 
Drago, que, embora com um aspecto doentio, cansado e 
desfeito, tinha o rosto muito carregado e os olhos colricos. 
 medida que entravam, Quentin ia pronunciando os seus nomes:

     - Kelkin... Denellon... Edfrith... - entoava friamente - 
Lupollen, claro!... Gorloic... Ameronis, eu devia calcular que 
tambm estivesses aqui!
     Os senhores entreolharam-se, sentindo-se pouco  vontade. 
Com certeza que as informaes que possuam relativamente ao 
estado do rei no eram falsas, mas o comportamento do Rei 
Drago chocava-os e enervava-os. Que estaria a preparar? 
Saberia a razo da sua vinda?
     Ao chegarem  frente do trono do rei, os nobres puseram 
um joelho em terra. Quentin deixou-os ajoelhar e disse:
     - Oh, no faais de conta que estais a prestar vassalagem 
ao vosso rei... Ah, no  ao rei que prestais homenagem, mas 
sim  coroa! - Com estas palavras, tirou a coroa da cabea e 
segurou o fino crculo de ouro  frente dos olhos. - Quem quer 
ser o primeiro a roubar-ma? Ento? Qual de vs a cobiar 
mais?
     Os senhores ali reunidos entreolharam-se com um ar 
culpado. O primeiro a recuperar a voz foi Ameronis, que se 
1evantou e afirmou:
     - Senhor, parece que no estais a perceber a razo da 
nossa audincia. Quando soubemos as novas, viemos...
     - Viestes ver com os vossos prprios olhos a melhor 
maneira de enterrardes o vosso rei, no foi?
     - No, senhor - replicou Ameronis com suavidade. - Viemos 
pr-nos  vossa disposio para o que precisardes.
     - Mentira! - troou Quentin, apertando os braos do trono,
pronto a saltar sobre eles. - Conheo-vos muito bem! No tempo
do rei Eskevar, quisestes dar o golpe e fracassastes. Agora, 
quereis tent-lo comigo.
     Esta exploso arrancou um murmrio dos nobres, que se
atreveram a lanar olhares espantados ao seu chefe implcito.
No entanto, Ameronis, imperturbvel, falou no tom de voz de um
fsico que argumenta calmamente com um doente relutante:
     - Julgais muito mal os nossos motivos, senhor. A vossa 
sade preocupa-nos. - Olhou para os amigos, em busca de apoio, 
e estes assentiram sombriamente. - Ouvimos boatos, 
Majestade...
     - Boatos. H sempre boatos.
     - Diz-se que estais doente, que fostes enfeitiado.  
natural que isso nos preocupe.
     - Claro - replicou Quentin sarcasticamente.
     - Portanto, pensmos em vir a Askelon o mais cedo 
possvel, para averiguarmos a verdade por ns prprios.
     - Cala-te! - gritou Quentin, saltando do trono e 
comeando a descer as escadas. Ao chegar a meio caminho, parou 
e apontou um dedo acusador para Ameronis. - Cala-te. Sei muito 
bem porque viestes. Julgais que o vosso rei  cego e idiota? 
Sei muito bem porque estais aqui: para assistirdes aos 
delrios de um louco e para disputardes a sua coroa entre vs! 
- Apontou o dedo para cada um deles em particular; depois, 
dobrou-o e fechou a m, abanando desafiadoramente o punho  
frente dos seus rostos. Quando tornou a falar, f-lo numa voz 
sussurrada: - No usareis esta coroa, nobres amigos. Nenhum de
vs a usar. - Virando costas, voltou a subir ao trono.
     Como se fossem retirar-se, todos os senhores recuaram um 
passo. S ficou no mesmo stio Ameronis, que era mais 
ambicioso e determinado do que os outros.
     - Ficai onde estais! - ordenou aos seus pares. - Ainda 
no chegamos ao mago da questo. - Virando-se para Quentin: - 
Diz-se por toda a terra que perdestes a vossa espada. Estou a

ver que no a trazeis convosco.
     - Isso - cuspiu amargamente o Rei Drago. - Agora  que 
vamos ao mago da questo.
     - Respondei. Onde est?
     - No te devo nenhuma satisfao, Ameronis.
     - Negais que no a tendes?
     - No nego nada. - O rei fitou penetrantemente o 
ambicioso nobre,
     - Ento,  verdade. j no possuis a Brilhante. - As suas 
palavras eram uma acusao. - Se estou enganado, mostrai-nos a 
espada.
     O Rei Drago apertou os lbios, formando uma linha fina e
dura, e no disse nada.
     Ameronis virou-se para os amigos:
     - Muito bem, todos vs sois testemunhas de que ele se 
recusa a responder e de que no quer mostrar a espada. Para 
mim, os boatos so verdadeiros: ele no a tem! Portanto, quem 
encontrar a espada e a empunhar ser, por direito, o Rei 
Drago de Mensandor!
     Sem esperar resposta, Ameronis baixou ligeiramente a 
cabea e girou nos calcanhares. Os outros, que tinham estado 
calados, fizeram uma vnia. Recuperando a palavra, Edfrith 
disse:
     - Com a vossa permisso, Majestade. - Parecendo regressar
 vida, os restantes senhores apressaram-se a pedir licena 
para sarem e retiraram-se, deixando o rei novamente sozinho.
     - Sim, ide-vos embora, ces! lde! Segui o vosso chefe 
etentai encontrar a espada! - gritou-lhes Quentin. A porta 
macia fechou-se atrs deles com um estrondo e o som encheu a 
sala quase vazia do trono como as trombetas do Juzo Final ou 
o rudo do machado caindo sobre a cabea de um rei deposto.

     Enquanto Esme, Bria e Alinea falavam com Morwenna, mulher
do ancio Jollen, uma jovem curatak levantava a mesa da sua 
refeio do meio-dia. Falara-se durante toda a refeio do 
trabalho dos Curatak em Dekra e dos progressos por eles feitos 
no sentido de restiturem  cidade em runas a sua antiga 
glria.
     Esme falava pouco, mas achava a conversa fascinante. 
Escutando com muita ateno, passeava os olhos pela cidade, 
que se via da varanda onde estavam sentadas. Quase conseguia 
imaginar como fora, pois do amontoado de pedras e pilares 
erguiam-se maravilhosos edifcios, sados das mos experientes 
de pedreiros e carpinteiros, que trabalhavam a partir de 
desenhos antigos, encontrados na grande biblioteca dos Ariga.
     - Tendes de ver a biblioteca - disse Morwenna. - Tenho
a certeza de que a achareis muito interessante.
     - Gostaria muito de a visitar - respondeu imediatamente 
Esme. - Sinto-me arrebatada por tudo o que vi nesta cidade 
magnfica.
     - Se quiserdes ir l agora, terei muito gosto em 
acompanhar-vos.
     Antes de Bria ter tempo para responder, Esme exclamou:
     - Acotnpanhas-nos? No haveria nada que me desse mais 
prazer!
     - Tambm gostaria de a ver outra vez - concordou Bria,

fazendo meno de se levantar. Esme j estava de p. - Temos 
de nos apressar, Morwenna, seno ainda  a Esme que nos guia a 
ns - riu Bria.
     Partiram juntas, percorrendo as ruas de pedra, largas e 
serpenteantes de Dekra. A erva, muito verde, crescia em tufos 
no meio das pedras e as rosas-musgos cor-de-rosa e amarelas 
espreitavam por entre as fendas abertas no pavimento. Aves de 
penas azuis saltitavam ao longo dos telhados de azulejo ou, 
alvoroadas pela passagem das damas, esvoaavam da rua para as 
goteiras.
     - A biblioteca  to grande como se diz? - perguntou 
Esme, quando dobraram uma esquina e passaram por baixo de um 
arco que se erguia  frente de um ptio estreito, ladeado de 
portas que se abriam para uma zona comum, salpicada de rvores 
muito bem aparadas e de banquinhos de pedra.

     - Isso  uma coisa que tens de ver por ti prpria - 
respondeu Morwenna. - No sei o que se diz da biblioteca dos 
Ariga, mas sei que eles gostavam muito de livros e que eram 
grandes acadmicos. - Fazendo com a mo um gesto que inclua o 
ptio inteiro: - H aqui milhares de livros.
     Esme pestanejou e olhou em volta.
     - Aqui onde? No estou a ver nenhum edifcio capaz de 
conter uma centena de livros... quanto mais milhares!
     Morwenna sorriu e Bria explicou:
     - Ests em cima da biblioteca, Esine, que  subterrnea.
     - A entrada fica ali. - Morwenna apontou para o outro 
lado do ptio, na direco de uma larga entrada em arco, 
guardada por duas faias delgadas. Depois de atravessarem a 
zona comum, entraram numa grande sala circular, de mrmore 
branco e reluzente. Nas paredes viam-se murais representando 
imponentes figuras de tnica, que observavam os visitantes com 
os seus olhos grandes, escuros e srios.
     - Pensamos que estes so alguns dos chefes mais famosos 
dos Ariga ou, talvez, os curadores da biblioteca.
     - Onde fica a entrada?
     - Por baixo daquele arco - retorquiu Morwenna, - Vinde.
- Acompanhando-as at ao ponto em que as escadas de mrmore
desciam para o subsolo, apontou a escurido: -  ali Esme, 
queres ir  frente?                                           
       Esme espreitou desconfiadamente para a escadaria s 
escuras, mas ps o p no primeiro degrau com um ar muito 
divertido. As escadas iluminaram-se instantaneamente de ambos 
os lados.
     - Oh! - gritou, surpreendida.
     - Eu tambm tive a mesma reaco quando o Quentin me 
trouxe aqui - riu Bria. - Parece magia!
     - Parece mesmo! - gritou Esme, que j estava a saltitar 
pelos degraus abaixo.
     Quando a rainha e Morwenna chegaram ao p de Esme, 
encontraram-na parada ao fundo das escadas, observando 
boquiaberta as interminveis filas de prateleiras, cada uma 
com dezenas de manuscritos. Vrios jovens andavam por entre as 
prateleiras com os braos carregados de livros, tirando rolos 
de pergaminho ou voltando a coloc-los no lugar.
     - So os nossos acadmicos - explicou Morwenna. - Estamos 
a traduzir os livros, Devemos aos nossos acadmicos tudo o
que sabemos sobre o Altssimo. Os livros contm os 
ensinamentos dos Ariga.
     - Ento, os vossos acadmicos so sacerdotes?

     - So, mas no como pensas, Esme. Os Ariga acreditavam,
tal como ns, que o Deus Altssimo habita entre o seu povo e
que est sempre presente. Portanto, no h necessidade de um 
sacerdcio especfico... cada homem pode ser o seu prpric 
sacerdote.
     Um tanto baralhada, Esme ps a cabea de lado:
     - Isso deve ser muito confuso.
     - No  nada confuso, mas claro que  preciso que as 
pessoas se responsabilizem por aprender os desgnios do deus e 
por viver de acordo com eles.  por isso que temos ancies, 
que nos ajudam, instruem e ensinam a adorar o Altssimo, Whist 
Orren.
     Comearam as trs a caminhar ao longo das filas de 
prateleiras da imensa sala subterrnea. Esme, que esperava 
encontrar um lugar escuro e bafiento, parecido com uma 
masmorra, ficcu surpreendida ao descobrir como a grande 
biblioteca era seca e agradvel. Enquanto as outras duas 
conversavam, vagueava sozinha por entre os livros, parando 
aqui e ali a folhear algum manuscrito mais interessante ou a 
tentar perceber as palavras escritas na fita que cada um deles
tinha pendurada e que os identificava. Apesar de no conseguir
ler nada, aquela escrita to graciosa encantava-a e 
fascinava-a.
     s tantas, chegou a um recanto forrado de mais 
prateleiras em forma de favos de mel, com pergaminhos muito 
grandes enrolados em fino couro vermelho. Dentro do recanto, 
viu um banco baixo de madeira. Sentindo-se convidada a entrar 
ali, Esme avanou, retirou um manuscrito e instalou-se no 
banco para o desenrolar.
     Como ainda ouvia Bria e Morwenna conversando ali perto em 
voz baixa, pensou em dar uma rpida vista de olhos pelo livro,
s para satisfazer a curiosidade. Desatando a tira de couro 
que o prendia, retirou-lhe cuidadosamente a capa, pondo  
mostra um fino pergaminho branco, com as pontas amarelecidas 
pelo tempo, mas impecve1 apesar da idade. Com os dedos a 
tremer, Esme pegou na ponta de madeira esculpida da vareta, 
comeou a desenrol-lo e susteve a respirao, pois tinha  
frente dos olhos os desenhos mais bonitos que vira na vida.
     Os desenhos deviam ser ilustraes que acompanhavam o 
texto, pois por baixo de cada uma via-se uma coluna dupla de
belssimos caracteres dos Ariga. Cada ilustrao fora feita 
com tintas delicadamente coloridas. Apesar de haver muito 
tempo que o artista passara o seu pincel por elas, as cores 
estavam muito pouco debotadas. Eram delicadas representaes 
de minsculas aves coloridas e de animais da floresta, imagens 
da vida quotidiana nas ruas de Dekra e de um rio cheio de 
peixes de muitas espcies diferentes e de curiosos barquinhos 
de pescadores, que tentavam pese-los com redes, e muitas 
outras figuras deliciosas.
     Extasiada, Esme contemplava o manuscrito, sentindo-se uma 
criana a quem tinham dado de presente um livro raro e 
precioso, vindo de uma terra distante. Quando era menina e 
vivia em casa do pai, tivera muitos livros com figuras dos 
quais gostava muito, que passava a vida a pedinchar s amas 
para lhe lerem. Naquele momento, entrou mais uma vez nesses 
tempos muito especiais. Tudo o que a rodeava foi 
desaparecendo, e Esme voltou a ser a menina transportada para 
um tempo e um lugar distantes.


        CAPITULO XXXV


     Quando regressou aos seus aposentos, Quentin encontrou 
Oswald, o Jovem,  sua espera na antecmara, e bastou-lhe ver
a palidez de morte do seu servo para perceber que acontecera
alguma coisa de terrvel.
     - O que se passa? - inquiriu o rei. Nesse momento, Theido 
entrou atrs dele, e Oswald, aliviado por no ter de suportar 
sozinho o mau humor do seu monarca, respirou mais  vontade. 
Depois, lanou um olhar preocupado ao cavaleiro magro, que lho 
devolveu com um assentir de cabea, como se quisesse dizer 
continua.
     - Estou  espera - disse Quentin. - Desembucha! - Nessa
altura viu o pacote liso e dobrado que o camareiro tinha na 
mo e arrancou-lho.
     - Chegou mesmo h bocadinho - informou o camareiro, com a
voz cava de medo. - Foi um mensageiro que trouxe isto, 
Magestade.
     - Um mensageiro de quem? - Levantando o pacote, Quentin
examinou o selo... - Do sumo sacerdote?
     - No disse, Majestade. Pensei que era de algum nobre, 
mas... quando vi o selo, j ele se tinha ido embora.
     O sinete que Quentin conhecia to bem estava gravado a 
cera verde na dobra da mensagem. Tratava-se da taa encimada 
por lnguas de fogo, smbolo do Grande Templo, usado pelo sumo 
sacerdote.
     O rei quebrou o selo, abriu o pacote e desdobrou-o, pondo 
 mostra um anel de cabelo, um pedao de tecido azul e uma 
carta. Theido aproximou-se e Quentin, fitando os objectos que 
tinha na mo, estendeu-lhe a carta:
     - Toma, l-a!
     Theido pegou na mensagem e desdobrou-a, Fazendo um 
esforo para manter a voz firme, comeou a ler:

     Por enquanto, o vosso filho est bem. O que possa    
acontecer-lhe a seguir,  coisa que est nas vossas mos. 
Temo-lo preso no Grande Templo, e estamos prontos a libertar 
tanto o prncipe como o ministro-mor Toli em troca da vossa 
espada Zhaligkeer,  qual chamam a Brilhante. Se no 
trouxerdes pessoalmente a espada ao Grande Templo, ao meio-dia 
do ltimo dia deste ms, o prncipe e o ministro-mor sero 
mortos na mesma altura.

     -  tudo? - perguntou Quentin em voz dura e monocrdica.
     - No est aqui nenhuma assinatura - respondeu Theido.
     - Disseste que o mensageiro se foi embora?
     - Disse, Majestade. Foi-se embora antes de eu o conseguir
deter. - Oswald olhou desesperadamente para Theido, que 
observava o rei com muita ateno, com medo do que ele pudesse 
fazer a seguir. - Mandei um guarda atrs dele. Eu...
     - Temos de o encontrar... pe mais homens no seu rasto. - 
Quentin virou-se, com uma expresso distante no olhar. - 
Agora, deixai-me. Os dois.
     - Eu preferia ficar - replicou Theido. - Deixai-me 
ajudar...

     - No! Se queres ajudar, vai atrs da vbora desse 
mensageiro... Sai!
     Sem mais uma palavra, Theido e Oswald saram da 
antecmara, fechando silenciosamente a porta atrs de si.
     - O que vamos fazer? - sussurrou Oswald a medo.
     - O que ele disse - respondeu Theido com um ar ausente,
pois ja estava com o inesperado aparecimento do pedido de 
resgate s voltas na cabea. - Procura o mensageiro, que no 
pode ter ido longe. Mandar-te-ei alguns homens imediatamente.
     - O que ides fazer, senhor?
     Theido levantou rapidamente o olhar:
     - No te preocupes comigo! Vai-te embora! Depressa!
     Oswald abriu a boca para falar, pensou melhor, fechou-a 
novamente, com um estalido, e largou a correr.
     - Oswald! - gritou-lhe Theido. - No fales a ningum do
pedido de resgate. ouviste? No repitas a ningum o que 
ouviste na presena do rei. - Oswald assentiu com a cabea e 
continuo a correr o mais depressa que podia.
     Agora, ao trabalho, disse Theido de si para consigo, 
tirando mais uma vez a carta dobrada da mo onde a escondera. 
O Ronsard tem de ver isto.

     - Que ninho de vboras! - exclamou Ronsard, dando 
novamente uma rpida vista de olhos pela carta com o pedido de 
resgate. - Que arrogncia e sangue-frio! Devamos arrasar 
aquele ninho de serpentes e atir-lo para cima das suas 
cabeas!
     - E para cima das cabeas do Toli e do prncipe? - 
volveu-lhe Theido. - No, sem dvida que eles tiveram isso em 
conta meu amigo. Sabem muito bem que, enquanto tiverem o filho 
do rei preso dentro das suas paredes, no se pode fazer nada 
contra eles.
     - Ento o que podemos fazer? - perguntou Ronsard, 
levantando uns olhos desesperados da mensagem amarrotada que 
tinha na mo fechada.
     - Procurar a espada - retorquiu Theido.
     - Pois, procurar a espada. Daqui a pouco, todo o reino 
vai andar  procura da Brilhante... se  que no anda j!
     - Rezemos para que sejamos os primeiros a encontr-la,
senhor... e depressa. Viste a data? S faltam cinco dias.
     - Muito pouco para passar o reino inteiro a pente fino... 
 mais fcil encontrar uma agulha num palheiro!
     - Ento, estamos a perder tempo a dar  lngua. Rene os 
homens imediatamente... todas as casas de Askelon e todas as 
aldeias circundantes tm de ser revistadas.
     - Se O fizermos, toda a gente ficar a saber que o rei 
perdeu a espada.
     - E se no o fizermos perder o filho e o servo. De 
qualquer modo, toda a gente o ficar a saber muito em breve. O 
Ameronis encarregar-se- disso!
     Ronsard assentiu tristemente com a cabea:
     - Temos de rezar para que ainda haja gente leal ao Rei 
Drago. Creio que podemos contar com o povo para nos ajudar.
     Theido virou-se para partir e replicou:
     - No te esqueas de que o povo destruiu o Templo do Rei 
ainda no h duas noites. Talvez seja difcil convenc-lo 
agora a ajudar-nos. Mas vamos fazer o que pudermos.


     Esme continuava sentada com o pergaminho no colo, 
enchendo os olhos com os maravilhosos desenhos coloridos do 
livro dos Ariga. Enquanto examinava os mais pequenos 
pormenores de cada ilustrao, comeou a ficar com sono. Bria 
e Morwenna ainda conversavam ali perto, mas Esme no as via do 
seu recanto e as suas vozes comearam a chegar-lhe aos ouvidos 
como o zumbido de abelhas carregadas de plen num dia 
preguioso de Vero.
     Bocejou. A sbita necessidade de dormir abateu-se sobre 
ela como se a tivessem tapado com uma manta de l grossa. 
Bocejando outra vez, ps o pergaminho no cho, estendeu-se no 
banco e pousou a face no brao. Os olhos fecharam-se-lhe e 
adormeceu instantaneamente.
     Logo que os seus olhos se fecharam sobre este mundo, 
pareceu a Esme que entrava num outro, pois deu consigo no cimo 
de um planalto, numa terra escura e incaracterstica. 
Virando-se, viu vrios homens que trabalhavam ali perto, 
transportando s costas pesados fardos, passando por ela e 
caminhando at  extremidade do planalto. Seguindo-os de 
longe, chegou ao p de uma grande praia; os homens, que 
carregavam molhos de lenha, atiraram-nos para o monte e foram 
pr-se  volta dele.
     Ao lado da pira, encontrava-se um homem com uma tocha na 
mo que, depois de todos terem arremessado a sua lenha para a 
pilha, a atirou para o meio da madeira. Mas, ernbora as chamas 
da tocha saltassem e lambessem os toros, estes no se 
incendiaram. Ento, o homem retirou-a e, com uma grande 
frustrao, gritou:
     - Mais lenha! - Os trabalhadores partiram em busca de 
mais madeira, deixando Esme sozinha com o homem da tocha.
     - O que ests a fazer, senhor? - perguntou ela.
     - Uma fogueira, para que as pessoas do vale possam ver a 
sua luz - respondeu o homem da tocha -, pois viajam na 
escurido, sem nenhum sinal a gui-las. 
     - Ento, porque no a acendes?
     - Eu bem tento, mas a lenha  velha e est hmida... No 
pega - explicou o homem tristemente. - j pedi mais, mas de
certeza que tambm vem toda molhada.
     Assombrada por tanta futilidade, Esme afastou-se. A 
paisagem mudou imediatamente. A terra escura desapareceu e ela 
deu consigo num penhasco perto do mar, onde as ondas se 
enrolavam continumente, atirando-se contra as rochas e 
banhando a costa com um suspiro. Ao olhar em frente, viu uma 
torre rodeada por andaimes cheios de trabalhadores, que 
assentavam camadas de pedra, aumentando a sua altura.
     Aproximando-se, observou os pedreiros colocando camada de
pedra sobre camada de pedra, enquanto os seus ajudantes iam 
empilhando mais no cho. As tantas, sem aviso, uma seco de 
parede inclinou-se para fora e separou-se do resto da torre. 
Os homens dos andaimes gritaram de terror quando as pedras 
comearam a chover.
     A torre inteira estremeceu e comeou a desfazer-se aos 
bocados; saltando dos andaimes, os trabalhadores largaram a 
correr para longe das paredes que se desfaziam com estrondo e 
das pedras que caam, algumas delas mergulhando no mar.
     Quando a catstrofe ficou completa, Esme aproximou-se dos 
 escombros e perguntou a um trabalhador:
     - Porque  que a torre caiu?
     Ele abanou a cabea e apontou com o dedo:

     - Sabes, os alicerces so velhos e moles; por isso, 
desfazem-se quando construmos alguma coisa em cima deles.
     - Se os alicerces velhos no prestam, porque no 
construs uns novos? - Embora percebesse pouco do assunto, era 
uma coisa que lhe parecia bvia.
     Mas o trabalhador ergueu as mos e lamentou-se:
     - No temos ningum que nos ensine a construir alicerces
novos!
     - Onde est o mestre dos pedreiros? - Esme olhou em 
volta, mas no viu ningum que lhe parecesse capaz de orientar 
os trabalhadores. Por seu lado, o homem no respondeu 
limitando-se a encolher os ombros e a abanar a cabea. Ento, 
Esme disse-lhe: - Procurarei um mestre pedreiro que vos ensine 
a construir em condies e tr-lo-ei... - Calou-se, pois o 
trabalhador e a torre tinham desaparecido como fumo ao vento, 
encontrando-se ela, no num penhasco perto do mar, mas num 
mercado movimentado, onde os lavradores vendiam os seus 
produtos e os mercadores os seus artigos.
     O mercado fervilhava de actividade, com compradores e 
vendedores elevando as vozes e regateando os preos e a 
qualidade do que era comprado e vendido. Ao passar pela tenda 
do talhante, viu-o a desfazer uma carcaa, cortando aos 
bocados a carne de um grande osso. Piscando-lhe o olho, o 
talhante, que envergava vestes escuras e compridas, pegou no 
osso e atirou-o para fora da tenda, onde foi instantaneamente 
abocanhado pelos ces esfomeados que saram a correr de todos 
os cantos do mercado. Cindo sobre o osso os ces comearam a 
lutar pela sua posse, abocanhando-o  vez. Quando um deles 
conseguia prend-lo nas mandbulas, logo vinha outro co 
maior, que lho tirava.
     Reuniu-se uma multido a observar o combate. Rosnidos 
selvagens enchiam o ar.
     - Parai! - gritou Esme. - Que algum acabe com isto, por
favor!
     Mas os espectadores no lhe deram ouvidos e os ces 
continuaram a lutar, cada vez com mais ferocidade. Esme 
enterrou o rosto nas mos e virou costas, mas os terrveis 
sons aumentaram de intensidade e, quando voltou a olhar, no 
viu um pedao de osso comprido e limpo mas sim um quadrado de 
tecido. Cada um dos ces puxava e sacudia o canto do pano que 
tinha preso entre os dentes, num esforo furioso para o 
arrebatar aos outros. Esme viu uma insgnia estampada no 
tecido: um drago vermelho e serpenteante.
     - Parai! - gritou. - Parai!


        CAPTULO XXXVI


     - Mas que coisa, Tip, no me lembrava de que era assim 
to longe! Mas  isso! Quando se est com pressa, parece que  
sempre mais longe.  isso. - Espreitando o cu, Pym avaliou 
pelo Sol a altura do dia. -  quase meio-dia, Tip. Ai , , e 
estou com fome. Devamos ter trazido qualquer coisa para 
comer. Um bocado de po da Emm acabado de cozer e uma caneca 
de tinto vinham mesmo a calhar, h? E uma sopa de ossos para 
ti, Tipper. Isso.

     Ao som da voz do dono, a cadela abanou a cauda e 
continuou a andar ao seu lado, levantando as orelhas quando,  
sua passagem, algum coelho ou esquilo agitava as folhas dos 
arbustos de azevinho que cresciam  beira da estrada. Mas Tip 
no os perseguia, contentando-se em caminhar pacificamente ao 
lado do dono, encostando-lhe a cabea  mo de vez em quando, 
para ele lhe dar uma palmadinha amorosa ou a coar entre as 
orelhas.
     Por fim, chegaram a uma zona da estrada que o amolador 
pensou reconhecer:
     - Alto, Tp. Aposto que  aqui. O que te parece? Acho que 
 aqui, h? Ai acho, acho. - Pym lanou uma rpida vista de 
olhos para ambos os lados da estrada, para ver se fora seguido 
ou se estava prestes a ser visto por algum outro viandante.

     Como se encontravam sozinhos, avanou depressa para a 
floresta e atravessou um bosque de teixos at um local onde o 
arvoredo era menos denso e havia um carreiro que serpenteava 
por entre os troncos das rvores.
     -  aqui, Tip? Olha que no sei. Pensei que era, mas 
agora no tenho a Certeza. - Depois de passar algum tempo a 
vaguear por  entre as rvores, Pym chegou  concluso de que, 
afinal, no  era ali. Por isso, voltou outra vez  estrada e 
recomeou a caminhada.                            
     - Ah! - gritou um pouco mais  frente. - Deve ser aqui!
Pois , como pude esquecer-me? - Entrando mais uma vez na 
floresta, no tinham ainda ido muito longe quandc voltaram a 
ficar desorientados. - No senhor - disse Pym, de mo na anca, 
levantando o pescoo para as rvores altas que o rodeavam. - 
No  aqui. Nunca foi aqui. Vamos embora.
     Enquanto caminhavam novamente pela estrada de terra 
batida, o sol do meio-dia brilhava atravs dos ramos 
entrelaados, lanando sobre eles um jogo de sombras frescas. 
Quanto mais andavam menos certezas tinha o amolador.          
       - Acho que nunca mais vou dar com o stio, Tip. No me 
lembro de onde ... No me parece nada que seja por aqui. - 
Parando, olhou em volta. - No sei o que hei-de fazer, Tip. 
Precisvamos de um sinal. Sim senhor. De um sinal! 
     Pym ficou to entusiasmado com a ideia de um sinal que 
juntou logo as mos, erguendo-as para o cu. 
     - Ouvi-me,  deuses! - Pensando melhor, acrescentou: -  
Especialmente o deus que o Rei Drago adora. Aposto que estais 
preocupado com o rei; por isso, ouvi-me, seja l qual for o 
vosso nome.
     Aqui, Pym fez uma pausa, para pensar como havia de 
prosseguir, assentiu com a cabea e continuou:                
       - Sabeis, o rei perdeu o filho, que foi raptado. E 
precisa da espada para o reaver. Bem, no tenho a certeza de 
que a espada que encontrmos pertence ao rei, mas talvez 
sirva...  uma espada muito bonita. 
     Ora, eu escondi a espada num lugar seguro - explicou Pym
com todo o cuidado. - O problema  que no consigo lembrar-me
onde. No dou com o stio... eu, que ando nesta estrada h 
umas dezenas de anos.  por isso que vos peo ajuda. Preciso 
de um sinal que me mostre o caminho para a espada... isto , 
para o stio onde a deixei.
     O amolador baixou as mos, pensou um pouco, ergueu-as 
novamente e acrescentou:

     - Sabeis, no  por mim,  pelo rei, que est numa grande 
aflio e deve precisar da espada. Como sois o deus dele, 
talvez possais dar-me um sinal. Isto , se estais interessado 
nas aflies dos mortais...
     Pym calou-se e baixou as mos.
     - Bem, Tipper... - comeou. Mas antes de ter tempo para 
acabar, a grande cadela preta desatou a ladrar. - Chiu! O que 
, menina? H, Tip? O que ?
     Um veado preto surgiu de um enorme matagal de giestas. 
Tip ladrava furiosamente, mas o animal, que se deslocava lenta 
e majestosamente, com a cabea levantada e as armaes luzindo 
como prataao sol, permaneceu calmo e imperturbvel. O gracioso 
veado atravessou a estrada, passando a cerca de uma dezena de 
passos deles, e parou a olhar o homem e a cadela que o 
observavam.
     Tip ladrava, com a lngua pendendo-lhe de lado, as patas 
muito direitas e o plo todo eriado. Pym deitou-lhe a mo  
coleira. O veado voltou a avanar pomposamente para a 
floresta, parou para fitar os espectadores uma ltima vez, 
como se quisesse dizer Segui-me, se sois capazes, ergueu as 
patas da frente, saltou por cima de um arbusto de baga de 
loureiro e afastou-se, abanando o rabinho branco atrs de si.
     Tip no conseguiu ficar mais tempo quieta. ladrando 
furiosamente, sacudiu a cabea, libertando-se da mo do dono. 
A caa comeara!
     - Tip! anda c! - gritou Pym para a cadela, que corria em 
disparada. Chegando ao arbusto de baga de loureiro, Tip parou, 
latiu uma vez para o dono, meteu-se pelos ramos e foi atrs do 
veado.
     - Pelas barbas dos deuses! - resmungou Pym. - No sei o 
que deu quela cadela. - O amolador ouvia Tip ladrando 
entusiasticamente e pisando o matagal, atrs da sua pea de 
caa. Sabendo que a cadela nunca apanharia o veado, mas que 
tambm no desistiria facilmente, Pym suspirou e avanou para 
o bosque, com a inteno de a ir buscar.
     Atravessou o matagal, entrou aos tropees no carreiro e 
apressou-se a seguir os sons da caada improvisada. O carreiro 
ia-se alargando at um stio onde cresciam velhas rvores 
muito altas, que no deixavam que outras rebentassem por baixo 
dos seus ramos arqueados. Eram gigantescas aveleiras. Sem 
parar a contemplar as rvores, Pym continuou a caminhar 
depressa, de cabea baixa, sempre chamando Tp.
     S tantas, sem aviso, a cadela calou-se. Pym desceu uma 
encosta baixa, passou por umas trepadeiras de hera, olhou para 
cima e viu que estava numa depresso isolada.
      sua frente, Tip, sentada nas patas traseiras, abanava a 
cauda e ofegava. Um pouco mais longe, de cabea bem levantada, 
suportando a coroa formada pelas armaes to majestosamente 
como qualquer rei, o veado contemplava-os calmamente, com os 
seus grandes olhos escuros e lquidos. Com o amolador a 
observ-lo, o animal levantou uma pata e bateu numa pedra 
branca que se encontrava num pequeno monte de pedras brancas.
     - Tipper - sussurrou Pym, mal conseguindo respirar -, 
olha para ali! O veado trouxe-nos at  espada!
     O animal virou-se, fitou-os casualmente mais uma vez, 
baixou a cabea, partiu com ligeireza, misturando a silhueta 
ondulante com a floresta que o rodeava, e desapareceu de 
vista.
     Pym arrastou-se at ao stio onde o veado parara.

     - Sim senhor.  aqui, Tip. Olha, esto aqui as pedras que 
deixmos a marcar este sitio e est aqui a aveleira. - Depois 
de levantar a cabea para contemplar a majestosa rvore, deu a 
volta at ao buraco aberto no seu tronco oco. Inspirando 
profundamente, meteu a mo l dentro e fechou-a.
     S apanhou ar rarefeito. O seu corao deu um salto. 
Desapareceu, pensou. Levaram-na! Enfiou mais o brao no 
espao oco e esticou os dedos, apalpando o interior macio e 
hmido da rvore. Nem sombras de espada! Num frenesi, tornou a 
meter a mo, vasculhando as profundezas do espao escondido, 
mas no deu com nada a no ser madeira esponjosa e podre.
     - Desapareceu, Tip! - gritou desesperadamente. - A espada
desapareceu!
     Mesmo na altura em que ia retirar o brao, as pontas dos 
seus dedos tocaram numa coisa dura.
     - O que  isto? - disse, enfiando o brao at ao ombro, 
pondo-se em bicos de ps e esticando-se tanto que ficou com o 
rosto coberto por gotas de suor, que lhe escorreram pelo 
pescoo. A sua mofechou-se sobre um objecto frio e duro. 
Engoliu em seco. Seria? Sim, era a espada! O amolador retirou 
lentamente a mo, e a rvore oca largou o seu trofu: um 
embrulho comprido e estreito, envolto em farrapos.
     - C est, Tip! Encontrmos a espada! Sim, sim! Olha, 
Tip, c est finalmente! - exclamou, embalando o embrulho. 
Depois, para se certificar, espreitou por entre as dobras dos 
farrapos e viu o brilho bao do metal e parte de uma inscrio 
gravada na lmina. -  mesmo a espada, Tip.  a que 
escondemos. Ai , . - Lancando um olhar culpado em volta, 
como um avarento que tem medo de ser descoberto com o seu 
tesouro: - Mas no vamos ficar aqui. Isso  que no. Vamos 
direitinhos para Askelon entregar a espada ao rei.
     Com estas palavras, o amolador tirou um pedao de cordel 
do bolso das calas, enrolou-o  volta do punho tapado da 
espada e fez um lao, atravs do qual passou o brao. Depois, 
pondo a poderosa arma a tiracolo, comeou a sua caminhada para 
o castelo de Askelon, onde ia dar o seu presente ao Rei 
Drago.

     Tambm na estrada que ia dar a Askelon, mas um pouco mais
 frente, no ponto em que Pelgrin rareava, dando lugar s 
terrass de cultivo, um pnei castanho vagueava sozinho por um 
campo de milho novo, parando de vez em quando para mordiscar 
as extremidades tenras das plantas da altura dos ombros de um 
homem. Esta intromisso no passara despercebida: o animal 
fora visto  distncia Por um par de olhos rpidos e 
penetrantes, e o rapaz a quem pertenciam avanava pelo campo 
fora muito devagar, cuidadosamente, com o fito de interceptar 
o cavalo.
     Renny obrigava-se a esgueirar-se caule por caule e fila 
por fila, mas o corao gritava-lhe que corresse a capturar a 
maravilhosa criatura que tinha  frente. Um cavalo! Era 
inacreditvel! Um cavalo vaqueando  solta no campo do seu 
pai! Se conseguisse apanh-lo... no havia de apanh-lo, e 
teria um cavalo s para si! Estava perto, muito perto. Sem dar 
pela presena do rapaz, o pnei continuava a mordiscar as 
folhas novas. Renny aproximou-se e parou. O cavalo castanho
avanou uns passos e parou a mastigar umas espigas de milho
verdes, que brotavam do caule.

     - Chiu. - disse o rapaz, to baixo como um suspiro. -
Pronto, pronto. Chiu...
     Estendeu a mo para agarrar a brida do animal, mas, ao 
ver o seu gesto, Tarky sacudiu a cabea muito depressa e 
recuou, relinchando.
     - Pronto, pronto - sossegou-o Renny. - Pronto... No te 
fao mal. No tenhas medo. No te fao mal. -  medida que se 
aproximava devagar, o pnei ia recuando, sacudindo 
teimosamente a cabea.
     Renny avanava, sussurrando palavras carinhosas. Mas 
Tarky, assustadio devido aos dias que passara  solta na 
floresta no se deixava apanhar. Por fim, cansado daquele 
jogo, virou-se e fez meno de se afastar. Percebendo que era 
agora ou nunca, o rapaz atirou-se ao animal, mergulhando de 
cabea. Assustado, Tarky relinchou e esquivou-se, mas o jovem, 
com a rapidez do desespero, conseguiu agarrar as rdeas com as 
suas mos geis.
     O cavalo relinchou de medo e recuou, sacudindo a cabea,
mas j fora apanhado por um jovem mestre muito determinado, 
que se recusava a largar o seu achado. Muito excitado com o 
corao a bater-lhe dentro do peito, Renny ps-se em p e 
pegou nos arreios.
     Depois, como se toda a vida no tivesse feito outra 
coisa, o filho do lavrador conduziu o seu trofu pela encosta 
 inclinada abaixo, em direco a casa. Tarky, que se acalmara 
s mos do rapaz, deixou-se guiar sossegadamente.
     Quando chegaram  tosca casa, Renny soltou um viva to 
alt que fez os pais sarem para o ptio.
     - Vede o que tenho aqui - orgulhou-se Renny.
     - Onde o arranjaste? - perguntou-lhe o pai, quando se 
recomps do choque que tivera ao ver o filho com um cavalo 
excelentemente aparelhado no seu prprio ptio.
     - Onde? - ecoou a me.
     - Encontrei-o a comer milho no nosso campo - respondeu
Renny.
     Sem conseguir falar, o lavrador fitou a mulher, que lhe 
devolveu um olhar igualmente espantado. No ficariam mais 
surpreendidos se o cavalo se materializasse  sua frente. E 
ali estava o seu filho, sangue do seu sangue e carne da sua 
carne, conduzindo aquele animal... Era inacreditvel!
     Para que no houvesse mal-entendidos quanto s suas 
intenes Renny anunciou:
     -  meu. Fui eu que o encontrei... pertence-me e vou 
ficar com ele.
     O pai aproximou-se, levantou a mo e acariciou o flanco 
do pnei:
     - No h dvida de que  um cavalo muito bonito... mas o
lugar dele no  aqui.
     - Agora,  meu. - Renny apertou mais as rdeas e firmou o 
queixo, num gesto de determinao. - Vou ficar com ele - 
repetiu com um ar decidido.
     - Este cavalo deve ser de um nobre - comentou o lavrador, 
examinando o couro da sela e dos arreios. - O lugar dele no  
aqui.
     Com o lbio inferior a tremer, o rapaz olhou brevemente 
para a me, como a pedir-lhe ajuda. A bondosa mulher 
aproximou-se e pousou a mo no ombro do filho:

     - O que o teu pai qu er dizer, Renny,  que este animal 
tem de ser devolvido ao seu legtimo dono.
     - E quanto mais cedo melhor - acrescentou o lavrador.
     - Agora, o dono dele sou eu - teimou Renny, com os olhos
marejados de lgrimas. -  meu.
     - No, filho - retorquiu docemente a me, dando-lhe uma 
palmadinha nos ombros delgados e afastando-lhe um anel de 
cabelo dos olhos. - Devem andar  procura dele. Se ficas com 
ele, tiram-to na mesma.
     - E  fora. No pode ficar aqui.
     - Mas... fui eu que o encontrei! - choramingou Renny.
Aquel injustia doa-lhe amargamente. Tirarem-lhe to depressa
o cavalo, mesmo no momento do seu triunfo... era de mais!
     O lavrador franziu o sobrolho e afastou-se muito direito.
Renny soluava e a me acalmava-o, tentando aliviar a sua dor.
     - J sei o que hs-de fazer! - exclamou ela, animando-se.
     - Leva o cavalo a Askelon... l devem saber quem  o 
dono. C para mim, se o devolveres depressa, talvez te 
recompensem.
    Ao ouvir a palavra recompensa, Renny parou de fungar e 
esfregou os olhos com os pulsos:
     - Uma recompensa?
     - Talvez.
     Virando-se, o pai acrescentou:
     - Ora a est a soluo! Leva-o a Askelon e pede uma 
recompensa. Um animal assim to bonito  capaz de te render 
uma ou duas moedas. Acho que devem ficar muito gratos por o 
recuperarem e talvez te dem uma boa recompensa.
     - Posso ir montado nele at Askelon? - perguntou Renny,a 
apalpar terreno.
     O lavrador lanou um olhar  mulher e coou o queixo:
     - Bem, Rermy, no...
     - Eu sei montar! - interrompeu Renny rapidamente. - J te
esqueceste de que foi o prprio Rei Drago que me ensinou?
     - Pois foi! - concordou o pai. - Mas ainda  longe e 
ters de voltar a p sozinho.
     - Quero l saber! - gritou Renny. - Posso ir montado 
nele?
     - Pergunta  tua me - esquivou-se o pai.
     Vendo a luz que bailava nos olhos do filho, a mulher no 
teve coragem para a apagar. Por isso, assentiu lentamente com 
a cabea.
     - Vou arranjar um farnel, para no teres fome durante o
caminho, - Virando-se, entrou na casa baixa.
     - Irei montado nele mesmo at Askelon! - alegrou-se 
Renny. - E pedirei uma recompensa!


        CAPITULO XXXVII


     - Esme! Esme, acorda! - exclamou Bria, abanando o brao 
da amiga adormecida.
     - O qu? Oh! - disse Esme, despertando com um 
sobressalto. - Tive um sonho... - Virando-se, fitou Bria e 
Morwenna, que estavam debruadas por cima de si, e levou a mo 
tremente  tmpora. - Devo ter adormecido... mas era tudo to 
real! Nunca tive nenhum sonho assim.
     - Tu gritaste. - Bria olhou para Morwenna, que assentiu

com a cabea e apertou nas suas a mo de Esme.
     - No sabamos para onde tinhas ido, minha querida - 
explicou Mowrenna. - Quando nos virmos, j no estavas 
connosco. Andvamos  tua procura quando te ouvimos gritar. 
Como te sentes?
     Esme abanou lentamente a cabea, mas as imagens do sonho
permaneceram to ntidas como anteriormente.
     - Creio que estou bem. Estava a ver as imagens e fiquei
com sono. Encostei a cabea ao banco e tive um sonho muito 
estranho e inquietante.
     - Se quiseres, conta-nos o teu sonho - sugeriu Bria. -   
    Lembras-te dele?
     Esme assentiu vigorosamente:
     - Nem vou esquec-lo to cedo. Ainda o vejo como se 
tivesse acontecido aqui. - Fez uma pausa; os seus olhos 
atravessaram-nas e entraram outra vez no mundo do seu sonho. - 
Estava nun, planalto... comeou, Mas Morwenna levantou a mo:
     - Espera, senhora. H um de ns que sabe muito de sonhos 
e do seu significado. Anda, vamos j ter com ele, para ele 
ouvir o teu sonho.
     Esme ps-se de p:
     -  importante? Foi s um sonho.
     Morwenna parou e pegou nos braos de Esme:
     - Whist Orren fala com os seus filhos de muitas maneiras.
Os sonhos, que constituem uma das formas mais importantes de
ele se revelar, no so tratados de nimo leve em Dekra. - 
Sorrindo brevemente, acrescentou: - Mas anda, vamos ouvir o 
que o nosso leitor de sonhos tem para nos dizer,
     Passando entre as altas filas de prateleiras em forma de 
favos de mel e pelas mesas cheias de pergaminhos, as trs 
mulheres voltaram a subir as escadas e a atravessar o ptio 
estreito que dava para a rua. Morwenna conduziu-as at um arco 
de azulejos azuis, construido num muro branco, feito de 
tijolos,abriu o porto e mandou-as entrar para um jardim muito 
verde., cheio de muitas espcies de arbustos em flor.
     - Que lindo jardim - observou Bria. - Quem vive aqui? - 
perguntou, indicando uma casinha que ficava junto ao muro, do 
outro lado do jardim.
     - J vais ver - respondeu Morwenna, levantando a mo para 
um grande sicmoro muito largo, que se erguia no meio do 
ptio. Por baixo, encontrava-se algum reclinado numa cama 
alta e ampla, ao lado da qual se achava uma mulher, debruada 
sobre o leito. Bria reconheceu esta ltima como sendc a sua 
me.
     - Me, que fazeis aqui? - perguntou Bria, um pouco 
surpreendida, quando se aproximaram. Nessa altura, olhou para 
a pessoa que estava deitada debaixo dos lenis frescos e 
brancos. - Biorkis! Oh, perdo, eu tencionava vir c mais cedo 
- afirmou corando de embarao. - Desculpa-me por ter fugido 
assim de um velho amigo.
     Biorkis, careca como uma maaneta, mas com a barba mais
comprida e branca do que nunca, semicerrou alegremente os 
olhos e replicou:
     - Deixa-te disso! J sei que andas muito ocupada desde 
que chegaste. Uma rainha no pode dispor do tempo como quer. A 
rainha Alinea transmitiu-me as tuas saudaes e j conheci as 
tuas filhas,que so umas criaturas adorveis. Exactamente como 
a me.

     - Mandei-as mesmo agora brincar com as outras crianas - 
disse Alinea. - Eu e o Biorkis estvamos a falar de... - 
hesitou - do que se passa no reino.
     Biorkis inclinou-se para a frente:
     - O perigo no me   desconhecido; por isso, no h 
necessidade de me protegerdes dele. J vivi o suficiente para 
saber que no adianta atormentar-nos com ele. - Fazendo uma 
pausa, fitou cada uma delas com um longo olhar de apreciao. 
- Sim, estais aqui. E, embora fosse o perigo a trazer-vos, 
ainda bem que viestes minhas amigas! H muito tempo que no 
vos via.
     - H tempo de mais - concordou Bria. - Desculpa. s 
vezes, s quando voltamos a ver os nossos amigos  que nos 
lembramos do muito que eles significam para ns.            - 
       - No tenhas pena deste velho texugo! - protestou o 
sacerdote. - Eu no tenho pena de mim e no deve lamentar-se 
ningum que seja amado e tratado como eu sou aqui. Olha! como 
j sou velho e j no posso andar, o que me fazem? Trazem-me a 
cama c para fora! Em troca, conto-lhes histrias e leio-lhes 
livros antigos. Como, segundo dizem, isso lhes agrada, -me 
permitido ficar aqui.
     Morwenna sorriu e instalou-se na borda da cama:
     - Estimamos muito este servo do Altssimo. 
Desfazer-nos-amos mais depressa de um ancio do que do 
Biorkis. H muito tempo que  nosso desejo fazer dele um 
ancio, mas ele nem quer ouvir falar nisso.
     Com uma alegria dissimulada, Biorkis replicou:
     - Que disparate! O antigo sumo sacerdote do templo de 
Ariel? Nem pensar! No, estou muito satisfeito assim. Mas, 
senhoras, sentai-vos. Vou mandar trazer mais cadeiras.
     - No  preciso - volveu Bria, empoleirando-se no brao
da cadeira da me. Esme sentou-se na cama, ao lado de 
Morwenna.
     - O rei... o Quentin... havia de gostar de te ver. De 
certeza que teria vindo connosco, mas...
     Biorkis levantou as mos:
     - A tua me j me contou o que aconteceu. As minhas 
oraes so por todos vs. Tambm eu sinto muito a perda do 
Durwin. Imagino o que ser para o Quentin! Isto, para no 
falar do rapto do teu filho, senhora. Mas, como irei juntar-me 
ao Durwin muito em breve, a minha dor no  to profunda como 
a de um homem mais novo. No consigo deixar de pensar que o 
velho patife do eremita j deve ter em mente alguma grande 
obra, na qual trabalharemos quando eu l chegar. Por isso, 
demorar-me-ei a descansar por aqui um pouco mais.
     O velho sacerdote falara to firmemente e com uma 
convico to calma que Esme observou:
     - Parece que ele s foi a casa,  floresta de Pelgrin.
     - E foi mesmo! - gritou Biorkis. - Mas no partiu para um
lugar to humilde como Pelgrin. No, senhora, Foi juntar-se  
corte do Altssimo, Senhor de Tudo. Se me sinto triste,  s 
pela maneira cruel como foi abatido. O Durwin, que era to 
bom, devia ter acabado os seus dias como eu, rodeado de amigos 
e amado por todos.
     Morwenna sorriu e deu uma palmadinha na mo plida que 
descansava no lenol:
     - Ainda bem que decidiste ficar connosco durante mais
algum tempo.

     Biorkis assentiu alegremente. Os seus olhos claros 
danavam ao verem as mulheres reunidas  sua volta:
     - Se pudesse estar sempre rodeado de tanta beleza, at 
ficaria eternamente. - Fazendo uma pausa, olhou em volta e 
acrescentou num tom mais solene: - Mas, embora muito 
agradvel, esta visita tem um objectivo mais urgente do que o 
de mimar um velho pateta. O que vos traz aqui?
     Morwenna foi a primeira a falar:
     - Um sonho. Gostvamos que o ouvisses e que nos dissesses 
o seu significado.
     - Ah! Um sonho! - Assentindo com um ar entendido, 
virou-se e interpelou Esme directamente: - Ento, conta-me o
teu sonho, senhora, e veremos o que ele nos diz.
     Esme ficou de boca aberta.
     - Como sabes que sou eu?
     Biorkis semicerrou os olhos:
     - Percebi-o logo que te vi e disse para mim prprio: 
Esta mulher tem a capa da viso.
     - Consegues perceber isso?
     - Estes olhos velhinhos no perderam perspiccia; pelo 
contrrio, at ganharam alguma. O vu que separa este mundo do 
outro vai ficando cada vez mais transparente. Na verdade, 
ultimamente no me  fcil contentar-me s com a viso deste 
mundo. De facto, quando entraste no jardim, vi a aura do teu 
sonho ainda agarrada a ti. Deve ter sido um sonho muito 
poderoso. Uma viso!
     - Achas? - Pensando nisto, Esme continuou: -  verdade 
que raras vezes tive um sonho to forte e invulgar. Talvez 
fosse mesmo uma viso. - Pareceu abalada pela ideia.
     - Conta-me tudo e logo se v - incitou Biorkis 
delicadamente. 
     Em silncio, todos observaram Esme a pr as ideias em 
ordem, a fechar os olhos e a entrar mais uma vez no sonho que 
tanto a impressionara.
     Ao comear a falar, voltou a ver os acontecimentos do 
sonho desenrolando-se com toda a nitidez, s que, desta vez, 
embora as imagens lhe danassem  frente dos olhos como 
anteriormente, no estava a dormir. Esquecendo-se do jardim e 
dos que a rodeavam, Esme narrou o seu sonho do lugar alto e 
solitrio, onde os homens lotavam em vo para acender a pira 
encharcada, da torre construdaem alicerces que se desfaziam e
no lhe suportavam o peso, do osso atirado para a praa, que 
se transformou numa bandeira do rei...
     - Estou a ver - disse Biorkis suavemente, quando Esme 
abriu os olhos. Exceptuando o dbil zumbido dos insectos por 
entre as plantas, reinava o silncio no jardim. Quanto tempo 
terei estado sob o feitio do sonho?, perguntou-se ela.
     Ao ver as expresses ansiosas estampadas no rosto dos 
amigos, Esme percebeu que o sonho os perturbara tanto como a 
inquietara a si.
     - Achas que quer dizer alguma coisa... Alguma coisa de 
importante?
     - Sem dvida que sim! Como te disse,  um sonho com muito 
poder. Tem no seu mago sementes de verdade... - Hesitando, 
continuou baixinho: - Mas ainda no sei dizer qual  essa
verdade, - Franzindo o cenho: - No, preciso de tempo para 
pensar e descobrir o seu significado.

     - Mas  muito claro - retorquiu Esme, que logo ficou 
chocada com o seu prprio atrevimento. - Desculpa, senhor. No
quis faltar-te ao respeito.
     Biorkis olhou-a de esguelha:
     - Fala, senhora. Talvez o deus j te tenha revelado o seu
significado.
     Esme humedeceu os lbios:
     - A terra escura deve ser a nossa terra, por onde os 
homens vagueiam sem a verdadeira luz a gui-los.
     - Eu tambm diria que sim. Concordo.
     - A fogueira no pode ser acesa sem o combustvel 
apropriado... a chama no se aguenta...
     - A chama da verdadeira f no se pode acender com o 
combustvel da velha religio... eu devia saber - observou 
Biorkis. - Mas continua, por favor. Ests a ir muito bem.
     Esme franziu a testa:
     - A seguir, vem uma parte mais difcil. No sei o 
significado da torre que no se mantm de p.
     - Oli, mas essa  a parte mais fcil - explicou o antigo
sacerdote. -  frequente o deus apresentar a mesma mensagem de 
maneiras diferentes. - Como Esme carregou o sobrolho, ele
tentou esclarec-la: - A torre do novo deus no ser 
construda sobre os antigos alicerces da anterior religio. 
No se pode construir de novo sem se arrasar o velho.
     - Percebo - assentiu Esme. - Mas ainda no entendo o 
significado da ltima parte.
     -  muito claro - replicou Biorkis.
     - Porqu? - perguntou Bria, que estava muito calada desde
que Esme narrara o seu sonho.
     - Ah, creio que j sabes, senhora. Claro que sim - volveu
Biorkis. - No percebes? Esta parte do sonho significa 
exactamente o que diz! A Esme poupou-me o trabalho de a 
examinar de muito perto; de contrrio, teria passado a noite a 
pensar nela e no chegaria a nenhuma concluso! Assim, creio 
que no precisamos de procurar mais do que o que j foi 
revelado.
     - Queres dizer que esta parte do sonho quer dizer isso
mesmo? - indagou Esme.
     - Creio que sim. O seu significado est nos 
acontecimentos que descreve: o osso da discrdia atirado por 
um homem vestido de sacerdote...
     - O talhante?
     - Disseste que o homem envergava roupas escuras... ento,
ou era um sacerdote ou um homem que se disfara de sacerdote 
para fazer o seu trabalho.
     - O osso transformou-se num estandarte real, que os ces
esfizeram em pedaos - cismou Alinea.
     - O reino! - arquejou Bria. - O reino est a ser 
dilacerado. Pode-se fazer alguma coisa? - Os seus olhos verdes 
suplicavam uma resposta.
     - Claro que sim. Precisamos de ter a esperana de que os
acontecimentos pressagiados na viso da Esme sero evitados. - 
Levantando um dedo no ar: - Essa  sem dvida a razo por que
a viso nos foi oferecida.
     - Ento, temos de regressar imediatamente para avisar o
rei - disse Bria.
     - Pois temos - concordou Alinea. - Mas diz-me uma coisa: 
porque ser que o prncipe no entrou no teu sonho?
     - No sei - retorquiu Esme, com uma expresso confusa.

     - A no ser que... - lanou um olhar a Biorkis, que 
assentiu com a cabea, encorajando-a a prosseguir - a no ser 
que no haja o perigo de o Gerin no estar bem.
     - Excelente! - exclamou o velho sacerdote. - Eu prprio 
no faria melhor. Senhora, tens talento para interpretar 
sonhos. Tenios de falar mais sobre isso antes de te ires 
embora.
     - Agora, vamos - sugeriu Morwenna. - Se a viso da Esme 
for verdadeira,  natural que os ancies a queiram saber 
imediatamente.
     - Sim, sim, ide - disse Biorkis. - Tendes de falar com
eles. Sem dvida que descobriro qualquer coisa que nos falhou
por cOmpleto, Ia sugerir isso mesmo.
     Bria levantou-se:
     - Com licena, bom Biorkis.  melhor irmos. Mas espero 
tornar a ver-te
     - Se tiveres tempo, volta c. Mas, se no puderes, no te
preocupes. Percebo perfeitamente. Ide-vos embora todas. Tenho 
de fazer a minha sesta. Rua! - Sorrindo abertamente, o ancio 
cruzou as mos por cima da barriga e fechou os olhos.
     Inclinando-se, Bria beijou-lhe a careca e todas se 
afastaram devagarinho, deixando o jardim entregue ao seu 
ocupante solitrio e deixando-o a ele entregue ao sono.


        CAPITULO XXXVIII


     - Chegaremos ao castelo l pela noitinha, Tipper. Ou, 
pelo menos, pouco depois. Mas ainda temos que andar. Quase de 
mais para estas duas pernas. Mas no me importo, Tip. - 
Sentado num cepo de nogueira que ficava ao lado da Estrada do 
Rei, o amolador deu uma palmadinha  cadela e acariciou-lhe o 
plo atrs das orelhas.
     O sol da tarde ia descendo a ocidente, por cima dos 
campos de cereais. J tinham deixado Pelgrin para trs. Quando 
haviam sado dos bosques ensombrados, tinham-se sentado a 
descansar, no calor do dia. De momento, a espada encontrava-se 
encostada ao cepo; o seu peso havia feito com que o fino 
cordel penetrasse no ombro do seu portador.
     - Ah, que dia, Tip, h? Olha para aquela nuvem de p. Vem
a algum... e parece que vem depressa. No  s um. Devem ser
dois ou trs ou mais.  melhor ficarmos aqui. Como vo passar 
por ns, veremos de quem se trata. - Pym observou a nuvem de 
poeira ocre erguendo-se da estrada, do outro lado da colina 
mais proxima.Dali a pouco, ouviu cascos martelando a estrada 
de terra, produzindo um rudo surdo, e viu os cavaleiros 
subindo a colina e avanando na sua direco.
     Observando a maneira como montavam e as suas roupas 
finas, Pym soube que se tratava de cavaleiros ou de senhores. 
Os arreios dos cavalos tiniam ao ritmo do seu andamento.

     Os cavaleiros da frente, que seguiam lado a lado, 
aproximaram-se do tosco cepo de nogueira onde estava sentado. 
Com os olhos postos em frente, sem olharem para a esquerda nem 
para a direita, passaram por ele como um relmpago. Atrs 
deles seguiam outros trs. Um destes ltimos levantou a mo 
enluvada, num gesto de saudao, e um dos seus companheiros 
lanou um olhar ao amolador e baixou a cabea, continuando a 
galopar.
     Pym levantou-se, pegou na espada e avanou para a 
estrada. Estava ele a p-la mais uma vez ao ombro, com os 
olhos postos nas costas dos homens que se afastavam, quando se 
aproximou um sexto cavaleiro, que chegou ao p dele antes de 
Pym ter tempo para pensar ou fazer qualquer movimento. O 
amolador deu um salto para trs e deixou cair a espada; por 
sua vez, o cavaleiro puxou as rdeas com fora, fazendo o 
cavalo bater com os cascos no cho e parar, no meio de uma 
nuvem de p.
     - Sai do meu caminho, idiota! - rosnou o zangado 
cavaleiro. - Se no vs por onde andas, afasta-te da estrada! 
Da prxima vez, passarei por cima de ti!
     Pym ergueu as mos:
     - Desculpai, senhor! Perdo! Oh! - Afastou-se aos 
tropees, pois o cavaleiro mal-humorado e a sua inquieta 
montada tinham-se aproximado. Ento, lembrando-se da espada, o 
amolador virou-se rapidamente, inclinou-se e apanhou-a.
     - Eh! Pra! - ordenou o cavaleiro. - O que tens a?
     Pym ergueu uns olhos assustados e abriu a boca, mas as 
palavras demoraram algum tempo a sair:
     - N... nada, senhor - conseguiu tartamudear por fim, com
as feies contorcidos pela angstia.
     - Espera, campons! Se soubesses quem se te dirige, 
saberias que  melhor seres honesto.
     O amolador baixou os olhos e no disse nada, mas ps a
espada embrulhada atrs das costas, na tentativa de a esconder
dos olhares curiosos do senhor que tinha  frente.
     Nesse momento, Pym ouviu um som atrs de si. Ao verem um
dos seus parado na estrada, os outros cavaleiros tinham 
voltado atrs para se inteirarem do que se passava e 
aproximavam-se os cinco por trs de Pym.
     - O que aconteceu, Ameronis? - perguntou um dos 
recm-chegados, fitando desconfiadamente Pym e as suas roupas 
esfarrapadas.
     - Este patife apareceu-me  frente e quase me fez cair - 
replicou o irascvel Ameronis.                                
       - De certeza que no fez por mal - disse Edfrith, que 
era quem baixara a cabea a Pym ao passar por ele. - Reparei 
nele ali no cepo ainda h bocado. Deixa-o em paz, Vamos 
embora. - O nobre fez meno de se afastar, mas nenhum dos 
amigos o seguiu.
     - O que tens a? - perguntou Ameronis outra vez, em voz 
fria e ameaadora. - Quero ver antes de me ir embora.
     Com o corao prestes a saltar-lhe pela boca, Pym fitou 
os rostos que o rodeavam.
     - Eu... eu... No  nada, senhor. - Apertou a espada 
contra si. - No sou mais que um pobre amolador. Deixai-me ir, 
por favor.
     - Deixa-o, Ameronis - disse o que falara antes, - Ele no 
tem nada que nos interesse.
     - Mesmo assim, quero ver! - troou Ameronis. - Se no  
nada no faz mal eu ver. - Os seus olhos penetrantes 
observaram Pym com uma intensa determinao. - Mas - continuou
_manhosamente -, se o que est ali embrulhado naqueles 
farrapos  uma espada, ento quero saber onde  que este 
amolador a arranjou.

     Estas palavras arrancaram murmrios dos outros 
cavaleiros.
     - Ento? - impacientou-se Gorloic. - Mostra l. Tambm 
querc, ver.
     - De facto, parece-me distinguir a forma de uma arma por 
baixo daqueles farrapos - acrescentou Lupollen, o melhor amigo
de Arneronis. - Mostra l, amolador. Temos o direito de ver.
     - No! - gemeu Pym desesperadamente. - No posso! - A 
cadela preta baixou as orelhas e rosnou.  Um cavalo bateu com 
o casco no cho e relinchou.
     - D c! - ordenou Ameronis, estendendo a mo.
     Pym apertou o seu trofu contra o peito e recusou-se a
entreg-lo.
     - Vinde - sugeriu Edfrith -, vamos tratar do que nos diz
respeito.
     - Vai! - gritou Lupollen. - No precisamos de ti. Como
1stO me interessa, ficarei at ao fim.
     Edfrith puxou as rdeas, a sua montada recuou, deu meia
volta e afastou-se a galope.
     - No tenho mais nada a ver com este plano imprudente - 
gritou por cima do ombro.
     - Por favor, senhor No fiz nada - implorou Pym, com o
suor a escorrer-lhe pelo pescoo e a manchar-lhe a camisa. - 
Deixai-nos ir em paz. Por fa...
     - Silncio! Cala essa boca insolente! - Com estas 
palavras, Ameronis inclinou-se na sela e agarrou o pacote.
     Aterrorizado, Pym no o largou e foi levantado do cho. 
Ameronis esbofeteou-o com a luva tachonada, tirou o p do 
estribo e deu-lhe um pontap na barriga. Pym largou a espada e 
caiu ao cho, contorcendo-se de dor. Tip ladrou e rosnou ao 
agressor do seu dono.
     Ameronis rasgou os trapos, deixando cair farrapos de 
tecido.
     - No! - gritou Pym, rolando e pondo-se novamente de p.
- Por favor! - Pediu ajuda com os olhos aos outros nobres, mas
s lhes viu os rostos frios e impassveis. Todos eles estavam 
do lado de Ameronis. - Peo-vos, senhor! Dai-me isso! - 
Atirou-se para a espada, mas no foi suficientemente rpido. O 
altivo Ameronis levantou a bota e deu um pontap em cheio no 
queixo do amolador, atirando-o de costas para o p da estrada.
     - Estou em dvida para contigo, amolador - comentou 
Ameronis, arrancando o ltimo farrapo. - Acabas de me entregar 
o meu trofu! - Levantou a espada bem alto. - E a coroa 
tambm!
     - Por todos os deuses! - arquejaram os nobres. -  a
Zhaligkeer, a Brilhante!
     - Vou recompensar-te por este servio, amolador - disse
Ameronis, com os olhos iluminados pela cobia. - Que tal?
     Horrorizado e sem dizer nada, Pym fitava a espada na mo
do usurpador.
     - Poupar-te-ei a vida intil - continuou Ameronis, 
rompendo em gargalhadas, Os outros senhores, ainda espantados 
por terem encontrado a espada, tambm riram com nervosismo. - 
 que de certeza que roubaste esta espada, amolador - rematou 
o senhor, erguendo a espada e abanando-a. Sentiu com prazer a 
sua fora fria e elstica, e apreciou a lmina to bem 
trabalhada que parecia viva. - Agora, pe-te de p, canalha - 
ordenou.

     Com a boca a sangrar e o rosto inchado e arroxeado, Pym 
levantou-se com esforo.
     Ameronis levou a ponta da Brilhante  garganta do 
amolador:
     - No vais falar a ningum do que se passou aqui, 
ouviste, amolador? Tenho ouvidos em toda a parte e, se 
falares, mandarei espetar a tua cabea num mastro, por cima 
das portas do meu castelo. Percebeste?
     Pym sentiu na carne o beijo frio da lmina afiada. Sabia 
que o ambicioso Ameronis no hesitaria em mat-lo. O seu 
corao ardia de raiva e vergonha: deixara-os apoderarem-se da 
espada do rei! O que podia fazer? Como havia de os travar?
     - Bem podeis matar-me j - retorquiu Pym sombriamente -, 
Pois no ficarei calado. - Uma vez pronunciadas aquelas 
palavras, manteve-se firme. - Tencionamos ir j dizer ao rei o 
que aconteceu.
     - Tens assim to pouco amor  vida, amolador?
     - Tenho mais amor ao meu rei - replicou Pym. - Como muito
bem sabeis, essa espada  dele. amos levar-lha... estava 
perdida.
     - Estou a avisar-te pela ltima vez - ameaou Ameronis,
erguendo a espada e preparando-se para desferir o golpe. Tip 
rosnou ferozmente e ladrou ao atacante do dono.
     Pym no arredou p e fechou os olhos. Se aquele era o seu 
ltimo momento... muito bem, que fosse ao servio do seu rei. 
Ficou  espera de ouvir o som da lmina cantando no ar.
     Em vez disso, ouviu um grito distante e agudo.
     - Espera! - exclamou um dos outros. - Vem a algum!
     Quando o som de cascos se ouviu atrs deles, Ameronis 
praguejou e afirmou:
     - Mesmo assim, vou acabar com ele!
     - No sejas insensato! - interveio Lupollen, com a voz
tensa. - j temos o que queremos. Vamos embora.
     Pym entreabriu os olhos e viu o rosto roxo de fria do 
violento senhor, que ainda se encontrava muito perto de si, 
com a espada erguida na mo. Os cascos aproximaram-se e 
ouviram outro grito. Erguendo o olhar, Ameronis ficou indeciso 
por um momento.
     - Anda! - insistiu Lupollen, fazendo o cavalo dar meia 
volta. Os outros rodaram as montadas e comearam a afastar-se.
     - O deus  testemunha de que foi um golpe de sorte que te 
salvou - murmurou Ameronis, com a voz empastada. - Mas, se 
tornarmos a encontrar-nos, tirar-te-ei a vida. - Pronunciadas
estas palavras, esporeou o cavalo na direco de Pym, que se
desviou com um salto. Mas, como no foi suficientemente 
rpido, Ameronis ainda lhe deu na cabea com o punho da 
espada. O cu escureceu, as estrelas desviaram-se do seu 
caminho e Pym tombou na estrada.


        CAPITULO XXX1X


     Montando o pnei castanho do prncipe, Renny seguia pela

estrada que ia dar a Askelon. Sentado muito direito na sela, 
fingia ser um cavaleiro que regressava ao reino, vindo de 
misses e aventuras em terras distantes. imaginava que voltava 
ao servio do rei, depois de uma longa ausncia, e que ouvia o 
seu nome nas bocas de conterrncos e pares e os seus feitos 
cantados nos sales grandes e pequenos de todo o reino.
     Ser um cavaleiro assim deve ser o maior sonho de 
qualquer homem, pensou. Daria a vida por um momento passado 
com a armadura de um cavaleiro, na seIa de um verdadeiro 
cavalo de guerra. Tarky trotava com suavidade e o castelo de 
Askelon, enevoado pela distncia, j se via acima dos campos 
verdes. No calor do dia, o mundo parecia calmo e preguioso. 
Renny j no tinha esperanas de encontrar alguma aventura no 
caminho, pois o castelo e a  sua cidade aproximavam-se a cada 
passo que dava.
     De repente, quando cavalo e cavaleiro chegaram ao fundo 
de uma colina e comearam a subir a prxima, encontraram um 
outro cavaleiro, que passou por eles a galope. O desconhecido 
deixou-os para trs no meio de uma agitao de cascos, com a 
capa curta esvoaando e a cauda do cavalo ondulando atrs de 
si. Com os olhos duros postos em frente, passou num pice, sem 
sequer desviar a vista na direco do rapaz.
     - Deve ser um nobre - disse Renny ao pnei. - Parece que 
vai a fugir de qualquer coisa. Se calhar, de salteadores!
     A sua jovem cabea encheu-se imediatamente com as imagens
de um feroz combate com um bando de implacveis ladres, no 
qual ele, Renny, o nobre, ganhava, mandando os rufies para as
Terras Selvagens, que era o lugar dos cobardes.
     Deslumbrado por tais feitos hericos e impossveis, Renny 
incitou o pnei castanho a subir mais depressa a colina. 
Ento, ao chegarem ao cimo, com a estrada espraiando-se 
novamente  sua frente, Renny viu a cena que acabara de 
imaginar: um grupo de rufies ameaando um viandante indefeso. 
A nica diferena era que os salteadores estavam a cavalo e o 
pobre homem a p. Soltando um grito selvagem, enterrou os 
calcanhares nos flancos de Tarky e galopou em frente, sem 
sequer se lembrar de que no tinha nenhuma arma e de que no 
saberia us-la, mesmo que tivesse. Com vises de glria
danando  sua frente, Renny lanou-se para o meio da 
escaramua.
     Foi, mais ou menos, por esta altura, que Ameronis e os 
seus amigos ouviram o jovem salvador aproximando-se. Renny viu 
a espada levantada, prestes a descer, soltou outro grito de 
guerra e incitou Tarky a avanar mais depressa. Com os 
cotovelos a dar e as pernas muito abertas, desceu a colina a 
voar.
     Neste preciso momento, os senhores, que tinham conseguido
convencer o seu chefe a poupar o amolador e a limitar-se a 
retirar-se com a espada do rei, viraram-se e galoparam na 
direco de Renny, que engoliu em seco, baixou a cabea e 
avanou. Por alturas da coliso, Renny fechou os olhos com 
fora. Depois, sentiu o ar esbofeteando-o no rosto quando os 
cavaleiros passaram por ele e ouviu atrs de si o som de 
cascos afastando-se.Ao abrir outra vez os olhos, deu consigo 
sozinho na estrada. Galopando desenfreadamente, os salteadores 
desapareciam por trs da colina.  sua frente, o caminhante 
jazia tombado  beira da estrada. Renny parou a montada, 
atirou-se da sela e correu a ajudar o homem, que fez rodar na 
poeira. O sangue escorria-lhe do corte que tinha na boca, e na
sua face via-se uma escoriao roxa. Tip lambeu o rosto do 
dono, limpando-o de algum p e sangue.
     As plpebras de Pym estremeceram e abriram-se debilmente.
     - Ohh... - gemeu ele.

     - Senhor, ests vivo? - perguntou Renny, com os olhos
escancarados.
     - Ohh... a minha cabea. Au! Deram-me com fora - 
lamentou-se, tentando pr-se de p.
     - Cuidado - avisou Renny, ajudando-o a sentar-se. - Vim
aqui ajudar-te.
     Com os olhos lacrimejantes, devido s palpitaes que 
sentia na cabea, Pym olhou de esguelha para o seu jovem 
salvador:
     - Quem s tu?
     - Sou O Renny, senhor - respondeu, como se o seu nome j
fosse conhecido e explicasse tudo. - Quando cheguei aqui, 
estavas a ser assediado por aqueles rufies.
     - H? - Pym virou a cabea e viu que, na verdade, os seus 
atacantes tinham desaparecido. - Salvaste-me a vida! Eles iam
dar cabo de mim. Ai iam, iam! Salvaste-me7 menino! Obrigado, 
oh, obrigado!
     Renny ficou todo contente, Era verdade: salvara a vida 
daquele homem, como um cavaleiro. Apesar de desarmado, 
enfrentara um bando de assassinos, derrotara-os, pondo-os em 
fuga para as Terras Selvagens, onde iam esconder-se da sua 
justia.
     - Quem eram? - perguntou gravemente.
     - Oh, gente muito m. muito m. Iam pr a minha cabea
num mastro. Ai iam, iam. At tu chegares, eu era um homem
morto. Oh, obrigado.
     - Roubaram-te alguma coisa?
     O amolador comeou a tremer:
     - Ohh! Levaram a espada!
     - A tua espada?
     - No era minha. Oh, no! Era a espada do rei! Um deles
tirou-ma... um tal Ameronis... foi ele. Queria matar-me e 
espetar a minha cabea num mastro.
     - Ameronis? O senhor de Ameronis? j ouvi falar dele.
     - Um homem mau... muito mau.
     Renny ps-se a pensar.
     - Como  que tinhas a espada do rei? - perguntou, coando
a cabea. - Era mesmo a Brilhante?
     - Sem tirar nem pr - assentiu Pym solenemente. - 
Encontrmo-la na estrada aqui h uns dias. Nessa altura, no 
sabia que era a Brilhante e escondi-a. Escondi-a numa rvore. 
Hoje de manh, voltmos para a ir buscar e levar ao rei, que 
precisa muito dela.
     Pesando o que Pym lhe contara, Renny estudou a situao  
  com todo o cuidado.
     - Bem - disse, por fim -, acho que o melhor que temos a 
fazer  ir j contar ao rei o que aconteceu.
     - Concordo. - Pym levantou-se, vacilou e apoiou-se no 
ombro do rapaz.
     - Consegues montar? O pnei  forte e no estamos assim
muito longe do castelo.
     - Acho que sim - assentiu Pym, cerrando os olhos de dor.
- Au! Ele deu-me bem forte! Gostava de lhe poder pagar da 
mesma moeda.
     Com a ajuda de Renny, Pym subiu para a sela e estendeu a

mo a iar o rapaz para trs de si. Depois de oscilarem 
hesitantemente, comearam a andar e, apesar de seguir de 
cabea baixa, devido ao peso a mais, Tarky foi avanando 
resolutamente para Askelon.

     Quando Theido e Ronsard reuniram os homens para comearem 
a procurar a espada, as sombras das ameias j atravessavam 
todo o ptio interior, que toda a tarde estivera num grande 
rebulio, com cavaleiros e homens de armas preparando-se para 
uma busca como nunca houvera igual em Mensandor. Ronsard no 
dispensara ninguem que no servisse melhor noutra tarefa 
qualquer. Assim, aparelhavam-se cavalos e arranjavam-se 
provises que chegassem para muitos dias na estrada.
     - Guerra  guerra - disse Ronsard a Hagin, quando o 
guarda protestou contra a pilhagem que estavam a fazer nos 
seus armazns. - Se falharmos, o Rei Drago cair. No vejo 
razo para nos contermos... seria como se quisssemos ser 
derrotados.
     - No fales de derrota - interrompeu Theido, que ouvira
tudo. - As coisas j sero bem difceis tal como esto. 
Disseste guerra?  pior do que a guerra, porque o nosso 
inimigo  o tempo e, no fim,  sempre o tempo que ganha.
     - Esta batalha no, senhor - retorquiu Ronsard, 
sombriamente. - Esta batalha no.
     Nesse momento, apareceu a correr um guarda do porto, que
saudou Hagin e proferiu abruptamente uma mensagem:
     - Esto ao porto dois homens que querem ser recebidos 
pelo rei. Eu disse-lhes que ele no quer ver ningum, mas eles 
insistiram. Eu no queria incomodar, mas eles no se vo 
embora.
     - O que querem?
     - No querem dizer, senhor.
     - Ento, expulsa-os com a ponta da tua espada, homem - 
ordenou Hagin.
     Theido e Ronsard, que comeavam a afastar-se, ouviram o
guarda dizer:
     - So dois homens num pnei castanho e...
     Ronsard girou nos calcanhares:
     - Um pnei castanho? - Os seus sentidos ficaram alerta.
     - O que , senhor? - perguntou Hagin.
     - Tr-los c... e ao pnei tambm. Imediatamente.
     O guarda baixou a cabea e, obedecendo s instrues, foi
a correr buscar os visitantes.
     - Aposto que tens qualquer razo para o que acabas de 
fazer - afirmou Theido. Hagin olhava-os com uma expresso de 
interrogao.
     - Pode no ser nada - volveu Ronsard -, mas parece-me
que algum disse que, no dia da caada, o prncipe montava um
pnei castanho.
     -  verdade. Era o seu preferido - retorquiu Hagin. - E
depois? S aqui nesta regio deve haver dezenas de pneis 
castanhos.
     - Pode ser que sim, mas se chegam dois homens ao castelo,
moontados num pnei castanho, exigindo ser recebidos pelo rei,
o caso deve ser urgente.                                      
    - Percebo - assentiu Theido.   Mas pensas que isso pode 
ter alguma coisa a ver cormosco?
     - Veremos. - Fazendo um gesto  de cabea para o outro 
lado do ptio: - Vem ali o guarda com os nossos mensageiros.

     Dali a pouco, o guarda parou com os visitantes  frente 
dos cavaleiros e de Hagin. Tratava-se de um rapaz magro e 
esgalgado e dc um homem de ombros curvados.
     - Aqui esto eles, como mandastes, senhores.
     - Com que ento, encontramo-nos outra vez, amolador! - 
exclamou Ronsard. - Hagin, queres examinar o cavalo? Parece-me 
que este animal  nosso conhecido.
     - Ns no o roubmos, senhor - disse Pym. - Mas como me 
conheceis?
     - Eu era o desgraado com a cabea partida que estava no
Ganso Cinzento na noite em que o Templo do Rei foi arrasado.
     Reconhecendo-o, Pym abriu muito os olhos e assentiu com 
um ar entendido:
     - Aconteceu-me o mesmo ainda no h trs horas.
     -  a montada do prncipe... No tenho dvidas. - Hagin 
deu umas palmadinhas no pescoo do pnei. - E a sela e os 
arreios do prncipe. Este animal saiu dos estbulos do rei... 
com toda a certeza. Mas posso chamar o mestre das cavalarias, 
que o deve saber melhor do que ningum.
     - No  preciso - respondeu Ronsard, olhando para os dois 
homens que tinha  frente. - Ento? O melhor  contardes-nos 
tudo.
     - Encontrei-o, senhor - explicou Renny, em voz tmida e
temerosa. Custava-lhe a acreditar que estivesse ali, no ptio 
interior do castelo de Askelon, onde cavaleiros e cavalos, 
escudeiros e homens de armas se preparavam como se para a 
batalha. - Entrou no nosso campo, que fica perto da floresta, 
e eu apanhei-o.
     - Ao pnei? - Ronsard sorriu, com os olhos a brilhar. - 
Estou a ver. E o que fizeste depois?
     Antes de o rapaz poder responder, Pym meteu-se na 
conversa:
     - Eu digo-vos o que ele fez: salvou-me a vida, foi o que 
foi. Ns...
     - Tu e o rapaz?
     - Eu e a Tip, senhor - respondeu Pym, indicando a cadela.
     - Percebo. Continua...
     - Vnhamos para Askelon quando fomos atacados por 
salteadores e rufies... pelo menos, pensei que eram 
salteadores e rufies. 
     - Salteadores? - inquiriu Theido. - Nesta parte de 
Mensandor?
     Pym assentiu vigorosamente:
     - Apanharam-me e levaram a espada.
     - Levaram a tua espada? - perguntou Ronsard. - Para que
 que um amolador precisa de espada?
     - A espada no era minha, senhor - explicou Pym.  - Era
a espada do rei!


        CAPTULO XL


     Theido foi o primeiro a reagir  notcia:
     - Tu encontraste a espada do rei?
     Pym assentiu solenemente, Renny fez que sim com a cabea
e Tip abanou a cauda.
     - Encontrmo-la na estrada aqui h uns dias... - Ao 
lembrar-se do que mais tinham encontrado, calou-se.
     - Ao lado de um corpo, no foi? - sugeriu Ronsard.

     Pym fez que sim com a cabea e levantou as mos:
     - Mas no tivemos nada a ver com isso! Nunca ergui um 
dedo contra nenhum homem em toda a minha vida. No, isso no!
     - Acreditamos em ti, amolador - disse Theido. - O que nos
contaaste coincide com o que j sabemos. O que fizeste  
espada depois de a encontrares?
     - Escondi-a, senhor, Escondemo-la numa rvore oca... numa
aveleira, na floresta. Mas, ao princpio, no sabamos que era 
a espada do rei.
     - E, quando soubeste, foste l busc-la, no foi? - 
Ronsard tinha uma ideia do que acontecera: o amolador 
encontrara a espada na estrada, ficara assustado, escondera a 
arma e, ao chegar  cidade, ouvira o que se dizia e decidira 
ir busc-la. - Tencionavas devolv-la ao rei?
     - Tencionava, senhor. Foi isso que planemos fazer... 
bem, de incio talvez no. Mas, ao princpio, eu no sabia que 
a espada era do rei. No, isso no sabia.
     - Quem ta tirou? - perguntou Theido. - os salteadores de 
que falaste?
     - Eram seis. Dois passaram enquanto estvamos a descansar 
ao lado da estrada. Depois, mais trs... No lhes prestei 
muita ateno. Mas o ltimo quase veio contra mim... vinha num 
galope desenfreado. S o vimos quando ele parou. Depois, viu a 
espada e tirou-ma. Eu agarrei-me a ela o mais que pude, mas 
ele deu-me um ou dois pontaps na cara. - Pym esfregou 
cautelosamente o rosto inchado. - Este aqui - indicou Renny - 
salvou a pele do velho Pym. Salvou-me... e  um mido. Mas tem 
coragem. Ai tem, tem! Muita coragem! Lanou-se para o meio 
deles e p-los em fuga como um bando de ces tinhosos!
     Ronsard estudou o rapaz com ateno:
     -  verdade, senhor? Defendeste o amolador dos rufies?
     Sem conseguir falar, Renny assentiu.
     - Bravo, rapaz - comentou Theido. - Muito bem. No  toda 
a gente que enfrenta seis homens armados de mos nuas. O que 
te levou a faz-lo?
     Renny abriu a boca e deixou sair a resposta:
     - Eu vou ser cavaleiro, senhor. E os cavaleiros so 
corajosos e auxiliam os que precisam de ajuda.
     -  verdade! - concordou Ronsard. - Mas no tiveste medo?
     - No, senhor. S tive quando o Pym me disse quem eram.
     - Sim? Sabes quem eram, Pym? - Theido inclinou-se para a
frente.
     - Ouvimos o nome do que me tirou  a espada. Era...
     - Deixa-me adivinhar - interrompeu Ronsard. - Ameronus?
     - Esse mesmo! - gritou Pym. - Esse mesmo! E  muito
mau, senhor. Mau como uma cobra. Ai , .
     - Bem me parecia! - observou Ronsard. - Bem, j sabemos 
qual ser a nossa batalha. No tenho dvidas do stio para 
onde esse patife levou o seu trofu.
     Theido coou o queixo e olhou para l do ptio:
     - Para o seu retiro no Sipleth. - Virando-se para 
Ronsard: - Pronto, j sabemos: vamos preparar-nos para um 
cerco e no para uma busca!


     Depois de ter recebido o pedido de resgate, Quentin 
recolhera ao leito, de onde no sara durante todo o dia. 
Paralisado pelo desespero, jazia como se tivesse sido atacado 
pela doena que transforma as pernas em pedras. Uma vez que j 
no possua a Brilhante nem tinha tempo para a procurar, no 
podia d-la aos raptores, assinando, assim, a sentena de 
morte do filho.
     Por causa da transgresso que cometera, por causa do 
miservel que abatera na estrada, ia perder o seu filho e 
herdeiro e tambm o trono Mas que interessava? J perdera os 
amigos em quem mais confiava: Durwin morrera, Toli fora 
capturado e at a rainha o abandonara, deixando-o entregue aos 
maiores tormentos. Mas, para alm de tudo isto, a sua dor mais
profunda era saber que o Altssimo retirara dele a sua mo e 
estava a julg-lo com toda a severidade.
     E era um julgamento que no conseguiria aguentar.
     Bateram levemente  porta do quarto. Embora Quentin no 
se mexesse nem respondesse, a porta abriu-se. Uma figura alta 
e magra entrou no aposento escuro e aproximou-se da cama.
     - Est tudo a postos - anunciou Theido.
     O rei no respondeu.
     Theido deixou-se ficar a olhar tristemente para o amigo 
durante alguin tempo. Depois, disse:
     - Estamos  espera de que nos comandes. - Na verdade, 
fora l dizer que iam partir, mas o estado de Quentin 
chocara-o tanto que resolvera tentar animar o rei. Por um 
instante, pensou que o seu artifcio talvez desse resultado.
     Quentin virou a cabea, que tinha pousada na almofada, e 
fitou o rosto de Theido.
     - Vo matar o meu filho - pronunciou baixinho -, e a 
culpa  minha.
     - No  nada. Tenho boas novas: a espada foi   
encontrada. Vamos agora busc-la.                             
       - A Zhaligkeer foi encontrada?
     - O Ameronis roubou-a a um amolador que a encontrou na   
  estrada, no dia do rapto do prncipe Gerin.
     - Ento, ganhou... nunca a devolver.
     - Sem luta, claro que no. Mas tencionamos dar-lhe uma
luta como ele nunca viu at hoje. No fim, at devolver a 
Brilhante de bom grado.  por isso que tens de vir cormosco.
     - J no h tempo, Theido. No h tempo. J  muito 
tarde.
     - No , senhor.  Mas ser se te demorares.
     - Ento, vai. Faz o que puderes.
     Theido j ia a concordar, quando hesitou e replicou:
     - No serei eu a dar essa ordem, Majestade. Tens de ser 
tu a faz-lo. Alm disso, para mostrarmos ao Ameronis e aos 
amigos que no toleraremos nenhuma traio neste reino, tens 
de seguir  cabea das tuas tropas.
     Quentin ficou novamente silencioso. Theido no sabia se 
as suas palavras estavam a atingir o alvo ou se o rei se 
encontrava to entregue ao desespero que nem escutara o que 
lhe dissera. Em silncio, o cavaleiro ergueu uma prece ao 
Altssimo, para que ele entrasse novamente em aco.
     - Defende o teu trono, senhor - pediu Theido. - Anda
connosco. Comanda-nos.
     Quentin suspirou e passou a mo pelos olhos.
     - No, eu no sou rei. Deixa-me em paz.
     - Quem comandar as tropas?
     - Comanda-as tu.
     - Eu no.
     - Ento, o Ronsard ou qualquer outro, No me interessa.

     Nessa altura, Theido percebeu que fora derrotado e 
encaminhou-se para a porta. j com a mo no trinco, parou e 
acrescentou:
     - H quem d a vida por ti e pelo teu trono e h quem
enfrente seja que perigo for ao teu servio... como o Durwin,
o Toli e outros que nem conheces. E tu no mexes nem um dedo
para te salvares? - Ditas estas palavras, fechou a porta.
     O rei ouviu os seus passos diminuindo no corredor, e 
deixou-se ficar a contemplar as trevas do aposento s escuras. 
No se mexeu.

     - Ento? - perguntou Ronsard, que j sabia a resposta, 
estampada nas rugas cinzentas e cansadas do rosto do amigo.
     - Ele no vir. Creio que perdemos o nosso rei mesmo 
antes de ter sido desferido qualquer golpe.
     - Se o nosso rei se entrega ao desespero, ento o nosso 
reino est s avessas. Os chacais vo desfaz-lo aos bocados.
     Theido inspirou profundamente.
     - Pelo menos, isso  uma coisa que podemos evitar durante
mais algum tempo. Vamos at Ameron-on-Sipleth, onde faremos o
que pudermos. - Lanou um olhar ao cu. - Se viajarmos toda a 
noite, estaremos l de manh.
     Quando a luz do crepsculo comeou a tingir o cu da cor 
do vinho tinto, o exrcito do Rei Drago saiu de Askelon. 
Nunca, nem por altura das guerras, quando todos os homens de 
Mensandor tinham respondido ao chamado e marchado para a 
batalha, nem nos terrveis tempos em que o inimigo ameaava e 
a paz s era conquistada com a lana e com a espada, houvera 
partida to silenciosa como aquela.
     As tropas atravessaram em fila o ptio interior e a casa 
da guarda, passaram pela grande ponte levadia, sobre o fosso 
seco, desceram a comprida rampa e dirigiram-se para as ruas da 
cidade.  frente, seguiam os cavaleiros, com as armaduras 
embrulhadas em redes, colocadas atrs das selas dos seus 
escudeiros. Depois, iam os pees, que marchavam em longas 
filas e avanavam em Silncio, pois espalhara-se o boato de 
que o Rei Drago no tinha coragem para chefiar os seus 
homens. Atrs deles, seguiam as pesadas carroas carregadas de 
provises e armas para os pees e para os cavaleiros; a 
retaguarda do cortejo era formada pelos carros dos ferreiros e 
dos cirurgies, que levavam o necessrio para tratar tanto de 
homens como de armas.
     O silencioso exrcito atravessou as ruas da cidade como 
uma falange fantasmagrica dirigindo-se para uma batalha 
esquecida na nvoa do tempo. Ningum saiu a saudar a sua 
passagem, nem nenhum habitante o aclamou. Exceptuando uns 
quantos ces rafeiros, esfomeados e sarnentos, que correram a 
ladrar  frente dos cascos dos cavalos, as ruas permaneceram 
vazias.
     Muito direitos nas suas selas e com os olhos postos em 
frente, Ronsard e Theido seguiam lado a lado  cabea das 
tropas. Sem conversarem, avanavam perdidos nos seus proprios 
pensamentos, que os envolviam como capas que se vestem contra 
o frio.
     E, embora a noite estivesse quente, havia uma atmosfera 
de melancolia e futilidade que gelava o ar e que era sentida 
por todos os que naquela noite, seguiam a bandeira do Rei 
Drago.

      que, mesmo sem o inimigo ter erguido a espada contra o 
trono, Mensandor perdera o seu rei.


        CAPITULO XL1


     O ancio Jollen, sentado a cofiar a barba  luz da 
lareira, fitava as brasas incandescentes; ao seu lado, 
encontrava-se a sua mulher, Morwenna, e, depois, Alinea, Bria 
e Esme, instaladas  frente do estimado ancio, observavam-no 
atentamente,  espera do que ele iria dizer. As sombras 
bruxuleavam nas paredes e, num canto, um grilo cantava a sua 
cano da noite. Por fim, enchendo o peito de ar, Jollen 
ergueu o olhar e disse:
     - Sim, concordo. Deveis regressar imediatamente. Como o
Biorkis sugeriu, o sonho  um aviso para que regresseis... ou 
um sinal de que deveis estar presentes para testemunhar o 
acontecimento nele pressagiado e que ter lugar muito em 
breve. Seja como for, tendes de ir.
     - Obrigado, ancio jollen. As tuas palavras do fora  
deciso que o meu corao tomou - retorquiu Bria.
     - Se quiserdes, posso discutir o assunto com os outros 
ancies, mas tenho a certeza de que eles diro o mesmo que eu. 
Sim, ide. Bem sei que quase no tivestes tempo para descansar 
da vossa jornada, mas tendes de partir. Pediremos ao deus que 
vos d foras.
     - Detesto ter de partir - observou Esme. - Bastou-me o
pouco tempo que passei aqui para me sentir to bem como se
este fosse o meu lugar.
     Jollen fitou-a e fez que sim para si prprio, como se 
estivesse a ver naquela jovem qualquer coisa que mais ningum 
via.
     - Talvez o deus esteja a falar contigo, Esme. Pode ser 
que ele tenha um lugar para ti aqui, entre ns. Seja como for, 
sers sempre bem-vinda a Dekra. Volta quando puderes e fica o 
tempo que quiseres... deixa que o teu corao se encontre 
outra vez.
     As ltimas palavras do ancio surpreenderam Esme.
     - A Bria falou-te dos meus... dos meus problemas?
     Jollen sorriu com bondade.
     - No, senhora. No precisei de palavras para saber que, 
ultimamente, a tua companhia tem sido a dor e a tristeza. Logo 
que entraste pelo porto, vi a criana perdida que h em ti.
     Esme baixou os olhos e fitou as mos, que tinha pousadas 
no regao:
     - Nota-se assim tanto?
     - No - retorquiu Bria.
     - No, no... nem toda a gente o v - admitiu o ancio
Jollen -, mas eu tenho o dom de ler a alma melhor do que os
outros. No falo para te envergonhar, Esme, mas sim para te 
dizer que conhecemos os teus males e que temos rezado por ti 
desde que aqui entraste.
     - Agradeo as vossas oraes. Nunca como aqui me senti 
to em paz desde... - A voz embargou-se-lhe e ela deixou a 
frase por terminar.
     Morwenna levantou-se e rodeou-a com um brao.

     - Quando acabares o teu trabalho, volta e fica connosco. 
Seria uma honra ter-te aqui.
     - O meu trabalho? - Esme olhou em volta. - O que 
significa o meu trabalho?
     - Foste tu que tiveste a viso, Esme - explicou Alinea. - 
Foi contigo que o Altssimo falou.
     - Tenho algum papel a desempenhar em tudo isto?
     O ancio Jollen soltou uma risadinha:
     -  verdade que todos temos, mas o teu papel  muito 
especial. Whist Orren revelou-te a ti, e s a ti, uma parte dc 
seu plano. Sim, ele pousou a sua mo sobre ti, Esme.
     Depois, conversaram um pouco mais sobre banalidades e
sobre os preparativos que se tinham feito para a sua partida, 
que seria no dia seguinte, bem cedinho. Mas, embora todos 
soubessem da poderosa revelao, que resultaria num grande 
feito, ainda imprevisto, e que era isso que levava as mulheres 
a apressarem-se a regressar, mais ningum falou do sonho de 
Esme nem do seu possvel significado. Quando, por fim, se 
levantaram relutantemente para se irem deitar, Morwenna 
acompanhou-as at  porta, dizendo:
     - De manh, levar-vos-ei o desjejum e despedir-me-ei de 
vs.
     - No te incomodes - replicou a rainha. - j fizestes 
tanto por ns... todos vs!
     - No me custa nada. - Morwenna afastou a preocupao de 
Bria com um aceno. - S lamento no ter podido passar mais 
tempo com as tuas pequeninas. So encantadoras! Tens de vir c
outra vez com elas... e com o Quentin, que no nos visita h 
muito tempo.
     - Se ele estivesse aqui, concordaria contigo. - Bria 
pegou nas mos de Morwenna. Jollen foi pr-se ao lado da 
mulher. - Reza por ele, por favor. Reza por ele e pelo meu 
filho.
     - Podes crer que sim - respondeu jollen. - Temos rezado
desde que aqui chegaste. E no pararemos at sabermos que est
tudo  bem outra vez. - Fazendo uma pausa, envolveu as mulheres
num olhar longo e amigvel. - Mas tende coragem - continuou
abruptamente. - O que vos trouxe aqui, a vossa misso, foi 
cumprida, e o Altssimo deu-vos a sua bno. Vs fostes fiis 
aos vossos coraes, e as coisas que ele revelou j esto a 
acontecer. lide e testemunhai-as... e sabei que ele no falta 
a quem o segue.
     Em silncio, as visitantes abraaram os seus anfitries e 
saram da sala quente e iluminada pela lareira para a fresca 
noite de Vero, onde cintilavam mirades de estrelas. Seguiam 
to perdidas nos seus prprios pensamentos que se apressaram a 
ir para a cama sem falar. Apesar disso, sentiam-se muito 
prximas umas das outras, unidas pela fora do amor e por um 
objectivo comum. E, embora pudessem vir a ser foradas a 
atravessar as trevas do mal, nenhuma delas duvidIva de que, no 
fim, haveria luz.

     - Toli? Ests a dormir? - perguntou o prncipe Gerin, 
aproximando-se da silhueta encolhida que tinha ao lado.
     - No - replicou Toli, rodando sobre si. - O que ?
     - Ouvi um barulho. Vem a algum.
     - Tambm ouvi.  outra vez o guarda a certificar-se de 
que ainda estamos aqui e no desaparecemos pelas rachas das 
paredes.

     - Nestes dois ltimos dias, tm andado a vigiar-nos mais 
de perto... mais de perto do que antes. Porqu?
     - Creio que, como j puseram tudo em movinento e esto  
espera para ver o que acontece, no querem que nos acontea 
nada at conseguirem os seus objectivos.
     - Mas o que querem eles?
     - Vingana. Uma vez, Nimrocid tentou apoderar-se do trono 
e...
     Antes de Toli poder acabar, ouviu-se raspar e chiar e a 
porta abriu-se. A luz bruxuleante de uma tocha passou pela 
abertura e iluminou a cela. Toli rodou sobre si prprio e 
soergueu-se.
     - O que queres? - perguntou quando o visitante entrou.
     - Estais confortveis, meus animaizinhos?
     - Nimrood! - exclamou Toli sombriamente. - Com que ento, 
arrastaste-te at aqui para escarneceres dos teus 
prisioneiros?
     - Oh, no! S vim c dizer-vos o alto preo que pedi 
pelas vossas cabeas inteis. O pedido de resgate j foi 
entregue e recebido. O rei s tem um remdio: ceder.
     - O que fizeste, vbora?
     - Apenas sugeri que libertaria os meus prisioneiros em 
troca de um certo objecto de valor para o rei. - Fazendo uma 
pausa, Nimrood riu com maldade. - Ah! Um objecto que, em 
breve, ter pouco valor para o rei!
     - De que ests a falar? - Toli ps-se em p.
     - Deixa-te ficar onde ests! - gritou Nimrood. Depois, em
voz mais c alma: - Assim  melhor. Que objecto? - Encolheu os 
ombros. A sua sombra negra, projectada pela luz da tocha, 
agigantava-se na parede. - no vejo razo para no vos dizer. 
O objecto que terei e a espada.
     - A Brilhante! - arquejou o prncipe Gerin, que fora 
pr-se ao lado de Toli.
     - Sim, creio que  como lhe chamam. Nunca a vi, mas 
parece que  uma arma excelente.
     - No! - gritou Gerin. - O rei no pode desfazer-se da
Brilhante!
     - Isso, meu malcriado,  o que vamos ver.
     - O prncipe tem razo. O Rei Drago nunca entregar a
Zhaligkeer. Ele nunca rebaixaria o trono a esse ponto.
     -  pena - fungou Nimrood. - Mas talvez ele veja as 
coisas de um modo diferente. O trono vale mais do que a vida 
do seu nico filho e herdeiro e do seu melhor amigo?
     - Estou a perceber - disse Toli friamente. - Queres 
obrig-lo a escolher. Mas esqueces-te de que um rei  rei em 
primeiro lugar e s depois homem. Portanto, tem de fazer o que 
 melhor para o reino.

     - Seja como for, vai ser interessante. Daqui a pouco, j 
saberemos o que vai escolher.                                 
       - Daqui a quanto tempo?                                
         - Cinco dias. Daqui a cinco dias, ao meici-dia, 
sereis levados para o trio do templo e amarrados. Se o rei 
no trouxer a sua espada encantada, sereis mortos no altar de 
Ariel. Bem sei que, agora os deuses j no querem sacrifcios 
humanos. Mas, desta vez, creio que o sumo sacerdote insistir 
nisso. O que far o corajoso rei Quentin com as mos manchadas 
com o vosso sangue? Como ser que, da para a frente, 
conseguir viver consigo prprio? - Nimrood recuou um passo e 
levantou bem a tocha. - Agora, tambm ficareis a pensar nisso!
     Imvel como uma pedra, de punhos cerrados e msculos 
rigidos, Toli ficou a ver o velho feiticeiro desaparecer. A 
porta da cela fechou-se, o ferrolho arranhou no trinco e a 
cela voltou a ficar escura e silenciosa. Nimrood voltou ao seu 
ninho repugnante, arrastando-se pelo corredor e soltando 
risadinhas para si prprio.
     -  verdade? - perguntou Gerin, quando o cacarejar do 
feiticeiro deixou de se ouvir. Tinha a voz a tremer.
     -  - retorquiu Toli, rodeando-o com o brao e cingindo-o 
a si. - Lamento muito, mas  verdade.  possvel que ele o 
tenha dito s para nos afligir, mas no me parece. Aquele 
abutre q uis dar-nos a provar o veneno do medo... espera que 
isso apodrea em ns como uma ferida. Mas no podemos deixar 
que isso acontea. Nem por um momento podemos deixar de ter 
esperana.
     - Tenho medo, Toli. O que vai acontecer-nos?
     - No sei. No est nas nossas mos.


        CAPTULO XL11


     O dia cinzento e sem vida nasceu sobre Pelgrin, enchendo 
de neblina as guas lodosas e lamacentas do rio Sipleth. Na 
margem do rio, num ponto em que o solo se elevava, formando o 
despenhadeiro rochoso de uma falsia sobranceira  gua 
cinzenta, erguia-se o castelo de Ameron. Abaixo do castelo, o 
Sipleth, correndo no seu leito rochoso, achatava-se e alargava 
ao curvar em volta da falsia, oferecendo a Ameronis duas 
barreiras naturais; a floresta, muito densa nesta parte de 
Mensandor, constitua uma terceira proteco. Portanto, o 
ataque s era possvel pela frente. Alm disso, o terreno 
inclinado e acidentado dificultava qualquer assalto.
     Theido e Ronsard debruaram-se nas suas selas e 
examinaram a fortaleza  luz caprichosa do novo dia.          
       - No me lembrava de isto ser to rochoso e to bem 
fortificado - disse Ronsard.
     - Vamos pr-nos ali e ali - indicou Theido, apontando com
o dedo -, fora do alcance das flechas. Um homem como o 
Ameronis deve estar sempre preparado para combater. No 
tenhamos ilosies de que o apanharemos desprevenido.
     - Podemos fazer uma coisa antes de ele saber que estamos 
aqui. Vamos mandar os sapadores verem onde poderemos abrir
uma mina por baixo das muralhas.
     - Ordena que o faam imediatamente. Manda archeiros com
eles, para o caso de o castelo acordar e dar luta.
     Ronsard desmontou com um ar fatigado, dirigiu-se  orla 
de rvores onde o exrcito esperava e deu as suas ordens a 
vrios cavaleiros, investidos das funes de 
comandantes-de-campo. Desmontando tambm, Theido ps-se a 
percorrer o permetro do bosque, estudando a configurao do 
terreno e a situao do castelo. Durante este exame, alguns 
homens envergando roupas grosseiras de pele saram a correr da 
floresta para o castelo, com varas compridas e aguadas nas 
mos. Atrs deles seguiam os archeiros, com arcos compridos e 
aljavas s costas.
     Quando chegaram  base das enormes muralhas, os homens

dividiram-se em grupos de dois ou trs e comearam a examinar
o solo e as pedras das muralhas exteriores, espetando as varas 
no cho ou enfiando-as em fendas e brechas.
     Passado algum tempo, Ronsard foi pr-se ao lado de 
Theido, que observava a actividade dos sapadores.
     - Provavelmente, ainda demorar um bocado. Sugiro que 
vamos tentar dormir, antes que o Ameronis acorde e descubra 
que est cercado. J dei esta ordem s tropas.
     Theido esfregou os olhos com os punhos e virou-se para o
amigo:
     - O meu corao no est nesta luta. No me agrada 
levantar a espada contra um dos nossos, mesmo que se trate do 
Ameronis, que, apesar de tudo, ainda  um nobre do reino.
     Ronsard encolheu os ombros:
     - Deixou de ser um nobre de Mensandor quando, por 
vontade prpria, desafiou o seu rei. Agora,  um renegado que 
tem de ser punido. A traio no  nenhum crime menor,
     - No discordo, mas gostava que no fosse assina.
     - Ao guardar a espada para si, est ele prprio a prender 
o herdeiro do rei.
     - Ser que sabe disso?
     - Achas que se comportaria de maneira diferente se 
soubesse?
     - Talvez no, mas tratarei de que seja informado o mais 
cedo possvel. Isso, pelo menos, far com que pense duas vezes
antes de prosseguir por este caminho.
     Ronsard franziu as sobrancelhas:
     - Ele no ceder. O Ameronis  muito orgulhoso e esperou
muito tempo. O cerco vai comear. Rezemos para que no demore
muito, pois temos pouco tempo.
     Com estas palavras, viraram-se e foram vigiar o assentar 
do acampamento e procurar um stio para se estenderem e 
passarem pelo sono, que j lhes era to necessrio.

     No castelo de Ameron, Ameronis e os amigos dormiam em 
camas altas e fofas, feitas com finos lenis, em quartos com
requintadas tapearias bordadas a seda penduradas nas paredes.
Ameronis estava habituado ao melhor. A chama da ambio ardia
nele com tanto calor que at vivia como um rei.
     Naquele momento, dormia a sono solto na sua cama larga,
sonhando com o dia em que subiria ao trono do Drago, no salo
do Rei Drago. Era uma viso que havia muito alimentava e 
embalava no seu corao e que em breve se realizaria, pois 
agora possua a famosa Zhaligkeer. Tinha a espada numa caixa 
fechada aos ps da cama. Nem no seu armeiro confiava; queria-a 
sempre consigo.
     Na passagem da muralha que ficava do lado de fora da 
janela da torre do senhor, apareceram homens a correr e a 
gritar, batendo com os ps no pavimento de pedra. Arrancando 
Ameronis dos seus sonhos de glrias reais, os gritos 
despertaram-no.
     - Camareiro! - gritou. Um homem delgado, de olhos de 
fuinha e dentes castanhos e podres, apareceu imediatamente.
     - Senhor? - perguntou o servo, enfiando a cabea pela 
porta.
     - Por Zoar, O que se passa? Como se pode dormir com tanta
algazarra? Tenho hspedes em casa e no quero que os acordem.
     - H qualquer agitao fora do castelo, senhor, mas ainda

no se sabe bem o que .
     - Bolas! Eu vou l! - Atirando a manta para trs, 
Ameronis encaminhou-se para o torreo e subiu um lance de 
escadas que davam para as ameias. Os seus aposentos ficavam na 
torre mais avanada virada a ocidente e davam para os portes 
e para a floresta.
     Uma vez completamente acordado, s precisou de uns 
instantes para determinar a causa da agitao que o tirara da 
cama.
     - Por todos os deuses do cu e da terra! - gritou. - 
Estamos cercados!
     Nessa altura, aproximou-se um jovem cavaleiro, comandante 
de Ameronis:
     - Senhor estamos cercados.
     - Isso vejo eu! Quantos so?
     - Ainda no tivemos tempo para os contar. Estamos a 
fortificar as portas. O alarme s foi dado h pouco tempo, por 
uma das sentinelas colocadas nas ameias viradas a sul. Os 
sapadores andam  procura de algum ponto fraco que possam 
explorar senhor.
     - So homens do rei?
     - No tm insgnias, senhor. Por mim, no vi nada.
     - Muito bem. Mandai uma chuva de flechas para cima das 
suas cabeas tolas, para aprenderem a no andarem a farejar 
estas muralhas como ces!
     - J se mandaram archeiros para as ameias, mas os 
sapadores fugiram mal os viram.
     Ameronis virou-se e olhou para o bosque onde se 
encontrava o exrcito do Rei Drago.
     - Com que ento, a festa comeou - murmurou para si 
prprio. Depois, gritou uma ordem por cima do ombro para o 
jovem cavaleiro: - Manda os archeiros estarem a postos e 
informa-me logo que eles se mostrarem novamente.
     - Sim, senhor. - O comandante baixou a cabea e Ameronis, 
descalo afastou-se pela passagem da muralha, voltou a descer
as escadas, atravessou o torreo e entrou nos seus aposentos.
Chegado a, vestiu-se  pressa e enfiou a tnica acolchoada, 
para o caso de precisar de pr a armadura ainda antes de o dia 
chegar ao fim. Depois, correu para o depsito de armas, a 
ordenar que se pusesse tudo a postos; da, foi falar com o 
guarda, para saber o estado das provises do castelo: comida, 
gua, cereais e raes para os cavalos; por fim, encaminhou-se 
para as portas, onde supervisionou pessoalmente o reforo da 
madeira macia com cunhas e traves.
     Ameronis fez tudo isto sem excitaes nem ansiedade, e 
sim como um homem muito habituado  guerra e aos seus 
preparativos. Na verdade, toda a vida esperara por aquele dia. 
Se andava por ali com o ar desapaixonado do veterano bem 
treinado, era porque a ambio pelo trono o instrura bem, 
tanto a si como ao pai, no uso do poder e na maneira de o 
atingir.
     Por isso, jurou que havia de ser rei ou de morrer a 
tent-lo.

     Ao meio-dia, Ronsard acordou de um sono muito curto e fez
a inspeco do acampamento, falando com os comandantes e com
os soldados, que tinham andado atarefados a transformar os 
bosques que os rodeavam numa pequena aldeia... numa aldeia de

guerreiros.
     - Garth - disse Ronsard, chamando um cavaleiro de tendes
grossos, que vigiava a construo de uma fila de correntes 
para prender os cavalos. - H notcias dos sapadores que 
saram hoje de manh?
     O grande homem encheu o imenso peito de ar e esvaziou as
bochechas, fazendo o ar assobiar-lhe por entre os dentes.
     - Boas, no. Aquele castelo  to seguro como a rocha que
tem por baixo. Os sapadores no encontraram nenhuma brecha nem
nenhum bocadinho de solo mais mole em toda a volta... isto ,
em trs lados, porque o quarto  o rio.
     Ronsard carregou o cenho:
     - No encontraram mesmo nada?
     Garth abanou a cabea:

     - O castelo tem fundaes de pedra... duras como o 
corao do dono. Por baixo daquelas muralhas no h nenhum 
stio onde possamos abrir um tnel.
     Ronsard assentiu com a cabea e afastou-se. Est bem, 
pensou. Se no podemos passar por baixo das muralhas, 
passaremos por cima. No temos tempo para um cerco prolongado. 
Precisamos de resolver este assunto em quatro dias, para 
chegarmos ao Grande Templo antes... Bem, de uma maneira ou de 
outra, chegaremos a tempo. Com a ajuda do verdadeiro deus, 
chegaremos a tempo.
     Nessa altura, ouviu passos atrs de si e virou-se, dando 
de caras com Theido.
     - Este bocadinho de sono fez-te bem, meu amigo. j 
estamos a ficar velhos para andarmos toda a noite nas 
florestas, h?
     Embora Ronsard tentasse parecer animado, Theido continuou 
a sentir um peso no corao e falou em voz spera:
     - O castelo deu alguns sinais de vida?
     - Nenhum. Ainda h pouco falei com o comandante das 
sentinelas, que me disse que as torres e as ameias continuam 
em silncio... mas parece que apareceram l alguns archeiros, 
que esto  espera.
     - Ora! - resmungou Theido. - Ento, enquanto esperam vou
dar-lhes alguma coisa em que pensar. - Girando nos 
calcanhares, chamou um escudeiro, a quem ordenou que 
lhetrouxesse o cavalo.
     - O que tencionas fazer? - indagou Ronsard, correndo 
atrs dele.
     O escudeiro apressou-se a levar-lhe o cavalo. O alto 
cavaleiro pegou nas rdeas e ps o p no estribo. Ronsard 
pousou-lhe a mo no ombro:
     - No vs sozinho.
     - Ento, anda comigo. Tanto me faz, - Theido iou-se para
a sela e fez rodar o cavalo.
     - Espera! - gritou Ronsard, mandando o escudeiro buscar a
sua montada.

     Quando Ronsard apanhou o teimoso do seu amigo, j este se 
encontrava a meio da escarpa rochosa que ia dar ao castelo. O 
caminho era dificultado por afloramentos de granito que 
sobressaam da ma musgosa. Os raios do Sol, que estava a pino, 
ricochateavam nestas superfcies rochosas, lanando uma luz 
ofuscante. O castelo de Ameron erguia-se  sua frente, no cimo 
da encosta. Enquanto se aproximavam, Ronsard estudava 
cuidadosamente as suas muralhas.
     Quando ficaram ao alcance das flechas das muralhas, 
pararam. Levando a mo  boca, Theido gritou s sentinelas:
     - Chamo-me Theido e sou amigo do rei. Quero parlamentar 
com o vosso amo. Trazei-o c fora.
     Os dois cavaleiros ficaram  espera que os homens das 
ameias debatessem este pedido, que acabaram por decidir que 
no podiam recusar. Um deles disse qualquer coisa, desapareceu 
uma cabea das ameias e a primeira sentinela gritou:
     - J mandmos chamar o nosso amo, senhor.
     Passou-se algum tempo. Os cavalos batiam com os cascos e
relinchavam impacientemente, agitando a cabea e sacudindo a 
crina. Mas a espera foi recompensada com o aparecimento de 
Ameronis nas ameias.
     - Com que ento, s tu, Theido! - berrou Ameronis l para
baixo. - E tu s o Ronsard?
     - Quero falar contigo, Ameronis. Cara a cara.
     - Lamento muito mas parece que as portas foram fechadas e 
fortificadas. No posso abri-las. - Ameronis falou num tom 
bem-humorado, como se estivesse pronto a esquecer que as 
intenes dos homens que tinha  frente eram tudo menos 
amigveis e benvolas.
     - Ento, antes que haja derramamento de sangue dos dois
lados, deixa-me aproximar-me, pois quero dizer-te uma coisa.
     - Ests a perder o teu tempo - murmurou Ronsard. - Este
lobo s ouve o fio da lmina.
     - Eu sei - replicou Theido -, mas os que esto com ele
no so da mesma laia. Talvez consigamos faz-los vacilar. 
Vs? L esto eles.
     Ronsard viu vrias cabeas juntarem-se  de Ameronis e 
espreitarem por cima da muralha.
     - No estou a ver o Edfrith.
     - Se calhar, teve o bom senso de no se deixar enredar 
mais nas tramas deste cobioso. Isso, pelo menos, mostra que o 
bando no est todo de acordo.
     - Podeis aproximar-vos - gritou Ameronis para baixo. - 
Quero ouvir o que tendes a dizer.


        CAPTULO XLIII


     - Isto no me agrada, Ameronis - disse Kelkin. - Se 
verdade que temos o resgate do filho do rei, devemos 
devolv-lo. No quero ficar com as mos manchadas com o sangue
do prncipe.
     Os amigos de Ameronis estavam reunidos com ele na cmara
do conselho, uma sala que ficava na torre de menagem, por cima
das masmorras. As janelas abertas permitiam que a brisa 
agitasse o ar parado e pesado da sala. Sentado num parapeito, 
Ameronis contemplava a escarpa para onde Theido e Ronsard se 
tinham retirado apenas uns momentos atrs.
     - Se tiveste coragem para enfrentar o prprio rei e no 
te queixaste, no te percebo agora - retorquiu Lupollen. - Se 
 verdade que quem empunhar a espada  o rei... ento, aqui 
est o nosso rei! - Fez um gesto na direco de Ameronis, que 
se levantou, apoiando as mos no parapeito, e se ps de frente 
para eles. A sua silhueta recortava-se na janela estreita.

     Dencilon murmurou por entre os dentes:
     - Se ele  rei, porque nos escondemos atrs de portas 
aferrolhadas,  espera da batalha?
     Ameronis ignorou este comentrio:
     - No vedes que isto  exactamente o que eles querem?
     Os outros lanaram-lhe olhares de interrogao.
     - O qu? - inquiriu Gorloic. - Fala claramente.          
       - Oh, mas  muito claro, senhor.  um truque deles para
nos fazerem dar-lhes a espada sem uma nica troca de flechas.
O Theido  uma velha raposa manhosa: como sabia que causaria
desavenas entre ns, ps-se a mentir descaradamente.
     - Duvidas dele depois de tudo o que aconteceu em Askelon? 
- perguntou Denellon.
     - Oh, no duvido de que o prncipe tenha sido raptado... 
isso  verdade. O mais provvel  que tenha sido levado por
simples salteadores, que s querem alguns ducados de ouro para
o soltarem. Se calhar, o resgate j foi pago e o rapaz at j 
est livre. No, esta histria de que a espada  o resgate do 
prncipe, que est condenado se a Brilhante no for entregue 
daqui a quatro dias,  um estratagema... alis, muito mal 
alinhavado.
     Escutando este discurso de Ameronis, que falava 
calmamente e com segurana, os senhores carregaram o cenho... 
a sua astcia no os convencera, mas conseguira abal-los. Por 
fim, Kelkin levantou-se e disse:
     - Creio que cometemos um erro grave, senhores, do qual
nos arrependeremos durante muito tempo. Mas, j que estamos
metidos nisto, temos de ir at ao fim, no ?
     -  - concordaram os outros. - no temos outro caminho.
     -  isso - assentiu Ameronis, como se tambm e1e tivesse
acabado por se deixar convencer pelas palavras de Kelkin. - 
Realmente, no temos outro caminho. Foram eles - apontou para
fora da janela - que nos foraram a isso... agora, temos de ir 
at ao fim.
     - Que resposta lhes vais dar, Ameronis? - perguntou 
Lupollen. -  quase altura de voltarem para saberem a tua 
deciso.
     - Que resposta lhes posso dar? - Ameronis abriu as mos.
     - Dir-lhes-ei que no podemos entregar a espada. E que, 
se se forem embora, lhes perdoarei a afronta que a sua 
presena fez  minha honra. De contrrio... No est nas 
minhas mos.
     Levantando-se, os senhores saram em fila para as ameias.
Theido encontrava-se l em baixo. Fora sozinho saber a 
resposta do seu pedido para que lhe entregassem a Zhaligkeer.
     - Theido - chamou Ameronis -, antes de dar a minha 
resposta, quero fazer-te uma pergunta. - Os senhores que 
estavam com Ameronis entreolharam-se. O que estaria o astuto 
nobre a preparar agora?
     - Ento faz - respondeu Theido, inclinando-se e pousando 
o brao na parte mais alta da sela.
     - Que garantias tenho de que,se te entregar a espada, no
a usars em proveito proprio, para reclamares o trono?
     - S um homem como tu pode pensar uma coisa dessas - 
volveu Theido colericamente. - Como no s leal a ningum, 
pensas que todos so como tu.
     Ameronis limitou-se a encolher os ombros:

     - Que garantias tenho?                                   
       Theido fez um esforo para se controlar:
     - Nenhuma, a no ser a minha palavra de honra, Mas se 
preferires, podes voltar connosco a Askelon e entregar 
pessoalmente a espada ao rei.
     - Contigo e com os teus cavaleiros por escolta? - zombou 
Ameronis. - Seria abatido antes de avanar meia lgua.
     - Para mim, a palavra do Theido  suficiente - retorquiu
Kelkin. - Vale tanto como a promessa selada de um rei.
     - No fundo, est a dar-nos a oportunidade de mantermos a
honra sem derramamento de sangue - acrescentou Denellon.
     - Creio que devamos considerar a sua proposta.
     - O que ele est  a dar-nos a oportunidade de sermos 
esfolados como coelhos, meus amigos. Julgais que no tentaria 
castigar-nos logo que tivesse a espada em seu poder?
     - Ele afirmou que o Ameronis podia entreg-la ao prprio 
rei - argumentou Gorloic. - Devamos levar isso em 
considerao.
     - Para irmos parar s masmorras de Askelon logo que a
espada for devolvida? - indagou Lupollen.
     - O Rei Drago no faria uma coisa dessas - interps 
Kelkin. Gorloic e Denellon concordaram com ele, fazendo que 
sim com a cabea. - Podemos pedir um salvo-conduto.
     - Um salvo-conduto? Ora! o nico que nos dariam seria um
salvo-conduto para o cepo do carrasco! - Ameronis carregou o
sobrolho, - No, agora no nos atreveremos a entregar a 
espada. Os dados esto lanados e temos de ir at ao fim.
     - Estou  espera - disse Theido. - Qual  a tua resposta?
     - Aqui a tens: no entregarei a espada - afirmou 
Ameronis. - Se o Rei Drago a quer, que venha c tirar-ma!
     - Sabes que isso  traio...
     - No me fales de traio, senhor! Quando eu for rei, a 
tua afronta ser considerada traio... nessa altura, veremos 
quem ficar em maus lenis! Sai daqui e leva os teus homens 
contigo!
     - Fomos encarregados de recuperar a Brilhante e  o que 
faremos. Se o rei no te interessa, ao menos pensa na vida do 
seu filho.
     - Um estratagema! Fora! Estou farto de falar contigo!
     - Eu vou - replicou friamente Theido. - Da prxima vez
que nos encontrarmos, ser com a ponta da espada. s tu que 
nos obrigas a declarar o incio do cerco. - Theido abanou as
rdeas, fez o cavalo dar meia volta e voltou a descer a 
encosta a galope. Ronsard esperava-o nos limites do 
acampamento.
     - Ento? - perguntou o cavaleiro de cabelo cor de areia.
     - Tinhas razo, meu amigo - replicou Theido 
acaloradamente. - Isto  mesmo um covil de chacais. Embora o 
Gorloic, o Kelkin e o Denellon paream inclinados a mostrar 
algum bom senso, deixam-se ir na sua conversa.
     - Ento, o cerco comeou. - Ronsard contemplou o castelo
que se erguia  sua frente. - No ser fcil abrir brechas 
naqueIas muralhas. E tambm no podemos esperar que morram  
fome. Temos de atacar por cima.
     - Talvez acabe por ter de ser assim - replicou Theido,
seguindo o olhar de Ronsard -, mas ainda no. Primeiro, quero
examinar o quarto lado do castelo, a muralha que fica sobre o
rio, virada a ocidente.
     - Como tencionas faz-lo?

     - Ter de ser hoje  noite, a coberto da escurido.
     - Muito bem. Arranjarei uma manobra de diverso que 
disfarce os nossos verdadeiros objectivos. Mas o que esperas 
encontrar?
     - Uma poterna. Nunca estive em nenhum castelo que no
tivesse qualquer entrada traseira. Um homem como o Ameronis
deve ter alguma porta secreta... vamos ver  se a encontramos.
     Assentindo com a cabea, Ronsard acrescentou:
     - Vamos ver se a encontramos a tempo.

     Durante o resto da tarde e parte do crepsculo, o 
acampamento fervilhou de actividade. Nos bosques prximos, 
ecoava o som dos machados abatendo rvores e cortando-lhes os 
ramos; vrios homens passavam a floresta a pente fino, 
apanhando braadas de caruma; a forja e os foles dos ferreiros 
lanavam para o cu, por entre as rvores, espirais de fumo 
preto.
     Ao cair da noite, estava tudo pronto. Uma meia-lua plida
ergueu-se acima das copas das rvores, lanando uma luz fraca
sobre a escarpa e tornando as muralhas do castelo e os 
afloramentos de granito brancos como os ossos de um morto.
     - Est tudo pronto - anunciou Ronsard, pondo-se ao lado
de Theido, que dava as suas instrues a um grupo de 
cavaleiros que escolhera para tomar parte na surtida nocturna.
     - Muito bem. Aqui, tambm estamos prontos, - Theido 
mandou os homens embora, dizendo: - Agora, ide descansar. 
Chamar-vos-ei quando for altura de partirmos. - Os cavaleiros 
retiraram-se para a escurido, deixando Theido e Ronsard 
sozinhos com as brasas de uma fogueira que se ia extinguindo 
lentamente. - Agora, temos de esperar. Daqui a pouco, a Lua 
comear a descer e ficar suficientemente escuro para no 
sermos vistos.
     - Quando comearmos, nem uma alma do castelo de Ameron se
lembrar de te procurar. Disso, podes ter a certeza.
     - Por quanto tempo podes aguentar a manobra de diverso?
     - Pelo tempo que quiseres. Estamos bem preparados.
     - Ah, bem, ento est tudo pronto - suspirou Theido. - J 
agora, tambm podemos ir descansar. Temos de estar em forma 
para enfrentarmos o leo no seu covil.


        CAPTULO XLIV


     Os dois grupos reuniram-se nos limites da floresta: um 
era constitudo por duas dezenas de homens de armas e o outro 
por doze cavaleiros escolhidos a dedo. A Lua, que j 
atravessara o cu, descera para trs das rvores de Pelgrin, 
deixando a terra numa escurido completa. Com a sua forma 
macia e preta recortando-se num fundo ainda mais preto, o 
castelo erguia-se na encosta em frente. Se no fossem as 
estrelas, que brilhavam como as fogueiras do acampamento de 
uma hoste celestial, os sitiantes nem sequer teriam luz que 
chegasse para verem onde punham os ps.
     - Dar-te-emos tempo para te pores em posio - disse 
Ronsard. - Julgo que, quando iniciarmos a manobra de diverso, 
dars logo por isso. Com sorte, todo o castelo acordar muito 
em breve.

     Theido fez que sim com a cabea:
     - Estaremos a postos. No te descuides e mantm-te fora 
do alcance das flechas. No h necessidade de ningum ficar 
ferido esta noite. No te arrisques... pelo menos por 
enquanto.
     - Os ferimentos no so coisas que nos agradem muito, meu
amigo. No tenhas receio... manter-nos-emos bem longe das 
setas.
     Os dois homens separaram-se com estas palavras. Seguindo 
 cabea dos seus cavaleiros, Theido dirigiu-se para a margem 
do rio, onde o lento e escuro Sipleth corria silenciosamente. 
Depois de atravessarem o bosque durante o que lhes pareceu uma 
eternidade, os cavaleiros chegaram  margem oriental do 
Sipleth. O som da gua turbilhonando e rodopiando no seu 
leito, fez-lhes saber que a primeira fase da sua jornada 
estava completa.
     Caminhando em silncio, com as ferramentas e as armas 
embrulhadas para no fazerem barulho, o pequeno destacamento 
virou e seguiu em fila indiana ao longo da margem do rio, em 
direco ao castelo. Ao curvar em volta da rocha do castelo, o 
rio alargava e a margem erguia-se, formando um penhasco 
sobranceiro s guas negras, que seria invisvel se no fosse 
o piscar ocasional da luz das estrelas numa ou noutra 
ondulao da corrente.
     Os cavaleiros avanaram pelo penhasco acima, abrindo 
caminho por entre silvados e tufos de urtigas, mas os seus 
esforos foram recompensados quando Theido parou finalmente, 
passando para trs uma palavra sussurrada:
     - O castelo est mesmo  nossa frente. Vamos esperar.
     Mesmo  beira do penhasco, erguia-se a muralha ocide do 
castelo de Ameron. O grupo de atacantes ajoelhou-se no caminho
e aguardou o sinal, que no demorou muito, pois, enquanto 
esperavam silenciosamente abaixo da muralha, ouviu-se un grito 
distante, vindo de cima.
     - Disparar! - Esta ordem foi repetida muitas vezes, ao 
longo das ameias. Depois, enquanto o grito ia ecoando, os 
cavaleiros ouviram o bater de ps nas muralhas que ficavam 
directamente por cima das suas cabeas. - Disparar!
     Theido levantou a mo, indicando aos homens que 
permanecessem quietos.
     - Esperai! - sussurrou. - Dai-lhes mais tempo.
     Naquele momento, os gritos de alerta j se ouviam nos 
ptios do castelo e nas ameias mais distantes. Mas no 1hes 
chegou mais nenhum barulho de cima; por isso, Theido avanou 
furtivamente at  muralha ocidental, que ficava por baixo da 
torre, e percorreu-a toda, sempre olhando para cima.
     Dali a pouco, voltou e anunciou:
     - Parece que deu resultado. A sentinela retirou-se para o 
outro lado do castelo. Como no dispomos de muito tempo, temos 
de trabalhar depressa. Ide!
     Os cavaleiros entraram imediatamente em aco, pegando em 
rolos de corda e espetando pesadas estacas no cho. Depois, 
amarraram as cordas s estacas e comearam a descer pela beira
do penhasco, na direco do rio. Theido e dois archeiros 
ficaram a proteger as cordas, enquanto os seus camaradas 
estavam vulnerveis.
     Quando o ltimo cavaleiro desapareceu pela borda, Theido 
disse:

     - Vamos esperar outra vez. Ficai bem encostados  
muralha, no v a sentinela da torre regressar, e mantende-vos 
bem atentos ao meu sinal.
     Os dois cavaleiros fundiram-se com a escurido que 
reinava por baixo da muralha da torre. Afastando-se tambm da 
beira do penhasco, Theido sentou-se com as costas voltadas 
para a imensa cortina de pedra, rezando para que as sentinelas 
no regressassem to cedo,

     Theido no precisava de se preocupar, pois naquele 
momento todos os homens que serviam Ameronis ou estavam a 
despejar baldes de gua para apagarem os fogos que ardiam nos 
ptios ou a postar-se na muralha oriental com os seus arcos e 
flechas, de modo a impedirem que a fora sitiante lhes 
atirasse mais bolas de fogo.
     Quando o grupo de Theido partira, Ronsard e a sua fora 
tinham esperado que ele se afastasse bastante e, depois, 
haviam-se deslocado para o campo de batalha, arrastando com 
eles as grosseiras catapultas que tinham sido construdas 
nesse mesmo dia. Tratava-se de duas mquinas pouco graciosas, 
feitas de madeira e de cordas, com robustas cunhas de pinho, 
que tinham varas compridas de freixo amarradas, com fisgas 
numa ponta e contrapesos de pedra na outra. Juntamente com as 
catapultas, seguiam duas carroas de fardos de caruma muito 
seca, s quais bastava uma centelha para pegarem fogo 
imediatamente.
     As catapultas tinham sido puxadas por vrias parelhas de 
cavalos, que as haviam colocado por baixo das duas torres que 
ladeavam a casa da guarda, fora do alcance do mais determinado 
dos archeiros. Uma vez em posio, os cavalos tinham sido 
desamarrados e levados novamente para o acampamento e as 
mquinas de guerra muito bem presas ao cho com cordas e 
estacas. A um sinal de @onsard, dois cavaleiros tinham sado a 
galopar do acampamento com tochas acesas, dando incio  
tempestade de fogo que assolava o castelo de Ameron.
     As fisgas haviam sido carregadas com os primeiros fardos,
as catapultas ajustadas e a tocha aplicada  caruma, que 
rompera imediatamente em chamas. Quando a catapulta se soltara 
fsshiu!, a bola de fogo riscara os cus, descrevendo um arco 
perfeito em direco  muralha. Quase no mesmo momento, uma 
segunda bola de fogo voara do outro lado.
     O primeiro mssil passou por cima da muralha e das ameias 
e caiu no ptio. O segundo bateu na parte superior da muralha 
de pedra e deslizou para o cho.
     - Assume tu o comando, Ban. E continua a dar-lhes 
trabalho - ordenou Ronsard, correndo a ajudar a realinhar a 
segunda catapulta. Foi preciso algum tempo para mudar o 
contrapeso e alongar a vara de arremesso, mas, ainda antes, de 
o alarme se ter espalhado por todo o castelo, j a segunda 
catapulta lanava fogo atravs dos ares, com uma preciso 
mortal.
     - Tomai esta! - comentou Ronsard orgulhosamente, 
observando a bola de fogo a cruzar os ares e a cair mesmo 
dentro do ptio interior. - Isto deve mant-los ocupados 
durante grande parte da noite.

     Os archeiros que apareceram nas muralhas disparavam 
chuvas de setas, que riscavam os ares em direco aos vultos 
indistintos que se mexiam junto das catapultas. Mas Ronsard 
avaliara bem a distncia e as flechas caam no cho sem 
atingirem o seu alvo, o que arrancava gritos de desespero e 
frustrao aos que estavam nas ameias e exclamaes de jbilo 
aos que se en encontravam no solo. Entretanto, os msseis 
seguiam-se uns aos outros, iluminando a noite com as suas 
chamas.

     Ameronis foi arrancado do leito logo que as primeiras 
chamas apareceram no ptio: cara no telhado do estbulo uma 
bola de fogo que explodira, espalhando chamas pela palha e 
pelo feno. Assustados, os cavalos relinchavam e saltavam, 
enquanto os escudeiros e os pees enfrentavam as chamas, 
esforando-se por porem os animais em segurana. Assim, todo o 
ptio interior estava transformado num mar catico e agitado. 
Um outro fogo ardia perto das cozinhas.
     De punhos nas ancas, Ameronis berrava ordens para os que
o rodeavam, espumando de raiva por causa daquele ataque. At
momento, o ambicioso nobre tomara tudo como uma espcie de 
jogo, no fim do qual os despojos caberiam ao vencedor. Mas, ao 
ver que as foras do rei no estavam a brincar, o seu 
comportamento mudou abruptamente.
     - Mais baldes! - berrou. - Trazei mais baldes! - De p
no meio da confuso, elevava a voz acima do barulho, enquanto
os homens corriam, tentando salvar os estbulos.
     Com o o fogo no era grande e fora atalhado a tempo, 
depressa ficou controlado. A ferver de fria, Ameronis saiu do 
ptio interior e subiu s ameias.
     - Que tal esto a sair-se os archeiros? - perguntou ao 
seu comandante, que se chamava Bolen. 
     O jovem cavaleiro virou-se, com o rosto corado  luz da
tocha e de vrios pequenos fogos que ardiam no ptio exterior.
     - Mal, senhor. O inimigo est muito longe.
     - H estragos?
     - No ptio exterior, no. Parece que o objectivo das 
bolas de fogo  s incomodar-nos. No h feridos graves e os 
fogos apagam-se depressa.
     - No  bem assim! - resmungou Ameronis. - Se tivesses
estado comigo no ptio interior, verias o incmodo que estes 
projcteis podem causar! - Olhou colericamente por entre os 
merIes para a luz das tochas, que marcavam a posio das 
catapultas. Nesse preciso momento, uma bola de fogo embateu no 
torreo da casa da guarda, deslizou pelo telhado inclinado e 
caiu na muralha, obrigando uma dezena de soldados a 
esquivar-se atirando com as armas.
     - Posso mandar um contingente l fora acabar com isto -
sugeriu o jovem comandante. Os seus olhos cintilavam  luz 
bruXuleante com o entusiasmo de um homem pronto a enfrentar 
qualquer perigo para se distinguir ou para ganhar os favores 
do seu superior.
     - O qu? E abrir-lhes as portas?  precisamente isso que 
eles querem! - gritou Ameronis. - Para que queres a cabea, 
homem? No! De maneira nenhuma! Vamos aguentar o ataque o 
melhor possvel c esperar at ser de manh.
     - Desculpai, senhor - tartamudeou o jovem cavaleiro. - 
Pensei que...
     - Espera! - exclamou Ameronis, olhando para um e outro
lado das ameias. - Quem est de vigia nas outras muralhas?

     - Ningum - respondeu hesitantemente o comandante. - 
Quando soou o alarme, devem ter vindo ajudar...
     - Manda j as sentinelas para os seus postos! Quero que 
me comuniquem imediatamente tudo o que notarem de anormal.
Depressa! Quem sabe o que os ces dos homens do rei podem 
estar a preparar?

     - Descobriste alguma coisa? - Deitado de barriga para 
baixo na borda do penhasco, Theido falava com o homem que se 
encontrava pendurado na corda.
     - H uma faixa estreita de seixos ao longo da borda de 
gua, senhor. Estende-se pela margem, por baixo do penhasco. 
Mandei alguns homens examinarem-na nos dois sentidos, mas 
ainda no se descobriu nada.
     - Continuai  procura - disse Theido, pondo-se em p. 
Nesse momento, ouviu-se uma voz vinda das ameias.
     - Alto! Quem est a?
     O corao de Theido deu um salto.
     Meio agachado, meio levantado, ficou imvel como uma 
rocha, esperando que quem quer que estivesse l em cima no 
pudesse v-lo directamente, pois constitua um alvo fcil at 
para o pior dos archeiros.
     - Eh! - chamou a voz. - Traze aqui a tua tocha! Parece-me 
que est algum l em baixo.
     Theido ouviu os passos do segundo guarda, que corria a 
juntar-se ao primeiro com a sua tocha, e susteve a respirao. 
Estava mesmo  espera de ouvir uma seta assobiando na sua 
direco. O seu corao bateu uma vez... duas... trs. Depois:
     - No vejo nada l em baixo - disse uma segunda voz sada 
das ameias. - Vs sombras e pensas que so soldados! Volta 
para o teu posto e no tornes a chamar-me a no ser que vejas 
mais do que uma sombra nas rochas.
     O primeiro soldado resmungou e foi para o seu posto, na 
torre. Soltando a respirao, Theido recuou at  muralha, 
onde continuou  espera. De ambos os lados, de uma distncia 
de menos de vinte passos, ouviu as passadas suaves dos seus 
archeiros, que se retiravam, e percebeu que, mal o guarda o 
descobrira, estes tinham assestado duas flechas e retesado os 
arcos. Se algum dos dois guardas tivesse comeado a dar o 
alarme, teria morrido antes de conseguir acabar.
     Theido estendeu a capa por cima de si e encostou-se  
muralha. Dentro do castelo, ainda ecoavam alguns gritos 
ocasionais, mas j no se ouvia o frenesi inicial, provocado 
pela primeira revoada de bolas de fogo. A oriente, o cu 
comeou a ficar mais claro, adquirindo uma tonalidade azul de 
ferro, estampada num pano de fundo preto.
     Depressa! murmurou Theido de si para consigo. 
Depressa! J  quase de manh. Em breve teremos de nos ir 
embora, para no sermmos descobertos. Depressa! O tempo  to 
pouco!


        CAPTULO XLV


      medida que o cu ficava mais claro a oriente, as 
estrelas iam-se apagando. Ronsard e os seus homens ainda 
manejavam as catapultas, mas as bolas de fogo j eram menos 
frequentes.

     - Estamos a ficar sem fardos de caruma - informou um dos
homens. - No poderemos lanar-lhes bolas de fogo durante 
muito mais tempo.
     Examinando o cu, Ronsard disse:
     - Os outros j deviam ter regressado. Aguentai o mais que
puderdes. Com sorte, voltaro antes da primeira luz do dia.
     Depressa! pensou ele. Depressa,  antes que eles 
descubram ...
     Por um brevssimo momento, perguntou a si prprio: E se
j descobriram? Mas logo afastou este pensamento, dizendo de 
si para consigo: Se fosse assim, no sei como, mas teramos 
sabido.
     O cavaleiro de cabelos cor de areia virou os olhos na 
direco dos irregulares limites da floresta, que descia em 
declive at ao rio. Theido e o seu grupo regressariam daquele 
ponto. Mas no se via vivalma. Ningum o chamava das rvores e 
no chegava nenhum mensageiro a inform-lo de que tinha 
corrido tudo bem e de que estavam todos sos e salvos.
     V!, murmurou Ronsard. Daqui a pouco  dia!.
     As catapultas faiscavam, lanando os seus msseis em 
chamas para as majestosas muralhas do castelo, cujo brilho 
bao a luz fraca j deixava ver claramente. Mas o intervalo 
entre os projcteis era maior e, embora o inimigo continuasse 
nas muralhas e acudisse a apagar as bolas de fogo que iam 
surgindo, j no gritava nem se queixava, limitando-se a 
observar tudo com um interesse relativo, como se a durao do 
espectculo o tivesse aborrecido,
     s tantas, ouviu-se um grito e um homem afastou-se a 
correr da segunda mquina, dizendo:
     - Senhor. No temos mais fardos nem mais nada que lhes
possamos atirar. - Depois, ficou  espera das ordens de 
Ronsard.
     - Temos de continuar um pouco mais. Manda alguns homens 
ao acampamento arranjarem mais fardos. Os que esto l que os
ajudem. Precisaremos de caruma que chegue para as duas 
catapultas. Entretanto, temos de atrair as atenes dos que 
esto na muralha; por isso, enquanto as munies no chegarem, 
ordena aos teus homens que ocupem novas posies. - Apontando 
para o outro lado do campo de batalha: - Ali... mais para o 
meio.
     O soldado correu a cumprir as suas ordens. Ronsard cruzou
os braos e franziu o sobrolho para o cu.
     J devias ter voltado h muito tempo, Theido. Mando um 
destacamento  tua procura?
     Decidindo esperar um pouco mais, comeou a andar para 
trs e para diante entre as catapultas, olhando de vez em 
quando para a orla da floresta, por onde esperava que o seu 
amigo aparecesse a qualquer momento.
     O Sol aproximou-se do horizonte, incendiando o cu e 
dando-lhe uma tonalidade de um vermelho vivo, abaixo das 
nuvens cinzentas. Os contornos do castelo j se viam 
claramente. O fumo preto dos numerosos fogos acesos durante a 
noite era empurrado pelo vento que estava a levantar-se. Pelo 
menos, demos-lhes que fazer e no houve feridos entre os 
nossos, pensou Ronsard sombriamente.

     Quando os homens voltaram com mais fardos de caruma, 
Ronsard ordenou que as tropas fossem rendidas. Assim, os 
soldados que tinham trabalhado toda a noite foram substitudos 
por cutros, que lhes proporcionaram um descanso bem merecido. 
O novo contingente deitou mos  obra com todo o brio e as 
catapultas continuaram a funcionar.
     Cada vez mais angustiado com o atraso do amigo, Ronsard
entregou o comando das mquinas a um subordinado e regressou 
ao acampamento, com a inteno de formar um destacamento para
ir procurar Theido e o seu grupo. Uma vez os homens reunidos e 
armados, j se preparavam para tomar o carreiro seguido por
Theido quando ouviram uma voz vinda da floresta:
     - Eh! Ronsard!
     O cavaleiro girou nos calcanhares e deu de caras com os
homens de Theido, que se encaminhavam para eles atravs da
floresta, com os rostos marcados pelo cansao, mas dando-se 
ares de boa disposio perante os seus camaradas.
     - amos mesmo agora  vossa procura. j deveis ter 
regressado h muito tempo.
     - Tambm pensei que nunca mais saamos dali. As 
sentinelas voltaram para a muralha e para as torres e ns 
ficmos encurralados por baixo do penhasco. Tivemos de esperar 
que os vigias fossem rendidos.
     - Ento? Queres que adivinhe o resto?
     - Encontrmos a poterna secreta, bom amigo. O Ameronis 
esperto e tivemos de procurar toda a noite, mas encontrmo-la.
     Ouvindo isto, Ronsard e a sua equipa de buscas irromperam
em vivas, dando palmadinhas nas costas dos seus camaradas e
apertando-lhes as mos.
     - Onde ? Conta-me tudo o que sabes.
     Theido mandou os seus homens irem descansar e foi com
Ronsard para a tenda que fora erguida para seu posto de 
comando e aposentos privados. Uma vez chegados l dentro, 
sentaram-se a uma mesa tosca, de frente um para o outro.
     - Ao princpio, pensmos que nunca encontraramos nenhuma
entrada, secreta ou no. O penhasco que fica por baixo da 
muralha virada a ocidente tem uma superfcie lisa e desce 
muito abruptamente para a gua. Mas tem por baixo uma faixa de 
seixos por onde se pode andar... - Calando-se e apontando para 
uma caneca: - Ds-me gua?
     Ronsard pegou nela e encheu uma taa, que estendeu a 
Theido.
     - V, continua. O que descobriste?
     - Que bom! - replicou Theido. - Bem... ah, o rio curva
em volta da rocha do castelo. Seguindo sempre em frente, a 
praia alarga ao passar a rocha. Aqui - com os dedos, indicou 
os pontos na niesa - e aqui, a floresta desce at  gua. 
Mandei os meus homens percorrerem toda esta margem baixa at 
ao ponto em que volta a aplanar at  gua.
     - Ao princpio, ningum viu nada, mas, na segunda 
passagem pela margem, um dos homens descobriu uma caverna na 
parte de cima da superfcie do penhasco... era pequena, mas 
dava para se passar. Como est escondida por arbustos de 
zimbro,  impossvel v-la quando se vem de norte, mas da 
direco oposta detecta-se bem. Ento, os homens subiram at  
entrada e descobriram que, a cerca de meia dzia de passos, a 
caverna se transforma num tnel.
     - No!
     -  verdade - afirmou Theido. - O tnel, que  comprido
e tortuoso como uma cobra, vai dar a uma grade de ferro, que
tem atrs um porto.

     - Que se abre para o corao da toca do Ameronis! Muito
bem! Muito, muito bem! - Sorrindo abertamente para o amigo: - 
Foi uma noite bem passada. - A cabea do cavaleiro comeou
imediatamente a fazer clculos e planos para a campanha que
ia seguir-se. - A grade de ferro pode ser cortada?
     - Pode - respondeu Theido com um bocejo. - No vi o 
porto nem tnhamos tochas para examinar o tnel em 
condies... teve de se explorar tudo s escuras... mas como o 
tnel no  grande, chegou-se facilmente  grade, que pode ser 
cortada...  uma questo de tempo. O ferro  espesso e parece 
bem temperado. Vai levar o seu tempo.
     - Ento, temos de comear imediatamente. - Vendo a 
expresso de Theido, perguntou: - Consegue-se chegar ao tnel 
de dia sem se ser visto?
     - No. - Theido abanou a cabea, com um ar de cansao.
     - Pelo menos por terra, no. Mas se formos pela gua e 
seguirmos sempre chegadinhos  margem que fica abaixo das 
muralhas, talvez consigamos l chegar sem sermos detectados.
     - A nado?
     -  muito difcil, Nem poderamos levar as ferramentas de
que precisamos.
     - Mas no temos barcos.
     - Jangadas. Temos de construir duas jangadas 
suficientemente grandes para transportarem, cada uma, doze 
homens com equipamentos e armas.
     Ronsard fitou-o por cima da mesa:
     - Isso demora, pelo menos, um dia... at talvez dois.
     - No vejo outra soluo melhor. O nosso ltimo recurso
 escalar as muralhas sem ajuda do interior. O inimigo est 
bem equipado e tem muito mais provises do que ns; alm 
disso, no temos tempo para esperar que o cerco os enfraquea. 
No, a porta secreta  a nossa nica sada.
     Sem dizer nada, Ronsard ps-se a pensar no assunto. Por 
fim, reconhecendo que Theido tinha razo, disse:
     - Nesse caso, no posso continuar aqui sentado a perder
tempo. Vou mandar os carpinteiros comearem a construir 
imediatamente as jangadas. - Levantando-se para partir: - 
Ests com um ar cansadssimo. Vai dormir; eu vigiarei a 
construo das jangadas e chamar-te-ei, se for caso disso. - 
Caminhou at  entrada, afastou a cortina, hesitou e 
acrescentou: - Havemos de ganhar, Theido.
     A voz de Ronsard pedia a confirmao de Theido, sempre 
to seguro, to certo de que, no fim, era o bem que triunfava. 
Mas naquele momento o cavaleiro j no conseguia ter a mesma 
convico. Parecia que, independentemente de tudo o que 
fizessem, nunca ganhariam, que o mal que envenenara to 
rapidamente o reino j conseguira os seus intentos e que eram 
impotentes para evitar os seus efeitos.
     Entretanto, a interrogao de Ronsard ainda pairava no 
ar. Theido elevou os ombros e suspirou:
     - Quem me dera saber, bom amigo.
     Entreolharam-se por um momento, cada um tentando ler os

pensamentos do outro, sondando-lhes as profundezas para a 
encontrarem alguma reserva escondida de segurana ou de 
esperana. Por fim, Ronsard desviou o rosto e olhou para o 
acampamento, mas no viu os homens que por ali andavam, 
cozinhando o desjejum ao lume da fogueira, transportando lenha 
e gua e tratando das armas e dos cavalos. Com a luz 
batendo-lhe no rosto, Ronsard saiu da tenda de maxilares 
cerrados, deixando Theido entregue ao sono.


        CAPTULO XLVI


     Quentin percorria as passagens das altas muralhas do 
castelo. Inquieto, sem conseguir dormir, palmilhava os 
torrees e as ameias, com a capa curta esvoaando atrs de si 
como um par de asas e o cabelo desgrenhado caindo-lhe 
desordenadamente da cabea. Quem o visse pensaria que o rei 
enlouquecera e dera em vaguear pelas alturas a meio da noite, 
como os infelizes espritos que assombram os lugares mais 
desolados.

     O prprio rei no tinha bem conscincia do que andava a 
fazer. S sabia que j no conseguia ficar quieto; tinha de se 
mexer, andar, ir e continuar a ir para no sucumbir ao peso 
das trevas que lhe haviam entrado no corao. Nos ltimos 
dias, lutara com elas o suficiente para saber que no lhes 
podia ganhar. Prendiam-no num abrao mortal e acabariam por o 
arrastar para a poeira do esquecimento.
     Por isso, para afastar o inevitvel durante mais algum 
tempo, deanibulava  noite pelas muralhas,  luz plida da 
Lua, como um animal enlouquecido pela dor. Quentin sentia a 
noite pesando-lhe nos ombros, envolvendo-o no seu abrao de 
veludo, consumindo-o. Olhando para oriente, viu a orla escura 
de Pelgrin marcando os limites da plancie larga e lisa. 
Depois de Pelgrin, para nordeste, ficava
Narramoor e o Grande Templo, que contemplava todo o reino do
cimo do seu planalto de pedra.
     Algures dentro daquele templo, o filho esperava que o 
fosse salvar... como ele, quando era rapaz, esperara que 
algum o tirasse daquele lugar. E fora salvo... por um 
cavaleiro moribundo que lhe confiara uma misso que s ele 
poderia cumprir. Nesse tempo, fora fcil... fora fcil 
acreditar e seguir em frente sem necessitar de sinais ou, pelo 
menos, sem precisar constantemente deles.
     Agora era muito mais difcil. Deixara de ser o aclito 
simples e confiante, sem lar nem famlia, que tinha pouco a 
perder. Agora era o Rei Drago, comandante do seu povo, 
protector do reino. Infelizmente, no andava a ser um grande 
protector. No fora capaz de impedir a morte de Durwin, nem o 
rapto do filho, nem nenhum dos muitos problemas que o 
afligiam. O deus retirara dele a sua mo e a sua bno e 
abandonara-o, deixando-o sozinho e desesperado.
     Que assim fosse. O deus retirara-se e abandora-o, como 
costume dos deuses. No podia fazer nada contra isso; afinal, 
era apenas um homem. Aos deuses o que era dos deuses, cujas 
decises no podiam ser influenciadas nem mudadas por simples 
mortais. E, embora Quentin tivesse acreditado em maravilhas, 
em prodgios do Deus Altssimo, e lhe houvesse confiado a sua 
vida e as vidas dos que amava, o deus, como todos os deuses, 
dera-lhe a maior das desiluses.
     No entanto, tinha duas opes: podia abandonar asua f no

Altssimo e reclamar a sua vida para si ou podia continuar a 
acreditar, a servir e a confiar, apesar de no haver razes 
para o fazer, apesar de o bom senso lhe dizer para arrancar de 
si a f que durante tanto tempo o levava a confiar cegamente 
num deus que mentia ao afirmar que se interessava pelo destino 
dos seus filhos, Alguma vez houvera algum deus que se dera ao 
trabalho de fingir que se interessava pela sorte dos seus 
seguidores? Os velhos deuses, pelo menos aqueles dos quais lhe 
tinham falado no templo, de certeza que no estavam nada 
preocupados. Se os desgnios dos deuses ultrapassavam os 
homens, ento fazia mais sentido acreditar no nico que trazia 
consigo a esperana de alguma coisa maior do que os 
deplorveis rituais encenados pelos insolentes sacerdotes do 
Grande Templo.
     Os velhos deuses? Aqueles antigos impostores etreos? As 
formas vagas e caprichosas que os homens invocavam, adoravam e
veneravam com o nome de deuses? Sabendo o que eram, como podia 
acreditar neles? Servira tempo suficiente na qualidade de 
aclito do templo para saber que eram os lbios mortais de um
sacerdote, encostados a um buraco da pedra, que pronunciavam o
orculo do deus, cujas exigncias tambm se deviam  sua
ganncia.
     O Deus Altssimo, pelo menos, no prodigalizava os seus 
favores nem distribua orculos em troca de objectos de ouro e 
prata. Quando falava, fazia-o directa e poderosamente. Sim, 
Quentin sentira esse poder. Mesmo j no o sentindo e talvez 
nunca mais voltando a senti-lo, lembrar-se-ia sempre do tempo 
em que no tivera dvidas de que o deus lhe falara e o 
investira com os seus poderes.
     Isto era mais do que palavras pouco claras, sussurradas 
atravs de um buraco escondido numa pedra. Aqui havia 
esperana, coisa que os velhos deuses da terra e do ar, das 
encruzilhadas e dos lugares altos, da gua corrente e das 
estaes, nunca poderiam dar. Quentin ainda se recordava do 
que era viver sem essa esperana, ainda se lembrava do 
doloroso desespero que se abatia sobre ele quando, em rapaz, 
deitado no enxergo de palha da sua cela, passava a noite a 
rezar para que a verdade lhe fosse mostrada. Depois esperava, 
escutava e esperava outra vez, mas s ouvia o eco das suas 
prprias palavras, que troavam dele no vazio silencioso,
     No, tendo encontrado a esperana que procurara durante 
tanto tempo, no a abandonaria agora. No poderia viver sem 
esperana pois, sem ela, no havia vida. Seria melhor uma vida 
sem vista, tacto, gosto ou qualquer outra coisa, incluindo o 
amor, do que uma vida sem esperana. Conhecia bem esse caminho 
e no queria voltar a percorr-lo.
     Em Dekra, vira a diferena pela primeira vez e 
apercebera-se do contraste existente entre a imitao barata 
da velha religio e a verdadeira f. Ah, Delcra... com o seu 
povo carinhoso e bom e a sua serenidade. Ele no estaria 
destinado a viver os seus dias em paz, rodeado de amor e de 
beleza? Infelizmente, no. Quentin sabia que no destino que 
lhe fora traado no havia lugar para Dekra.
     Mas, de certa forma, chegava-lhe saber que existia um 
lugar assim na Terra e que, de vez em quando, poderia l ir e 
reviver o seu esprito. Sim, isso bastava-lhe; era uma coisa 
que podia aceitar, pois, estivesse onde estivesse, teria 
sempre consigo uma parte de Dekra.
     O deus queria estar com ele? No queria? Que assim fosse.

No podia mandar no Altssimo... que deus permitiria que 
mandassem nele? Mas podia acreditar. Isso, podia, e nem sequer 
o Altssimo seria capaz de o impedir. Podia acreditar e ter 
esperana, mesmo que isso lhe custasse a coroa e a vida!
     Nesse momento, viu claramente a sua opo e deixou de lhe
interessar o que o deus poderia fazer por ele. Acreditaria, 
mesmo que isso fosse a sua desgraa; continuaria a confiar, 
mesmo que o deus se mostrasse pouco digno de confiana. Ycseph 
acreditara e morrera acreditando. Durwin acreditara e tambm 
levara a sua f para a sepultura. Muito bem: Quentin no faria 
menos do que os homens que amara e que lhe tinham ensinado 
aacreditar. Acreditaria e seguiria em frente com todas as 
foras que lhe restavam.
     Uma vez tomada esta deciso, Quentin virou novamente os
olhos para o Grande Templo. Embora a distncia no lhe 
permitisse v-lo, sabia que estava ali, empoleirado no seu 
planalto como uma ave de rapina aguardando o seu prximo 
festim de carne morta. Sim, dentro daquelas paredes, o seu 
filho esperava ansiosamente a sua chegada. Pois iria at ele. 
Poderia dizer-lhe pai se no fosse? Iria, mesmo que isso 
significasse separar-se da espada. Que rei seria ele se 
permitisse que o seu nico filho, herdeiro do trono, fosse 
morto, enquanto tinha vontade e foras para o evitar?

     As duas grandes jangadas, feitas de troncos a marrados 
com cordas, deslizaram para as guas escuras do Sipleth, 
subindo para cada uma delas doze soldados armados e equipados 
com as ferramentas necessrias para forar a grade de ferro e 
o porto que guardavam a entrada secreta do castelo de Ameron.
     Depois de estarem carregadas e com os passageiros 
instalados no meio, dois homens com varas compridas empurraram 
as desgraciosas embarcaes para a vagarosa corrente. No 
seria fcil navegar contra a corrente, mas, como a gua no 
tinha muita fora perto da margem, os homens das varas l iam 
conseguindo fazer as toscas jangadas subirem o rio.
     Theido encontrava-se sentado com os seus homens no meio
da embarcao da frente, que subia laboriosamente a corrente 
at ao local, situado abaixo das muralhas, em que  a margem 
lhes dava espao para desembarcarem e seguirem a p para a    
 entrada da caverna.
     os carpinteiros tinham passado o dia a mourejar na 
construo das deselegantes jangadas, e Theido ficara muito 
aliviado ao descobrir que as plataformas grosseiras e 
pesadonas at flutuavam bastante bem. Como j estavam prontas 
 tardinha, ordenara que as pusessem na gua, de forma a 
aproveitar a noite para melhor encobrir as suas actividades. 
Theido no tinha dvidas de que seriam descobertos e todos os 
seus planos ficariam estragados se a sentinela colocada na 
muralha suspeitasse do mais pequeno som. Se Ameronis 
desconfiasse de que tinham descoberto o seu tnel secreto, 
defend-lo-ia sem qualquer problema bastariam trs archeiros
para deter qualquer nmero de cavaleiros.
     Naquele momento agachado com os seus cavaleiros, Theido
escutava a gua marulhando e chapinhando  medida que 
deslizavam ao longo das margens cobertas de matagal, esperando 
que ningum os ouvisse nem os visse passando por baixo das 
muralhas. Os homens manejavam as varas, empurrando as jangadas 
para a frente, mas sempre mantendo-as o mais perto possvel da 
margem. Depois do que lhes pareceu uma eternidade, chegaram ao

ponto em que a rocha do castelo se erguia e o rio a rodeava,
escavando o penhasco de pedra. Deslocando-se cuidadosamente e 
com uma lentido exasperante, pois as torres, embora 
invisveis, ficavam directamente acima delas, as jangadas 
foram avanando a pouco e pouco. Theido ps-se a perscrutar a 
noite e a superfcie do penhasco, em busca dos arbustos de 
zimbro que escondiam a caverna.
     Ao descreverem a curva em volta da rocha, Garth, que na
noite anterior tambm participara na descoberta do tnel e que
chegara mesmo a estar l dentro, levantou silenciosamente o 
brao e apontou para um ponto a meio do penhasco, que, para 
Theido, mal passava de uma marca escura gravada na pedra mais 
clara. Sem falar. fez que sim com a cabea. Sim, estavam quase 
l.
     A primeira jangada encostou  faixa de seixos, arranhou 
docemente e imobilizou-se. Os homens mais prximos saltaram 
logo para terra e comearam a descarregar as armas e o 
equipamento, no que foram imitados pelos outros. A segunda 
jangada parou atrs da primeira e os que estavam a bordo 
fizeram meno de desembarcar, mas a ansiosa partida dos 
primeiros soldados desequilibrou-a perigosamente, fazendo-a 
inclinar-se e atirar para o rio com os restantes passageiros, 
no meio de um tremendo chapo.
     Os que estavam em terra imobilizaram-se, com o corao
batendo-lhes fortemente dentro do peito, enquanto os seus 
camaradas nadavam para terra e saam da gua o mais 
silenciosamente possvel. Sustendo a respirao, cada um 
daqueles homens rezava para que ningum tivesse ouvido o 
barulho.
     Ficaram  espera.
     L de cima, do alto da muralha, veio um grito e outro em
resposta. As palavras no se distinguiam, mas Theido achava 
que era um dos vigias chamando o outro e perguntando-lhe o que 
seria aquela agitao. Depois, ouviram-se vozes: estava algum 
debruado nas ameias, tentando vislumbrar a causa do chapo.
     Theido levantou a mo, indicando que toda a gente devia 
permanecer imvel como uma pedra. Por um momento, tornou a 
viver a aventura da noite anterior, quando fora quase 
descoberto. Depois, ouviu-se um grito, que soou distintamente 
nos seus ouvidos:
     - No  nada - disse uma voz. Os homens amontoados l
em baixo deram um suspiro de alvio.
     Theido fez-lhes sinal para retomarem o seu trabalho, e as 
jangadas, j descarregados, foram empurradas rio acima, at ao 
ponto em que a margem baixava e a floresta crescia mais perto 
da gua, e escondidas entre o matagal. Os outros soldados 
formaram uma cadeia humana e comearam a passar o equipamento 
de mo em mo pelo penhasco acima, para dentro da abertura.
     Garth e Theido subiram  caverna e rastejaram l para 
dentro. Garth pegou numa pederneira e num fuzil e foi buscar
uma tocha ao meio do equipamento que estava a ser empilhado  
entrada. Dali a pouco, com a tocha ardendo intensamente na 
mo, disse:
     - Agora  que vamos ver o que nos espera.
     Segurando a tocha bem alto, embrenhou-se com Theido nas 

profundezas da caverna. Depois de percorrerem um corredor 
estreito, da largura de uma galeria, chegaram a uma parede, 
onde fora escavada uma abertura, de onde saa um tnel cortado 
na pedra mole.
     - H muito tempo atrs, o rio escavou esta caverna. 
Quando construram o castelo, descobriram-na e ligaram-nos por 
meio desta passagem - explicou Garth, apontando para a 
superfcie polida da pedra.
     Depois, baixando a cabea, passou pela abertura. Theido 
seguiu atrs dele. O tnel era mais estreito do que a caverna, 
tendo espao apenas para um homem de cada vez. A medida que 
avanava para o castelo, a passagem secreta ia subindo 
lentamente. O cho era quase todo seco e poeirento, mas, 
quando chegaram ao porto, Theido reparou na gua que escorria 
das paredes. Indicando-a com a tocha, Garth disse:
     - Sem dvida que estamos a passar por baixo da cisterna
do castelo.
     Por fim, chegaram a um stio onde as paredes do tnel 
alargavam um pouco. Em frente, erguia-se a grade de ferro, que 
cintilava toscamente  luz da tocha.
     -  aqui - anunciou Garth, colocando a tocha numa argola
cravada na pedra, ao lado da grade. - Agora que tenho luz para
a ver, parece-me muito mais robusta do que pensava - observou, 
passando a mo pelo ferro, para lhe avaliar a espessura e a 
dureza.
     - Pois est muito bem feita, como seria de esperar do 
Ameronis e da sua raa. E parece em perfeitas condies.
     - No tem nem um pontinho de ferrugem, senhor.
     - Os ferreiros vo ter muito que fazer, o que  mais uma
razo para comearem j.
     - Muito bem, senhor. - Garth virou-se e comeou a 
percorrer outra vez o tnel, s escuras.
     - Garth - chamou Theido -, manda trazerem as armas para 
aqui. Quero t-las  mo. - O cavaleiro partiu e Theido voltou 
a examinar a barreira de ferro que tinha  frente. 
Conseguiriam for-la a tempo? E, uma vez o caminho  
desimpedido, o que encontrariam do outro lado?


        CAPTULO XLVII


     Bria levantara-se muito antes de o Sol nascer e acordara 
os seus guardas, de modo a estes comearem a preparar a 
carruagem e os  cavalos para a jornada do dia. Em dois dias 
tinham atravessado a charneca hmida que ficava entre as 
montanhas baixas de Dekra e Malmarby e, ao cair da noite, 
haviam chegado ao local onde tinham abandonado a carruagerE e 
onde montaram o acampamento para passarem a noite.
     Depois de terem deixado Dekra, a sensao de urgencia 
apoderara-se da rainha. A cada passo que dava na direco de 
Askelon, parecia-lhe ouvir uma voz lamentosa, que lhe 
sussurrava que fosse depressa, cada vez mais depressa, antes 
que fosse tarde. E Bria, atenta a este chamamento interior, 
incitara o grupo a estugar o passo.
     Vendo a mudana operada na filha, Alinca pergtjntara-lhe 
no dia anterior, quando tinham parado no caminho para comer:
     - O que , querida? O que se passa?
     Com os olhos verdes postos na direco de Askelon, Bria
confessara:
     - O que se passa? No sei, mas sinto que vai acontecer

qualquer coisa e que tenho de estar l para ajudar ou para 
impedir... no sei bem. Mas o corao diz-me para me apressar 
e sinto que devemos dar-lhe ouvidos. No podemos ir devagar, 
me.
     -  por causa do Gerin?
     Bria pensara no assunto na qualidade de me. Mesmo que
esteja longe, a me sabe sempre quando acontece alguma coisa 
ao seu filho.
     - No, no tem nada a ver com o Gerin. Estou descansada 
quanto  a ele. Acho que tem mais a ver com o Quentin.    
     - Ento, tem alguma relao com a viso da Esme?
     - Deve ser isso... pelo menos, em parte. Mas no sei o 
que se espera de mim. No entanto, sinto que temos de andar 
depressa, para regressarmos a Askelon o mais cedo possvel.
     Naquele momento, na madrugada de um novo dia, Bria tinha
uma sensao de urgncia to forte que fora acordar os outros,
para mais rapidamente poderem levantar o acampamento. As 
princesinhas, ainda a bocejar e a esfregar os olhos 
sonolentos, salpicaram o rosto de gua e divertiram-se a ver 
qual das duas ficava pronta mais depressa. Arrebanhando-as, 
Alinea no as deixou irem estorvar os homens que preparavam a 
carruagem. Bria entregou-se ao trabalho de tornar a guardar os 
acessrios usados durante a noite e de ajudar a acondicionar 
as provises na carruagem.
     Esme, por seu lado, tambm ajudou, mas com um ar um tanto
ausente. Desde que tinham sado de Dekra que se retirara cada
vez mais para dentro de si prpria. Com as lindas feies 
enrugadas devido  concentrao, mostrava-se meditabunda e 
contemplativa, entregando-se a longos perodos de silncio. O 
que sentia no seu ntimo ou o que pensava com tanta 
intensidade, que a tornava to taciturna e distante, era coisa 
que ningum podia determinar, pois, quando Bria tentava 
despert-la, respondia com toda a simplicidade:
     - Estou um bocado preocupada, Desculpa. - Mas, logo 
depois de tentar conversar com os outros, voltava a deixar-se 
levar lentamente pelos seus intensos devaneios.
     Quando, por fim, ficaram prontos, j o Sol espreitava por 
cima da crista das montanhas que ficavam a oriente, atrs 
deles. Virando-se, Esme lanou um olhar saudoso na direco de 
Dekra e, depois, voltou-se abruptamente, montou a cavalo e 
seguiu a fila formada atrs da carruagem. Chegaram a Malmarby 
a meio da manh, saudaram a aldeia inteira e pediram a Rol, o 
barqueiro, que os levasse ao outro lado da enseada, onde os 
esperava a Estrada do Rei que se estendia para l da Muralha 
de Celbercor.
     Primeiro. Rol atravessou a carruagem com os cavalos e 
dois guardas e, depois, foi buscar o resto dos passageiros. 
Esme sentou-se sozinha na proa do barco e virou-se, pondo-se a 
olhar para baixo. As guas da enseada de Malmar, muito funda e 
escura, eram silenciosas e lmpidas. Contemplando-as Esme 
sentiu-se deslizar e flutuar naquela superfcie espelhada, que 
se estendia at  grande muralha que, na outra margem, se 
erguia das profundezas. 
     A muralha, pensou. A muralha tem qualquer coisa. Mas o 
qu? Enquanto estava sentada a observ-la, a muralha pareceu
mudar, crescer, espraiar-se por todo o reino e estender-se at
rodear Mensandor com a sua superfcie lisa e regular, feita de
pedra preta. E cresceu, cresceu, at tapar a luz do Sol.

     Oh, no!, arquejou. Estamos encurralados! Daqui a 
pouco, no haver luz. Ao olhar novamente para l, viu uns 
sacerdotes de tnica caminhando em cima da muralha, e percebeu 
que eram eles que a faziam crescer, que a incitavam a 
tornar-se mais comprida. Depois, a muralha mudou e formou 
paredes, pilares e um tecto de pedra... um templo... o Grande 
Templo. E havia uma multido percorrendo a estrada em direco 
ao templo, serpenteando ao longo do carreiro sinuoso que 
levava ao cimo do planalto onde se erguia o Grande Templo, s 
tantas, ouviu o assobio de uma rajada de vento e viu colunas 
de fumo, que lhe taparam a vista; espreitando por entre o 
fumo, Esme j no viu um templo, mas um amontoado de pedras e 
escombros, um lugar ermo cheio de ervas e silvas, onde as 
corujas soltavam o seu piar solitrio e espectral...
     - Esme!
     A princesa sobressaltou-se ao ouvir o seu nome. 
Virando-se, viu Bria sentada ao seu lado. No ouvira a amiga 
aproximando-se.
     - Esme! O que se passa?
     Pegando nas mos de Bria, Esme virou novamente os olhos
para a muralha:
     - Tive outra viso. O deus falou-me outra vez. - 
Contemplando a Muralha de Celbercor, forte e inacessvel, 
arrepiou-se, como se tivesse frio, olhou para Bria e anunciou 
com um ar muito srio: - Temos de ir ao templo, Bria.
     Bria examinou o rosto da amiga, procurando um sinal ou
qualquer coisa que explicasse as suas palavras.
     - Sim? Ao templo? Porqu?
     Esme apertou mais as mos de Bria:
     - Sim. No vamos para Askielon, Por favor. O templo...
vi-o claramente.
     - E que mais viste?
     - S isso. A muralha mudou e transformou-se num templo...
E sacerdotes... vi sacerdotes duas vezes.  a confirmao da 
minha viso. Vai acontecer qualquer coisa no templo e temos de 
estar l.
     Assentindo com a cabea, Bria respondeu:
     - Eu tambm tenho andado muito inquieta desde que samos
de Dekra, como se estivesse a ser espicaada para andar mais
depressa. Mas o templo... e o Quentin?
     Esme abanou a cabea:
     - No sei. No o vi, mas havia uma multido reunida no
trio do templo e eu soube que ns devamos estar com ela.
     Bria mordeu o lbio e ps-se a pensar.
     - Por favor - pediu Esme, - Estou plenamente convencida
da verdade do que vi. Sei que  um sinal do Altssimo.
     - Muito bem - retorquiu lentamente a rainha. - Faremos
um desvio e dirigir-nos-emos para Narramoor e para o Grande
Templo. E rezemos para que cheguemos a tempo de fazer o que o 
deus nos destinou.
     - Ser por isso que rezarei - rematou Esine.

     Ronsard esperou todo o dia no seu posto, nos limites do
campo de batalha, vendo o Sol elevar-se acima das copas das

rvores, cruzar a abbada celeste e comear a pr-se.  
tardinha, ainda no tinha notcias de Theido. Os cavaleiros e 
os guerreiros esperavam desassossegadamente, polindo as lanas 
e as espadas e tratando das armaduras, para que tudo estivesse 
em condies, pois, quando Theido desse o sinal, Ronsard iria 
com as suas tropas assaltar as muralhas do castelo.
     Pelo seu lado, Theido e os seus homens deviam entrar no
castelo pela passagem secreta, esgueirando-se por trs das 
tropas de Ameronis, para abrirem as portas aos seus camaradas. 
Mas como ainda no fora dado o sinal, o porto ainda no devia 
ter sido forado.
     Por isso, quando o crepsculo comeou a alongar as 
sombras do acampamento da floresta, Ronsard deu ordem para 
destroar.
     - No podemos assaltar as muralhas s escuras - afirmou.
- Mas amanh, com ou sem porta secreta, teremos de  combater.
J no temos tempo para esperar mais. - Virando-se para o seu
comandante, deu-lhe instrues no que respeitava s tropas e
afastou-se do campo de batalha, dizendo: - Se chegar alguma
mensagem, estarei na minha tenda.

     Os homens espalhados pelo acampamento comearam a tirar
as armaduras e a pousar as armas. Despindo tambm a couraa
e o gorjal logo que entrou na tenda, Ronsard encaminhou-se 
para a bacia pousada no seu trip, mergulhou as mos na gua 
fresca e molhou a cara.
     Outro dia que passou, pensou. E j no temos mais. Tem
de ser amanh; de contrrio, o filho do rei morrer. 
Debruado sobre a bacia, com as mos a pingar, olhou para l 
da tenda, imaginando o principezinho cativo nas garras do 
detestvel sumo sacerdote e vendo o menino amarrado e colocado 
sobre o altar, com o punhal cravando-se no seu corao 
confiante.
     - No! - gritou, batendo com a mo aberta dentro da 
bacia. A gua salpicou tudo e saiu pela borda. - Enquanto eu 
respirar, no ho-de fazer mal ao prncipe! - jurou. Ouvindo 
um barulho atrs de si, estendeu a mo e disse para o 
escudeiro: - D-me uma toalha.
     - Eu tambm fiz o mesmo juramento.
     Ronsard levantou o rosto e viu pela primeira vez quem 
estava consigo.
     - Quentin! Tu ... Pensava...
     Quentin fez um breve sorriso.
     - J sei o que pensavas. Mas no interessa. Toma... 
Limpa-te e depois falaremos - afirmou, estendendo ao cavaleiro 
todo molhado uma tira de tecido limpo.
     O rei tirou as luvas de montar e a capa e sentou-se num 
dos bancos que estavam junto da mesa. Ronsard passou a toalha 
pelo rosto e limpou as mos, sem deixar de examinar o homem 
que tinha  frente, como um fsico estuda um doente que, de 
repente, sem ningum estar  espera, se levanta do seu leito 
de enfermo.
     - Estou cansado, Ronsard. De Askelon at aqui  uma 
jornada comprida. Ser que o Ameronis tem assim tanta vontade 
de fazer muitas vezes esta viagem? Mas  verdade que ele 
sempre foi um bom cavaleiro...
     - Permite-me mandar buscar alguma coisa para comer. Era o 
que eu ia fazer mesmo agora.
     - Manda, manda. Tambm tenho fome. No comi nada durante 
todo o dia.
     - Deves estar morto de fome! - quase gritou Ronsard.

     Ali,  sua frente, estava sentado o rei, que, ao que tudo 
indicava, se encontrava no seu juizo perfeito. Ronsard no 
detectava no amigo nenhum sinal da melancolia que to 
recentemente o afectara. Na verdade, o seu aspecto civilizado 
escondia uma postura extremamente sria; era claro que o rei 
se esforava por manter a compostura. E a fadiga pesava-lhe 
nos ombros como um fardo, fazendo-o curvar-se e descorando-o.
     Mas o importante era que estava ali a falar com uma 
pessoa que sabia o que fazia, com objectivos e razes por trs 
de cada aczo. Sem dvida que este era o melhor dos sinais.
     Ronsard afastou a cortina da tenda, foi ordenar a um 
escudeiro que lhes trouxesse de comer e de beber e voltou dali 
a pouco.
     -  bom ver-te outra vez. Pensvamos... isto , tnhamos
medo...
     - Tnheis medo de que o vosso rei vos tivesse abandonado
completamente. - Respondendo ao olhar de Ronsard: - Bem, 
tnheis razo, Eu tinha-vos abandonado. Mandei-vos travar a 
minha batalha e fiquei metido entre quatro paredes, chorando 
de autocompaixo e dor. Mas acabou-se. Mesmo que tenha s mais 
um dia para ser rei, serei rei e no um covarde.
     Ronsard animou-se ao ouvir Quentin falar assim: com fogo 
na voz e um tom decidido,
     - Senta-te, senhor - disse Quentin -, e conta-me tudo o 
que se passou at agora.
     Ronsard instalou-se no banco oposto, pousou os citovelos 
na mesa e comeou a narrar tudo o que acontecera desde que 
tinham chegado a Ameron-on-Sipleth. Enquanto conversavam, o 
escudeiro entrou com a refeio e p-la na mesa. Fazendo-lhe 
sinal para que se fosse embora, Ronsard indicou-lhe assim que 
queriam ficar sozinhos e que se serviriam a si prprios.
     Quentin escutava atentamente, assentindo com a cabea de
vez em quando, enquanto ia comendo e metendo a mo no trincho. 
Quando Ronsard acabou de falar, levantou a taa, esvaziou-a e
disse:
     - Tu e o Theido saram-se muito bem, Estou satisfeito.
     - Amanh comandars as tropas?
     Depois de pensar no assunto, Quentin inclinou a cabea, 
em sinal de assentimento:
     - Se o Ameronis quer a coroa, tem de enfrentar o seu rei.
Vou, Vou comandar as tropas. Ele tem de me ver  cabea do meu 
exrcito, para saber com quem est a combater.
     Ronsard sorriu:
     - Excelente! Este  o Quentin que conheo! Aqueles 
chacais ho-de meter o rabo entre as pernas e fugir a sete 
ps!
     - Sabes bem que no ergueria a minha espada contra eles 
se isso pudesse ser evitado. Preferia que nem um homem ficasse 
ferido, mas est em jogo a vida do meu filho e no posso 
faltar-lhe.
     Ronsard abriu a boca para falar, pensou melhor e fechou-a 
outra vez. Mas Quentin interpelou-o:
     - O que ? Fala... conhecemo-nos bem de mais para 
escondermos as coisas um do outro.
     - Como queiras, senhor - comeou Ronsard, hesitando outra
vez.  - As palavras custam-me a sair.
     - No te sairo mais facilmente se as calares.
     O robusto cavaleiro desviou o olhar e perguntou:
     - O que fars se no conseguirmos recuperar a espada?

     - No sei. Se achasse que a soluo era ir ao Grande 
Templo com uma fora armada, j o teria feito sem mais 
demoras. Mas no me atrevo a pr o meu filho em perigo, 
Ronsard. Temos de tentar recuperar a Brilhante. - Depois de 
uma pausa, acrescentou em voz baixa: - Se isso falhar, temos 
de confiar na vontade do Altssimo. No se pode fazer mais 
nada.

     - Quanto tempo mais? - indagou Theido, com o suor  
pingando-lhe da testa e escorrendo-lhe pelo pescoo. Garth 
olhou para trs e abanou a cabea tristemente.
     - Ainda no se sabe, senhor. Pelo menos, umas horas... ou
talvez mais. - Fazendo um gesto com o polegar por cima do
ombro, o musculoso cavaleiro apontou para os homens que
trabalhavam, tentando cortar as barras de ferro da grade, com 
a ajuda de vrias ferramentas.
     - Substitui os homens e passa a revez-los regularmente a
partir de agora. Depois de passarmos o porto, ainda temos de 
combater. No os quero exaustos ainda antes de terem de 
empunhar as espadas.
     -  o calor deste maldito tnel que lhes esgota as foras 
- observou Garth. - Se no fosse isso, j teramos conseguido 
cortar a grade h muito tempo.
     Theido virou-se e foi at  barreira. Apesar de todos os
esforos tinham conseguido retirar apenas uma pequena seco 
da espessa grade de ferro. A segunda tambm estava quase 
solta, mas para que um homem armado passasse depressa era 
necessrio cortar uma terceira e uma quarta. No havia nada a 
fazer seno continuar a retalhar a estrutura, ao mesmo ritmo 
lento e exasperante.
     As tantas, Theido afastou-se, voltou a percorrer o tnel 
estreito at  abertura da caverna e saiu para a noite fria. 
As pancadas e as marteladas das ferramentas dos trabalhadores, 
que amolgavam o ferro com os seus escopros, ecoavam pela 
passagem.
     Abaixo da caverna, os soldados cujos servios no eram, 
naquele momento, necessrios junto da grade, descansavam na 
faixa de seixos, ao lado da gua. A Lua, que j se erguera, 
cintilava no rio escuro e banhava o penhasco e as muralhas do 
castelo com uma luz fantasmagrica.
     Os soldados levantaram o rosto ao ouvirem Theido descer 
at onde estavam. Alguns progressos? perguntou o seu olhar. 
Nenhum, respondeu a expresso de Theido, que se sentou no 
meio deles.
     Um dos homens, um cavaleiro chamado Olin, inclinou-se 
para Theido e indagou:
     - O que acontecer se no conseguirmos forar a grade? O 
que faremos?
     - H-de ser forada - retorquiu Theido com severidade.
     - Sei que sim... h-de acabar por ser. E se o dia raiar 
primeiro?
     Voltando para ele uns olhos pouco animados, Theido 
retorquiu:
     - O Ronsard vai atacar de madrugada. No tem outra sada.
Com ou sem a nossa ajuda, assaltar as muralhas.
     Olin fitou Theido em silncio.
     - Pediste a verdade... aqui a tens.
     -  uma verdade muito dura, senhor. Ir contra as muralhas

 morte certa. Catapultas e aretes...
     Theido cortou-lhe a palavra:
     - No temos tempo para esperar que as catapultas dem
cabo das muralhas e que os aretes desfaam as portas. No 
temos tempo.
     - Ento, se fracassarmos aqui, morreremos.
     - E no ser s isso. Se falharmos, o reino, que no vai 
nada bem, morrer connosco. - Theido assentiu lentamente com a
cabea, contemplando a gua que corria devagar. - Pensavas que
no havia tanto em jogo?
     - Pensava, senhor - respondeu o cavaleiro. - Pensava que
era s para salvar o prncipe.
     - O prncipe, ns prprios e a nossa nao.
     Olin no disse nada durante muito tempo. Depois, sem mais
uma palavra, ps-se em p, voltou a subir o penhasco, entrou 
na caverna e foi ocupar o seu posto junto da grade, ao lado 
dos outros trabalhadores,

     Ento, Theido viu levantar-se, um a um, todos os que 
descansavam e que tinham acabado de sair do tnel, para 
subirem  caverna e pegarem outra vez nas ferramentas.


        CAPITULO XLVIII


     Quando o dia, bonito e limpo, nasceu a oriente, o Rei 
Drago levantou a mo enluvada e esporeou Blazer. O poderoso 
cavalo de guerra deu um salto para o lado e escoiceou. Sentia 
no ar o cheiro da batalha e o sangue guerreiro correndo-lhe 
nas veias. Estava ansioso por galopar com o seu dono para a 
refrega. Quentin, com Ronsard  esquerda, avanou para o campo 
de batalha. A sua armadura cintilava aos primeiros raios de 
luz.
     Envergava a armadura que o lendrio Inchkeith lhe fizera 
e que pusera para combater Nin, o Destruidor, no dia em que se 
tornara rei. Muito polida, lisa, lmpida como gua, a prata 
clara faiscava aos primeiros raios de sol. Como facetas de uma 
pedra preciosa, as suas superfcies limpas e lisas lanavam 
raios de luz. Na cabea, levava um elmo simples de prata, com 
um fino aro de ouro, que l colocara no dia da sua coroao. 
Dos ombros saa-lhe uma delicada cota de malha, cujos 
minsculos elos ondulavam como mercrio a cada trepidao do 
cavalo,
     Ronsard, que tambm envergava a sua melhor armadura, 
seguia ao lado do seu rei de viseira levantada, com os olhos 
postos em frente, examinando as formidveis muralhas que se 
erguiam na escarpa. Tinha a mo calmamente pousada no punho da 
espada e o seu escudo pendia da parte mais alta da sela, 
pronto a ser rapidaniente arrebatado, se disso houvesse 
necessidade, Trotando pela manh fora, a sua montada de 
batalha ia sacudindo a crina e pondo as patas uma  frente da 
outra.
     Atrs deles, seguiam os cavaleiros do rei montados nos 
seus cavalos@ com as armaduras retinindo na madrugada 
silenciosa. No havia tambores a marcar o ritmo nem nenhuma 
trombeta a chamar s armas. Naquele dia, o exrcito do Rei 
Drago marcharia para a batalha sem se fazer anunciar.

     Depois dos cavaleiros iam os pees, equipados com chuos,
escadas e cordas compridas com ganchos na ponta, que os 
ajudariam a escalar as muralhas. Levavam espadas curtas e 
pesadas presas ao cinto, pois na luta corpo a corpo que teriam 
de travar nas ameias no haveria espao para empunharem 
lminas mais compridas; alm disso, aqueles que tivessem a 
sorte de chegar s alturas do castelo de Ameron precisariam de 
uma arma resistente.
     Quando as tropas em movimento chegaram s catapultas, 
vrios grupos de homens dirigiram-se a correr para elas e 
comearam a prepar-las, carregando pedras e colocando bolas 
de fogo nas fisgas. Quando acabaram de o fazer, ficaram  
espera de um sinal do rei. Quentin perscrutou a fortaleza, 
ergueu a espada, uma arma resistente que escolhera entre as 
que havia na carroa do armeiro, e baixou-a num movimento 
rpido.
     As catapultas cantaram no ar e os pees precipitaram-se 
para as muralhas com um grito poderosssimo, formigando 
encosta acima at s enormes cortinas de pedra. Chegados a, 
encostaram as escadas s muralhas e atiraram os ganchos para o 
ar, fazendo as cordas serpentear. Entretanto, os archeiros 
ocuparam as suas posies, de modo a ajudarem-nos no que fosse 
possvel.
     Quase no mesmo instante, ouviu-se um grito nas muralhas,
lanado pelos homens de Ameronis, que saltaram para as ameias,
comeando a atirar flechas, pedras e paus aos soldados que 
tentavam subir. Os primeiros homens das escadas caram por 
terra a gritar, mas apareceram outros a ocupar o seu lugar, e 
depois mais outros, com escudos por cima da cabea para aparar 
aquela chuva mortal. Mesmo assim, havia setas que encontravam 
o seu alvo e pedras que caam com uma fora esmagadora, 
fazendo tombar os hericos soldados.
     Quando o ataque comeou, Ameronis e os nobres seus 
amigos, que estavam no salo dos banquetes a comer o desjejum, 
ouviram o grito lanado pelos homens das ameias. Levantando-se 
da cadeira com um sorriso aberto, Ameronis disse:
     - Com que ento, o exrcito do rei no tem pacincia, h?
Parece que querem fazer tombar as muralhas com os seus 
lamentos. Vinde, meus amigos, vai ser divertido. Que se saiba, 
estas muralhas nunca foram transpostas. Vejamos como se sai o 
exrcito do Rei Drago.
     Dizendo estas palavras, virou-se e correu para fora do 
salo. Lupollen foi atrs dele. Os outros ainda se 
entreolharam por um momento num silncio incmodo. Depois, 
seguiram-nos.
     - Parece que ele no acha importante referir que, se as 
muralhas tm estado intactas durante estes anos todos, isso se 
deve aos favores e  proteco do Rei Drago - murmurou 
Gorloic.
     - Pois  - concordou Denellon. - Lamento muito que lhe
tenhamos dado ouvidos.  um erro que pagaremos ainda antes de
o dia acabar. Ouve o que te digo, senhor. Pag-lo-emos bem 
caro.
     Encontraram Ameronis percorrendo as ameias, berrando 
ordens aos seus homens e exortando-os a combaterem com todas 
as foras. Sem querer saber da sua prpria segurana, corria 
daqui para ali, acudindo aos combates mais acesos, 
debruando-se nas ameias e empurrando as escadas de mos nuas.

     - Vede como se agita - gritou Kelkin com um ar 
consternado.
     -  como um lobo embriagado de sangue e ansioso por 
apanhar a presa!
     Ao v-los, Ameronis gritou:
     - Olhai! O Rei Drago tambm veio combater! - Estendendo
a mo, apontou para baixo.
     Os outros senhores correram para as ameias e espreitaram
temerosamente aquele turbilho. No meio da massa que formigava 
e se contorcia, tentando escalar as muralhas, viram de relance 
os flancos brancos do cavalo do rei, que corria de um lado 
para o outro por entre as tropas. Montava-o o prprio Rei 
Drago, de espada em punho e com o escudo levantado.
     - Trazei-me um arco! - berrou Ameronis, erguendo a voz
acima do clamor da luta. - Um arco! Trazei-me um arco!
     - Pra e pensa no que ests a fazer! - gritou Gorloic.
     Mas Ameronis no lhe deu ouvidos; arrancando um arco das
mos de um archeiro, assestou uma flecha e disparou contra o

rei. Gorloic e Kelkin precipitaram-se para a frente e 
agarraram-lhe nos braos.
     - Largai-me! - gritou ele. - Largai-me! - Conseguindo 
libertar-se, recuou uns passos. - Se no tendes estmago para 
isto, ide l para baixo esconder-vos na copa com as mulheres. 
Por mim, tenciono usar a coroa, e apoderar-me-ei dela como 
puder! - Horrorizados, os nobres retiraram-se para o torreo 
da casa da guarda, de onde poderiam ver a batalha em 
segurana.
     Uma vez os combates comeados, Ronsard deixou que o 
corpo principal de soldados se postasse  frente das portas do
castelo e conduziu a sua pequena fora para a muralha virada a
norte, que estava menos defendida, e  qual se encostaram e se
firmaram as escadas. Dois cavaleiros conseguiram chegar s 
ameias antes de o alarme soar e de os homens de Ameronis 
aparecerem a correr com espadas e alabardas para expulsarem os 
invasores. Mas os cavaleiros de Ronsard lutavam bem e 
aguentaram-se at chegarem mais reforos pelas escadas. A 
Ronsard, o terceiro homem a passar a muralha, seguiram-se 
rapidamente mais outros. Dali a pouco, estavam na muralha doze 
cavaleiros do rei.
     Unindo esforos, estes doze homens comearam a tentar 
abrir caminho at ao ponto onde os seus camaradas lutavam para 
atingirem a muralha virada a ocidente. Assim, avanaram ao 
longo da muralha norte, em direco  torre virada a norte, de 
onde poderiam atravessar para o lado ocidental. Mas, uma vez 
na torre, deram com bastante resistncia. Ao ouvirem o alarme 
que soara na muralha virada a norte, dez cavaleiros de 
Ameronis, que se encontravam no ptio, tinham subido a correr 
ao seu encontro.
     O que vinha  frente, um gigante de morrio de ferro, com
um machado de duas lminas numa mo e um escudo de pele de boi 
na outra, entrou de sopeto pela porta da torre, fazendo girar
a arma, que descrevia um arco mortal. Com a ajuda de dois 
cavaleiros, Ronsard conseguiu empurrar o gigante para fora da 
porta, que fechou imediatamente.
     - Conseguis aguentar? - perguntou Ronsard, levantando a 
viseira.
     - julgo que sim - replicou o segundo comandante. Nesse

momento, ouviu-se um tremendo estrondo na porta que tinham 
acabado de fechar. Era o machado do gigante batendo nas 
tbuas. - Por agora - acrescentou.
     - Aguentai o mais que puderdes e, depois, ide ter 
connosco l abaixo - disse Ronsard. - Vou tentar abrir caminho 
at s portas. Talvez consigamos for-las. - Seguindo  
frente dos outros cavaleiros, Ronsard desceu as escadas de 
madeira em espiral, em direco  torre de menagem, que ainda 
no estava a ser defendida.
     Com as espadas a assobiar, atravessaram o ptio exterior 
at  casa da guarda, sem encontrarem grande resistncia, pois 
a maioria dos defensores do castelo estava l em cima, nas 
ameias. Uma vez l dentro, foi-lhes fcil dominarem o inimigo 
assustado.
     - Em nome do rei, abre as portas! - ordenou Ronsard, com 
a espada encostada  garganta do guarda, que no parava de 
tremer.
     Aterrorizado, o homem soltou um queixume e revirou os 
olhos:
     - No posso, ainda que me separeis a cabea dos ombros! - 
gritou.
     - Se no as abrires, morrers aqui mesmo!
     - No posso! - guinchou o guarda. - Acreditai em mim,
senhor. As portas foram fortificados e no podem ser abertas 
por ningum... pelo menos, sem se tirarem as tbuas e as 
correntes.
     - Senhor - gritou um dos cavaleiros de Ronsard -, o que
ele diz  verdade. As portas esto presas por correntes e 
foram reforadas com tbuas. Precisaramos de meio dia para as 
tirarmos!
     Ronsard j ia responder quando ouviram atrs de si um 
grito e o som de muitos ps descendo as escadas de madeira que 
davam para o parapeito.                                       
       - Fomos descobertos! - gritou um cavaleiro.
     Num abrir e fechar de olhos, os leais sitiantes ficaram 
rodeados de cavaleiros, que desceram das ameias e foram encher 
a casa da guarda. E, embora Ronsard e os seus homens 
respondessem go1pc a golpe aos defensores, ficaram rapidamente 
em grande desvantagem e foram obrigados a voltar a atravessar 
o ptio em direco  torre virada a norte, onde se juntaram 
aos seus camaradas, que continuavam a defender as portas que 
conduziam s ameias.
     - Fechai as portas l de baixo! - ordenou Ronsard. - Ns
vamos l acima conquistar o torreo!
     Subindo as escadas pesadamente, dirigiram-se ao torreo, 
que estava a ser defendido por archeiros, que, ao verem os 
cavaleiros de armadura saindo a correr da torre e pensando que 
as foras do rei tinham conseguido forar as muralhas, 
atiraram as armas ao cho e pediram piedade.
     - Tirai-lhes os arcos - disse Ronsard. Depois, os 
archeiros foram levados para o outro lado do torreo, onde 
tiveram de se sentar, com um cavaleiro de espada em punho a 
vigi-los.
     Encaminhando-se, ento, para as ameias, Ronsard subiu a
uma e acenou com a espada por cima da cabea. Reconhecendo-o, 
os homens que estavam no solo soltaram um viva e apinharam-se 
imediatamente junto da torre, com as suas escadas e ganchos.

     No entanto, esta vitria  menor no foi de grande 
durao, pois Ameronis, que tambm viu o sinal de Ronsard, 
logo mandou um destacamento dos seus melhores cavaleiros para 
a torre virada a norte. Dali a pouco, os cavaleiros, que se 
tinham precipitado para a torre, tentavam deitar as portas 
abaixo.  No mesmo momento, o gigante que estava nas ameias 
conseguiu desfazer a porta com o seu enorme machado e, 
juntamente com muitos outros, comeou a correr pelas escadas 
do torreo acima.
     - Estamos encurralados! - berrou um sitiante. - No temos
sada!
     - Vs a! - disse Ronsard, apontando para os archeiros 
que se haviam entregado. - Sentai-vos todos no alapo!
     Aos tropees, os prisioneiros aproximaram-se e 
sentaram-se nas tbuas, mantendo o alapo fechado por meio do 
seu peso combinado.
     - Pelo menos durante algum tempo, no conseguiro entrar 
- afirmou Ronsard. - Agora, s nos resta esperar. De momento, 
no podemos combater.

     Por baixo do castelo, na passagem secreta, ouviu-se o 
rudo e o clamor do combate, abafado pelo pesado porto que 
ficava depois da grade.
     - Escutai! - disse Theido. Os martelos calaram-se. Os 
sons fantasmagricos da encarniada batalha pairaram no 
silncio... pareciam os ecos de uma guerra muito antiga, 
deslizando das pedras da caverna, onde tinham permanecido todo 
aquele tempo.
     - Pelo nico! - gritou Theido. - Comeou! Depressa, 
homens, antes que seja demasiado tarde!
     Os martelos comearam imediatamente a bater no ferro 
frio, enchendo a caverna e o tnel de horrendos tinidos, 
produzidos pelas fortes pancadas dos escopros, num esforo 
para libertar a ltima seco de grade. j ningum se 
preocupava com o barulho, pois qualquer rudo mais alto seria 
imediatamente abafado pelo rugido da batalha.
     Os soldados atiravam-se ao ferro, que no cedia, no meio 
de gritos e pragas, at que, exaustos e ofegantes, recuavam 
para o tnel. Se um homem fraquejava, logo um outro tomava o 
seu lugar. E o assalto  grade continuava.


        CAPTULO XL1X


     No cho,  sua volta, jaziam os corpos dos feridos, dos 
despedaados e dos moribundos, alguns esmagados por paus e 
pedras e muitos mais atravessados por flechas. O rei 
esforava-se por reunir as suas foras enfraquecidas e retomar 
o assalto.  que, desencorajado por no ter conseguido tomar 
as muralhas e consternado pelas baixas sofridas, o exrcito do 
Rei Drago perdera a fogosidade, e Quentin fora forado a 
retirar, com o objectivo de reagrupar as suas foras.
     Ao primeiro sinal da retirada do rei, os homens que 
estavam nas muralhas soltaram um grito de jbilo. O prprio 
Ameronis juntou-se  alegria geral, gritando para as tropas 
que recuavam:
     - Isto j vos chega? Vinde c, para acabarmos convosco de
uma vez por todas! - Estas palavras arrancaram mais vivas. Por

isso, para gudio do seu exrcito, Ameronis debruou-se na 
muralha e berrou ainda mais alto: - O Rei Drago vai a fugir 
como um co escaldado... com as orelhas para baixo e o rabinho 
entre as pernas! Anda c e luta como um homem!
     Do torreo da casa da guarda, Kelkin, Gorloic e Denellon 
observavam as foras do rei retirando do campo de batalha.
     - Isto no vai bem para eles - comentou Kelkin. - Quem me 
dera ter aqui os meus cavaleiros! Sei muito bem a que faco
haveria de me juntar.
     - Eu tambm iria ajudar o rei - acrescentou Denellon. - 
J chega de Ameronis, que mostra na guerra o seu verdadeiro 
rosto... e no  rosto que me apetea ver sob a coroa.
     - Nem a mim - concordou Gorloic. - Mas, embora os meus
cavaleiros estejam a guardar a minha fortaleza e se encontrem
longe daqui, ainda tenho uma espada e um brao para a 
empunhar! E, enquanto viver, pertencero ambos ao Rei Drago!
     - Isso! - ecoaram os outros. - Que assim seja!
     - Mas somos apenas trs - disse Kelkin. - O Ameronis e o
Lupollen esto em vantagem. Seramos cortados aos pedaos 
ainda antes de pormos a mo no punho da espada.
     - Ento, teremos de arranjar outra maneira de Ihes 
levarmos a melhor, e no pode ser aqui. Vinde, meus amigos, o 
tempo voa e temos que fazer! - rematou Gorloic.

     - Tens a certeza de que  o melhor, meu jovem? - 
perguntou Pym, enquanto avanavam pela floresta. - O que vai
dizer a tua me quando souber que te deixmos ir para a 
batalha com o rei... e nem sequer temos um varapau para nos 
defendermos dos inimigos!
     - Cala-te - respondeu Renny. - Estou a pensar.
     - O que tu ests  perdido! J andamos por estes bosques 
h quase um dia e nem sinais do rei. O melhor  voltarmos para 
trs.
     - Volta tu, se quiseres - teimou Renny. - C por mim, 
tenciono lutar pelo rei.
     Pym suspirou, como suspirara cem vezes nas ltimas doze 
horas, e coou a cabea grisalha:
     - Bem, se ests decidido, no vale a pena tentar 
convencer-te do contrrio... No  que eu no tivesse tentado. 
Mas tens de admitir que estamos perdidos.
     - Perdidos, no - retorquiu Renny. - S no sabernos,bem
onde .
     Tinham sado de Askelon no dia anterior, ao mesmo tempo 
que o rei, seguindo-o a ele como ele prprio seguia o seu 
exrcito. Mas, como iam os dois montados em Tarky, que, 
portanto, no conseguia acompanhar o fogoso Blazer, depressa 
tinham ficado para trs. Pym fora de opinio de que deviam dar 
meia volta, mas o seu jovem companheiro, decidido a servir o 
Rei Drago ao lado dos nobres cavaleiros que conhecera quando 
tentara devolver o cavalo, continuara em frente com uma 
determinao obstinada.
     Estavam eles os dois a descansar ao lado de um carreiro 
pouco usado, que atravessava o sudeste de Pelgrin, quando 
ouviram o tilintar dos arreios de um cavalo e um murmrio de 
vozes.
     - Vem a algum! - Renny ps-se em p de um salto e
espreitou as sombras verdes. - Um cavalo e um cavaleiro! Vamos
perguntar-lhe onde fica o castelo de Ameron.

     Quem avanava a trote ligeiro pelo carreiro no era um 
cavaleiro, mas sim dois. Pondo-se ousadamente no meio do 
carreiro para os obrigar a parar, Renny levantou o olhar e viu 
o rosto de um nobre de barba preta, montado num lustroso 
cavalo preto.
     - Eh! Quem vem l? - indagou o nobre, piscando o olho ao
seu companheiro, um cavaleiro com um sabre na anca e uma cota
de malha.
     - Parece mesmo um salteador - respondeu este.
     - Por favor, senhor - comeou Renny, falando com toda a
coragem que conseguiu reunir. - Precisamos de ajuda.
     - Somos homens de bem - replicou o senhor. - Diz o que
queres. Se estiver nas nossas mos, podes ter a certeza de que
o faremos. Mas diz depressa, porque temos um assunto 
importante a tratar.
     Vendo como o senhor recebera o rapaz, Pym levou Tarky 
para o lado de Renny.
     - Este homem  meu amigo - informou o rapaz. - Vamos
juntar-nos ao exercito do rei, que est em Ameron-on-Sipleth.
     - Perdemo-nos, Vossa Senhoria - acrescentou o amolador. 
Tip ladrou uma vez, a confirmar a situao difcil em que se 
encontravam.
     O nobre inclinou-se para a frente, na sela, e examinou de 
perto os viandantes:
     - O que sabeis do exrcito do rei?
     Pym comeou a ficar hesitante:
     - S que saiu de Askelon h dois... no, h trs dias, ao 
pr do Sol. O rei foi atrs dele ontem  noite e ns viemos 
atrs do rei.
     Renny fez que sim com a cabea:
     - Vai tirar a espada aos que lha roubaram!
     O senhor lanou uma mirada ao companheiro e voltou a 
olhar para eles. O reconhecimento atingiu-o como o claro de 
um relmpago cruzando o cu lmpido e azul.
     - Ora, eu conheo-te - exclamou, olhando Pym de cima a 
baixo. s o amolador que encontrmos na estrada.
     - E eu tambm vos conheo, Vossa Senhoria. Fostes vs que
no quisestes fazer mal a um pobre amolador.
     - Foi o Ameronis que te fez essa ferida no queixo?
     - Se dissesse que no, estaria a mentir, senhor. Foi ele, 
foi... - Pym esfregou o queixo ainda inchado - quando me tirou 
a espada.
     - Ah, ento era mesmo uma espada que tinhas debaixo 
daqueles farrapos? - Fitando atentamente Pym: - A espada do 
rei?
     Pym assentiu com a cabea:
     Eu c no sei se era ou no a Brilhante, mas h uma 
quantidade de gente que afirma que sim, senhor.
     - Deve ser! - disse o nobre para o cavaleiro que estava 
ao seu lado. - E dizes que o Ameronis ta tirou?
     Pym fez que sim com a cabea e Renny levantou a voz:
     - E queremos ajudar o rei a recuper-la. Ele precisa dela 
para salvar o prncipe!
     - O qu? O que se passa com o prncipe?
     -  o resgate, Vossa Senhoria. Ou a espada  entregue no
Grande Templo amanh ao meio-dia ou Sua Alteza morrer.
     - O Ameronis sabe disso? - perguntou o nobre.

     - isso  uma coisa que no podemos dizer. Em Askelon, 
toda a gente sabe. S se fala nisso, Soube-se ontem, quando o 
Rei Drago partiu. Diz-se que foi buscar a espada para salvar 
o filho.
     - Estou a perceber. - O senhor levantou-se na sela e 
virou-se para o cavaleiro: - Vai chamar os meus homens 
todos... eos meus servos da gleba tambm. Todos os que tiverem 
armas. Se faltarem, que se equipem na minha sala de armas.
     - Muito bem, meu senhor Edfrith - respondeu o cavaleiro,
pegando nas rdeas e fazendo rodar a montada.                 
       - Ide ter ao castelo de Ameron. Vou para l 
imediatamente.
     - Sozinho?
     - Sozinho, no. Levo estes dois valentes camaradas 
comigo; no h homem no reino que esteja melhor servido. Vai e 
traze as minhas tropas. Para ir contra o Ameronis, o rei 
precisa de toda a ajuda possve1. Depressa!

     - O Ronsard e o seu contingente esto encurralados, 
Majestade. Antes de a torre ser tomada outra vez, alguns dos 
nossos homens conseguiram juntar-se a ele no torreo - 
explicou um dos comandantes do rei. - Agora, lutam s para 
permanecerem vivos; no podemos contar com nenhuma ajuda da 
parte deles.
     Quentin assentiu gravemente, mandou o cavaleiro embora e
virou os olhos para o campo de batalha. Os fsicos 
transportavam padiolas com feridos e moribundos. As tropas de 
Ameronis observavam-nos da muralha. Enquanto aguardavam o 
prximo assalto, contentavam-se em olhar, esperar e conservar 
as foras.
     A que ponto as coisas chegaram!, pensou Quentin. O 
Ronsard encurralado, o Theido sem poder ajudar e eu aqui 
sozinho. O seu pensamento voltou-se para aqueles com quem 
sempre contara ao longo da vida: Durwin, Bria, Alinea, Yeseph, 
Eskevar, Theido, Ronsard e, talvez acima de todos, Toli. Mas, 
naquele momento, nenhum deles estava ali. Quando mais 
precisava, no tinha ningum para quem se virar, ningum que 
lhe dissesse Sim, vai em frente ou No, no vs por a. 
Ningum que o aconselhasse nem com quem pudesse conversar ou 
partilhar a dolorosa ansiedade daquele
momento,
     At o Altssimo estava longe, at ele recolhera a sua mo 
e se retirara,
     Quentin endireitou os ombros. Sou o Rei Drago, disse 
de si para consigo, e  tempo de aprender a aceitar o que  
ser rei, o que  ser um homem que decide sozinho e que tem de 
viver ou morrer devido s suas decises. Oh, mas custa tanto! 
Olha-se para estes homens que me observam, que confiam em mim, 
que esperam que os salve, que pem as suas vidas nas minhas 
mos. Tm tanta f ao confiarem-me a vida! Nunca pedi para ser 
rei, mas fui escolhido. E comandarei estes ltimos homens 
leais o melhor que souber.
     Quentin desceu da sela e entregou as rdeas a um 
escudeiro. Depois, caminhou entre os soldados que descansavam 
no cho, falando-lhes e encorajando-os para a prxima 
investida.

     - Hurral Conseguimos forar a gradel - O grito de jbilo
ecoou pela passagem secreta, por baixo do castelo de Ameronis.

     - Muito bem! - exclamou Theido. - At que enfim! Agora,
atiremo-nos ao porto.  Vamos, homens. Est quase!
     Equipados com machados e cunhas, os soldados atravessaram
a correr o buraco aberto na grade e foram trabalhar na madeira 
do porto. Dali a pou co os golpes do machado soltaram as 
tbuas, que foram lascadas pelas pancadas das cunhas.
     - Tudo a postos! - gritou Theido para os que esperavam 
atrs dele. - Passaremos o porto num abrir e fechar de olhos. 
Armai-vos e combatei com nimo.

     Gorloic, Kelkin e Denellon percorriam furtivamente os 
corredores e as galerias do castelo, levando consigo armas 
tiradas a guerreiros cados e mortos. Seguiam silenciosamente 
em direco ao seu objectivo: a casa da guarda.
     - Eu tratarei do guarda e vs os dois dos seus homens -  
disse Gorloic.
    - E se o Ameronis e o Lupollen nos descobrirem? - 
perguntou Kelkin, olhando em volta com nervosismo, como se 
esperasse que os traioeiros senhores aparecessem a qualquer 
momento.
    - No descobriro - replicou Denellon.
    - Pois no - concordou Gorloic. - S temos de esperar que 
o ataque se renove, para terem mais com que se preocupar. Mas
temos de ser rpidos. Vedes? A casa da guarda fica depois 
desta antecmara. Estamos prontos?
    - Escutai! - exclamou Denellon. Nesse momento, ouviu-se no 
ptio um estrondo tremendo. Seguiu-se um outro, que fez abanar 
a muralha. - As catapultas! o ataque comeou!
     Quando o exrcito do Rei Drago se atirou novamente s
muralhas, chegou aos ouvidos dos senhores o rugido lanado 
pelas tropas que se alinhavam nas ameias.
     - Vamos! - ordenou Gorloic, pousando a mo no punho
da espada, atravessando a antecmara a correr e entrando na 
casa da guarda, Os amigos seguiram-no de muito perto.
     - Guarda! - gritou Gorloic- - Abre as portas!
     O guarda e os seus homens, alguns dos quais agachados 
atrs de umas barricas arrumadas a um canto, viraram-se e 
fitarasm os nobres de olhos esbugalhados.
     - Mas, senhor, no posso! - lamentou-se ele. - As portas
foram fortificados! O meu senhor Ameronis deu ordens para 
permanecerem fechadas.
     - Silncio, idiota! - berrou Gorloic. - Pois agora deu 
ordens para as abrires. Como a sorte da batalha mudou, ele 
espera que o inimigo fuja em debandada a qualquer momento. E 
quer as portas abertas para o poder perseguir!
     Examinando Gorloic com um ar desconfiado, o guarda abanou
lentamente a cabea:
     - No me atrevo, senhor. S se a ordem for dada 
pessoalmente pelo meu senhor.
     Denellon precipitou-se para a frente:
     - No ouves os gritos? Depressa!
     - O teu amo vai ficar furioso quando souber que 
desobedeceste s suas ordens - acrescentou Kelkin.
     Este argumento fez vacilar o guarda, que esbugalhou os 
olhos e levantou as mos, mas que, no entanto, continuou a 
teimar:
     - No me atrevo a ir contra as ordens que tenho.

     Gorloic virou-se colericamente para ele, agarrou-lhe os 
ombros e f-lo girar nos calcanhares:
     - Se tu e os teus homens no o querem fazer, ento 
f-lo-emos ns mesmos! E hei-de dizer pessoalmente ao Ameronis 
que o desafiaste!
     - No! Oh, eu...
     - No temos tempo! - insistiu Gorloic, baixando a cabea
para Denellon e Kelkin, que correram a bater com as espadas
nos cadeados das portas. - Vais ajudar ou no?
     - Assumis a responsabilidade?
     - Claro que sim!
     O guarda fez sinal aos seus homens para que se 
aproximassen, e exibiu uma argola com vrias chaves:
     - Com isto vai mais depressa. - E comeou a abrir os 
cadeados, enquanto os seus homens tiravam as pesadas correntes 
que prendiam as tbuas que tinham sido encostadas s portas.


        CAPTULO L



     Reunindo todas as foras que lhes restavam, as tropas do 
rei atiraram-se s muralhas, onde firmaram novamente as suas 
escadas, lutando para as subirem. Mas onde quer que 
procurassem apoiar-se, fosse num bocado de muralha menos 
defendido ou sob a proteco dos archeiros, a sua tentativa 
era sempre repelida. O inimigo ou corria a atirar-lhes pedras 
e paus ou escurecia o ar com as flechas lanadas pelos 
archeiros.
     Com algumas setas atingindo-lhe, de vez em quando, o 
escudo e a armadura, o Rei Drago trotava destemidamente de um 
lado para o outro, gritando aos seus homens, animando-os e 
encorajando-os a continuar. Mas a sorte da batalha estava 
contra eles.
     - Majestade! - Quentin virou-se e viu um dos seus 
comandantes aproximando-se a galope. Levantando a viseira, o  
  cavaleiro disse: - Perdemos o fianco esquerdo. Caram muitos 
homens e no podemos continuar sozinhos.
     - Ide para o centro juntar-vos aos homens do Heldur! - 
ordenou Quentin. - Temos de aguentar o centro. - O cavaleiro
voltou a partir e Quentin ouviu chamarem-no do outro lado.
     A informao era a mesma: o flanco direito estava muito 
enfraquecido e corria o risco de se perder. O exrcito 
oscilava na fronteira da derrota. Dali a instantes, o resto 
dos soldados retirariam, tomados de medo e desespero, e, uma 
vez em fuga, no regressariam ao campo de batalha.
     Mesmo no momento em que estava a pensar nisto, as 
primeiras fileiras apartaram-se e recuaram, afastando-se dos 
combates.
     - Parai! - gritou, avanando de espada erguida; mas no 
seu corao, sabia que j no havia razo para ningum parar. 
Cada vez mais soldados recuavam; os que no o faziam seguiam o 
exemplo dos seus camaradas mal olhavam em volta e os viam a 
retirar-se. Dali a pouco, os soldados afastavam-se em fila do 
campo de batalha.
     Mesmo depois de as fileiras da frente terem vacilado e 
recuado, algum gritou:
     - As portas! As portas foram conquistadas!

     Quentin levantou os olhos e viu que as portas do castelo 
estavam a abrir-se, empurradas de dentro por vultos que 
reconhecia vagamente. Ento, quando ficaram escancaradas, uma 
das silhuetas saltou para a frente e acenou-lhe com a espada.
     - Gorloic? - gritou, galopando para as portas.
     - Majestade - comeou o nobre, pondo um joelho em terra
-, perdoai a minha deslealdade e deixai-me recuperar a vossa
confiana com a minha espada.
     - A mim tambm - repetiu um outro.
     - E a mim - ecoou mais um nobre, aproximando-se.
     - Denellon, Kelkin, Gorloic... claro que sim! - gritou 
Quentin, cujos cavaleiros j passavam pelas portas, invadindo 
o ptio exterior.
     Vendo as portas abertas e o seu rei postado junto delas, 
os que batiam em retirada pararam, giraram nos calcanhares, 
voltaram a correr com um grito tremendo e avanaram para 
dentro do castelo, levando Quentin e os seus camaradas  sua 
frente.

     - Fomos trados! - berrou Ameronis, batendo com os punhos
cerrados na pedra spera da ameia, enquanto observava o 
exrcito do rei invadindo o castelo.
     - nimo! nimo! - gritou Lupollen, que se encontrava ao 
seu lado. - Ainda podemos ganhar-lhes. Agora, somos mais.
     Era verdade. O assalto s muralhas enfraquecera as foras 
do rei, reduzindo-as drasticamente.
     - Tens razo! Ainda nem tudo est perdido! - retorquiu   
  Ameronis. - Alm disso, ser um prazer travar-me de razes 
com o rei e levar-lhe a melhor com a sua prpria espada.
     Num abrir e fechar de olhos, as tropas de Ameronis 
desceram a voar das ameias para o ptio exterior, onde iam ao 
encontro do inimigo. O ar foi instantaneamente estilhaado 
pelo tinido das armas, provocado pelas espadas batendo nos 
escudos e pelos machados e maas esmagando as armaduras de 
ao.
     - Pelo Rei Drago! - gritavam os soldados do rei, 
esforando-se corajosamente por abrir caminho.
     Mas os homens de Ameronis, duros e bem treinados, no 
arredavam p. Por todos os lados se travavam violentos 
combates. Quentin, que se esquivava daqui e aparecia ali, 
distribuindo golpes a torto e a direito, parecia estar 
simultaneamente em toda a parte. os soldados que se 
encontravam prestes a ceder, os que estavam a ponto de 
tombar... erguiam os olhos e viam a espada do Rei Drago 
assobiando no ar em seu socorro. E, embora no se tratasse da 
Brilhante, que os homens tinham aprendido a temer e a 
respeitar, era, pelo menos, uma espada empunhada pelas mos
fortes de um libertador.
     Os archeiros que se achavam nas ameias atiraram com os 
seus arcos compridos e correram  sala de armas, equiparam-se 
com bestas, que eram armas mais apropriadas ao combate corpo a 
corpo, e comearam a disparar dardos mortais para o grosso da 
batalha, fazendo recuar as foras do rei. Ningum conseguia 
enfrentar aqueles projcteis, que trespassavam at as 
armaduras mais pesadas, nem ningum lograva aproximar-se o
suficiente para abater os assaltantes.

     No cimo do torreo que ficava sobre a torre virada a 
norte, Ronsard e os seus cavaleiros, que tinham gritado de 
alegria quando os homens do rei haviam passado pelas portas 
para irem invadir o ptio exterior, encontravam--se em 
silncio, observando as foras de Ameronis voltando novamente 
a sorte da batalha a seu favor,
     - Temos de os ajudar! - gritou um cavaleiro.
     - Pegai nos arcos dos prisioneiros! - berrou Ronsard. - 
Apontai com cuidado, senhores, pois temos muitos amigos l em 
baixo!
     Assim, os cavaleiros encurralados dispararam uma 
saraivada de setas para o meio do caos. Os homens de Ameronis, 
to confiantes apenas uns momentos atrs, recuaram, assustados 
com a morte que lhes assobiava por cima da cabea.
     - Foi uma ajudazinha, mas, se no recebermos reforos 
substarciais, teremos o dia perdido. Vedes? Estamos em 
desvantagem de dois para um.
     Ainda mal Ronsard acabara de pronunciar estas palavras
quando se ouviu um grito vindo do campo de batalha, que ficava
em frente do castelo. Precipitando-se para a ameia mais 
distante, Ronsard observou a escarpa e a hoste de cavaleiros e 
pees que corriam em frente.
     - Quem ? - perguntou um cavaleiro. - No estou a 
reconhecer o braso.
     - Aposto que aquele elmo pertence ao Edfrith.
     - Um inimigo! Estamos perdidos! - Parecia que EdfrIth e
os seus homens se perfilavam atrs do rei, cortando-lhe a 
sada. Assim, esmagavam todas as esperanas de vitria ou 
mesmo de uma retirada honrosa.
     - No, esperai! - exclamou Ronsard. - Est a passar pelas
tropas do rei! - Ao atravessar a muralha e entrar na casa da
guarda, o senhor ficou momentaneamente invisvel. - Vede! Veio
em nosso auxlio!
     - Estamos salvos! - gritaram os cavaleiros, soltando 
exclamaes de jbilo, enquanto Edfrith e os seus cavaleiros 
irrompiam no ptio, de espadas a faiscar e erguendo as vozes 
num cntico de batalha pelo rei, Ao ouvi-lo, os soldados 
animaram-se.
     - Por Mensandor! Pela honra! Pelo Rei Drago!
     Ameronis, que abria caminho para o rei servindo-se da 
Zhaligkeer, levantou o rosto e viu o exrcito de Edfrith 
atravessando as portas. Ao ouvir o cntico, virou-se para 
Lupollen, que avanava a seu lado, distribuindo espadeiradas a 
torto e a direito:
     - O Edfrith est com o rei! Fomos trados duas vezes! - O 
desespero apoderou-se dele, fazendo-o cambalear.
     - Ainda no estamos vencidos! - retorquiu Lupollen, 
agarrando-lhe o brao e sacudindo-o. - s tu que tens a 
espada... fujamos enquanto podemos. Com a espada, levantaremos 
outro exrcito.
     - Bem pensado! Fujamos! - Com Lupollen na peugada,
Ameronis virou-se desatou a correr por entre a multido de
soldados e entrou no castelo.

     Cercados por foras agora em nmero superior, os 
comandantes de Ameronis depuseram as armas e renderam-se. A 
batalha acabou to rapidamente que os gritos Piedade! 
Piedade! e Rendemo-nos! substituram os berros 
Aguentemo-nos! Estamos a ganhar!, que ainda pairavam no 
ptio do castelo.

     Escarranchados em Tarky, Pym e Renny espreitaram a medo
pelas portas. Como no possuam armas nem armaduras, Edfrith
ordenara-lhes que ficassem afastados da batalha; mas, ao 
ouvirem os gritos dos vencidos, tinham-se aproximado. Vendo 
que a luta terminara, queriam saber que lado vencera.
     - O rei levou a melhor! - gritou Renny. - Hurra! O Rei
Drago ganhou!
     - Pois foi - replicou Pym solenemente. - Nem por um 
instante duvidmos disso, pois no? No, nem por um instante. 
- Esgueirando-se para dentro das portas, aproximaram-se dos 
que rodeavam o rei.
     Abrindo tambm caminho atravs da multido, Denellon, 
Kelkin e Gorloic foram pr-se ao lado de Edfrith, que 
desmontara. Depois, postaram-se os quatro  frente do rei.
     - Acabou-se. A vitria  vossa, Majestade - declararam.  
sua volta, ergueu-se um cntico vitorioso.
     Quentin levantou a mo a pedir silncio e, quando as 
aclamaes  dimiinuiram, disse:
     - S se acabar quando eu tiver a espada. - Firmando-se
nos estribos, levantou-se e perscrutou a multido. - Onde est 
o Ameronis? Quero-o aqui  minha frente.
     Ronsard, que no perdera tempo a abandonar o torreo mal
a torre fora conquistada, avanou s cotoveladas por entre a 
multido que rodeava o Rei Drago.
     - O Ameronis fugiu! - gritou quase sem flego, por ter 
descido as escadas da torre a correr. - Vi-o a ele e ao 
matreiro do amigo fugirem da batalha e desaparecerem dentro do 
castelo,
     - Ento, levou a espada com ele! - afirmou Gorloic. - Os 
nossos esforos no serviram para nada!
     - Por Zoar, maldito traidor! - praguejou Kelkin. - j 
ningum o apanha!
     - Porqu? - perguntou Quentin, com o pnico 
apoderan-do-se dele e dando-lhe volta ao estmago. - Para onde 
 que ele foi?
     - H uma passagem secreta debaixo do castelo, que vai dar
ao Sipleth e a um carreiro que se estende junto  margem -
explicou Kelkin. - O Ameronis tem um barco sempre a postos a 
montante. Pelo menos, o pai tinha sempre e suponho que el
tambm ter.
     Ao ouvirem estas palavras, Quentin e Ronsard atiraram a
cabea para trs e riram com gosto, deixando que o alvio 
expulsasse o medo que tinham estampado no rosto, como o Sol 
afasta as sombras depois de as nuvens passarem.
     - Achais isso divertido, Majestade? - indagou Kelkin.
     - No sabes o medo que as tuas palavras acabam de 
desfazer, nobre amigo - replicou Ronsard. -  possvel que 
tenhas prestado o teu maior servio ao rei.
     - Como, senhor?
     - Olha - respondeu Ronsard, levantando o brao. - 
Parece-me que o amigo Theido vem a escoltar dois prisioneiros 
muito relutantes.
     A multido apartou-se, abrindo uma passagem larga, por 
onde avanaram vrios cavaleiros, que empurravam Ameronis e 
Lupollen, muito contrariados mas ainda desafiadores, com a 
ponta das espadas.
     - Quentin! - exclamou Theido. - No espervamos...

     - No esperveis que o vosso rei se juntasse s suas 
tropas para defender o seu trono? Conheceis-me muito mal - 
interrompeu Quentin com um sorriso.
     Theido tambm sorriu:
     -  verdade, tenho muito a aprender. Estou a ver  minha
frente um homem muito diferente daquele que deixei ainda no
h trs dias. - Pousando a mo em Ameronis, o alto cavaleiro
empurrou-o para a frente, obrigando-o a ajoelhar-se perante o 
rei. - Apanhmos este e o amigo a tentarem fugir pela passagem
secreta.
     - D-me a espada, Ameronis - ordenou Quentin, baixando
colericamente o olhar para o humilhado senhor. Pondo o brao 
de lado, Amercinis desembainhou a espada, pousou-a sobre as
mos estendidas e entregando-a ao rei, com os olhos baixos e a
cabea inclinada.
     Quentin pegou nela, levantou-a  luz do Sol e, depois, 
f-la deslizar para a sua bainha, dizendo:
     - Agora, no tenho tempo para tratar de ti, traidor. Mas 
podes ter a certeza de que no escapars a minha fria. E que 
este tempo de espera torne a tua punio ainda mais severa. - 
Virando-se para os outros: - Amigos, se eu no entregar o 
resgate, o meu filho morrer amanh ao meio-dia. Vou 
imediatamente para o Grande Templo.
     - Eu vou contigo - afirmou Theido.
     - E eu tambm - acrescentou Ronsard, cujas palavras foram
repetidas por todo o lado. Assim, quando o Rei Drago saiu a 
cavalo do castelo de Ameron, seguiu atrs dele um grande 
squito, constitudo por senhores, soldados e habitantes dos 
arredores, que tinham sido atrados pela batalha. 
Encaminhando-se para norte, atravs da floresta Pelgrin, 
dirigiram-se todos para Narramoor e para o Grande Templo.


        CAPITULO LI


     Toli passara a noite em claro, escutando a chuva que 
tamborilava no ptio do templo e rezando para que algum os 
fosse salvar, a ele e ao principezinho, e para terem a coragem 
de enfrentar fosse o que fosse que os esperava. Quando o dia 
nasceu, a chuva parou, mas o cu permaneceu escuro e carregado 
e, a oeste, levantou-se um vento fresco.
     Quando o prncipe Gerin acordou, Toli encontrava-se no 
lugar que ocupara toda a noite, durante a sua longa viglia. 
Mal os seus olhos pestanejaram, o menino sentou-se muito 
direito no seu enxergo de palha e disse:
     - Hoje  o dia da nossa liberdade! No , Toli? Hoje, o 
meu pai vir buscar-nos!
     Assentindo com a cabea, Toli sorriu ao ver aquela f, 
que no diminura com os numerosos dias passados no torpor do 
cativeiro.
     -  verdade. Hoje, seremos libertados. - Depois de olhar
para o prncipe durante muito tempo, sentou-se na cama, ao seu
lado. Quando falou outra vez, f-lo num tom de voz mais grave:
     - Gerin, tenho uma coisa para te dizer.
     O jovem ficou  espera de que Toli continuasse.
     - J sabes que te amo como se fosses meu filho - comeou, 
virando-se para ele. - E por isso que quero que saibas o que 
pode acontecer hoje.

     - No tenho medo, Toli. Ao princpio, tive, mas s um 
bocadinho. o meu pai  o rei. Sei que no permitir que nos 
acontea nada de mal.
     Toli sorriu outra vez e respondeu:
     - Tambm acredito que ele vir buscar-nos. Mas... s 
vezes, nem os reis podem fazer nada. O teu pai  rei, mas 
tambm  homem, e pode no conseguir mudar tudo o que 
gostaria. Por vezes, fazem-se coisas que ningum pode 
desfazer.
     Pensando nas palavras de Toli, Gerin permaneceu 
silencioso durante algum tempo.
     - Vo matar-nos? - perguntou por fim. Sem esperar pela
resposta, rematou: - No tenho medo de morrer.
     - No  vergonha nenhuma. j houve alturas em que temi
pela minha vida. Mas o corajoso  aquele que no se deixa 
dominar pelo medo.
     - Est bem, mas agora no tenho medo. Pensei muito e 
cheguei  concluso de que, se o Altssimo tem os seus 
desgnios, como o Durwin sempre me disse, e se determinou que 
eu tenho de morrer para que o reino seja salvo... ento, que 
assim seja.
     Toli ficou maravilhado com aquela f simples, de corao 
aberto:
     - As tuas palavras demonstram uma grande coragem e uma
sensatez ainda maior, senhor.  verdade, pode acontecer que 
nos tirem a vida. Sei que tudo ser mais fcil para mim com um 
companheiro to forte ao meu lado. - Cingindo-o a si num 
abrao apertado: - Mas ainda no estamos mortos nem sabemos 
como tudo isto acabar. Temos de continuar a acreditar que o 
rei vir salvar-nos, Gerin.
     - Sei que vir, Toli.  meu pai.

     Sem falarem mais da iminente confrontao, viraram-se 
para outros assuntos e recordaram tempos mais felizes. Quando 
os guardas do templo foram busc-los, encontraram-nos a rir s 
gargalhadas, provocadas por Toli, que relembrava episdios 
relacionados com a maneira como o prncipe aprendera a montar 
e a saltar a cavalo.
     - Que animador  ouvir os nossos prisioneiros passando 
to alegremente as suas ltimas horas - comentou Nimrood, 
entrando na c ela. - No concordas comigo, Pluell?
     O sumo sacerdote baixou a cabea para passar a porta, 
atrs de Nimrood. Tinha o rosto branco e nos olhos e lbios 
uma expresso muito carrancuda.
     - Isto j foi muito longe, Nimrood! Mesmo muito longe! 
Solta-os antes que o rei chegue aqui. Ainda h tempo.
     - Tempo... tempo para preparar os nossos prisioneiros e 
torn-los apresentveis. Que ningum pense que maltratmos os
nossos hspedes. No, isso nunca. - Fez sinal aos guardas, que
esperavam no corredor e que avanaram com bacias de gua, 
toalhas limpas e as roupas dos cativos, que lhes tinham sido 
tiradas no dia anterior. - Vedes? Esto lavadinhas. At 
serviriam para o prprio rei. Oh, espero que ele se d conta 
do trabalho que tivemos por tua causa, principezinho. Mas acho 
que sim.
     - Por favor - implorou Pluell, com a face contorcido num
esgar de dor -, por favor, solta-os. No temos nada a ganhar

levando isto at ao fim!                                      
       - Est calado, imbecil! - irritou-se Nimrood. - J 
discutimos isso vezes sem conta. Estou farto das tuas 
choraminguices. Acaba com elas, ouviste? O que est decidido, 
est decidido.
     Toli observava-os atentamente enquanto se lavava e despia 
a tnica nojenta que lhe tinham dado.
     - O que quer dizer No temos nada a ganhar levando isto
at ao fim? - perguntou Toli, vestindo a sua prpria roupa.
     - Ests a ver? - inquiriu Nimrood, virando-se para o sumo
sacerdote. - Estragaste a nossa surpresa.
     Toli avanou para o velho feiticeiro. Os guardas 
desembainharam e empunharam as espadas.
     - No tencionas soltar-nos, nem que o rei te pague o 
resgate, no ? - indagou Toli em voz monocrdica. - A tua 
inteno  matar-nos de uma maneira ou de outra.
     Nimrood fitou-o com os olhos carregados de dio. Apesar 
de saber que enfrentava um ser feito de pura maldade, Toli no 
se deixou impressionar.
     - J devias saber que eu nunca te deixaria escapar duas
vezes, co jher! Eu, Nimrood, hei-de vingar-me de ti e do 
verme ganancioso do teu amo. E no foi a magia que te 
perdeu... no, h muito tempo que me roubaste os meus poderes. 
Dominei-te com a minha astcia e com a minha inteligncia 
superior.
     Nimrood atravessou a cela, dirigindo-se ao prncipe 
Gerin. Toli fez meno de ir ter com ele, mas logo sentiu nas 
costas a ponta afiada de uma espada. O velho necromante pousou 
as mos nos ombros do rapaz.
     - Mas tu no precisas de ser sacrificado. Olha para mim. 
- O prncipe levantou o rosto. Olhando-o de cima, Nimrocid 
continuou: - A ti, dou-te outra opo. Se vieres comigo e te 
tornares meu pupilo, ensinar-te-ei segredos que nunca nenhum 
homem conheceu, excepto o prprio Nimrood. Posso dar-te tanto 
poder... sobre o fogo e o ar, a terra e a gua, a vida e a 
morte... Anda comigo e deixa-me ensinar-te. - Levantando a 
mo, afagou o cabelo claro do menino. - H? O que dizes?
     - No! Em nome do Deus Altssimo! - gritou Toli. - 
Deixa-o em paz!
     Gerin foi percorrido por um arrepio e, como se 
despertasse de um sono muito calmo, sacudiu as mos do 
feiticeiro de cima de si.
     - No! - berrou, correndo para junto de Toli.
     Nimrood semicerrou os olhos, transformando-os em duas 
fendas cheias de dio.
     - Dei-te uma opo... No te esqueas disso quando o teu
sangue correr na pedra do altar, mido descarado. Eu podia 
ter-te dado poderes e riquezas que nem te passam pela cabea.
     - O Altssimo ajustar contas contigo, Ninirood - afirmou
Toli -, pois vela pelos seus servos e no se esquece das 
injustias cometidas contra eles. Ele pagar-te- da mesma 
moeda e obrigar-te- a prestar-lhe contas.
     Nimrood virou-se para Toli e a sua mo fendeu o ar, 
dando-lhe em cheio no rosto. A bofetada ecoou no silncio 
espantado que se lhe seguiu.
     - Est calado! - gritou Nimrood selvaticamente, com os
olhos incendiados e a saliva escorrendo-lhe dos lbios. - Est

calado! Achas que estou interessado no insignificante do teu 
deus? Ora! Para mim, vale menos do que um verme que anda por 
cima de um monte de esterco. Homenzinhos... - Nimrood fitou 
colricamente os rostos que tinha  frente - hoje vereis como 
os vossos pequenos deuses se comportam quando so desafiados 
pelo verdadeiro poder!
     Virando-se, o necromante encaminhou-se para a porta da 
cela:
     - Acabei, e j so horas. Trazei-os.
     O sumo sacerdote Pluell olhou para trs, fitando os 
prisioneiros com um ar assustado, e foi a correr na peugada do 
seu demente amo. Os guardas do templo, seis ao todo, alguns 
com lanas e outros com espadas, picaram os prisioneiros com 
as pontas das suas armas e fizeram-nos avanar pelo corredor.
     - No sei o que vai acontecer, Gerin. - sussurrou Toli 
enquanto caminhavam, com guardas cercando-os por todos os 
lados -, mas fica atento a qualquer possibilidade de fuga. Eu 
tambm estarei alerta e, se te disser para fugires, corre o 
mais que puderes e no olhes para trs. De acordo?
     - De acordo. - Ao ver Gerin assentir resolutamente, Toli
teve a certeza de que o prncipe assim faria.
     Quando chegaram ao trio do templo, as grandes portas 
foram abertas e os prisioneiros conduzidos at s escadas.  
sua frente, no  empedrado do ptio, erguia-se o grande altar, 
que fora tirado do seu lugar, junto da pedra sagrada, e 
colocado ao fundo dos degraus,  vista dos espectadores, que 
se acotovelavam no espao contido entre os muros.
     Pessoas de Hinsenby, Persch, Woodsend e at de Askelon 
inundavam o ptio, procurando um lugar de onde pudessem ver 
tudo, pois espalhara-se a notcia de que o prncipe estava 
preso no Grande Templo, onde o rei iria resgat-lo. Todos os 
que conseguiam deslocar-se rapidamente, a p ou a cavalo, 
tinham ido assistir  humilhao do seu rei e  exaltao do 
templo, cuja supremacia seria reafirmada.  que, embora 
amassem o seu rei, temiam mais o seu deus. As pessoas simples 
acreditavam que o Rei Drago fizera zangar o deus Ariel do 
Grande Templo, ao entregar-se  tarefa de construir um templo 
para um novo e estranho deus; por isso, o rei, embora rei, 
tinha de ser castigado. A julgar pelo seu aspecto, muitas 
delas haviam caminhado toda a noite: ainda tinham as roupas 
molhadas da chuva que haviam apanhado s para estarem 
presentes no momento em que o rei entregasse a espada 
encantada. Uns esperavam reverentemente, sussurrando para os 
vizinhos com a mo na boca, e outros falavam alto, rindo e 
gracejando sobre o que em breve iria passar-se.
     Mas, quando as portas do templo se abriram e os 
prisioneiros foram conduzidos at aos degraus em frente do 
altar, o silncio caiu sobre a multido ali reunida, que os 
observou ansiosamente, enquanto os seus pulsos eram amarrados 
com cordas entranadas.
     O cu escuro ameaava mais chuva a qualquer momento. O 
Sol no se via, e a sua ausncia dava um aspecto pesado e
sinistro  cena que se desenrolava no ptio do templo. A 
trovoada que rasgava os cus dos distantes Fiskills rugia 
agoirentamente, como um animal esfomeado perseguindo a presa.
     Toli e Gerin, de p lado a lado nas escadas do templo, 
encontravam-se rodeados por guardas armados, de sotainas 
escarlates. Abaixo deles, junto do altar, viam-se o sumo 
sacerdote e Nimrood, de barba e cabelo brancos e com as vestes 
compridas e pretas envolvendo-o como uma capa feita de trevas.

     - Abri caminho para a rainha! - gritou uma voz. A 
populaa, apinhada at aos degraus do templo, afastou-se, 
formando uma passagem. Foi por esta avenida que surgiram a 
rainha, seguida por Esme e pela rainha-me, Alnea, que 
ladeavam as princesas Brianna e Elena. Acompanhavam-nas os 
cavaleiros que constituam a sua guarda pessoal. Pararam todos 
 frente do sumo sacerdote.
     - Liberta o meu filho, senhor - ordenou Bria. - Liberta-o
imediatamente, para bem do reino e do povo de Mensandor. - O 
alvio e a clera que a invadiam faziam-lhe tremer a voz: 
alvio por ver o filho so e salvo e clera por o terem feito 
sofrer.
     O sumo sacerdote Pluell levantou as mos e fitou-a 
temerosamente:
     - No sabes o que ests a pedir, mulher. Afasta-te.
     - Se no queres libert-lo, deixa-me tomar o lugar dele.
     os olhos de Pluell voltarani-se para Nimrood. Reparando 
nisso, a rainha dirigiu-se ao feiticeiro:
     - Vejo que  contigo que tenho de falar. Se no queres 
libertar o meu filho, deixa-me tomar o lugar dele.
     - No me apetece regatear a esta hora. Afasta-te para o 
lacb e pe-te a assistir, como os outros.
     - Senhor! - teimou Bria, fazendo meno de avanar. 
Perfilando-se, uns guardas baixaram as lanas na sua direco 
e outros apontaram as espadas para o prncipe e para Toli. As 
espadas dos cavaleiros assobiaram imediatamente para fora das 
bainhas e cruzaram-se com as lanas dos guardas. - No! - 
gritou Bria. - Se for preciso, esperarei. No quero que se 
derrame sangue por minha causa neste dia to sinistro.
     Receando que a sua insistncia pusesse em perigo a 
segurana do filho, recuou e ps-se de lado, juntamente com as 
outras mulheres. Depois, temendo o que iria seguir-se, pediu a 
um dos cavaleiros para levar as princesas para a carruagem e 
ficar l sentado com elas. Para que no houvesse mais 
interferncias, vrios guardas do templo postaram-se  sua 
frente com as lanas cruzadas. As mulheres deram as mos e 
baixaram silenciosamente a cabea.
     - J so horas - anunciou Nimrood. - O rei no vem.
     Erguendo os olhos para o cu, o sumo sacerdote Pluell 
replicou:
     - No, ainda no so horas. Ainda no  meio-dia. 
Disseste que esperaramos at ao meio-dia.
     Nimrood inspirou e pareceu prestes a protestar, mas 
conteve-se e retorquiu:
     - Como queiras, sacerdote. Aguardaremos mais um bocado.
No estou assim to ansioso que no possa saborear esta 
espera.
     O ptio caiu no silncio. Nem sequer o vento abanava as 
folhas das rvores que cresciam ao longo do muro, e a cujos 
ramos os curiosos haviam trepado, para melhor assistirem ao 
espectculo. Esperaram.
     Toli lanou uma mirada ao prncipe Gerin, de p ao seu 
lado, e assentiu com a cabea, como se quisesse dizer: 
Coragem, ele h-de vir. Em resposta, o menino devolveu-lhe 
um olhar que significava: Eu sei, e no tenho medo.
     As nuvens deslizavam no cu, feias e inchadas, pesadas e 
pretas como mbar fumado, afastando-se rapidamente nas asas da 
tempestade. Desceu sobre o ptio do templo um crepsculo pouco

natural. Parecia que o Sol se retirara e se recusava a mostrar 
o seu calor e a sua luz.
     Continuaram  espera.
     Por fim, Nimrood no conseguiu aguentar mais:
     - O tempo esgotou-se.  meio-dia e o rei no est aqui. 
No vera. Trazei-me os prisioneiros.
     Os guardas entreolharam-se e hesitaram.
     - Trazei-mos! - gritou Nimrood em voz aguda. Tremendo
visivelmente, o sumo sacerdote fez que sim com a cabea e 
virou costas. Com as armas, os guardas fizeram meno de 
empurrar os cativos pelas escadas abaixo.
     Toli avanou, levantou o p e, depois, deixou-se cair e 
roloU pelas escadas.
     - Foge! - gritou para o prncipe. O jovem Gerin saltou os
degraus e correu para a multido.
     - Apanhai-o! - rugiu Nimrood. - Trazei-mo c!
     Antes de os cavaleiros que estavam com a rainha terem 
tempo para fazer fosse o que fosse, um guarda do templo girou 
nos calcanhares, deitou a mo ao pescoo do principe e, sem 
ligar aos seus pontaps, levantou o menino do cho.
     - Gerin! - gritou a rainha. - Gerin! - Lutando para ir 
ter com ele, Bria estendeu as mos, na tentativa desesperada 
de lhe tocar, mas a lana do outro guarda f-la parar. - Meu 
filho!
     Toli foi levantado do cho e empurrado para a frente.
     - Foi um esforo muito desajeitado para um jher to 
esperto - comentou Nimrood. - Como recompensa, deixar-te-ei 
assistir ao sacrifcio do rapaz. Tinha planeado o contrrio.
     Proferindo estas palavras, Nimrood pegou no principe e 
iou-o para o altar. Gerin debateu-se para se libertar. Um 
guarda segurou-lhe nos ps e outro prendeu-lhe as mos atadas 
em cima da cabea. Toli gritou e atirou-se para o altar, mas 
os guardas que o rodeavam agarraram-lhe nos braos e no o 
deixaram arredar p.
     - No! - gritou a me do menino, com as feies 
retorcidas numa mscara de horror. Esme rodeou a rainha com os 
braos e cingiu-a a si.
     - A faca - disse Niinrood ao sumo sacerdote. - Pega no 
teu punhal.


        CAPTULO LII


     - Punhal? - O rosto do sumo sacerdote Pluell empalideceu
ainda mais. Depois, vasculhando as vestes com um ar ausente:
     - No sei onde pus o punhal, no o tenho aqui.
     Nimrood sorriu maliciosamente:
     - Como pensei que talvez te esquecesses... o que, 
permite-me que acrescente at te convm... trouxe o meu. - 
Tirando um punhal comprido e fino das pregas da tnica, pegou 
na mo do sumo sacerdote e pousou-lho l. - Agora, sumo 
sacerdote, cumpre o teu dever!
     Com os olhos vidrados e o suor do medo brilhando-lhe na
testa, Pluell lanou uma mirada esgazeada  rainha, que tinha 
o rosto escondido nas mos, e ao seu maldoso cmplice, que 
sorriu brevemente e assentiu com a cabea.

     - V! - insistiu Nimrood, com os olhos cintilantes de 
alegria.
     Apesar de o punhal lhe tremer na mo, o sumo sacerdote
virou-se para o altar, onde o prncipe estava deitado, e 
levantou o brao acima do corao do menino. Gerin fechou os 
olhos e apertou os lbios, para no gritar.
     A faca pairou no ar, hesitou e...
     - Parai! O rei est aqui! Esperai! O Rei Drago vem a!
     Com um suspiro de alvio, o sumo sacerdote deixou o ar 
escapar por entre os dentes; o seu brao oscilou e caiu e 
Pluell recuou, afastando-se do altar.
     Do outro lado do ptio ouviu-se o som de cavalos e homens
martelando a estrada sinuosa que ia dar ao templo, assim como 
as vozes dos que, fora dos muros, gritavam e aclamavam o rei. 
Dali a pouco, a multido afastou-se e as patas do cavalo do 
rei matraquearam no ptio. Quentin puxou as rdeas de Blazer, 
cujos cascos arrancaram fascas s pedras do pavimento, e 
atirou-se da sela.
     Depois, avanou para o templo, enquanto Theido, Ronsard,
Edfrith e muitos soldados e cavaleiros que o acompanhavam 
entravam atrs dele no ptio j superlotado. As pessoas 
afastaram-se do rei, dando-lhe espao suficiente para se 
aproximar do altar.
     - Trouxe o resgate! Liberta o meu filho! - gritou Quentin
com ousadia, dirigindo o seu desafio ao sumo sacerdote, que
recuara para o meio dos outros sacerdotes, que se encontravam
junto das escadas do templo.
     - No  assim, meu rei - replicou Nimrood friamente.
     Quentin virou-se e encarou-o.
     - Quem s tu? - Aproximou-se, encurtando a distncia que
os separava, e, de olhos postos no rosto do ancio, 
esforou-se por reconhecer as suas feies. - Eu conheo-te?
     - Muito bem, mas estou c a pensar que nunca tivemos o
prazer de nos encontrarmos cara a cara.
     - Pergunto-te outra vez: quem s tu?
     - Queres saber o meu nome? Est bem. Tens  tua frente
o Nimrood, conhecido por o Necromante h muito tempo, antes
de o meu poder me ter sido roubado.
     - Nimrood! - Quentin precisou de todas as suas foras 
para no cambalear com o conhecimento deste facto, que o 
abalou at ao mais profundo do seu ser. - Ergues-te do p da 
morte como uma das tuas horrveis criaes!
     -  verdade, e vim reclamar a minha vingana. - Pondo-se
atrs do altar, fez sinal aos guardas que seguravam o  
prncipe, indicando-lhes que o afastassem dali. - Orgulhoso 
rei, o resgate  a tua espada, a Brilhante. Onde est ela?
     Quentin puxou da espada, que assobiou ao deslizar pela 
bainha, ergueu-a bem alto, para que todos a vissem, e comeou 
a andar em direco ao altar.
     Nimrood levantou a mo.
     - Assim, no! - gritou. Quentin parou. - De joelhos! 
Qucro que todos os teus sbditos te vejam curvado perante mim. 
Quero que reconheas o meu poder  frente de todas estas 
testemunhas.
     Avanando mais dois passos, Quentin chegou ao altar.
     - De joelhos, orgulhoso rei!
     - Nunca! - gritou Quentin. - Pediste a espada e aqui a 
tens. Mas no me arrancars mais nada.

     - Se no te puseres de joelhos o rapaz morrer! - Girando 
nos calcanhares, Nimrood tirou o punhal da mo do assustado 
sumo sacerdote. Num abrir e fechar de olhos, a lmina estava 
encostada  garganta do menino. - Grande rei, ou te ajoelhas 
ou perdes o teu filho e herdeiro. - O veneno parecia gotejar 
da sua voz rouca. 
     Com todas as fibras do seu ser gritando-lhe que no o 
fizesse, Quentin pousou lentamente o joelho em terra e lanou 
um olhar colrico a Nimrood, que sorriu maldosamente, sem 
desencostar a faca do pescoo do prncipe. Ao assistirem  
humilhao do seu rei as pessoas caram num silncio de morte.
     - Agora a espada - disse Nimrood, quebrando aquela 
atmosfera que no era deste mundo. - Pousa-a no altar. - As 
suas palavras, acutilantes como a ponta de um punhal, chegavam 
aos recantos mais afastados do ptio do templo, onde todos 
ouviam claramente o que estava a ser dito.
     O Rei Deago tornou a levantar a espada, que segurou pelo 
punho. Esta espada, pensou,  a Brilhante, que me foi 
prometida no sonho e que o Altssmo me deu.  a espada do 
prprio Altssimo; no posso entreg-la ao Nimrood. No posso 
pous-la naquele altar. Isso seria o mesmo que adorar este 
monstro depravado. No me afastarei do verdadeiro deus... nem 
para salvar a minha vida nem a do meu filho.
     Quentin rodou a espada na mo e observou-a. Depois, olhou 
para Nimrood e ps-se novamente em p.
     - De joelhos joelhos! - guinchou Nimrood. Curva-te 
perante mim!
     Quentin pegou na espada com as duas mos, ergueu-a acima 
da cabea e levantou o rosto para o cu:
     - Deus Altssimo, ouvi o vosso servo - comeou. As suas 
palavras ecoavam no silncio do ptio do templo. - Mostrai o 
vosso poder perante os vossos inimigos.Que a vossa justia 
arda como uma chama em toda a Terra, para que todos os homens 
possam adorar o verdadeiro deus.  
     - Parece que o teu deus  surdo - zombou Nimrood. - Ora! 
No existe nenhum deus verdadeiro.  D-me as tuas oraes, Rei 
Drago, e talvez eu atenda as tuas preces!
     De olhos fechados e rosto virado para o cu, sem escutar 
o riso trocista de Nimrood, Quentin rezava fervorosamente, 
entregando-se todo ao Altssimo. Aos poucos, comeou a sentir 
a espada aquecer na sua mo. Abrindo os olhos, viu as nuvens 
pesadas e negras separando-se e um nico raio de luz caindo 
sobre ele e atingindo a espada que tinha na mo, Encontrava-se 
rodeado por um crculo de luz dourada, que brincou ao longo da 
lmina pontiaguda e piscou nas pedras preciosas do punho. A 
luz estava viva, e saiu dela uma voz, que disse:
     - Arrasa o altar, que j devia ter sido arrasado h muito 
tempo.
     De repente, o fogo caiu do cu, como uma chuva 
incandescente, e atingiu a espada. A Zhaligkeer faiscou com 
uma chama renovada, aquecendo a atmosfera carregada com o seu 
calor branco. Sem conseguirem aguentar aquele brilho 
penetrante e para se protegerem do temvel esplendor daquele 
brilho sagrado, as pessoas taparam os olhos com as mos.
     A chama voltou  espada!, pensou Quentin. O Altssimo 
no me abandonou! Ainda est comigo; nunca se afastou de mim! 
A compreenso deste facto ardeu em Quentin tal como a chama 
ardia na espada.
     - A espada! A espada! - uivou Nimrood, - D-me a espada!

     - No! - gritou Quentri. A lmina faiscava com um brilho
terrvel e o fogo parecia saltar da cintilante espada, 
espalhando luz por toda a parte. - Nunca a empunhars. - 
Proferindo estas palavras, o rei levantou a Brilhante acima da 
cabea e baixou-a com toda a fora sobre o altar de pedra 
macia.
     Viu-se um claro enorme, ouviu-se o som do metal quente
mergulhando subitamente na gua fria e o cheiro a pedra 
queimada elevou-se no ar. Das profundezas da terra veio um 
rumor que fez o solo estremecer, e a laje de pedra do altar 
osclou, inclinou-se e deslizou para os lados, rachada a meio 
e a deitar fumo. A Brilhante fendera-a ao penetrar 
profundamente na rocha
     Um grito ofegante ergueu-se de mil gargantas e as pessoas
recuaram todas de uma vez ao verem o seu rei de p  frente do
altar esmigalhado, com a chamejante espada na mo.
     Horrorizado, o sumo sacerdote ergueu as mos ao cu e 
subiu a correr as escadas do templo, seguido pelos seus 
sacerdotes. Os guardas do templo atiraram com as armas e 
fugiram atrs deles. Nimrood levantou o brao e o punhal 
faiscou-lhe na mo. Vendo a sua oportunidade, Toli baixou a 
cabea e atirou-se para cima do feiticeiro, obrigando-o a 
soltar o prncipe. Gerin caiu estatelado no cho, ps-se em p 
e correu para os braos abertos da me. Bria abraou-o e 
apertou-o muito a si. A multido avanou, rodeando-os.
     -  Tu! - guinchou Nimrood para Toli. - Finalmente, 
vingar-me-c! - Tol saltou para o lado, mas desequilibrou-se 
e, como tinha as mos amarradas, no pde segurar-se e caiu 
nas escadas do templo.
     Como um grande gato,o velho feiticeiro atirou-se a ele, 
mergulhou-lhe o punhal no peito e fugiu pelas escadas do 
Grande Templo acima. 


        CAPITULO LIII


     O cho troou e estremeceu, arrancando gritos de terror s 
pessoas reunidas no ptio do templo, que viram o solo 
mexer-se, estalar as pedras do pavimento e rachar-se a meio. A 
fenda que se abrira por baixo do altar quebrado avanava em 
direco ao templo. Sem querer saber de mais nada, Quentin 
voou at aos degraus, gritando:
     - Theido! Ronsard! Depressa! - Chegando junto do corpo de
Toli, que jazia nas escadas, debruou-se sobre ele, 
arrancou-lhe o cruel punhal do peito e deitou-o fora.
     Ao ouvir um riso rouco vindo do cimo da escadaria, 
levantou o olhar e viu Nimrood, que, de cabea inclinada para 
trs, deixava sair pela garganta aquele som odioso, parecido 
com os guinchos de uma ave de rapina. Ronsard foi o primeiro a 
chegar junto de Quentin.
     - Leva o Toli para um lugar seguro - ordenou o rei, 
pondo-se em p de um salto e galgando as escadas do templo.
     - Quentin! Volta para trs! Isto est a cair! - gritou o 
cavaleiro.

     A fissura aberta na terra chegara aos degraus e 
dividira-os em dois. O ar estremecia com o barulho da terra a 
revolver-se e da pedra a estilhaar-se. As telhas choviam e 
esmagavam-se no pavimento. Os lintis rachavam e cediam, 
deixando cair grandes blocos de pedra e fazendo com que os 
pilares oscilassem perigosamente. Com a brilhante espada na 
mo, Quentin trepou os degraus que se elevavam.
     - Para trs! - guinchou Nirnrood ao v-lo, girando nos 
calcanhares. Mas Quentin correu atrs dele e conseguiu 
agarrar-lhe uma ponta da tnica de sacerdote.
     - Ah! - Debatendo-se, Nimrood tentou libertar-se das suas
vestes, mas s logrou enredar-se ainda mais.  Quentin 
prendeu-o com toda a fora e deu-lhe um puxo, fazendo-o cair. 
O velho feiticeiro contorceu-se desesperadamente, serpenteando 
no cho inclinado como uma cobra. - Poupa-me! - pediu. - Farei 
tudo o que quiseres. Posso dar-te riquezas e glria! 
Destruirei os teus inimigos! Poupa-me!
     A Brilhante faiscou na mo de Quentin, cantou no ar e, 
descrevendo um arco mortal, desceu sobre o pescoo do 
feiticeiro, que soltou um ltimo guincho e caiu para trs, 
enrolando-se todo e imobilizando-se. Nimrood, o Necromante, 
estava morto.
     A medida que o telhado cedia, pedras e tijolos caam e 
pilares rangiam. Quentin ouvia os estrondos provocados pela 
queda das pesadas lajes de pedra e sentia debaixo dos ps os 
abanes que o cataclismo arrancava dos alicerces. O grande 
corao de pedra sobre o qual o Grande Templo se erguia, 
estremecia e revolvia-se. Os que se encontravam dentro do 
templo deixaram-se cair de borco perante a pedra sagrada e 
suplicaram aos antigos deuses que os salvassem: Ariel! Azrael! 
Zoar! Heoth! Mas os nomes saam-lhes dos lbios j mortos e 
sem qualquer poder. O cho agitou-se e, horrorizados, viram 
uma fenda abrir-se na superfcie ungida da rocha sagrada. A 
pedra lascou, explodiu e esmigalhou-se. Os sacerdotes gemeram, 
prostraram-se e taparam a cabea com as tnicas.

     Aterrorizada, a populaa que se encontrava no ptio do 
templo fugiu espavorida pelos portes e desceu a correr o 
carreiro sinuoso, que levava  segurana do vale. 
Esquivando-se das lajes partidas, Quentin atravessou o ptio 
at ao local para onde o corpo de Toli fora transportado.
     Theido e Ronsard observaram Quentin cado de joelhos ao
lado do corpo do amigo.
     - Toli, perdoa-me! - gritou, pegando na mo sem vida e
apertando-a muito. - Afastei-te de mim. Culpei-te por tudo o 
que aconteceu, e no tiveste culpa nenhuma. Portei-me muito 
mal contigo, meu amigo. Desculpa! - O rei chorava. As lgrimas 
marejavam-lhe os olhos e escorriam-lhe pelas faces.
     Os outros foram pr-se ao seu lado e Bria pousou-lhe as 
mos nos ombros.
     - Morreu! - soluou Quentin. - E a culpa  minha!
     Esme ajoelhou-se junto de Quentin e ps-lhe a mo na 
manga.
     - Em Dekra, tive uma viso... vi o que iria acontecer 
aqui hoje.
     - Tu sabias? - O rei ergueu para ela os seus olhos 
lamentosos. - Viste tudo e no tentaste impedir nada?
     - Nem tudo. Vi o templo arrasado... mas no o destino do
Toli e do Gerin. - replicou ela. Quentin fitava tristemente o
corpo do amigo. - O Altssimo mostrou-me o que ia acontecer,
mas no a morte do nosso amigo, que julgo que nunca quis.

     - Talvez tenhas razo - retorquiu Theido. - Neste mundo,
acontecem muitas coisas que no so da vontade do Altssimo. O 
mundo  assim...
     - Pois  - concordou Ronsard, assentindo tristemente. - 
Nenhum homem se ergue do seu leito de morte.
     - Porque no, se isso agradar ao deus? - indagou Esme.
     Nesse momento, o ptio foi abanado por outro tremor de
terra, e viraram-se todos para assistirem  queda do que 
restava do Grande Templo, que se esmigalhou no cho no meio de 
um enorme estrondo. O fumo e o p elevaram-se para o Sol numa
espessa coluna branco-acinzentada.
     - Ests a ver? - disse Esme. - O templo foi destruido tal
e qual como na minha viso. Desapareceu e, com ele, toda a sua
maldade.
     Assombrados, todos olharam para Esme, que, com o rosto
iluminado por um intenso brilho interior, estendeu as mos por
cima do corpo de Toli. Depois, tocou-lhe com a palma da mo
na ferida vermelha que tinha no peito e puxou-lhe a tnica 
para trs. O tecido, pegajoso de sangue, estava rasgado no 
stio em que o punhal dilacerara a carne do jher. Mas, embora 
o sangue lhe tivesse manchado a pele de vermelho-vivo, j no 
se via nenhum ferimento.
     - Olhai! - exclamou a rainha Bria, agarrada  manga da
me. - O Toli est a acordar!
     - Est vivo! - gritou alegremente Gerin.
     - Toli? - chamou Quentin, examinando o rosto do amigo.
As plpebras de Toli estremeceram e abriram-se, pondo  mostra
uns olhos pretos e vivos, que observaram a roda de rostos 
debruados sobre ele. - Toli, ests vivo! Vivo! - Atirando-se 
a ele, Quentin levantou-o num poderoso abrao.
     Theido e Ronsard, que contemplavam a cena que se 
desenrolava  sua frente sem acreditarem bem no que viam, 
deram um salto em frente e desataram s palmadinhas nas costas 
de Toli. Bria e Alinea derramavam lgrimas de alegria. Gerin 
soltou um viva.
     - O que foi que eu fiz para merecer tudo isto? - 
perguntou Toli quando, por fim, o largaram.
     - Se no o tivesse visto com os meus prprios olhos, 
nunca acreditaria! - Espantado, Ronsard abanou a cabea.
     - Eu ainda no sei se acredito - acrescentou Theido.
     Esme lanou os braos ao pescoo de Toli e beijou-o.
     - Como te sentes?
     - Como me sinto? Sinto-me... - Fazendo uma pausa, olhou
em volta para os destroos do templo e, depois, contemplou a
sua roupa encharcada de sangue. - Sinto-me como se me tivesse
falhado qualquer coisa... O Nimrood! Ele est... ?
     - Morto. Morreram todos - interrompeu Quentin. - Mas
tu voltaste para o mundo dos vivos.
     - Foi o Nimrood que me fez isto?
     - Uma ferida mortal, senhor - disse Theido. - Eu vi o
golpe que ele te desferiu. No te lembras?
     Estonteado, Toli abanou a cabea:
     - S me lembro de me atirar ao Gerin e de cair para trs.
E lembro-me do rosto dele por cima de mim... depois, de mais
nada... at acordar aqui.
     - O Altssimo devolveu-nos a tua vida, Toli - disse 
Alinea.
     - Que o Altssimo seja louvado! - Fazendo coro com estas

palavras, todos agradeceram ao deus a ressurreio de Toli. 
Quando comearam a descer o carreiro sinuoso que levava ao 
vale, os seus gritos de alegria ecoaram no ptio vazio e por 
entre os montes de pedras cadas. O fumo e o p ainda se 
elevavam dos escombros para o ar, onde desapareciam, 
empurrados pelo vento. Entretanto, as nuvens afastavam-se, 
revelando um cu de um azul cristalino.
     Quando chegaram ao vale, tiveram de enfrentar os olhares
espantados das pessoas que se amontoavam ao longo do caminho.
Por Mensandor inteiro j se proclamava o triunfo do Rei Drago
e o poder do novo deus, o Altssimo, nico deus verdadeiro, 
que fazia altares rurem, templos carem e mortos 
levantarem-se e caminharem.


        CAPTULO LIV


     O Rei Drago estava sentado no seu alto trono, no grande
salo. Envergando os seus adornos mais rgios, vestia uma capa
azul, com a insgnia do drago bordada a ouro, presa por uma
corrente e um alfinete de ouro, em forma de drago. Tinha nos
ps umas botas altas de couro macio e vermelho e no dedo o
anel de ouro que fora usado por Eskevar. Atravessada no seu
colo, guardada na bainha, encontrava-se a Brilhante, sobre 
cujo punho incrustado de jias havia pousado a mo ao de leve. 
As grandes portas trabalhadas do salo tinham sido 
escancaradas, deixando entrar todos os que quisessem 
testemunhar a justia do seu rei. As pessoas amontoavam-se 
entre as reluzentes colunas pretas, formavam trs filas nas 
balaustradas das galerias superiores e empurravam-se junto dos 
degraus do estrado.
     Depois de todos terem entrado, a trombeta soou. O barulho
transformou-se num sussurro e Quentin disse:
     - Quando eu era mais novo e estava na corte do rei 
Eskevar, vi-o fazer justia e distribuir favores com mo sbia 
e generosa. Nessa altura, jurei a mim mesmo que, se algum dia 
me fosse confiada semelhante tarefa, tentaria ser pelo menos 
to justo e bom como ele.
     Nem sempre um rei tem a oportunidade de recompensar 
devidamente aqueles que o servem. Mas, hoje, farei o meu 
melhor. Primeiro, punirei os que me ofenderam. - Baixou a 
cabea para o arauto, que esperava no estrado, envergando um 
manto com a insgnia real, e o jovem fez soar uma nota forte e 
lmpida. Em resposta, ouviram-se ps a marchar.
     Entrou no grande salo um destacamento de cavaleiros, com 
as suas melhores armaduras, as couraas muito polidas e as 
compridas capas escarlates ondulando  medida que se 
aproximavam. Entre eles, marchavam Ameronis e o seu amigo 
Lupollen, ambos acorrentados. Tinham os dois o rosto cinzento 
de medo e seguiam de olhos baixos, pois no se atreviam a 
olhar o rei de frente.
     - Ameronis - chamou Quentin, depois de os cavaleiros os
terem empurrado at  base do trono -, olha para mim, senhor.
- o lamentoso senhor levantou os olhos timidamente. - 
Voltamos a encontrar-nos numa situao completamente 
diferente, h? J tiveste muito tempo para pensar nos teus 
crimes, e eu tambm.

     Ameronis, que esperava o pior, estremeceu visivelmente.
     - O teu crime foi ditado pela ambio, o que posso 
compreender e perdoar, pois tambm eu fui ambicioso  minha
maneira. Quiseste esta coroa e este trono, o que  uma coisa 
com que qualquer senhor sonha uma ou outra vez... a, 
perdoo-te.
     Angustiaste-me e magoaste-me quando eu sofria, 
alquebrado pela dor de uma grande perda. Levaste a espada, a 
Zhaligkeer, que sabias ser minha e que tinhas conscincia de 
que salvaria o meu filho... no entanto, no a entregaste. So 
ofensas praticadas contra mim, que eu, de homem para homem, te 
perdoo, pois estavas cego pela ganncia.
     Mas os teus actos causaram graves danos e ferimentos a 
soldados que se viram na obrigao de defender o seu rei,  
custa da prpria vida. Na batalha, tombaram muitos heris, que 
nunca mais se levantaro... e o seu sangue pede justia.
     Podia mandar-te executar - aqui, Ameronis mordeu o lbio
para no gritar -, mas para que serviria o teu sangue 
derramado? Julgo que para muito pouco, embora alguns de entre 
ns tirassem disso bastante satisfao.
     No, decidi poupar-te a vida e encarregar-te de 
sustentar todas as vivas que deixaste sem marido e todas as 
crianas que deixaste sem pai.
     - Ahh! - gritou Ameronis. - Terei de vender metade das
minhas terras e perderei todo o lucro que tiver durante o 
resto da vida!
     - Que assim seja - retorquiu secamente o rei. - Pelo 
menos, vivers para remediar o mal que fizeste. As famlias 
dos mortos passaro a ser as tuas famlias e os estropiados 
teus irmos. E ser nessa qualidade que os tratars, pois, se 
algum se queixar de ti daqui para a frente, a tua vida 
chegar ao fim.
     Quanto a ti, Lupollen - continuou Quentin -, que 
escolheste apoiar o teu amigo Ameronis, pensando partilhar com 
ele os despojos da vitria, partilhars as perdas da derrota, 
pois a sentena que lhe dei ser tambm a tua. Sem dvida que 
o Arneronis apreciar muito a tua ajuda, tanto agora como no 
futuro.
     Depois, os restantes senhores foram conduzidos perante o
trono, mas, apesar de prestarem respeitosamente as suas 
homenagens ao rei, permaneceram graves e imperturbveis.
     - Senhores - comeou o rei -, tenho duas opinies a vosso
respeito. Por um lado, podereis ter afastado o Ameronis antes 
de ele prosseguir com o seu plano, e no o fizestes. Mas, por 
outro, ao contrrio do Lupolien, acabastes por ver claramente 
a quem deveis servir.
     Por isso, Edfrith, Gorloic, KeIkin e Denellon, condeno 
aqui a vossa deslealdade, mas estou pronto a chamar-vos 
novamente amigos se voltardes a prestar vassalagem ao trono.
     Pondo um joelho em terra, os senhores juraram perante 
todos ser leais ao seu monarca. Quando acabaram de o fazer, 
foram pr-se ao lado dos outros espectadores.
     - Quanto aos outros... - prosseguiu o rei - o Nimrood,

o sumo sacerdote e o seu bando repugnante... j foram 
castigados pelo Altssimo, que  o juiz final de todas as 
coisas; e que ningum diga que a sua punio foi maior do que 
a que mereciam. - Estas palavras arrancaram murmrios das 
pessoas ali reunidas. - Agora, trazei-me os meus novos amigos, 
para que eu possa recompensa-los - ordenou Quentin.
     O arauto voltou a fazer soar o seu chamado e os 
espectadores inclinaram o pescoo para verem um rapazinho 
pouco mais velho do que o prncipe Gerin aproximando-se 
timidamente do trono, seguido por Pym, o amolador, e Tip, a 
sua cadela. Quentin fez um sinal aos pais do jovem, 
acanhadamente misturados com a multido.
     - Aproximai-vos, boa gente. - Muito envergonhados, o 
lavrador e a mulher avanaram e foram ajoelhar-se ao lado do 
filho e do amolador. - Levantai-vos, meus amigos - disse o rei 
-, pois sois amigos to leais como os que sempre serviram o 
trono do Rei Drago. Renny, do fundo do teu jovem corao, 
anseias vir a ser cavaleiro. Apesar de no possures cavalo 
nem armadura j mostraste que tens tanta coragem como qualquer 
cavaleiro do reino. Ainda queres ser cavaleiro?
     - Quero, Majestade - replicou a vozinha do rapaz. - Mais
do que tudo no mundo.
     - Ento, que assim seja. De hoje em diante, o teu nome 
passar a fazer parte da lista dos cavaleiros do rei. Quando 
tiveres idade para isso, entrars ao servio do reino. - 
Depois de uma pausa: - Mas um cavaleiro tem de aprender a 
montar e a manejar as armas. Portanto, podes ficar com o 
priei Tarky, que encontraste e tentaste devolver; fica com 
ele at seres capaz de conduzir os cavalos dos estbulos do 
rei. Nessa altura, escolhers uma montada s para ti. O que 
dizes a isto, Renny?
     O rapaz ficou sem palavras, mas a luz que lhe iluminou os
olhos disse tudo.
     - O meu filho pediu-me para eu vos autorizar a terem os 
dois aulas com o mestre-de-armas do castelo de Askelon. Um 
cavaleiro do rei, mesmo que ainda ande a aprender, deve ser 
condignamente alojado e alimentado. Por isso, meu senhor 
Renny, a coroa conceder-te- uma tena anual, que os teus pais 
usaro segundo o que acharem mais conveniente para ti.
     No rosto dos trs brilhou uma alegria que no conseguiram
conter. Inclinando-se e agradecendo vezes sem conta, 
regressaram aos seus lugares no meio da assistncia.
     - Agora tu, bom amolador. - Pym pousou as mos no 
joelho e olhou ansiosamente para cima. - Encontraste a 
Brilhante e escondeste-a, indo busc-la quando soubeste que o 
teu rei precisava dela. Sem dvida que ma terias entregue se 
no houvesses sido impedido de o fazer.
     -  verdade, Vossa Majestade,  mesmo verdade - 
assentiu Pym.
     - E chegou aos meus ouvidos que h muito tempo que 
desejas um cavalo e uma carroa para levares os teus 
utenslios de povoao em povoao. - Reparando na expresso 
confusa do amolador, Quentin perguntou: - No  assim?
     - , Vossa Alteza.  mesmo assim... mas...
     - Mas o qu? Queres mais alguma coisa?
     - Uma pedra de amolar, Vossa Majestade. Andvamos com
a ideia de uma pedra de amolar com pedal, para afiarmos facas,
tesouras e coisas assim...
     - A pedra de amolar! Que distraco a minha! Claro que
ters a melhor pedra de amolar que se encontrar em Mensandor.
E, quando passares por aqui, ser no castelo de Askelon que
parars primeiro.
     Pym bateu as palmas a um golpe de sorte to grande e Tip

ladrou  felicidade do dono. Depois, retiraram-se os dois, 
seguidos pelos risos e pelas aclamaes dos que se encontravam 
reunidos no grande salo.
     - Por fim, quero recompensar os meus velhos amigos -
anunciou Quentin quando voltou a fazer-se silncio no salo. -
Aproximai-vos, Toli, Theido e Ronsard. - Levantando-se, desceu
do estrado e foi ter com eles aos ps do trono. - No, no vos
ajoelheis perante mim, bravos senhores. Os irmos no se 
ajoelham uns perante os outros, e a vossa amizade  mais 
fervorosa, mais forte e mais verdadeira do que os laos do 
nascimento e do sangue.
     De que outro modo posso recompensar a vossa firmeza e 
coragem? O que poderia dar-vos que no tenhais j? Terras, uma 
posio, ttulos? No entanto, mostrastes-vos prontos a 
desistir de tudo isto, e at da prpria vida, por um amigo... 
um amigo que, ainda por cima, vacilou. Em lugar de me 
abandonardes, agistes em meu nome, com sensatez e coragem, 
mostrando que sois mais nobres do que os reis.
     Por isso, dou-vos estas lembranas, em sinal da minha 
estima e gratido. - Quentin baixou a cabea para um pajem, 
que se aproximou com uma tbua coberta por um pano de veludo 
azul, sobre o qual estavam pousados trs alfinetes dourados em 
forma de drago, iguais ao seu. Pegando no primeiro, o rei 
prendeu-o no ombro de Theido, dizendo: - Para ti, Theido, 
cujos conselhos so sempre sensatos e bons... - Agarrando 
noutro e fixarido-o  capa de Ronsard: - E para ti, Ronsard, 
cuja audcia s  comparvel  fora do teu brao... - 
Apanhando o que restava, Quentin colocou-o na capa de Toli. - 
E para ti, Toli, cujo amor e lealdade ultrapassam as 
fronteiras da prpria morte. De hoje em diante, sois todos 
prncipes do reino. - Depois de uma pausa, acrescentou: - 
Toli, quero recompensar-te ainda mais, libertando-te do teu 
juramento. A partir de hoje, deixars de ser meu servo.
     Virando-se para os espectadores, Quentin apresentou-os 
aos trs, fazendo um gesto amplo com o brao:
     - Vede os meus amigos reais. Que cada um de entre vs 
lhes preste as homenagens devidas a um rei.
     Curvando-se imediatamente numa vnia profunda, a 
assistncia mostrou a sua concordncia com a recompensa do 
rei, soltando gritos de jbilo, que se elevaram at  abbada 
do grande salo e ecoaram pelos corredores e galerias do 
castelo de Askelon. Quentin subiu novamente ao trono e 
proclamou:
     - Este dia ser um dia de festa em Mensandor! Que haja
celebraes, msica e diverses para todos! - os vivas que se
seguiram a esta declarao foram abafados pelas trombetas, 
cujo toque soou pelo castelo inteiro e desceu das ameias para 
a cidade e arredores. As celebraes comearam!, diziam as 
trombetas. Vinde juntar-vos  alegria geral!
     E as pessoas que ouviram aquele som alegre abandonaram o
trabalho, vestiram as suas melhores roupas e encaminharam-se 
para o castelo, onde iam juntar-se s festividades, 
participando na alegria geral.


     Quando o crepsculo comeou a cair e o disco 
vermelho-dourado do Sol baixou para ocidente, sobre Gerfallon, 
Quentin conseguiu escapulir-se sozinho. Blazer, que o esperava 
j aparelhado, levou-o rapidamente  plancie, depois de 
atravessar as ruas desertas de Askelon.
     O rei encontrou o caramanchel sem qualquer dificuldade, 
pois estivera l muitas vezes com Durwin e lembrava-se de que 
a margem sobranceira ao lago da floresta era um stio onde o 
eremita gostava muito de ir passar as suas horas de cio, nos 
dias de Vero. O montculo que marcava a sepultura estava 
muito bem coberto de pedras. Era um tmulo simples, como o 
eremita queria. Por entre as pedras j espreitavam rebentos 
verdes e tenros de erva nova.
     O rei ficou durante muito tempo a olhar pensativamente 
para a campa, recordando a vida que conhecera com o santo 
eremita de Pelgrin, como a gente simples ainda lhe chamava. 
Essa vida temporal acabara, mas comeara outra, e Quentin 
sabia que voltaria a ver o amigo e que ficariam juntos num 
lugar onde no existia a separao nem a dolorosa intromisso 
da morte. Por isso, viveria em paz  espera que esse tempo 
chegasse.
     O barulho de cascos de cavalos assinalou o fim do seu 
calmo devaneio. Virando-se, viu dois cavaleiros que se 
aproximavam, e esperou que eles desmontassem e amarrassem os 
cavalos a um ramo de faia, ao lado de Blazer.
     - Pensava que tnheis mais em que vos ocupar do que andar
a passear pelo campo - disse Quentin.
     Fazendo um sorriso aberto, Toli pegou na mo de Esme.
     - Queramos falar contigo a ss - explicou ele, - Quando
te vi sair da festa, esperei um bocadinho e vim atrs de ti.
     Quentin assentiu com a cabea, mas no disse nada, pois 
estava  espera de que Toli continuasse a falar. O jher olhou 
de esguelha para a mulher que tinha ao lado, voltou a fitar o 
rei, humedeceu os lbios e anunciou:
     - Tommos uma deciso...
     - Sim? - brincou Quentin. - Havia alguma deciso a ser
tomada?
     Toli baixou o olhar:
     - Por favor... No foi uma deciso nada fcil de tomar.
     - Desculpa, desculpa - apressou-se Quentin a dizer. - 
Claro que  no deve ter sido nada fcil para nenhum de vs. E 
tambm no ser fcil para mim, pois sentirei muito a vossa 
falta.
     - Falta?
     - Eu sei que ides partir, mas no poderia estar mais 
contente pelos dois.  o melhor... - Calou-se ao ver o modo 
como Toli e Esme se entreolhavam.

     Esme sorriu docemente e respondeu:
     - No vamos partir. Pelo menos juntos, no. Ainda no.
     - No?
     - No - retorquiu Toli firmemente.
     - Mas eu libertei-te. No precisas de me servir mais. 
Podeis... tu e a Esme.
     - Podemos fazer o que nos apetecer. E j escolhemos o
nosso caminho.
     - Eu vou para Dekra - anunciou Esme. - Senti l qualquer

coisa que tenho de procurar por mim prpria. Senti o Deus 
Altssimo dentro de mim e tive uma viso. Ele pode estar a 
chamar-me para o servir de uma maneira especial. Quero 
regressar l e tentar sab-lo... tenho de o saber. Quero 
aprender tudo o que puder sobre aquele a quem entreguei a 
minha vida, antes de viver com mais algum.
     - Estou a ver - disse Quentin, assentindo com a cabea. -
Sei como te sentes. Tambm me senti assim, mas parece que 
Dekra no faz parte do meu destino. O meu futuro estende-se 
por outro caminho. - Virando-se para Toli: - E tu?
     - Eu ficarei ao teu lado, Kenta. Uma vez disse-te que, 
para os homens da minha raa, no h maior honra do que servir 
um grande chefe e ajud-lo a atingir a sua grandeza. 
Libertaste-me do meu juramento, como j fizeste uma vez, e eu 
pego novamente nele e renovo-o. - Olhando amorosamente para 
Esme, Toli apertou-lhe mais a mo. -  verdade que nos amamos 
e que talvez um dia juntemos as nossas vidas. Mas, por 
enquanto... - Sorriu e os seus olhos profundos e escuros
iluminaram-se. - Por enquanto, tens-me outra vez a teu cargo, 
meu rei.
     - E parece que para sempre.
     - Agora, anda - disse Toli. - Voltaremos juntos para a 
festa. - Lanando um olhar  sepultura e, depois, ao seu amo: 
- Se j acabaste.
     Quentin observou a simples campa e retorquiu:
     - J, j acabei. J nos despedimos um do outro. Sabes, 
ele veio at mim. Nessa altura, no percebi, porque no estava 
em condies de ter a certeza...
     Naqueles primeiros dias horrveis em que andei  procura
do meu filho, louco de aflio e to exausto que nem tinha 
dores nem sono, fui dar  ilha Sagrada. Talvez tenha sido l 
chamado, no sei... Seja como for, o Durwin apareceu-me; hoje, 
sei que era ele. Despediu-se de mim e disse-me que havamos de 
voltar a estar juntos. Ele sabia o muito que significava para 
mim v-lo uma ltima vez, e voltou para me dizer que confiasse 
no Altssimo. Se o tivesse escutado, teria suportado melhor 
esta prova e ter-me-ia mostrado mais digno.
     Observando o amo durante muito tempo, Toli respondeu
finalmente:
     - Mudaste muito, Kenta. Apercebi-me disso quando te vi no
ptio do templo e, depois, no grande salo. Ao aceitares as 
tuas fraquezas de homem, tornaste-te mais rei do que antes... 
um verdadeiro Rei Sacerdote.
     Quentin encolheu os ombros:
     - S sei que j no ardo de ansiedade por inaugurar a
nova era. O Altssimo f-lo- a seu tempo, de acordo com a
sua vontade.
     Voltaram os trs a atravessar a plancie, na direco de 
Askelon, e pararam junto dos escombros do Templo do Rei, onde 
dezenas de pessoas andavam, inexplicavelmente, por entre as 
pedras cadas, limpando o cascalho. Reconhecendo entre elas o 
seu mestre pedreiro. Quentin chamou-o:
     - Bertram! O que se passa aqui? O que ests a fazer?
     - Majestade, estamos a preparar tudo para recomearmos a
construo - respondeu ele, fazendo uma vnia.
     - Porqu? Quem vos mandou fazerdes isso?
     O velho pedreiro coou o queixo e ps a cabea de lado:
     - Ningum, senhor. Foi ideia dos habitantes da cidade, 
que insistiram que o seu novo deus devia ter um templo... e 
querem constru-lo eles prprios... com a vossa bno, claro. 
Seguiremos os planos por vs traados. - Ditas estas palavras, 
Bertram afastou-se a correr, regressando ao monte de pedras 
partidas, para supervisionar o andamento dos trabalhos.

     - Vs? - observou Toli. - A nova era chegou em fora. 
Esta aqui  nossa volta. Queres ficar a ajudar?
     Quentin ergueu os olhos para o cu. As primeiras estrelas 
da noite j cintilavam como jias na lmpida abbada celeste, 
mas a ocidente ainda se via no horizonte o tom rseo do Sol.
     - No - retorquiu Quentin, erguendo as rdeas e fazendo
rodar Blazer.  Vinde. O Altssimo escolheu outras mos para 
lhe construrem o templo.  assim que deve ser.
     Bria foi ter com eles  varanda que dava para o jardim e 
abraou o marido.         
     - No sabia para onde tnheis ido. - Lanando um olhar a
Toli e, depois, ao rei: - Est tudo bem?
     - Nunca esteve melhor - respondeu Quentin, beijando-a ao
de leve na face. Por todo o jardim, acendiam-se lanternas por 
entre as rvores, que piscavam como estrelas num firmamento de 
folhas.
     - Ento, vinde para a mesa. O banquete vai comear - 
volveu Bria, saindo com eles da varanda.
     As portas do grande salo, abertas de par em par, punham 
 mostra compridas mesas cheias de comida de todos os tipos e 
qualidades e uma multido de convidados, que esperavam 
ansiosamente o incio da refeio.
     Ouvia-se msica por todo o lado, e os risos, empurrados 
pela suave brisa nocturna, misturavam-se com o doce perfume 
das grinaldas de flores que ornamentavam o salo e o jardim.
     - Sim, mas o festim pode esperar mais um bocadinho. 
Primeiro, quero ver os meus filhos. Vou  procura deles. 
     Toli, Esme e Bria ficaram a ver Quentin descer os degraus
que davam para o jardim e correr por entre os folies,  
procura do prncipe e das princesas.
     - Lembro-me de uma noite como esta... exactamente como
esta... quando o rei Eskevar regressou - comentou Toli. - Foi
uma festa que rivaliza bem com esta.
     - No, no foi como esta - replicou Bria, com um certo
tom de tristeza na voz. - O meu pai no se preocupava tanto
com a famlia como o Quentin. - Sorrindo, fez um gesto de
cabea em direco ao rei, que regressava com um filho s 
costas e os outros dois nos braos. Todos riam alegremente. - 
Vedes? Ele mudou.
     Toli piscou o olho:
     - Comeou uma nova era, senhora.
     -  verdade! E esperemos que dure mil anos - volveu Bria.
     - Dez mil! - acrescentou Esme.
     - Esperemos que dure para sempre - rematou Toli.
     - Vinde. No devemos chegar atrasados  nossa prpria 
festa! - disse-lhes Quentin, passando por eles e entrando com 
os filhos no salo. Bria ps-se ao seu lado e Toli e Esme 
seguiram atrs deles. Quando chegaram  mesa mais alta, 
Ronsard, Theido, Renny e os pais, Pym, o amolador, com Tip aos 
ps e todos os outros convidados de honra j estavam reunidos 
e nos seus lugares.
     Quentin pegou na sua taa, ergueu-a e disse:
    - Sede bem-vindos, leais amigos. Que o banquete comece! - 
E todos se sentaram a festejar no salo do Rei Drago.




Ao teu filho, David. que transporta nas suas brincadeiras o 
esprito desta obra e a ti, Carla, para que assim possas viver 
com ele as aventuras do Mundo do "Fas-de-Conta", onde tudo 
est bem porque acaba bem...

Do teu Amigo:
Chico Matias


        *****

         N D I C E


Captulo        I ................. 2
Captulo        II ................ 6
Captulo        III ............... 10
Captulo        IV ................ 14
Captulo        V ................. 19
Captulo        VI ................ 23
Captulo        VII ............... 25
Captulo        VIII .............. 29
Captulo        IX ................ 32
Captulo        X ................. 35
Captulo        XI ................ 38
Captulo        XII ............... 43
Captulo        XIII .............. 46
Captulo        XIV ............... 50
Captulo        XV ................ 54
Captulo        XVI ............... 58
Captulo        XVII .............. 62
Captulo        XVIII ............. 66
Captulo        XIX ............... 71
Captulo        XX ................ 74
Captulo        XXI ............... 77
Captulo        XXII .............. 82
Captulo        XXIII ............. 87
Captulo        XIV ............... 91
Captulo        XV ................ 94
Captulo        XXVI .............. 98
Captulo        XXVII ............. 103
Captulo        XXVIII ............ 107
Captulo        XXIX .............. 110
Captulo        XXX ............... 115
Captulo        XXXI .............. 119
Captulo        XXXII ............. 122
Captulo        XXXIII ............ 126
Captulo        XXXIV ............. 131
Captulo        XXXV .............. 136
Captulo        XXXVI ............. 139
Captulo        XXXVII ............ 144
Captulo        XXXVIII ........... 149
Captulo        XXXIX ............. 152
Captulo        XL ................ 156
Captulo        XLI ............... 160
Captulo        XLII .............. 163
Captulo        XLIII ............. 167
Captulo        XLIV .............. 170
Captulo        XLV ............... 174

Captulo        XLVI .............. 178
Captulo        XLVII ............. 182
Captulo        XLVIII ............ 188
Captulo        XLIX .............. 192
Captulo        L ................. 197
Captulo        LI ................ 201
Captulo        LII ............... 206
Captulo        LIII .............. 209
Captulo        LIV ............... 212
